O telemóvel do meu marido vibrou no sofá e eu congelei com um prato na mão. Ele estava no duche, como sempre aos domingos, e eu sabia a palavra-passe: a data do nosso casamento. Vinte e cinco anos…

O telemóvel do meu marido vibrou no sofá e eu congelei com um prato na mão. Ele estava no duche, como sempre aos domingos, e eu sabia a palavra-passe: a data do nosso casamento. Vinte e cinco anos...

O telemóvel vibrou no sofá e eu congelei com um prato molhado na mão. Reiner estava debaixo do duche, como sempre aos domingos. Adorava demorar-se, amolecer a pele e ficar quarenta minutos debaixo da água quente. Antigamente achava isso enternecedor.

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Um homem que trata de si, que liga à higiene. Mas, entretanto, cada hábito dele parecia-me suspeito. Sequei as mãos no pano da cozinha e, sem querer, lancei um olhar ao ecrã. Uma mensagem brilhava no visor bloqueado.

Poucas palavras, mas trespassaram-me como uma agulha gelada. “Mal posso esperar pelo nosso encontro, meu amor. ” O coração caiu-me aos pés. As mãos tremiam tanto que o prato quase escorregou de volta para o lava-loiça.

Ali estava. A confirmação de tudo o que eu sentia há meses, naqueles três anos intermináveis em que cada gesto do meu marido, cada olhar de lado, cada hora extraordinária no trabalho me provocava um ataque de desconfiança. Da casa de banho vinha o ruído da água e um zumbido abafado. Reiner cantarolava qualquer coisa, completamente calmo, sem suspeitar de nada, e eu segurava o telemóvel dele na mão e via no ecrã a mensagem de uma amante.

“Meu amor”, ela chama ao meu marido “meu amor”. Vinte e cinco anos. Um quarto de século passado com aquele homem. Dei-lhe um filho, lavei-lhe as meias, fiz-lhe o pequeno-almoço, aguentei o silêncio dele, a distância constante e a incapacidade de falar de sentimentos.

Atribuí isso ao feitio masculino, ao cansaço do trabalho, à vida difícil, e afinal ele chama “meu amor” a outra mulher. Sabia a palavra-passe. Reiner nunca ma escondera. Quatro algarismos.

A data do nosso casamento. Que ironia. A data do nosso casamento protegia o histórico de conversas com a amante. Os dedos tremiam-me quando desbloqueei o ecrã.

A consciência mordeu-me por um segundo. Não se deve bisbilhotar o telemóvel de outra pessoa. É uma invasão de privacidade. Mas tinha eu escolha?

Podia continuar a viver com aquela suspeita a corroer-me? O messenger abriu-se e vi o histórico. As últimas mensagens eram surpreendentemente inofensivas. A combinação de um encontro, frases banais sobre o tempo, sobre como tinha corrido o dia.

Mas aquela forma de tratamento, “meu amor”, cortava-me os ouvidos, arranhava-me o coração. Rolei mais para cima, à procura de algo mais explícito, mas o histórico cortava há alguns dias. Aparentemente apagavam as mensagens. Espertos, cuidadosos.

Sem pensar nas consequências, escrevi uma resposta. As mãos tremiam, as letras dançavam diante dos meus olhos, mas forcei-me a concentrar. “Aparece, a velha não está em casa. ” Li de novo.

Grosseiro, provocador, exatamente o que era preciso. Carreguei em enviar e liguei logo o som do telemóvel para ouvir a resposta. Depois coloquei o aparelho de volta no sofá, exatamente no sítio onde estivera. As pernas mal me aguentavam.

Voltei para a cozinha, apoiei-me na bancada e tentei respirar de forma regular. O que é que eu tinha feito? Agora aquela mulher viria a nossa casa e então começaria o verdadeiro pesadelo. Divórcio, escândalos, a divisão dos bens.

Corbiniano ia descobrir que o pai é um adúltero. A nossa família ia desmoronar-se. Mas podia eu continuar a viver na ignorância? Podia olhar todos os dias nos olhos do meu marido e pensar: será que trabalhou mesmo até mais tarde?

Será que aquilo foi mesmo uma emergência de um cliente? Ou estava com ela? Tirei um cigarro do maço. As mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar no isqueiro.

Tinha deixado de fumar há cinco anos, depois de o médico me ter avisado de problemas nos pulmões. Mostrou-me as imagens, apontou para as manchas escuras. “Veja, Senhora Tannhäuser, estas sombras aqui. Mais um ou dois anos e será tarde demais.

” Na altura assustei-me, deitei fora todos os cigarros e escondi até os isqueiros. Mas hoje meti a mão na gaveta mais funda do armário, onde guardava coisas antigas para emergências. Esta era uma emergência. Puxei uma passada e tossi.

Os pulmões já não estavam habituados, mas continuei a fumar um atrás do outro, sacudindo as cinzas para um pires. Fiz café, enchi uma chávena, juntei açúcar, mexi, levei aos lábios e não consegui beber um gole. Tinha um nó na garganta do tamanho de um punho. Comprimia a traqueia, não me deixava respirar.

Quarenta minutos. É o tempo que se demora a chegar aqui de qualquer ponto da nossa pequena cidade. Talvez menos, de carro e sem trânsito. Mas numa manhã de domingo não há trânsito.

Ou seja, em quarenta minutos ela estaria aqui. Andei pela cozinha de um lado para o outro como um animal enjaulado. Ensaiei o que ia dizer. Imaginei aquela mulher.

Certamente nova, dez ou doze anos mais nova do que eu, pernas longas, pele firme, sem rugas, cintura fina, uma loira pintada num vestido justo e saltos altos. Ou talvez ruiva. Reiner sempre gostou de ruivas. Em jovem, passava a vida a olhar para mulheres ruivas.

Ou talvez não fosse nenhuma beleza nova. Talvez fosse uma mulher divorciada da minha idade, tão cansada da vida como eu. Uma mulher solitária que decidira roubar o marido de outra porque não conseguia arranjar um para si. Uma caçadora cínica que se aproxima de homens casados porque os solteiros não lhe interessam.

Passei vários cenários pela cabeça. Num deles dava-lhe uma bofetada em silêncio e batia com a porta. Noutro gritava, acusava-a, chamava-lhe todos os nomes que conhecia. Num terceiro mantinha uma dignidade fria.

Ia dizer: “Leve-o, se quer. Não preciso de um estranho. ” E virava-me, de cabeça erguida. Mas todos os cenários acabavam da mesma forma.

Uma família destruída, uma vida partida. Vinte e cinco anos dados àquele homem, vinte e cinco anos de fidelidade, paciência, sacrifício. Tinha abdicado da minha carreira de enfermeira no hospital distrital porque ele não queria mudar-se para a cidade. Fiquei na nossa pequena clínica a trabalhar por um salário ridículo.

Dei-lhe um filho, embora o parto tivesse sido difícil e os médicos tivessem dito depois que eu não podia ter mais filhos. Aturei a mãe dele, que até morrer me achou indigna do seu precioso filhinho, e ele arranjou uma amante e chama-lhe “meu amor”. As lágrimas vieram-me aos olhos, mas segurei-as. Não podia fraquejar agora, não podia mostrar fraqueza.

Daqui a pouco aquela mulher vai estar aqui e eu tenho de ser forte. Tenho de lhe olhar nos olhos e não vacilar. Da casa de banho continuava a ouvir-se o ruído da água. Quanto tempo pode uma pessoa demorar a lavar-se?

Normalmente Reiner saía ao fim de vinte ou trinta minutos, mas aos fins de semana permitia-se ficar mais tempo debaixo do duche. Dizia que lavava o cansaço da semana, que relaxava os músculos. Sempre vi isso com compreensão. O homem trabalha muito, vai a casa de clientes, arranja frigoríficos em apartamentos abafados, carrega equipamento pesado.

Claro que precisa de descanso. Agora pensava de outra forma. Provavelmente está a arranjar-se para o encontro com ela. Provavelmente está debaixo do duche a pensar nela, a sonhar com o próximo encontro.

Provavelmente aquelas horas extraordinárias ao fim de semana nem eram horas extraordinárias, eram horas nos braços dela. Cada pequeno detalhe do comportamento dele nos últimos anos ganhava de repente um novo e doloroso significado. Chegava mais tarde a casa, começou a ir ao ginásio, embora antes dissesse que desporto era perda de tempo. Comprou roupa nova, jeans mais modernos, camisas mais arranjadas.

Na altura fiquei contente, pensei que o homem estava a cuidar de si. Isso é bom. Estúpida, cega, ingénua. O telemóvel no sofá permanecia em silêncio.

Escutei, com medo de perder uma vibração, mas até agora não havia resposta. Talvez ela não acreditasse. Talvez desconfiasse de uma armadilha, ou não pudesse vir naquele momento, estivesse ocupada, longe da cidade. Esmaguei o cigarro e tirei outro, o quarto.

Os pulmões ardiam, o peito arranhava, mas continuei a fumar. Precisava de fazer qualquer coisa com as mãos, ocupar-me, senão enlouquecia à espera. O relógio de parede marcava 10h30. Tinha enviado a mensagem às 10h15.

Ou seja, já tinham passado alguns minutos. Mais quinze e ela podia estar aqui. Fui à janela e olhei para o pátio. Manhã de domingo.

Alguns carros estacionados em frente às entradas. Crianças no parque infantil. Um dia normal. Calmo, pacífico, completamente insignificante.

E dentro de mim desenrolava-se uma catástrofe. A vizinha, a senhora Lehmann, apareceu na varanda, sacudiu um tapete, viu-me à janela e acenou. Acenei mecanicamente de volta e forcei um sorriso. A senhora Lehmann, uma professora reformada, a mulher mais bondosa, costumávamos beber chá juntas, comentávamos as novidades do bairro.

Ela queixava-se do reumatismo. Eu recomendava pomadas e compressas. Era a minha única amiga naquele prédio e agora morria de vontade de fugir para casa dela, contar-lhe tudo, chorar no ombro dela, mas não podia. Ainda não.

Primeiro precisava de resolver isto. O ruído da água na casa de banho parou. Sobressaltei-me, escutei. O chuveiro rangeu.

Reiner saiu do duche. Agora ia enxugar-se com a toalha, vestir as calças de fato de treino e a camisola interior, vir à cozinha e ver-me pálida, com as mãos a tremer e as cinzas de cigarro no pires. O que é que lhe ia dizer? A porta da casa de banho abriu-se e Reiner espreitou para o corredor.

Vestia apenas boxers e uma camisola interior velha com o colarinho esticado. O cabelo estava molhado e espetado em todas as direções. A cara rosada da água quente. Olhou na minha direção e sorriu.

“Tanja, fizeste café? “, perguntou com a voz habitual. “O cheiro espalha-se pela casa toda. ” Assenti, incapaz de dizer uma palavra.

Ele foi à cozinha, serviu-se de café, sentou-se à mesa, pegou numa bolacha e mordeu. “Estás um pouco pálida”, comentou, enquanto bebericava o café. “Estás doente? ” “Não”, forcei.

“Só não dormi bem. ” “Pois, ontem fomo-nos deitar tarde”, concordou ele. “O filme durou até à uma da manhã. Hoje devíamos ir para a cama mais cedo.

” Falava com tanta naturalidade, tão banalmente, como se não se passasse nada, como se não houvesse no telemóvel dele uma amante que lhe chama “meu amor”, como se não estivesse a planear um encontro com ela, como se não me estivesse a mentir há três anos. Olhei para ele e não o reconheci. Aquele homem tinha dividido a cama comigo durante vinte e cinco anos. Conhecia cada sinal no corpo dele, cada cicatriz, cada mania.

Sabia que range os dentes a dormir quando está nervoso. Sabia que tem um dedo mindinho torto no pé esquerdo. Partido em criança, mal colado. Sabia que não gosta de cebola na sopa e odeia arroz doce.

Mas o que sabia eu da alma dele, dos pensamentos dele, dos sentimentos dele? Ao que parece, nada. O telemóvel no sofá vibrou novamente. Sobressaltámo-nos os dois.

Reiner pousou a chávena e olhou para a sala. Congelei e prendi a respiração. “Deve ser o meu”, disse ele, levantando-se da mesa. “Vou só ver.

” Foi para a sala. Ouvi-o pegar no telemóvel. Uma pausa de segundos, depois voltou para a cozinha. A cara dele estava impenetrável.

“É um cliente”, disse, a olhar para o ecrã. “O frigorífico avariou. Pede-me com urgência que vá lá hoje, domingo. ” “Agora mesmo, num domingo?

“, perguntei, com a voz estranha, mecânica. “Bom. ” Encolheu os ombros. “Diz que a comida está a estragar-se.

Está calor lá fora. Pede rapidez. ” “E pagam o dobro pela emergência e tu vais? “, perguntei.

Olhou-me surpreendido. “Claro. Porque não? Dinheiro nunca é demais.

Vou lá rapidamente. Em uma ou duas horas está feito. Sabes como é, quase sempre não é nada de especial. Ou o gás está a fugir ou o compressor avariou.

” Falava e eu ouvia e percebia. Acabara de me mentir descaradamente, à toa, sem pestanejar. Frigorífico, cliente, emergência. Na realidade, ela respondera à minha mensagem e ele queria ir ter com ela.

Os quarenta minutos ainda não tinham passado, mas talvez ela morasse mais perto. Talvez tivesse concordado em vir, ou ele decidira ir ter com ela com medo de que ela aparecesse ali. “Visto-me rapidamente e vou”, disse Reiner, terminando o café. “Descansa aqui, vê um pouco de televisão.

Talvez possas ir adiantando o almoço até eu voltar. ” Saiu da cozinha. Fiquei ali, encostada à bancada. Então era isto.

Agora vai diretamente ter com ela. A raiva surgiu com tanta força que as mãos deixaram de tremer. Que descaramento, que mentira de sangue frio. Agora vai vestir-se, dar-me um beijo de despedida, dizer “até já” e ir ter com a amante.

E eu fico aqui a cozinhar-lhe a comida como uma tonta obediente. Não, desta vez não. Fui ao corredor. Reiner já estava no quarto a vestir as jeans, a remexer no armário à procura de uma camisa lavada.

Fui à sala e peguei no telemóvel dele do sofá. O ecrã estava escuro, mas desbloqueei-o. Ainda me lembrava da palavra-passe. Abri o messenger.

A última mensagem era minha. “Aparece, a velha não está em casa. ” Por baixo, a resposta que chegara há um minuto. “Está bem, meu amor.

Chego aí em 20 minutos. Senti a tua falta. ” Meu amor. Senti a tua falta.

Vinte minutos. Olhei para o contacto de onde vinha a mensagem. Não havia nome, apenas um símbolo e a designação “asterisco”. Ele nem sequer tinha gravado o nome, era cuidadoso, mas agora eu sabia com certeza.

Ela vem para aqui em vinte minutos, talvez menos, se conduzir depressa. “Tanja, o que é que estás a fazer? ” A voz de Reiner atrás de mim fez-me sobressaltar. Voltei-me.

Ele estava à porta da sala a abotoar a camisa. Os olhos dele arregalaram-se ao ver o telemóvel nas minhas mãos. “Dá-me o telemóvel”, disse baixinho. “Ela vem para aqui”, disse eu, com a voz surpreendentemente calma.

“Daqui a vinte minutos a tua amante vai estar aqui. ” A cara de Reiner ficou cinzenta num instante, os lábios tremiam. Estendeu a mão para pegar no telemóvel, mas recuei. “Tanja, não é o que estás a pensar”, disse ele, rouco.

“Deixa-me explicar. ” “O que é que há para explicar? ” Mostrei-lhe o ecrã com o histórico da conversa. “‘Mal posso esperar pelo nosso encontro, meu amor.

Chego aí em 20 minutos. Senti a tua falta. ‘ Está tudo perfeitamente claro. ” Ele deu um passo na minha direção.

A cara contorcida, uma mistura de medo, desespero e uma patética impotência. “Espera, não tires conclusões precipitadas”, murmurou. “Não é nada disso que estás a pensar. Deixa-me explicar.

” “Mentiste-me por causa do cliente”, disse eu. “Não há frigorífico nenhum. Ias ter com ela, ou pensaste que ela vinha cá e quiseste sair para não nos encontrarmos? ” “Tanja, meu amor, por favor.

” Tentou pegar-me na mão, mas desvencilhei-me. “Isto é um mal-entendido. Posso explicar tudo. Só me tens de ouvir.

” “Explica-me. Quem é esta mulher que te chama ‘meu amor’? Explica-me há quanto tempo me mentes. ” Ele abriu a boca, mas naquele momento ouviu-se um som que nos fez sobressaltar aos dois.

Uma campainha alta e estridente na porta. Olhei para o relógio. Tinham passado apenas quinze minutos desde que ela escrevera. Ou seja, conduzira depressa, ou morava ainda mais perto do que eu pensava.

Reiner agarrou-me pelos ombros. “Não abras”, sussurrou. “Peço-te. Não abras a porta.

” Olhei-lhe nos olhos. Estavam cheios de terror. Ele estava com medo. Com medo de que tudo desabasse, que tudo viesse ao de cima, que tudo acabasse.

“Solta-me. ” Sacudi as mãos dele. “Tanja, espera, deixa-me explicar”, suplicou, agarrando-me na mão. “Não é nada do que pensas, absolutamente nada.

” Mas eu já ia em direção à porta da rua. A campainha tocou de novo, insistente, exigente. Reiner seguiu-me de perto, a dizer qualquer coisa, a tentar impedir-me, mas eu não o ouvia. Nos meus ouvidos rugia o sangue, o coração batia tão alto que abafava todos os outros sons.

Parei diante da porta, pus a mão no puxador. O último momento. Agora vou abrir a porta e vai começar algo irreversível. Divórcio, escândalo, a destruição de tudo o que construímos em vinte e cinco anos.

Mas não tinha escolha. Não podia continuar a viver na incerteza. Não podia continuar a ser a tonta cega que acredita em todas as mentiras do marido. Abri a porta de rompante.

No limiar estava um homem enorme, barbudo, com um casaco de trabalho e botas grossas. Trazia uma mochila pesada aos ombros. A cara queimada do sol, marcada pelo tempo, com rugas fundas nos olhos. A barba espessa, escura, com os primeiros fios grisalhos.

Ombros largos, mãos calejadas, olhos familiares, um sorriso familiar. Corbiniano, o nosso filho. O telemóvel escorregou-me das mãos e bateu no chão com um baque surdo. Fiquei ali parada, incapaz de dizer uma palavra, a olhar para a pessoa que não via há dois anos.

Dois anos infinitos a trabalhar no norte, em plataformas de petróleo, em montagens. Dois anos de chamadas raras, mensagens curtas. “Está tudo bem, não te preocupes. ” Dois anos a adormecer e a acordar a pensar nele.

Todas as noites rezava para que não lhe acontecesse nada naquele frio, entre estranhos. E agora estava ali no limiar, a sorrir de orelha a orelha. “Olá, mãe”, disse com uma voz grave e rouca. “Senti a vossa falta.

” Atrás de mim ouviu-se um soluço. Reiner afastou-me e atirou-se ao filho para o abraçar. “Meu rapaz! “, repetiu, apertando Corbiniano contra si.

“Meu querido rapaz, meu amor. ” Aquela palavra explodiu-me na cabeça. Meu amor, ele chama a Corbiniano “meu amor”. Na mensagem também dizia “meu amor”.

Eu tinha escrito: “Aparece, a velha não está em casa. ” E Corbiniano tinha vindo. Ou seja, não havia amante. Ou seja, Reiner não tinha escrito a uma mulher, mas ao nosso filho, e tinha escondido isso de mim.

As pernas cederam. Agarrei-me ao caixilho da porta para não cair. Corbiniano ali estava, o pai nos braços, a olhar para mim e a sorrir. Tinha crescido tanto, estava tão estranho e ao mesmo tempo tão familiar.

“Meu rapaz, meu filho. ” “Então, mãe, não convidas o teu filho a entrar? “, perguntou, com um sorriso maroto. “Ou vamos ficar aqui no limiar?

” Avancei e abracei-o. Cheirava a viagem, a óleo de máquina e a geada. Cheirava a terras estranhas e a uma vida estranha, mas era o meu filho. Tinha voltado.

“Entra”, sussurrei, com a voz a tremer. “Entra, meu filho! ” Corbiniano entrou no corredor, atirou a mochila pesada dos ombros, que bateu no chão com um baque surdo. Reiner fechou a porta, encostou-se a ela com as costas e fechou os olhos.

Lágrimas escorriam-lhe pelas faces. Apanhei o telemóvel de Reiner do chão e olhei para o ecrã. A conversa com o “asterisco” continuava aberta. “Mal posso esperar pelo nosso encontro, meu amor.

Aparece, a velha não está em casa. Chego aí em 20 minutos. ” Levantei os olhos para o meu marido. Ele olhava para mim com os olhos cheios de lágrimas de culpa.

“Perdoa-me”, sussurrou em silêncio. “Perdoa-me, Tanja. ” Corbiniano tirou os sapatos, olhou à volta no corredor, foi para a sala. Não notou a tensão entre nós, não viu as lágrimas do pai, não percebeu o que se tinha passado.

“Nada mudou”, disse a sorrir. “Está tudo no lugar. Até a alcatifa na parede é a mesma. ” Virou-se para nós.

“O que se passa? Estão tão surpreendidos que nem conseguem abraçar-me como deve ser? “, gracejou. “Achavam que eu ficava lá para sempre.

” Fui ter com o meu filho e abracei-o novamente, com mais força, quase com dor, para sentir que ele estava mesmo ali. Ele afagou-me a cabeça como a uma criança. “Mãe, o que foi? “, riu.

“Estou aqui. Está tudo bem. ” Está tudo bem. Nada estava bem.

Eu quase tinha destruído o meu casamento ao acusar o meu marido de infidelidade. Tinha escrito ao nosso filho que a velha não estava em casa. Ia fazer uma cena a uma amante que nem sequer existia. Reiner continuava junto à porta.

A cara cinzenta. Olhava para mim suplicante, como se me pedisse para não contar a verdade ao filho, para não dizer que a mãe suspeitara o pai de adultério, para não estragar aquele momento de reencontro. “Pai, o que tens? “, Corbiniano virou-se para o pai.

“Estás doente? Pareces mal. ” “Não, meu rapaz. ” Reiner limpou as lágrimas com a manga.

“Só não esperava ver-te. Que surpresa. ” “Pois, uma surpresa. ” Corbiniano sorriu de orelha a orelha.

“Quis surpreender-vos. De propósito não avisei que vinha. ” Corbiniano foi para a cozinha, sentou-se à mesa e espreguiçou-se. “Meu Deus, estou tão cansado”, suspirou.

“Dois dias de autocarro. Pensei que as costas iam partir. Mas aqui estou, vivo e saudável. ” Fiquei à porta da cozinha a olhar para o meu filho.

Tinha crescido, não só ficara mais forte, era outra pessoa. Os ombros mais largos, as mãos mais fortes, cheias de cicatrizes e calos. No rosto, rugas fundas, como as pessoas que passam muito tempo no frio e apertam os olhos contra o vento. Até a voz mudara, mais grave e rouca.

“Mãe, porque não dizes nada? “, perguntou, a olhar para mim. “Não estás contente? ” “Estou, sim”, forcei.

“Só não esperava. ” “Vês, sabia que não me esperavam. ” Corbiniano riu. “Pai, também estás aí parado como um fantasma.

Anda, vamos abraçar-nos como deve ser. Como pessoas, não como da primeira vez. ” Reiner foi ter com o filho e abraçou-o de novo, desta vez com mais força. Vi os ombros dele a tremer, a tentar abafar um soluço.

Corbiniano deu palmadas nas costas do pai. “Ei, pai, o que se passa? “, perguntou preocupado. “O que aconteceu?

” “Nada, meu rapaz. ” Reiner soltou-se e limpou os olhos. “Só senti muito a tua falta. Há dois anos que não te via.

” “Eu também senti a vossa falta. ” Corbiniano olhou para mim. “Mãe, vem também. Uma família deve abraçar-se junta.

” Fui ter com eles e ficámos os três na cozinha, abraçados. Senti o calor do meu filho, ouvi a respiração dele, cheirei-o, e ao mesmo tempo queria enterrar-me no chão de vergonha. O que é que eu tinha feito? Como pude pensar aquilo do meu marido?

Como pude escrever ao nosso filho que a velha não estava em casa? “Pronto, chega de choradeira. ” Corbiniano soltou-se primeiro. “Estou com uma fome de lobo.

Mãe, alimentas o teu filho perdido? ” “Claro. ” Fiquei atarefada. “Já faço comida.

Tenho ravioli no congelador, os bons do talho. Ou faço ovos com bacon, ou esquento a sopa de ontem? ” “Tudo ao mesmo tempo. ” Corbiniano riu.

“Passei dois anos a comer comida de cantina. Quero comida caseira a sério. ” Tirei o pacote de ravioli do congelador. As mãos tremiam tanto que mal o conseguia agarrar.

Pus uma panela grande de água ao lume, comecei a descascar cebolas para o refogado, mas a faca escapou-me dos dedos. “Mãe, tens a certeza de que está tudo bem? “, Corbiniano perguntou de novo. “Estás tão pálida e as mãos tremem-te.

” “Só estou nervosa”, confessei. “Sobrecarregada. ” “Compreensível”, assentiu. “A tua mãe preocupa-se sempre demasiado”, disse, dirigindo-se ao pai.

“Lembras-te quando, na escola, cheguei uma hora atrasado e ela queria chamar a polícia? ” Reiner assentiu, sem desviar o olhar do filho. A cara continuava pálida. “Meu rapaz, porque é que ligavas tão poucas vezes?

“, perguntou baixinho. “A mãe preocupava-se muito. Pensava que estavas zangado connosco. ” Corbiniano coçou a barba.

“Ah, a rede lá era uma miséria”, explicou. “Na plataforma não há rede nenhuma. Era preciso descer e isso demora tempo, e a gente fica tão exausta que já não tem forças para mais nada. Cair na camarata e desligar logo.

Turnos de 12 horas a -40°. Todos os dias a mesma coisa, mas pagam bem. ” Tirou o telemóvel do bolso do casaco e começou a percorrer qualquer coisa. “Olhem, vejam o que vos comprei”, disse orgulhoso, virando o ecrã para nós.

Na foto via-se um frigorífico enorme com congelador e uma televisão de ecrã gigante. “Amanhã entregam tudo”, continuou Corbiniano. “Junrei 3000 euros. Pensei: chega de os meus pais se aturarem com as velharias.

O vosso frigorífico já vai com dez anos e avaria a cada dois tempos, e a televisão já só mostra imagem às riscas. ” Vieram-me as lágrimas aos olhos. Meu filho, lá no norte, no frio e no trabalho duro, tinha juntado dinheiro para nós. Tinha pensado em nós, queria ajudar-nos.

“Meu filho, porque gastaste tanto dinheiro? “, exclamei. “Nós até nos arranjávamos. ” “Não, chega de arranjar-nos”, disse Corbiniano com firmeza.

“Vocês passaram a vida a sacrificar-se. O pai trabalha sem parar. Tu matas-te na clínica por um salário de fome. Está na hora de viverem condignamente.

” Reiner sentou-se em silêncio, a olhar para o filho com os olhos húmidos. Vi-o a lutar consigo, a tentar não rebentar em lágrimas. “Obrigado, meu filho”, conseguiu dizer por fim. “Obrigado.

” “Ah, não vale a pena”, Corbiniano acenou com a mão. “Vocês criaram-me, pagaram-me a formação. Devo-vos muito mais. No norte paga-se bem, mas o trabalho é um inferno.

Doze horas ao vento, as mãos congelam mesmo com luvas. Mas por isso posso dar-me ao luxo de fazer uma alegria à minha família. ”

A água na panela ferveu. Pus os ravioli, mexi com a colher.

Reiner continuava sentado em silêncio à mesa. Lancei-lhe um olhar furtivo. Ele apanhou-me a olhar e desviou os olhos. Tínhamos de falar, tínhamos de resolver tudo.

Mas agora, na presença do filho, era impossível. “Pai, porque estás tão abatido? “, perguntou Corbiniano. “Não estás contente por eu ter voltado?

” “Claro que estou. ” Reiner tentou sorrir. “Só estou cansado, provavelmente. E esta surpresa, não esperava.

” “Pois, de propósito não disse nada. ” Corbiniano sorriu satisfeito. “Queria ver as vossas caras. Então, surpreendi-vos?

” “Se surpreendeste? “, assenti, enquanto mexia nos ravioli. “Muito. ” Reparei que ainda não tinha recuperado.

As emoções atropelavam-se. Alegria, alívio, vergonha, medo. O filho estava em casa, vivo, saudável, adulto, tinha voltado, mas o segredo das mensagens, a minha resposta provocadora, tudo isso pairava como uma nuvem escura sobre mim. “Conta lá, como foi no norte?

“, pediu Reiner, visivelmente a tentar distrair-se. “Como viveste? O que fizeste? ” Corbiniano recostou-se na cadeira e começou a contar sobre as montagens, as condições duras, os colegas de trabalho.

Contou como, no primeiro mês, quis fugir porque não se habituava ao frio. Como quase congelou os dedos uma vez, porque tirara as luvas por um minuto. Um colega que caiu da plataforma e partiu a perna, mas sobreviveu. Eu ouvia e cozinhava ao mesmo tempo, escorria os ravioli, fritava as cebolas, misturava tudo, punha a mesa, ia à cave buscar um frasco de pickles caseiros, cortava pão, servia sumo.

Corbiniano comia com apetite, continuando a falar entre garfadas. Reiner sentado em frente, a acenar, a fazer perguntas curtas. Olhava para os dois e pensava: como pude duvidar do meu marido? Como pude pensar que ele seria capaz de infidelidade?

Anos de casamento, anos de fidelidade, fiabilidade, trabalho. Sim, calado, sim, pouco romântico, mas nunca me dera motivos para duvidar, e eu, como uma mulher parva e desconfiada, tinha-me deixado levar por causa de uma única mensagem. “Mãe, porque não comes nada? “, perguntou Corbiniano, a olhar para mim.

“Senta-te connosco. ” “Já tomei o pequeno-almoço”, menti. “Fico aqui, a ver-vos e a alegrar-me. ” “Pensei em ficar de vez por aqui”, disse Corbiniano, espetando outro ravioli.

“Talvez encontre trabalho aqui. Caso-me, talvez. Quero estar perto de vocês, ajudar-vos. ” Encostei-me à bancada e senti o coração apertar-se de amor pelo meu filho.

“Claro, meu filho”, sussurrei. “Fica aqui, sentimos tanto a tua falta. ” “Eu também senti a vossa falta”, confessou Corbiniano. “Lá no norte só há dinheiro e frio, mas aqui está a família, o calor, o lar.

” Ao fim da tarde púnhamos a mesa da festa. Tirei tudo o que tinha guardado. Enchidos, queijo, conservas. Reiner foi buscar ao esconderijo uma garrafa de aguardente que guardava para ocasiões especiais.

Esta ocasião era definitivamente especial. Corbiniano levantou o copo. “Pela família”, disse, “por estarmos juntos de novo. ” Bebemos, a aguardente ardia na garganta, mas senti um peso a cair-me da alma.

Toda a minha desconfiança tinha sido estupidez. Reiner não tinha escrito a uma amante, mas ao nosso filho. Só queria proteger-me de preocupações desnecessárias. Sabia que eu ia ficar de cabeça perdida por causa das chamadas raras.

Reiner passou-me o braço pelos ombros e sussurrou-me ao ouvido: “Perdoa-me, Tanja. Fui um idiota por te esconder as mensagens com o Corbiniano. ” Aninhei-me contra o meu marido e sussurrei de volta: “Eu é que fui estúpida. Pensei o que não devia.

Perdoa-me a minha desconfiança. ” Tarde da noite, Corbiniano deitou-se no quarto antigo dele. Reiner e eu ficámos na cama a falar baixinho. “Ainda bem que ele voltou”, sussurrei, “e como está crescido e independente.

” Reiner afagou-me o cabelo e concordou. “Do nosso rapaz saiu um homem de bem. ” Mas não consegui adormecer. Na minha cabeça giravam os acontecimentos do dia, a minha suspeita, o medo e depois a alegria inesperada.

Tinha vergonha da minha desconfiança em relação ao meu marido. Como pude pensar que Reiner seria capaz de infidelidade? Vinte e cinco anos de casamento e duvidei dele por causa de uma mensagem. Ao meu lado, Reiner já ressonava.

Virei-me para ele, observei o rosto familiar à luz do luar. Amanhã ia pedir-lhe perdão de novo, e apagar a minha mensagem da conversa com o Corbiniano. O filho nunca devia saber que a mãe suspeitara o pai de infidelidade. Cuidadosamente, estendi a mão para a mesa de cabeceira, onde estava o telemóvel do meu marido, desbloqueei o ecrã e abri o messenger.

“Precisava de encontrar a conversa com o Corbiniano e apagar a minha mensagem. ‘Aparece, a velha não está em casa. ‘ Isso devia continuar o meu segredo, um erro estúpido que ninguém jamais saberia. ” Ao percorrer a lista de conversas, toquei sem querer num ícone no canto do ecrã.

Abriu-se uma pasta escondida que eu nunca tinha notado. Dentro havia dezenas de fotografias. Uma mulher nova, cerca de trinta anos, com uma menina pequena. A criança tinha cerca de um ano.

Fazia os primeiros passos, sorria para a câmara, caracóis claros, bochechas rosadas, olhos grandes. Numa foto, a menina estava ao colo daquela mulher. Noutra, apanhava um brinquedo. Numa terceira, dormia num berço.

Rolei mais. Mais fotografias. A mesma mulher. Grávida, a acariciar a barriga.

A mesma mulher no hospital com um recém-nascido nos braços. A mesma mulher a amamentar um bebé. O coração batia tão forte que ouvia as batidas nos ouvidos. Abri a última mensagem naquela conversa.

Tinha sido enviada ontem. “Reiner, a pequena Marie já anda. Quando é que finalmente te divorcias e nos levas para tua casa? Estou farta de esperar.

” O telemóvel escorregou-me das mãos trémulas e bateu no chão com um baque surdo. Reiner mexeu-se no sono, mas não acordou. Fiquei sentada na beira da cama, incapaz de me mexer, incapaz de respirar. O meu marido tinha outra família.

Tinha um filho, uma menina pequena, com cerca de um ano. Mariechen. Tinha escondido isso de mim. Todo aquele tempo em que me alegrei com o regresso do filho, em que me envergonhei da minha suspeita, em que pedi perdão pela minha desconfiança, ele tinha outra família.

Cuidadosamente, levantei o telemóvel do chão e sentei-me na cama. As mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o aparelho. Reiner continuava a ressonar, completamente alheio, enquanto eu percorria o histórico de conversas que, pedaço a pedaço, reduzia a minha vida a escombros. As mensagens iam por ordem inversa, de ontem para três anos atrás.

Vi como a relação do meu marido com aquela mulher se desenvolvera. Primeiro, frases curtas de negócios. “Obrigada pela reparação. Quanto te devo?

” “Podes voltar? ” Depois tornou-se mais pessoal. “Como estás? ” “O que fazes no fim de semana?

” “Quero ver-te. ” Depois a declaração de amor. “Vitória, és a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos. ” Uma foto da mulher grávida com a legenda.

“A nossa pequena está a crescer. ” Uma ecografia, com data de há dois anos. Reiner respondeu: “Mal posso esperar para ver a nossa princesa. ” Tapei a boca para não gritar.

Enquanto eu lhe cozinhava o jantar e lhe lavava as camisas, ele planeava outra família. A primeira foto da menina depois do nascimento. Uma carinha vermelha minúscula, punhos fechados. “A Mariechen nasceu.

Cinquenta centímetros, parece-se com o pai. ” Reiner respondeu: “A minha princesa, a minha felicidade, em breve estaremos juntos para sempre. ” Data: há um ano e meio. Ou seja, enquanto eu me preocupava com o filho que não ligava, o meu marido embalava outra criança.

Seguiam-se fotos da menina a crescer. O primeiro sorriso, o primeiro dente, as tentativas de se sentar. Reiner comentava cada uma. “A minha esperta, está a nascer uma beleza.

O papá ama-te muito. ” Faltou-me o ar. Nunca admirara Corbiniano assim quando era bebé. As mensagens mais dolorosas eram as mais recentes.

“Reiner, quando é que finalmente decides? A Mariechen precisa de um pai ao lado dela, não só aos fins de semana. Estou farta de esperar. Preciso de certezas.

Prometeste divorciar-te assim que o Corbiniano voltasse para casa. Ele já voltou. ” Reiner respondia de forma evasiva. “Espera mais um pouco.

Tenho de organizar tudo isso bem. Não quero traumatizar a Tanja. ” Mas na última mensagem escrevera: “Está bem, meu amor. Depois das festas de Natal trato de tudo.

Tem mais um mês de paciência. ” Deixei o telemóvel e olhei para o meu marido adormecido. Ali está ele, a ressonar, sem suspeitar de nada, e daqui a um mês ia deixar-me. Anos de casamento e ele planeava deitar-me fora como um móvel velho por uma amante nova com um filho.

As lágrimas escorriam-me pelas faces, mas não solucei. Tinha medo de acordar Reiner. Ainda não sabia como me havia de comportar. Precisava de pensar na situação, tomar uma decisão.

Agora, no quarto ao lado, dormia Corbiniano, tão feliz com o reencontro com os pais, e eu precisava de destruir a alegria dele. De manhã, levantei-me antes de todos e fui para a cozinha preparar o pequeno-almoço. As mãos tremiam quando parti os ovos para os mexidos. Um ovo escapou-me e estalou no chão.

Limpei a poça com um pano e tentei recompor-me. Reiner saiu do quarto de boxers e camisola interior, espreguiçando-se. “Bom dia, meu amor”, disse, e beijou-me na face. Custou-me não o afastar.

Como se atrevia a chamar-me “meu amor” se tinha outra família? “Segunda-feira e já estás de pé? “, notou Reiner, servindo-se de café. “Não consegues dormir de alegria por o Corbiniano estar em casa”, respondi, esforçando-me por falar com voz calma, mas sentindo os lábios a tremer.

“Tanja, hoje tenho de ir a casa de um cliente”, disse Reiner. “O frigorífico de uma mulher avariou. Pediu com urgência. ” Assenti sem levantar os olhos.

“Claro, uma mulher, a Vitória e o filho deles. Provavelmente todos os fins de semana ia ter com eles com a desculpa do trabalho e eu acreditava, alegrava-me por o meu marido ser tão trabalhador. ” Corbiniano saiu do quarto, ainda sonolento, de boxers. “Bom dia, pais”, bocejou.

“Como dormiram nas vossas camas habituais? ” “Como uma marmota”, sorriu Corbiniano e abraçou-me. “Já me tinha esquecido do que é dormir em silêncio, sem os ressonos dos colegas na camarata. ” Ao pequeno-almoço, Corbiniano reparou que eu estava pálida.

“Mãe, o que se passa contigo? Estás doente? ” “Não dormi bem”, abanei a cabeça. “Estava excitada.

Afinal, que alegria. O filho voltou. ” Reiner concordou. “A tua mãe preocupa-se sempre demasiado.

” Reiner tomou o pequeno-almoço depressa e começou a arranjar-se. “Não demores muito”, disse eu, seguindo-o com um olhar cheio de ódio. Ele deu-me um beijo de despedida e eu senti repulsa. Com os mesmos lábios beijava a amante e a filha deles.

Quando o meu marido saiu, Corbiniano sentou-se no sofá ao meu lado. “Mãe, está mesmo tudo bem entre ti e o pai? “, perguntou. “Sinto uma certa tensão.

” Sobressaltei-me. Era assim tão óbvio? “O que estás a pensar, meu filho? “, menti.

“Está tudo ótimo, só estou cansada do trabalho. A clínica está cheia. ” “Estou tão feliz por estar em casa”, disse Corbiniano, passando-me o braço pelos ombros. “Quero estar convosco, ajudar-vos.

” Aninhei-me contra o meu filho e comecei a chorar. Se contasse a verdade agora, destruía todos os planos dele. “Mãe, porque é que choras? “, Corbiniano afagou-me a cabeça como a uma criança.

“Eu trouxe boas notícias. ” “Senti tanto a tua falta”, soluçou. “Tive tanto medo que te acontecesse alguma coisa lá no norte. ” “Não aconteceu nada”, tranquilizou-me.

“Estou aqui, são e salvo, e não vou a mais lado nenhum. ”

Depois do almoço, não aguentei mais e fui a casa da vizinha, a senhora Lehmann. A professora reformada era a minha única amiga no prédio. Costumávamos beber chá na cozinha dela e comentar as novidades do bairro, mas hoje não vinha por mexericos.

“Hilde, preciso de conselho”, disse, sentando-me à mesa. A senhora Lehmann reparou logo nos olhos avermelhados da amiga. “O que aconteceu, Tanja? Estás pálida.

” Tirei o telemóvel e mostrei-lhe as capturas de ecrã que fizera durante a noite. A senhora Lehmann pôs os óculos e começou a estudar as fotografias. “Meu Deus, Tanja”, sussurrou. “Isto é…?

O teu Reiner tem outra família? ” A voz tremia-lhe de indignação. “Vinte e cinco anos deste-lhe e ele mantém uma amante nova com um filho. ” “Não sei o que fazer”, confessei.

“O Corbiniano acabou de voltar, tão feliz. Como é que lhe digo que o pai é um traidor? ” A senhora Lehmann abanou a cabeça. “Tanja, tens de te divorciar e pôr esse pulha na rua.

Não se pode deixar que os homens tratem assim as mulheres. ” À noite, quando Reiner ainda não tinha voltado do trabalho, tocaram à campainha. Abri e vi uma loira nova de cabelo pintado, com um carrinho de bebé. A mulher era bonita, mas tinha o rosto cansado.

No carrinho dormia uma menina pequena. A cara chapada de Reiner quando era bebé. “O Reiner está em casa? “, perguntou a desconhecida.

Senti o coração aos saltos. “E você é quem? “, respondi com frieza. “Sou a Vitória.

” A voz da mulher tremia de excitação. “O Reiner e eu. Bom, sabe como é. Ele prometeu vir hoje ter connosco, mas não apareceu e não atende o telefone.

” Do quarto veio Corbiniano. “Mãe, quem é? “, perguntou ao ver a mulher com o bebé. Bati apressadamente com a porta na cara da Vitória, mas já era tarde demais.

O meu filho tinha visto tudo e percebido que havia qualquer coisa errada. Corbiniano ficou no corredor a olhar para a porta fechada. O rosto escureceu, as sobrancelhas franziram-se. “Mãe!

Quem era aquela mulher? “, perguntou com voz exigente. “E porque tem um filho? ” Ele sentia que eu escondia qualquer coisa.

Encostei as costas à porta e escondi o rosto nas mãos. “Meu filho, senta-te”, sussurrei. “Tenho de te contar uma coisa. ” Peguei no meu filho pela mão e levei-o para a sala.

Corbiniano sentou-se obedientemente no sofá, mas os olhos ardiam. Exigia explicações. Tirei o telemóvel e mostrei-lhe as capturas de ecrã da correspondência do pai. Corbiniano não percebeu de início o que estava a ver, depois a cara ficou cinzenta.

Os maxilares apertaram-se. “Isto é…? O pai escreve com alguma mulher? ” Percorreu as fotografias da menina, leu as mensagens.

A cada segundo, o rosto ficava mais sombrio. “Mãe, isto é verdade? “, perguntou rouco. “O pai tem outra família?

” Assenti, incapaz de dizer uma palavra. Corbiniano saltou do sofá e começou a andar de um lado para o outro, fechando e abrindo os punhos. “Mato-o”, cuspiu. “Juro.

Mato este sacana. ” A voz tremia de raiva. “Como é que ele te pôde fazer isto? Anos, um quarto de século, deste-lhe.

” “Corbiniano, acalma-te”, tentei travá-lo, mas o meu filho estava fora de si. Bateu com o punho na parede e deixou uma marca. “Como é que ele pôde? “, repetiu, com lágrimas na voz.

“Pensava que éramos uma família normal e ele esteve o tempo todo a mentir-nos na cara. ” Abracei o meu filho e chorámos juntos. Corbiniano apertou-me contra si e afagou-me a cabeça. “Mãe, perdoa-me”, soluçou.

“Se eu não tivesse ido embora, isto não teria acontecido. Não teria deixado que ele te magoasse. ” Abanei a cabeça. “Não é culpa tua, meu filho.

Ele é que é um canalha. ”

Uma hora depois, Reiner voltou. Entrou em casa com ar satisfeito, a cantarolar qualquer coisa, mas quando viu a mulher e o filho em lágrimas, percebeu logo. Tudo tinha vindo ao de cima.

A cara mudou num instante. Ficou cinzenta. “Tanja, posso explicar tudo”, começou. Corbiniano saltou e atirou-se ao pai.

“Tu”, gritou, “como é que pudeste fazer isto à mãe? ” Agarrou Reiner pelo colarinho e sacudiu-o. O pai tentou justificar-se. “Foi um erro.

Eu não queria. Ela é que… ” Mas o filho não ouvia. Armou o braço para bater.

“Para! “, gritei, metendo-me no meio. “Corbiniano, larga-o. ” “Reiner, explica como é que pudeste mentir-me na cara durante três anos.

” A minha voz tremia de raiva. Reiner caiu de joelhos diante de mim. As lágrimas escorriam-lhe pelas faces. “Perdoa-me, Tanja”, conseguiu dizer.

“Sou um idiota. Estraguei tudo. ” Começou a contar, a gaguejar de excitação. Há três anos, tinham-no chamado a casa de uma mulher nova.

Vitória morava num apartamento de um quarto, vivia sozinha. No calor, o frigorífico avariara. Ela usava um roupão leve, convidou-o para um chá. “Eu não planeei nada.

” “A sério”, gaguejou. “Simplesmente aconteceu. ” “E depois? “, perguntei com frieza.

Reiner limpou as lágrimas com a manga. “Depois ela disse que estava grávida, queria abortar. Eu assustei-me. Afinal, era meu filho.

Comecei a dar-lhe dinheiro. Prometi que me divorciava. ” “Porque é que não te divorciaste logo? “, perguntou Corbiniano com desprezo na voz.

Reiner olhou-o com olhos suplicantes. “Esperei que voltasses. Pensei que, se estivesses em casa, a mãe aguentava melhor o divórcio. E depois foi-se arrastando.

” Não sabia como dizer a verdade. “Que desculpas patéticas”, abanei a cabeça. Corbiniano levantou-se e foi para o quarto dos pais. Voltou com uma mala de viagem e começou a enfiar as coisas do pai.

“Faz as malas e desaparece daqui”, disse em tom gelado. “Para mim deixaste de existir. ” Reiner tentou impedir o filho. “Corbiniano, ouve-me.

” “Sai daqui, nunca mais quero ver-te! “, gritou Corbiniano, atirando a mala para o corredor. “Traíste a mãe. Traíste a família.

Tens outra família. Vai ter com eles. ” Reiner olhou para mim suplicante, mas eu calei-me e olhei-o com olhos vazios. Ele apanhou as coisas restantes e foi para a saída.

No limiar, voltou-se. “Tanja, amo-te. Sempre te amei, só a ti. ” Mas a porta já lhe tinha batido na cara.

Corbiniano deu duas voltas à chave. Agora nem com as próprias chaves o pai podia voltar a entrar. À noite, o meu telemóvel não parava. A Vitória escrevia mensagens.

“O Reiner prometeu casar comigo. Devolva o pai do meu filho. ” Depois ligou e gritou ao ouvido: “Destruiu a nossa família. Ele não a ama, ama-me a mim.

” Desliguei o telemóvel. No dia seguinte, a Vitória veio com o carrinho de bebé para debaixo das nossas janelas, ficou no pátio a gritar: “Tanja, deixa-o ir. Ele ama-me. Temos um filho juntos.

” Os vizinhos espreitavam das janelas, a murmurar. A senhora Lehmann saiu da entrada e enxotou a mulher nova. “Desapareça daqui! “, gritou.

“Anda cá destruir famílias. ” A Vitória chorava, embalava o carrinho. “Eu não tenho culpa”, soluçou. “Ele é que veio ter comigo, ele é que prometeu casar comigo.

” Mas os vizinhos já se tinham voltado contra ela. Mulheres mais velhas abanavam a cabeça e condenavam-na. “Nova, mas a seduzir homens casados. ” A Vitória não aguentou e foi-se embora.

Fiquei à janela a ver a cena. O prédio inteiro já sabia da minha desgraça. Amanhã saberiam todos no trabalho. Na nossa pequena cidade, as notícias espalham-se depressa.

Senti humilhação, mas também um estranho alívio. A verdade finalmente tinha vindo ao de cima. Corbiniano passou-me o braço pelos ombros. “Não te preocupes, mãe”, disse.

“Deixa toda a gente saber que canalha ele é. Nós os dois aguentamos. ” Aninhei-me contra o meu filho. Sim, íamos aguentar.

Mas primeiro precisava de decidir o que fazer a seguir. No dia seguinte, fui ao consultório da senhora Meier, a advogada da nossa clínica. Conhecíamo-nos há dez anos e sabia que ela me ajudaria sem conversas desnecessárias. “Tanja, senta-te, conta lá”, disse a advogada, servindo café.

Mostrei as capturas de ecrã das mensagens, contei a história toda. A senhora Meier estudou os documentos atentamente e abanou a cabeça. “Percebo”, disse por fim. “Tens todos os motivos para um divórcio por culpa do cônjuge.

Além disso, ele será obrigado a pagar pensão de alimentos. ” “Não quero o dinheiro dele”, cortei. “Só quero que ele desapareça da minha vida. ” “Tanja, não sejas tão impetuosa”, travou-me a senhora Meier.

“Ele tem de pagar. Vinte e cinco anos de casamento não é brincadeira. Tens direito a pensão e à tua parte do apartamento. ” Pensei.

O apartamento estava em nome dos dois, portanto metade era meu, e Reiner tinha de sair. “Está bem”, assenti. “Trate do divórcio. ” A senhora Meier pegou-me na mão.

“Aguenta, Tanja. És forte. Consegues. ” Um mês passou como num nevoeiro.

Reiner tentava ligar, escrevia mensagens, suplicava um encontro. Corbiniano intercetava todas as chamadas e respondia por mim: “Pai, para nós deixaste de existir. Não ligues. ” Mas Reiner não desistia.

Uma vez veio ao prédio, ficou debaixo das janelas a gritar: “Tanja, sai cá fora, vamos falar. ” Corbiniano desceu e quase se pegou à luta com ele. Os vizinhos chamaram a polícia. Ficou claro para Reiner que teria problemas se voltasse a aparecer ali.

O divórcio ficou concluído ao fim de três meses. O tribunal deu-me razão. O apartamento foi dividido, mas a juíza decidiu que Reiner me pagasse a minha parte em dinheiro, já que eu não podia sair. Eu trabalhava por pouco na clínica.

Reiner ficou obrigado a pagar-me pensão vitalícia. Depois da audiência, ele veio ter comigo no corredor. “Tanja, perdoa-me”, sussurrou. “Percebi tudo.

Fui um idiota. ” Olhei-o com frieza. “Vai para a tua família, Reiner. Tens uma filha para criar.

” “Separei-me da Vitória”, confessou. “Percebi que só amo a ti. ” Soltei uma risada amarga. “Tarde demais, Reiner.

Muito tarde. ” Corbiniano pegou-me no braço e levou-me dali. Reiner ficou sozinho no corredor vazio do tribunal, velho, partido. Passaram seis meses.

Habituei-me a viver sozinha com o meu filho. Corbiniano encontrou trabalho na cidade, numa empresa de construção de máquinas. O salário não era enorme, mas ajudava nas despesas de casa e cuidava de mim. Ficámos ainda mais próximos.

Reiner transferia a pensão pontualmente, às vezes escrevia mensagens, mas eu não respondia. A senhora Lehmann contou-me que o vira no supermercado com a Vitória e o bebé. Viviam juntos num apartamento arrendado. Reiner parecia infeliz.

Uma vez cruzei-me com a Vitória na rua. Empurrava o carrinho, parecia cansada e envelhecida. Viu-me e desviou o olhar. Também eu passei por ela em silêncio.

Já não doía. Só sentia vazio. Vinte e cinco anos de casamento tinham acabado. A vida que eu construíra tinha desabado.

Mas eu vivia. Tinha um filho, um trabalho, um teto. Corbiniano apresentou-me a namorada. Uma rapariga simples e meiga do prédio ao lado.

Planeavam casar. Alegrei-me pelo meu filho, mas sentia uma certa amargura por dentro. Ele ia formar a própria família e eu ficaria sozinha. “Mãe, não vais ficar sozinha”, disse Corbiniano, abraçando-me.

“A Lena e eu vamos morar perto e ajudar-te. ” Acreditei nele. O meu rapaz não me trairia. Não era como o pai.

Passou um ano. Corbiniano casou. Ele e a Lena alugaram um apartamento no prédio ao lado. Todos os dias apareciam em minha casa, ajudavam nas tarefas.

A Lena revelou-se uma boa rapariga, cuidadosa e carinhosa. Aprendi a viver sem o Reiner, aprendi a não pensar nele, a não me lembrar dos vinte e cinco anos que lhe dera. Era outra vida, outro eu. Uma noite, estava sentada na cozinha a beber chá e a olhar pela janela.

A minha alma estava em paz. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia dor, nem rancor, nem ódio. Simplesmente vivia, e isso bastava. O telemóvel vibrou, uma mensagem de um número desconhecido.

Abri e li. “Tanja, a Vitória morreu. A Mariechen precisa de uma mãe. Por favor, ajuda-me.

” Olhei para o ecrã e apaguei lentamente a mensagem. Não, Reiner, já não te devo nada.