Eu passei duas horas no metro para chegar a uma cidade nova, e quando abri a mochila para começar a transmissão, o meu coração parou. “Onde está o meu iPhone?” Procurei no fundo, nos bolsos, em…

Eu passei duas horas no metro para chegar a uma cidade nova, e quando abri a mochila para começar a transmissão, o meu coração parou. “Onde está o meu iPhone?” Procurei no fundo, nos bolsos, em...

Cheguei a Gwangju de metro, duas horas de viagem, e só quando abri a mochila é que percebi: tinha deixado o iPhone em casa. Fiquei ali parado, a olhar para o vazio, com o telemóvel de reserva na mão – um Galaxy Z Fold 5, que uso para transmitir quando o principal falha. Sem mapa, sem GPS, sem saber para onde ir. Basicamente, um homem do passado numa cidade que não conhecia.

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Abri a transmissão pelo Fold, mas a imagem estava instável, a tremer, e eu sabia que os espectadores estavam a sentir-se mal. Alguns queixavam-se de enjoo. Outros gozavam: “Então o streamer vem sem telemóvel? ” Eu só conseguia rir.

Não havia outra opção. Prometi que iria encontrar o mercado, comer algo e voltar para casa. Mas primeiro precisava de perceber onde estava. Saí à rua e abordei um senhor.

“Com licença, sabe onde fica uma casa de peixe cru por aqui? ” Ele apontou com paciência: “Siga em frente, duas quadras. ” Agradeci e pensei como era raro, nos dias de hoje, depender de estranhos. Mas os espectadores adoraram.

“Está a dar uma sensação dos anos 2000! Continua! ” Isso deu-me energia. Se eles estavam felizes, eu seguia.

O calor estava forte. O sol castigava. Eu estava de sandálias, camisa de manga curta, a transpirar, mas o objetivo era claro: encontrar a tal casa de peixe cru perto do mercado. Caminhei por ruas cheias de prédios novos, alguns ainda com ar de recém-construídos.

“Vim aqui para salvar a economia local”, brinquei na transmissão. “Ou pelo menos gastar o pouco que tenho. ”

De repente, avistei um letreiro azul. “É ali!

“, exclamei. Parecia o tal sítio: um mercado de peixe, especializado em lulas. Mas quando cheguei à porta, estava fechado. Abria às 11h.

Eram 10h30. Suspirei. Esperar numa rua vazia não era opção. Decidi procurar um café para descansar um pouco.

Perguntei a outro transeunte, que me indicou o caminho. Entrei num café pequeno e pedi um sumo de mirtilo fresco. “Têm sumo de tomate? “, perguntei.

“Não. ” “Leite com morango? ” “Não. ” “Então mirtilo, por favor.

” A dona, uma jovem de 22 anos, olhou para mim com curiosidade. Fiquei surpreendido: “Só tem 22 anos? Parece muito mais nova. ” Ela riu.

“Abri o café há um mês. ”

Aproveitei a oportunidade. “Posso fazer uma entrevista? Eu faço conteúdo sobre histórias de pequenos negócios.

Os espectadores adoram. ” Ela hesitou, mas aceitou, desde que não aparecesse na câmara. Fiquei aliviado. Perguntei sobre a playlist de hip-hop que tocava, sobre a decoração, sobre o que ela mais gostava de servir.

“Os waffles são os mais vendidos. De baunilha. ” “Então quero um, por favor. ”

Enquanto esperava, olhei para o telemóvel.

O sinal estava fraco, mas a transmissão continuava. Alguns espectadores já tinham feito doações, pequenos valores, mas cada um significava muito. “Obrigado, senhoras e senhores”, dizia, tentando esconder a emoção. A verdade é que eu tinha saído de casa sem o telemóvel principal, sem dinheiro extra, e dependia da generosidade de quem assistia.

O waffle chegou, quente e crocante, com gelado de baunilha por cima. Comi com calma, agradecido. “Está ótimo”, disse à dona. Ela sorriu, tímida, e voltou para trás do balcão.

Eu sabia que precisava de continuar. O mercado abria às 11h e eu queria chegar cedo. Paguei, agradeci e saí. O sol estava ainda mais forte.

Caminhei em direção ao mercado, seguindo as indicações que me tinham dado. As ruas estavam mais movimentadas agora, com carros e pessoas apressadas. Eu, sem mapa, sem pressa, apenas a seguir a intuição e as dicas de quem encontrava pelo caminho. Finalmente, avistei o mercado.

Barracas de peixe, vegetais, frutas, roupas. O cheiro a mar misturava-se com o calor. Procurei uma casa de peixe cru. Encontrei uma, pequena, com um senhor a limpar lulas na entrada.

“Posso fazer uma entrevista? “, perguntei. Ele olhou para mim desconfiado, mas acabou por concordar. “Faz isto há quantos anos?

“, perguntei. “Trinta”, respondeu, sem parar de trabalhar. Ouvi as histórias dele, sobre como o mercado mudou, sobre os clientes que desapareceram, sobre a esperança de que o bairro voltasse a crescer. Os espectadores estavam fascinados.

“Isto é melhor do que qualquer guia turístico”, comentou um deles. Sorri. Era exatamente isso que eu queria: ligar as pessoas às histórias reais. Comprei um pouco de peixe cru, sentei-me numa mesa improvisada e comi devagar.

O sabor era fresco, simples, perfeito. O sol estava alto, mas eu estava em paz. Tinha começado o dia com um problema – o telemóvel esquecido – e transformara-o numa aventura. Sem tecnologia, dependi das pessoas, e elas não me dececionaram.

Terminei a refeição, agradeci ao senhor e preparei-me para voltar. Mas antes, olhei para a câmara do Fold e disse: “Obrigado por hoje. Amanhã vou para Busan, e prometo trazer o iPhone. ” Os espectadores riram.

Alguns escreveram: “Foi um prazer ver-te sem mapa. ” Outros: “Continua assim. ”

Comecei a caminhar de volta para a estação, sentindo o calor na pele, mas com o coração mais leve. A cidade, que me parecia estranha de manhã, agora sentia-se quase familiar.

Tinha vindo sem nada, mas ia embora com histórias, com conversas e com a certeza de que, às vezes, perder o controlo é a melhor forma de encontrar algo novo. Antes de entrar na estação, parei numa loja pequena e comprei um íman para o frigorífico – uma recordação da viagem. “Obrigado, Gwangju”, murmurei, enquanto descia as escadas para o metro.

E a transmissão continuou até ao fim da viagem, com o Fold na mão, sem mapa, mas com tudo o que precisava na memória.