Estou ali parada, a pensar: será que hei de ir ou não? Não andes com o teu cão se ele reage mal aos outros, ou trata da educação dele, leva-o a um especialista, tudo isso se corrige. Mas não, preferes andar a gritar. “Fezeram mal em vir para aqui”, disse-me ela.

Aquilo irritou-me tanto. Ou então segura bem o teu cão. Ela até o tinha com trela curta, mas o cão nem olhou para nós. Ela é que se assustou, com medo de não o conseguir segurar.
Então, para que é que tens um animal desses? Se não és capaz de o controlar, vai viver para o meio do campo, para poderes passear à vontade com o teu cão que pode atacar outro. E agora? Todos os donos de cães têm de deixar de passear ali?
E ela dizia isto numa aléia movimentada, não num cantinho escondido onde ela fosse passear o cão em paz. E, no fim, quem sofre é o cão, que não tem culpa nenhuma. Eu até queria discutir com a dona, tinha o dia difícil, mas depois pensei: “Para quê? Só vou acabar mais chateada do que já estou.
”
Ontem, aliás, já não estava de bom humor. Estava naqueles dias de tristeza de outono, com chuva e pensamentos nostálgicos. Ia eu nos meus devaneios, e ainda tenho de ouvir que não devia estar ali, como se ela fosse a rainha do passeio e mais ninguém pudesse lá andar. O meu Lóki, por acaso, só se interessa por cães grandes.
Se vem uma coisinha pequena, ele nem liga. Agora, se vem um labrador ou um pastor alemão, já é outra história. (E ela cantarolava baixinho, distraída, a pensar nos seus afazeres. )
E depois ainda me dizem que devia levá-lo à escola canina.
Eu sei que qualquer cão precisa de educação, ainda mais um cão grande. Uma mulher frágil pode não o segurar se ele se soltar. Um cão de cinco quilos até eu o seguro, mas um grande é perigoso, pode magoar alguém. Claro que o tamanho importa.
E eu estou há treze dias sem beber. Podem orgulhar-se de mim. Quando o disse, ninguém acreditou. “Parabéns, isso é ótimo”, disseram-me.
Até um amigo veio cá a casa, como das outras vezes, mas eu mantive-me firme. O pior é que 90% dos cães não usam focinheira e metade dos donos nem limpa a sujidade do cão. No outro dia estava a contar ao meu marido: “Mas porque é que ela não tem focinheira no cão? ” E ele riu-se: “A mulher ou o cão?
” Realmente, o cão estava sem focinheira. E ainda por cima deixam tudo sujo, poucos são os que apanham os dejetos. Mas, no fundo, o cão não tem culpa. São os donos que são irresponsáveis, que abandonam os animais ou que os tratam mal.
Eu própria já fui mordida por cães, mas sei que a culpa é sempre do humano. O dono é sempre responsável pelo animal. Aliás, lembro-me de uma dupla aqui na zona, um homem e uma mulher da minha idade, que se divertem a atiçar o cão contra pessoas e cães pequenos. Nunca lhes aconteceu nada, nem quando apresentaram queixa.
A polícia aqui não se dá ao trabalho de investigar. Agora, mudando de assunto, hoje lavei a cabeça com água fria, só com champô, porque ontem fiz aquela trança para dançar e usei cera no cabelo, que ficou com um aspeto horrível, todo oleoso. Tive de lavar tudo de novo para não vir aqui com a cabeça suja. Não quis arranjar a banheira e o balde, estava com muitas dores, era o primeiro dia do período, e qualquer esforço extra era um tormento.
Por isso aguentei a água fria. Não é a primeira vez. E dizem-me que o meu cão faz cocó muito bem formado. O que é que eu lhe dou?
Ele come a ração dele, come maçãs e pepinos. Mas, já que falámos nisso, deixa-me contar-vos uma coisa. No ano passado, fomos à aldeia em junho. O meu irmão chega sempre antes, na quinta-feira de manhã, com a mulher, enquanto nós, por causa do trabalho do meu marido, só chegamos na sexta à noite.
Eles cozinham para si e comeram trigo sarraceno com carne enlatada. O meu irmão despejou as sobras no campo. O Lóki foi lá e devorou tudo. Nunca mais teve um cocó tão perfeito, tão bem formado.
Talvez devesse mesmo mudar a alimentação dele. Aqueles comentários sobre os cães pequenos são uma piada, não são? Não, não é. É verdade.
Normalmente, os cães pequenos é que são os mal-educados, porque os donos acham que, como são pequenos, não precisam de os educar. Os cães grandes costumam ser mais tranquilos e educados. Concordo, mas quando alguém te diz na cara: “Não deviam vir para cá ou vai correr mal”, vês logo que não educa o cão. Eu também não suporto cães sem trela.
É quase sempre um cão pequeno. Mas há um golden retriever aqui que anda sem trela, uma cadela que segue o dono como se fosse colada. O Lóki aproxima-se, cheiram-se, cumprimentam-se e cada um segue o seu caminho. Ela nunca se afasta do dono.
Já os cães pequenos, é um caos. Uma vez, vi um teckel a correr em direção ao Lóki, mesmo com a dona a sair do prédio. Peguei no Lóki ao colo e ela gritou: “Ela não morde, ela é boa”, como se eu estivesse a impedir o contacto. Como é que eu sei o que se passa na cabeça da tua cadela?
E se a minha a morder? Quem é que ia ser culpado? O meu Lóki até já foi mordido por um poodle sem trela. “Ele é bom”, dizia a dona.
Fico com a sensação de que o Lóki tem bons donos. Ele come o que é suposto, e continua a evacuar bem. Já me disseram para ir ao ginásio e lavar-me lá, mas nunca me lavei num sítio público. E não tenho aquecedor em casa.
Não sei, talvez devesse ir ao ginásio. Mas ando tão cansada que só quero ficar em casa a ver vídeos de pesos e halteres para treinar em casa. Mas, como diz o meu amigo, treinar em casa é uma desculpa. E eu sei que ele tem razão.
Também ando a ver umas receitas de rolinhos de peixe, mas o meu marido não gosta, e eu também não tenho a certeza se gosto. É um gosto estranho, confesso. No fim, o que importa é que, por muito que as pessoas reclamem, o cão nunca tem culpa. E, se este cão me tivesse mordido, a culpa seria sempre do dono.
Porque um cão é um animal, e nós, humanos, somos responsáveis por eles.

