O sistema começou a dar erro num instante que parecia parado no tempo. O caos tomou conta do escritório e o Yuuta, o filho do diretor executivo, apareceu a correr na minha direção com o rosto pálido. — O que é que está a acontecer? — perguntou ele, aos gritos.

— O que é que fez ao sistema? — respondi eu. — Os clientes estão a ligar a reclamar e eu não consigo aceder a nada! Eu, Kenta Shimizu, tenho 35 anos.
Entrei para esta empresa de distribuição alimentar logo a seguir ao ensino secundário e, contra todas as expectativas, sou chefe de secção. Sempre gostei de computadores desde pequeno, ao ponto de saber mais do que o professor de informática no liceu. Recomendaram-me uma escola técnica, mas eu queria ganhar dinheiro e ser independente. Entrei para esta empresa e comecei a dar conta de todo o sistema informático.
Criei um sistema para gerir os pedidos e os horários de toda a operação. É um trabalho que parece simples à distância, mas a quantidade de encomendas por dia é enorme, e os horários mudam a cada momento. Tudo corria bem. Os meus colegas eram boas pessoas.
O presidente da empresa, o senhor Saito, sempre me tratou com respeito e reconhecimento. Ele dizia-me: — Desde que o Shimizu trata disto, os erros de encomendas quase desapareceram. Obrigado. Senti-me em dívida com ele e trabalhei com gosto.
Mas depois, tudo mudou. O Yuuta entrou como comercial. Vinha de uma universidade de elite e não perdia uma oportunidade para o dizer. Tratava mal toda a gente que tinha menos estudos que ele.
O pior é que era filho do nosso próprio diretor executivo, o senhor Kojima. Ninguém ousava chamar-lhe a atenção. Eu tentei falar com ele. — Yuuta, não podes tratar as pessoas assim, está a ficar difícil trabalhar aqui.
Ele respondeu com um sorriso. — Eles é que têm inveja de mim, porque são todos pouco instruídos. Não me incomoda. A situação piorou.
Chegámos a receber uma queixa de um cliente importante. — Preferimos cortar o contrato a continuar a trabalhar com esse comercial. Ele trata-nos como se fôssemos inferiores. Eu estava perante uma situação grave.
Tentei ser mais sério com ele. — Se te portas assim dentro da empresa, ainda tolero. Mas se fazes isso aos clientes, não podes continuar a ir para o exterior. — Não me fale assim, não tem estudos.
Odeio que gente sem formação me dê ordens. Eu não queria perder a cabeça. Limitei-me a dizer:
— Então já não vais para o exterior. Ficas aqui comigo.
Ele ficou encarregado de tarefas administrativas e começou a queixar-se todos os dias. — Não posso ficar a fazer trabalhos de ajudante de um homem sem estudos. — dizia ele, constantemente. Tolerar isso todos os dias era desgastante.
Certo dia, ele excedeu-se. Eu estava a passar por perto quando o ouvi dizer em voz alta, de propósito:
— Oxalá o Shimizu se demitisse. Sem ele, eu conseguiria subir mais rápido na empresa. — Eu ouvi isso, sabes?
— disse eu. — E que tem? Você não percebe? Se você sair, eu fico com o seu lugar.
O seu trabalho é fácil, qualquer um faz. Já não é preciso gente como você na empresa. — respondeu ele, com um sorriso. — A sério que estás a dizer isso?
— Gente sem instrução que só sabe lidar com computadores não faz falta nenhuma. Deixe o resto comigo e reforme-se sem preocupação. Eu olhei para ele e senti-me vazio. Toda a raiva desapareceu.
Não valia a pena discutir com uma pessoa assim. — Está bem. Vou fazer isso. — Entendido.
— Vou tratar da minha saída e preparar tudo para te entregar o trabalho. Na altura, ele parecia encantado. Tratei de preparar documentos, cópias de segurança e procedimentos de entrega. Durante vários dias, ele observava-me com orgulho enquanto eu me despedia.
Quando ficou tudo pronto, fui até ele e disse:
— Vou apresentar a minha demissão ao presidente hoje. — Ah, que bom. Então preparei tudo e vou-me embora, certo? Obrigado pelo seu trabalho — respondeu ele, com um sorriso arrogante.
Sem responder, fui ao gabinete do presidente e bati à porta. — Shimizu, o que se passa? — perguntou o presidente. — Receba isto, por favor — disse, entregando-lhe a carta de demissão.
Ele ficou pálido. — Espera. Porquê de repente? — É por causa do filho do diretor, o Yuuta.
— Sim, o Yuuta. O que fez ele? — Ele gosta de se gabar da universidade e encara os outros com arrogância. Trata mal os colegas e até os superiores, dizendo que aqueles sem estudos não deveriam ter autoridade.
A vantagem de ser filho do diretor fá-lo pensar que não precisa de trabalhar. O presidente acenou com a cabeça várias vezes. — Eu tinha ouvido alguns rumores, mas nunca houve queixas formais, por isso nunca intervim. Peço desculpa por não ter feito nada antes.
— Não tem de pedir desculpa — respondi eu. — Shimizu, podes guardar a tua carta por uns dias? Preciso de pensar numa solução. Se quiseres sair por outros motivos, digo-te já que não.
— continuou ele. — Estou-lhe grato, presidente. Não tenho queixas da empresa. — Então ouve isto.
Preciso da tua ajuda. E ele explicou-me o plano. — Deixa-me aceitar a tua demissão, mas não vou apresentá-la. Vais entrar de férias, mas vais continuar oficialmente por cá.
O sistema não vai durar sem ti. Quando falhar, vai ser ele, o Yuuta, a arcar com a culpa. Ele nunca soube fazer o teu trabalho, embora pensasse que sim. Eu concordei.
Quando saí do gabinete, fui até à minha secretária e encontrei o Yuuta à espera. — Já apresentei a demissão. A partir de amanhã, estou de férias. O sorriso dele era quase infantil de tão feliz.
— Finalmente. Com você fora, as coisas vão correr muito melhor. — Quero falar sobre a entrega do trabalho. — Dispenso.
Sou mais inteligente que você, já estou a par de tudo. Vou assumir tudo. Vais ver que vou fazer melhor. Vai descansar.
— Está bem. Então o sistema fica contigo. Cuida dele. — Podes deixar comigo.
Com aquele sorriso nas costas, arrumei as minhas coisas e saí. No dia seguinte, estava em casa de férias quando o telefone tocou. Era o Yuuta. — Shimizu, vem já para a empresa!
— Estou de férias, Yuuta. — Não interessa. Anda já para aqui. Por favor!
A voz dele tremia. Liguei e fui. Quando entrei no escritório, ele avançou para mim furioso. — O que é que fizeste ao sistema?
— Acorda. Que sistema? — Há erros em tudo! Os clientes não param de ligar!
Ele estava em pânico. O pai, o diretor, estava de pé, sem saber o que fazer. — Arranja isto já! — gritou o Yuuta.
— Como queres que o arranje? Deste-me as férias e assumiste tudo. Não tenho autorização de mexer no sistema. — Mas…
— Ele começou a mexer no computador, sem sucesso. — Não consigo! Não consigo ver nada! O presidente chegou.
— O que é este barulho? — perguntou. — O sistema está com um problema — respondi. — E tu, Kojima?
O que isto significa? — perguntou o presidente ao diretor. — Isto é só temporário… — Todos estão em pânico, incluindo o teu filho.
Não admites que não tens controlo nenhum sobre a situação. O diretor calou-se. — E agora, Shimizu? — perguntou o presidente.
— Talvez sejam os dados corrompidos. As cópias de segurança estão aqui — disse, tirando um pen drive do bolso. O Yuuta tirou-mo das mãos e ligou-o ao computador. — A merda, também não funciona!
— gritou ele. Nesse momento, um funcionário entrou a correr. — A encomenda principal falhou! Perdemos o contrato!
— gritou. — Isto é tudo culpa tua! — gritou o Yuuta, apontando-me o dedo. — Basta!
— gritou o presidente. O silêncio tomou conta da sala. — Yuuta, vais ser disciplinarmente responsabilizado por isto. Prepara-te.
— Eu não tive culpa! Ele desapareceu e o sistema avariou-se! Não é justo! — E tu assumiste o trabalho sem fazer a transferência corretamente, não foi?
— Eu fiz tudo! Não fiz nada de mal! — Então o que é isto? Eu tirei o telemóvel e pus uma gravação a tocar.
— Quero falar sobre a entrega do trabalho. — Dispenso. Sou mais inteligente que você, já estou a par de tudo. Vou assumir tudo.
Vais ver que vou fazer melhor. Vai descansar. O Yuuta ficou pálido. — Porque é que gravaste isso?
— Para garantir que, se houvesse algum problema depois de eu sair, não me deitassem a culpa a mim — respondi. Ele caiu de joelhos, encharcado em suor e lágrimas, a pedir desculpa. — Shimizu, consegues resolver isto? — perguntou o presidente.
— Sim, mas vai demorar um pouco. — Obrigado. Limpei os erros em meia hora. Depois fui ao gabinete do presidente.
— Está resolvido. — Obrigado — disse ele. — Já sabes o que está a acontecer. Você foi o sistema que mantinha tudo a andar.
Eu sabia de tudo. Foi por isso que deixei a tua demissão aceite, mas em segredo. Pus-te de férias. O sistema não duraria sem ti.
Quando falhou, era o Yuuta que ia pagar por isso. Resultado: o Yuuta foi despedido. O pai, o diretor, recebeu uma sanção disciplinar. A empresa está a reclamar-lhes o custo do contrato perdido.
Dizem que o Yuuta não encontra emprego e vive em casa fechado. Eu, por outro lado, estou de férias como o presidente me aconselhou. É estranho, mas depois de tanto tempo parado, sinto falta do trabalho. Agora até estou ansioso por voltar.
Sinto que tenho muita sorte por estar num sítio assim. Agradeço ao destino por me ter colocado nesta empresa e por me ter dado a oportunidade de ver o que eu valho, mesmo sem um canudo.


