Eu estava disfarçado de empregado de mesa, com o anel de noivado no bolso, pronto para me ajoelhar diante da mulher que amava. Quando olhei para a mesa dela, o sangue gelou-me: ela não estava com…

Eu estava disfarçado de empregado de mesa, com o anel de noivado no bolso, pronto para me ajoelhar diante da mulher que amava. Quando olhei para a mesa dela, o sangue gelou-me: ela não estava com...

A música ainda ecoava nos seus ouvidos quando Tillmann se deixou cair no banco de trás do carro. Jörg conduzia assobiando, enquanto Dennis já dormitava no banco do passageiro. Mais uma festa no clube tinha terminado. Alta, divertida e absolutamente sem sentido.

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“Ei, Till, viste como aquela loira te olhava? ” Jörg espreitou pelo retrovisor. “Podias ter ido embora com ela, em vez de ficar connosco até ao fecho. ”

“Sem vontade”, respondeu Tillmann, os olhos perdidos na noite da cidade.

. “Tu nunca tens vontade, ultimamente”, resmungou Jörg. “Relaxa. A vida é uma vez só.

Tillmann não respondeu. Tinha vinte e seis anos e o mundo inteiro aos seus pés, os bolsos cheios do dinheiro do pai. Mas, por alguma razão, tudo lhe parecia vazio. Os amigos chamavam-lhe sortudo.

Talvez fosse, mas ele não o sentia. . O carro atravessava as ruas vazias de Berlim a toda a velocidade. À frente, um semáforo amarelo piscava.

“Ainda vamos passar”, disse Jörg, confiante, e acelerou. O semáforo ficou vermelho, mas já estavam no cruzamento. E foi então que uma figura surgiu na passadeira. Uma jovem num casaco simples, jeans e mala a tiracolo.

Caminhava devagar, os olhos no telemóvel. Jörg travou a fundo. O carro derrapou, os pneus chiaram e o capô parou a um metro dela. A rapariga levantou a cabeça, empalideceu e ficou imóvel.

“Idiota, olha para onde vais! ” Jörg debruçou-se pela janela, vermelho de raiva. A jovem ficou no meio da estrada, a mala apertada contra o peito. As mãos tremiam, mas os olhos faiscavam.

“Ou serás tu o idiota que comprou a carta e pensa que tudo lhe é permitido? ” gritou ela, dando um passo em frente. “Tens sorte que eu não te faço queixa! ”

Jörg já abria a porta, mas Tillmann segurou-o pelo ombro.

“Para. A culpa é tua”, disse ele, baixo mas firme. “O quê? Como assim?

Foste tu que passou o vermelho. ”

Tillmann abriu a porta e saiu. “A rapariga tem razão. Quase a atropelaste.

Jörg resmungou qualquer coisa, mas ficou no carro. Dennis acordou no banco da frente e olhou à volta, ainda sonolento. Tillmann aproximou-se da rapariga. Ela ainda estava na passadeira, a olhá-lo com desconfiança.

À luz fraca do candeeiro, ele viu o rosto dela: simples, sem maquilhagem, cabelo castanho a cair sobre os ombros. Uma rapariga normal, como centenas nas ruas, mas havia qualquer coisa no olhar dela que o prendeu. “Peço desculpa pelo meu amigo”, disse Tillmann. “A culpa foi mesmo dele.

Está ferida? ”

“Não”, respondeu ela, engolindo em seco. “Só assustada. ”

“Vejo que ainda tens um longo caminho até à residência universitária.

A esta hora, sozinha, é perigoso. ” Tillmann olhou para o carro. Jörg olhava ostensivamente para o outro lado. “Posso acompanhá-la?

A rapariga franziu a testa. “Porque haveria de querer isso? ”

“Quero compensar a culpa do meu amigo. ” Tillmann encolheu os ombros.

“Chamo-me Tillmann. ”

“Rosalie”, respondeu ela, depois de uma pausa. “Um nome bonito. ”

Ela revirou os olhos, mas um canto da boca quase se curvou num sorriso.

“É a frase mais batida que já ouvi. Umas duzentas vezes. ”

“Então digo de outra forma. O nome parece antigo, mas combina consigo.

Tillmann sorriu. “Então está combinado? ”

Rosalie hesitou, depois assentiu. “Está bem, mas sem disparates.

“Prometo ser bem-comportado. ”

Tillmann voltou ao carro. Jörg baixou o vidro. “A sério, vou a pé.

Vão sem mim. ”

“Por causa desta… ” começou Jörg, mas Tillmann cortou-o com um olhar. “Sou tão culpado como tu.

Devia ter-te travado mais cedo. ”

““Anda, entra, levamos os dois. ”

““Não, vão. ””

Jörg resmungou, mas ligou o motor.

O carro disparou, deixando um rasto de fumo. Tillmann voltou para junto de Rosalie. “Então, para que lado é? ”

Caminharam pela rua deserta.

Os primeiros minutos foram de silêncio. Tillmann olhava-lhe de soslaio. Rosalie caminhava com as mãos nos bolsos do casaco, a olhar para o chão. “Estuda?

” rompeu Tillmann o silêncio. “Sim, terceiro ano, Letras. ”

““Então gosta de livros. ”

“Amo-os.

E você? ”

““Eu curso Gestão. O meu pai acha que preciso de perceber do negócio. ”

““Acha ou obriga?

””

Tillmann sorriu de lado. “Bem visto. Obriga. Mas eu não resisto muito.

““Parece triste. ”

Rosalie olhou para ele. “Há alguma coisa que você realmente goste de fazer? ”

“Sinceramente?

Não sei. Nunca pensei nisso. ”

““Isso é estranho. ”

““Porquê?

““Porque toda a gente devia saber o que gosta. Senão, como é que se vive? ””

Tillmann pensou. Com o que vivia ele, afinal?

Festas, amigos que só eram interessantes enquanto havia dinheiro para bebidas. As ligações do pai. “E você? ” perguntou ele.

“Tem alguma coisa? ”

“Claro. Gosto de ler. De passear pela cidade.

Amo o outono e o cheiro dos livros antigos. Gosto quando chove e posso ficar em casa com uma chávena de chá. ”

Rosalie falava sem artifícios, mas havia tanta sinceridade na voz dela que Tillmann sentiu o coração aquecer. “Parece uma pessoa feliz.

““Nem sempre, mas tento ver o lado bom. ”

Viraram num parque. Os candeeiros iluminavam a avenida coberta de folhas caídas. Ao longe, um cão ladrava.

““E você? Estuda ou trabalha? ” perguntou Rosalie. ““Formalmente estudo, mas não me esforço muito.

O meu pai decide tudo por mim e eu deixo. ”

““E isso não o incomoda? ””

““Antes não”, confessou Tillmann. “Agora já não tenho a certeza.

Falaram de tudo. Filmes favoritos, música, histórias engraçadas da vida. Rosalie contou como, em pequena, tentara fugir de casa com o gato na mochila, porque os pais não a deixavam ter uma cadela. Tillmann riu tão genuinamente como não ria há muito tempo.

“E o gato acompanhou o plano de fuga? ”

““Ele miava tanto que me encontraram à entrada do prédio ao fim de cinco minutos. ” Rosalie sorriu. “Mas no fim acabámos por ter um cão.

““Manipuladora desde pequena”, gozou Tillmann. ““Estratega”, corrigiu-o ela. Chegaram à residência mais depressa do que Tillmann esperava. Ele não queria que aquela noite acabasse.

““Aqui estamos”, disse Rosalie, parando à porta. “Obrigada por me acompanhar. ”

““Posso ter o seu número? ” Tillmann deixou escapar.

Rosalie ergueu as sobrancelhas, surpreendida. ““Para quê? ”

““Para a convidar para um café, como pedido de desculpas pelo meu amigo idiota. ”

“““Já se desculpou ao acompanhar-me.

““Então, simplesmente porque achei interessante estar consigo. ” Tillmann olhou-a nos olhos. “A sério. ”

Rosalie hesitou por um momento, depois aceitou.

“Está bem. Escreva-me. ”

Tillmann guardou o número e sentiu o coração bater mais depressa. ““Escrevo-lhe amanhã”, prometeu.

““Vamos ver. ” Ela sorriu e desapareceu atrás da porta da residência. Tillmann ficou ali mais uns minutos, a olhar para as janelas iluminadas. Depois pegou no telemóvel e escreveu uma mensagem.

““Aqui é Tillmann. Boa noite, Rosalie. ””

A resposta chegou quase imediatamente. ““Boa noite.

””

Ele sorriu e foi chamar um táxi. Pela primeira vez em muito tempo, estava ansioso pelo dia seguinte. Os dias seguintes passaram como um turbilhão. Tillmann escrevia a Rosalie todos os dias.

Encontravam-se em cafés, passeavam pela cidade, iam ao cinema. Ela não pedia restaurantes caros nem presentes. A atenção dele bastava-lhe. Ao fim de um mês, ele sabia que estava apaixonado.

Pela primeira vez na vida, a sério. Rosalie era diferente das raparigas do seu círculo. Não jogava jogos, não se fazia de difícil. Era verdadeira, simples e honesta.

A relação durou um ano, o melhor ano da vida de Tillmann. Ele esqueceu as festas sem sentido, deixou de sair tanto com os amigos. Jörg gozava, chamava-lhe “homem do avental”. Mas Tillmann não se importava.

Pediu-a em casamento exatamente no sítio onde se tinham conhecido. Rosalie chorou e assentiu, sem conseguir dizer palavra. ““Amo-te”, sussurrou Tillmann, colocando-lhe o anel no dedo. ““Amo-te”, respondeu ela, entre lágrimas.

Faltava apresentá-la aos pais. Tillmann não estava preocupado. Tinha a certeza que eles haviam de gostar de Rosalie. Como não gostar de uma rapariga assim?

Mas enganou-se. Chegaram ao domingo à propriedade da família, nos arredores de Berlim. Rosalie estava nervosa, a mexer na bainha do vestido. Tillmann pegou-lhe na mão.

““Vai correr tudo bem, prometo. ””

O pai recebeu-os na sala. A mãe estava no sofá, com um copo de vinho. Ambos olharam para Rosalie como se ela tivesse trazido lama para o tapete caro.

““Então é esta? ”, perguntou o pai, frio. ““Sim, apresento-lhe Rosalie. A minha noiva.

” Tillmann abraçou-a pelos ombros, orgulhoso. ““Noiva”, repetiu a mãe, com um sorriso gelado. “Tillmann, precisamos de falar a sós. ”

““Sobre quê?

Quero que Rosalie fique. ”

““Não está em questão. ” O pai ergueu a voz. “Vai para o hall, já.

Tillmann cerrou os punhos, mas obedeceu. Rosalie ficou na sala, pálida e confusa. No hall, o pai virou-se para ele. ““Estás doido?

Noivar-te com essa pessoa simples? ”

““Não fales assim dela. ”

““Falo como acho que devo. És meu filho, meu herdeiro.

Precisas de uma mulher do nosso meio, de boa família, com educação, contactos, dinheiro. Não de uma miúda de residência universitária. ”

““Não me interessam os teus contactos. Amo-a.

““Amor”, bufou o pai. “És novo e estúpido. O amor passa, mas a mulher certa fica para sempre. ”

““Vou casar com Rosalie.

Com a tua bênção ou sem ela. ”

O pai ficou vermelho de raiva, mas não chegou a responder. Da sala veio um barulho. Tillmann precipitou-se para dentro.

Rosalie estava no meio da divisão, lágrimas no rosto. A mãe continuava sentada, fria e indiferente. ““O que lhe disseste? ”, perguntou Tillmann.

““A verdade”, respondeu a mãe, calma. “Que és bom demais para ela e que ela sabe disso. ”

Rosalie olhou para ele com os olhos cheios de dor. ““Perdoa-me!

”, sussurrou ela. “Não posso. ”

E fugiu de casa. Rosalie!

Tillmann correu atrás dela, mas ela já descia o caminho em direção ao portão. ““Espera, fica! ””

Ela não parou. Corria para a estrada, sem olhar para trás.

No instante seguinte, chiaram travões e ouviu-se um baque surdo. Tillmann ficou paralisado. O tempo parou. Viu Rosalie cair no asfalto, ouviu o próprio grito.

Correu até ela, ajoelhou-se ao lado, levantou-a nos braços. Os olhos dela estavam abertos, mas já vazios. ““Não, não, não”, sussurrou ele. “Rosalie, por favor não vás, suplico-te.

Mas ela já não o ouvia. A ambulância chegou ao fim de dez minutos, mas já era tarde demais. Tillmann não se lembrava de como tinha chegado a casa, nem de como a semana tinha passado. Tinha caído num buraco negro de onde não havia saída.

No funeral, esteve sozinho. Os pais não vieram. Os amigos murmuraram condolências e foram-se embora. Ficaram só ele e o monte de terra com uma cruz de madeira.

““Perdoa-me”, sussurrou Tillmann. “A culpa é minha. Levei-te até eles. Não te protegi.

Fez um voto: nunca mais falar com os pais. E provar ao mundo, sozinho, que conseguia tudo sem o dinheiro deles, sem os contactos deles. Para honrar a memória de Rosalie. Quinze anos passaram como um longo suspiro.

Tillmann estava diante do espelho do seu apartamento, a apertar a camisa. Estava na idade em que um homem já não é jovem, mas ainda não é velho, com bagagem de vitórias e derrotas e um futuro nebuloso que já não parecia infinito. Pegou na mesinha de cabeceira um ramo de rosas brancas. Exatamente as que Rosalie mais gostava.

Tillmann lembrava-se de ela dizer que as rosas brancas simbolizavam a pureza e a eternidade. Na altura, ele rira do romantismo dela. Agora, levava-lhe um ramo todas as semanas. Saiu de casa, entrou no carro preto e atravessou Berlim.

As ruas passavam irreconhecíveis. Prédios novos, centros comerciais, cruzamentos. A cidade crescia e mudava, enquanto Tillmann parecia congelado naquele dia distante em que a perdera. Naqueles quinze anos, não tinha tido mais nenhuma relação.

Mulheres tentavam chamar-lhe a atenção em reuniões de negócios, em restaurantes, na rua. Empresário de sucesso, milionário, que construíra o império do zero, um solteirão cobiçado. Mas Tillmann afastava todas com indiferença polida. O coração estava enterrado com Rosalie e ele não pensava em desenterrá-lo.

Até conhecer Viviane. Isso acontecera três meses antes, num pequeno café onde ele entrara por acaso. Ela estava sentada à janela, com um livro nas mãos, e a luz do sol caía sobre o cabelo castanho, fazendo-o brilhar dourado. Tillmann ficou paralisado.

O coração saltou uma batida. O perfil, a linha do pescoço, até a forma como franzia os lábios ao ler. Tudo lhe lembrava Rosalie. Ele aproximou-se da mesa dela, sem saber o que fazia.

““Com licença, está livre? ””

A rapariga ergueu os olhos. Castanhos, com brilhos dourados, como os de Rosalie. ““Sim, sente-se.

A voz dela era suave, calma. Conversaram. Viviane era tradutora freelancer, amava livros antigos e longos passeios. Sorria com o mesmo sorriso simples e aberto, ria com a mesma facilidade e sinceridade.

A cada encontro, Tillmann ficava mais convencido de que o destino lhe estava a dar uma segunda oportunidade. Viviane era como bálsamo para a alma ferida dele. Ao lado dela, ele começava a descongelar, a voltar à vida. As muralhas que construíra durante quinze anos começavam a esboroar-se.

Mas cada vez que beijava Viviane, via o rosto de Rosalie. Cada vez que lhe segurava na mão, lembrava-se da outra, fria e sem vida no asfalto. A culpa não o largava. Não sabia se tinha direito à felicidade, se Rosalie o perdoaria se ele amasse outra.

O cemitério ficava nos arredores da cidade, num sítio tranquilo entre árvores antigas. Tillmann estacionou ao portão e percorreu o caminho familiar. Os pés conheciam-no de cor. Tinhá-o percorrido centenas de vezes.

A campa de Rosalie estava cuidada. Tillmann contratava pessoas para a manterem. Mármore branco com a fotografia dela. Na imagem, ela sorria com exatamente o sorriso que um dia virara o mundo dele do avesso.

Tillmann ajoelhou-se e colocou o ramo junto ao monumento. Os dedos tremiam. Passou a mão sobre a pedra fria, sobre as letras gravadas do nome dela. ““Olá, meu amor”, sussurrou.

“Perdoa a demora. Muito trabalho, mas isso não é desculpa, eu sei. ”

O vento sussurrava nas folhas acima. Ao longe, um corvo grasnou.

Tillmann respirou fundo. A garganta apertou. ““Preciso de falar contigo sobre uma coisa importante. ””

Fez uma pausa, à procura das palavras.

Cada uma custava, como se tivesse de arrancá-la do fundo da alma. ““Conheci uma rapariga. ””

Ao dizer aquilo em voz alta, Tillmann sentiu algo desmoronar-se dentro de si. Baixou a cabeça, sem conseguir olhar para a fotografia.

““Ela lembra-me tanto de ti, Rosalie, percebes? Tão simples, tão leve, tão positiva. Até o cabelo se ondula como o teu. Quando a vi pela primeira vez, pensei por um momento que eras tu, que tinhas voltado.

Lágrimas subiram-lhe aos olhos. Tillmann cerrou os punhos, a tentar conter as emoções que ameaçavam transbordar. ““Sei que parece loucura. Sei que nunca vais voltar.

Mas quando estou com ela, consigo voltar a respirar. Conseguir viver, e não apenas existir. ”

Lágrimas escorriam-lhe pelas faces. Ele não as conteve.

Ali, sozinho com a memória de Rosalie, não precisava de ser forte. ““Quinze anos, Rosalie. Quinze anos sem deixar ninguém chegar perto. Pensei que era o certo, que devia ser-te fiel.

Mas agora, já não sei. Talvez esteja apenas cansado de estar sozinho. ””

As mãos tremiam mais. Tillmann limpou o rosto, esfregando as lágrimas.

““Sinto-me como um traidor”, confessou, baixinho. “Cada vez que olho para Viviane, quando rimos juntos ou simplesmente nos sentamos em silêncio, sinto que te estou a trair, que estou a trair o nosso amor, tudo o que tivemos. ”

O vento ficou mais forte, folhas rodopiaram no ar. Tillmann levantou a cabeça e olhou para a fotografia.

Rosalie sorria para ele, como sempre, quente, bondosa,o sorriso que um dia aquecera os dias frios dele. ““No fundo, ainda carrego esta culpa”, continuou, a voz a quebrar. “Fui eu que causei a tua morte, Rosalie. Sei disso.

Levei-te até eles, até aos meus pais. Não te protegi do veneno deles. ”

Fechou os olhos com força e a cena voltou-lhe diante dos olhos. O rosto frio e desdenhoso da mãe, as palavras do pai que cortavam como facas, e Rosalie pálida e a tremer, lágrimas no rosto.

Se aquele dia tivesse sido diferente, sussurrou Tillmann, se te tivesse travado, se não te tivesse levado até eles, estarias viva. Rosalie, estarias comigo. Estaríamos juntos. Lágrimas corriam-lhe pelo rosto, mas ele já não as sentia.

Toda a dor que acumulara durante quinze anos vinha ao de cima. ““Naquele dia, cortei relações com eles”, disse ele. “Com os meus pais. Saí da casa deles e nunca mais voltei.

Construí a minha empresa do zero, sem o dinheiro deles, sem os contactos deles. Quis provar-lhes que tinha razão, que eras digna de mim, que poderíamos ter sido felizes. ”

Ficou em silêncio, a olhar para a campa. O coração batia-lhe na garganta.

““Mas agora tenho outra vez uma hipótese de ser feliz. Não sei o que fazer, Rosalie. Não sei se tenho direito a isso, se posso amar outra pessoa, se tu morreste por minha causa. ””

Tillmann caiu de joelhos, como em oração.

““Quero saber o que achas de eu me casar com ela. Se fores contra, diz-me. Dá-me um sinal. Peço-te.

””

Silêncio, apenas o sussurro das folhas e o tráfego distante da cidade. Tillmann fechou os olhos e esperou. Ele próprio não sabia pelo quê. Por uma voz, uma visão, um milagre.

E, de repente, bem perto, um pássaro começou a cantar. Claro, brilhante, cheio de vida. Tillmann virou-se bruscamente. Num ramo, a poucos metros, estava um pequeno pássaro de plumagem avermelhada, a trinar.

O canto era tão repentino e luminoso no silêncio do cemitério que o coração de Tillmann acelerou. Ele olhou para o pássaro, incapaz de desviar o olhar. O pássaro cantava e cantava, como se fosse só para ele, e naquele canto ele ouviu algo: não palavras, mas um sentimento, calor, perdão, bênção. ““És tu?

”, sussurrou Tillmann, e novas lágrimas escorreram. “Estás a responder-me? ”

O pássaro terminou o canto e voou, desaparecendo entre os ramos. Tillmann seguiu-o com o olhar e sentiu, pela primeira vez em anos, o peso cair-lhe dos ombros.

A culpa não desapareceu. Nunca desapareceria. Mas ele compreendeu que tinha direito de continuar a viver. Direito à felicidade.

Rosalie não o prendia. Ela soltava-o. ““Obrigado, meu amor”, sussurrou ele, entre lágrimas. “Obrigado por me dares esta hipótese.

Ficarás para sempre no meu coração, para sempre. Nunca te vou esquecer. ”

Levantou-se, sentindo-se vazio e, ao mesmo tempo, pleno. Passou a mão pela pedra de mármore uma última vez.

““Virei sempre aqui e contar-te-ei sobre ela. Sobre Viviane. Quero que saibas que sou feliz, que finalmente encontrei paz. ””

Tillmann ficou mais um pouco, a olhar para a fotografia.

Rosalie sorria e pareceu-lhe que o sorriso estava ainda mais quente. Talvez fosse imaginação, talvez um jogo de luz. Mas ele acreditou que ela o tinha ouvido, que tinha compreendido. Virou-se e foi caminhando lentamente em direção à saída.

Cada passo era mais leve que o anterior. O peso que carregara durante quinze anos ainda pressionava. Mas agora Tillmann sabia que conseguia viver com ele. Conseguia voltar a amar, sem trair a memória de Rosalie.

Ao portão do cemitério, virou-se uma última vez. A pedra branca via-se ao longe, entre as árvores. Tillmann ergueu a mão em despedida. Até breve, Rosalie.

Entrou no carro e ligou o motor. Passou pelos túmulos, pelas árvores antigas, pelas flores de outono. Tillmann seguiu para a autoestrada, em direção ao centro da cidade, para o escritório, para a vida que construíra sozinho, para um futuro que já não parecia tão ameaçador. No semáforo, Tillmann olhou para o retrovisor, para o próprio reflexo.

Cãs nas têmporas, rugas à volta dos olhos, olhar cansado. Metade da vida passada. Mas a segunda metade ainda estava diante dele, e ele não queria passá-la sozinho. Pegou no telemóvel e escreveu a Viviane.

““Olá, como estás? ””

A resposta chegou quase imediatamente. “Tudo ótimo. Estou a trabalhar.

Tillmann sorriu e pousou o telemóvel no banco do passageiro. O semáforo ficou verde e ele seguiu. A cidade passava pelas janelas, viva, barulhenta, cheia de gente. Tillmann já não se sentia estranho entre eles.

Voltava a pertencer àquele mundo. O edifício do escritório surgiu, alto, de vidro, com o logótipo da empresa na fachada. Tillmann entrou na garagem e desligou o motor. Ficou sentado um momento, a reunir forças.

“Vou conseguir, Rosalie”, sussurrou ele no vazio do carro. “Vou ser feliz por nós os dois. ”

O elevador subiu. Tillmann olhou para as portas espelhadas, endireitou a gravata.

Ainda sentia a leveza da conversa no cemitério, como se uma pedra enorme tivesse caído da alma. As portas abriram e ele entrou no amplo corredor do escritório. A secretária na receção sorriu-lhe. ““Bom dia, Senhor Lübert.

””

““Bom dia, Anna. ””

Ele passou em direção ao gabinete. Mas antes de dar dez passos, Ren surgiu à sua volta. O assistente parecia agitado.

Gravata torta, cabelo desalinhado, pasta na mão. ““Chefe, reunião importante daqui a quinze minutos. ”” Ren agarrou-o pelo cotovelo. “Já pensava que não vinhas.

““Onde estiveste? ””

Tillmann olhou para o relógio. Diabos, tinha mesmo demorado. ““Desculpa, atrasei-me um pouco.

”” Sorriu tão abertamente que Ren parou e o olhou com incredulidade. ““Estás a sorrir”, disse o assistente, devagar, como se não pudesse acreditar. “Tillmann, aconteceu alguma coisa que eu não saiba? ”

Entraram no gabinete.

Tillmann fechou a porta e foi até à janela, a olhar para a cidade lá em baixo. Arranha-céus, ruas, um formigueiro humano. A sua cidade, a sua vida. ““Sim”, disse ele, finalmente, virando-se para o amigo.

“Tomei uma decisão. Quero pedir Viviane em casamento. ”

Ren ficou paralisado, com a pasta na mão. A boca abriu.

““O quê? ”, exclamou. “Uau. ” Aproximou-se e deu uma palmadinha no ombro de Tillmann.

Mas nos olhos dele não havia só surpresa, havia algo como preocupação. ““Tens a certeza? ”, perguntou Ren, baixinho. “É um passo enorme.

Estive sozinho durante quinze anos. ”

Tillmann sorriu de novo. ““Acho que está na hora de seguir em frente. Rosalie teria querido isso.

””

Ren assentiu, mas o rosto permaneceu tenso. ““Bem, parabéns, amigo. Mas agora tens de te concentrar. Estes investidores são a nossa hipótese de chegar ao próximo nível.

Pronto? ””

““Pronto. ”” Tillmann pegou na pasta da apresentação. “Vamos.

Sairam do gabinete e percorreram o corredor em direção à sala de reuniões. Pelo caminho, Ren resumiu os pontos principais. ““O investidor principal é Viktor Sergejewitsch Krasnov. Duro, direto, não tem tempo para conversa fiada”, disse ele, a andar.

“Vêm mais três com ele. A diretora financeira, o advogado e um consultor. Estão interessados, mas querem ouvir coisas concretas. Números, prazos, garantias.

““Tenho tudo isso”, garantiu Tillmann. ““Sei, mas vão pressionar, procurar pontos fracos. Fica de sobreaviso. ””

Pararam diante da sala de reuniões.

Através da porta de vidro, Tillmann viu a mesa comprida. Cadeiras de couro, projetor no teto, ecrã na parede, jarras de água e copos. Tudo pronto. ““Dá-me um minuto”, pediu.

Ren assentiu e afastou-se, pegando no telemóvel. Tillmann encostou-se à parede e fechou os olhos. Aquele contrato significava mais do que dinheiro ou expansão. Era a hipótese de ultrapassar definitivamente o pai, de provar que não era apenas o filho de um pai rico.

Tinha construído a empresa do zero e estava pronto para superar o império do pai. Otto Lübert ainda era uma figura influente nos círculos de negócios. A empresa dele prosperava, mas vinha a perder terreno nos últimos anos. A concorrência crescia, o mercado mudava e o velho não acompanhava.

Tillmann sabia isso, e aquele contrato podia ser o último prego no caixão do negócio do pai. ““Estão aqui. ”” A voz de Ren tirou-o dos pensamentos. Tillmann abriu os olhos e assentiu.

Entraram e sentaram-se. Um minuto depois, a porta abriu e os investidores entraram. Viktor Sergejewitsch Krasnov era um homem à volta dos cinquenta, com cãs nas têmporas e um olhar penetrante. Movia-se com confiança.

Cada gesto transpirava poder e controlo. Atrás dele, três pessoas. Uma mulher de meia-idade num tailleur sóbrio, um jovem com tablet e um senhor mais velho com uma pasta. ““Senhor Lübert.

”” Krasnov estendeu a mão. O aperto era firme, quase agressivo. ““Viktor Sergejewitsch, é um prazer vê-lo. ”” Tillmann retribuiu com igual firmeza.

Sentaram-se. Ren sentou-se ao lado de Tillmann e dispôs os documentos. A tensão no ar era palpável. ““Então, Senhor Lübert”, começou Krasnov, recostando-se.

“Prometeu-nos um projeto que vai revolucionar o mercado. Estamos interessados, mas queremos ouvir detalhes, sem rodeios, apenas factos. ”

Tillmann ligou o projetor. No ecrã, apareceu o primeiro slide com o logótipo da empresa e o nome do projeto.

““O projeto chama-se Horizonte”, começou ele, confiante. “Uma plataforma abrangente para a automatização de processos logísticos. Oferecemos uma solução que reduz os custos das empresas em 30% e acelera os prazos de entrega em 50%. ”

““Ambicioso”, observou a diretora financeira.

“Mas como pensa implementá-lo? ”

““Através da integração de inteligência artificial e aprendizagem automática. ”” Tillmann mudou para o slide com o diagrama do sistema. “A nossa plataforma analisa milhões de dados em tempo real, otimiza rotas, prevê atrasos, redistribui recursos automaticamente.

Nos quarenta minutos seguintes, explicou o lado técnico. Krasnov ouviu com atenção, fazendo perguntas ocasionais. Tillmann respondia com precisão, sem hesitar. Conhecia o projeto de cor e salteado.

Cada número, cada nuance. ““Quanto precisa para o arranque? ”, perguntou Krasnov, quando Tillmann terminou a parte técnica. ““Cinquenta milhões de euros”, respondeu Tillmann sem hesitar.

“Vinte para desenvolvimento, quinze para testes e quinze para marketing e divulgação. ”

““Muito dinheiro. ”” O advogado franziu a testa. “Que garantias dá aos investidores?

““Garantimos o retorno do investimento dentro de três anos, com uma rentabilidade mínima de 80%. ”” Tillmann mudou para o slide com as projeções financeiras. “Os nossos cálculos baseiam-se em estimativas conservadoras do mercado. A rentabilidade real pode ser o dobro.

Krasnov aproximou-se da mesa e estudou os gráficos. ““Já tem clientes? ””

““Sim. Três grandes empresas de logística estão prontas para serem utilizadores piloto.

Contratos assinados. ””

““Mostre-me. ””

Ren passou-lhe a pasta. Krasnov folheou rapidamente e entregou-a ao advogado.

Este mergulhou na leitura, fazendo anotações ocasionais. Tillmann sentiu a adrenalina. Era como póquer com apostas de milhões e o futuro da empresa em jogo. Não podia perder.

““E a concorrência? ”, perguntou a diretora financeira. “Já existem soluções semelhantes no mercado. ”

““Existem”, concordou ele.

“Mas são ou demasiado caras ou não suficientemente eficientes. O nosso produto alia preço e qualidade. Fizemos uma análise comparativa. ”” Mostrou o slide seguinte, com uma tabela.

Krasnov estudou os números e Tillmann viu o interesse acender nos olhos dele. ““Bem”, disse Krasnov, finalmente,“mas há um ponto. Ouvi dizer que o seu pai, Otto Lübert, está a desenvolver um projeto semelhante. É verdade?

O ar na sala ficou pesado. Tillmann hesitou um segundo, mas recuperou rapidamente. ““É verdade”, respondeu, calmo. “Mas o projeto dele está pelo menos dois anos atrasado.

Estamos à frente em todos os parâmetros. ”

““Você e o seu pai são concorrentes. ”” Havia curiosidade na voz de Krasnov. ““Não falamos há quinze anos.

”” Tillmann olhou-o diretamente nos olhos. “Construí a minha empresa sem a ajuda dele e, sim, quero ultrapassá-lo. Essa é a minha motivação. ”

Krasnov sorriu.

““Sincero, gosto disso. Continuemos. ””

As duas horas seguintes foram de discussões acesas. Os investidores faziam perguntas difíceis, procuravam pontos fracos, regateavam prazos e condições.

Tillmann manteve-se soberano, rebatia cada ataque, fundamentando com números e factos. Ren ajudava, passando documentos, esclarecendo detalhes. Em dado momento, o advogado levantou a questão do risco. ““E se a tecnologia não funcionar como promete, quem assume os prejuízos?

””

““Estamos dispostos a assumir parte dos riscos”, respondeu Tillmann. “Se os indicadores ficarem abaixo do prometido, reembolsamos 20% do investimento com fundos próprios. ”

Krasnov ergueu uma sobrancelha. ““Está assim tão confiante?

””

““Absolutamente. ””

““Declaração ousada. ””

““Não gosto de perder, Viktor Sergejewitsch. ””

Krasnov riu e recostou-se.

““Gosto disso. Faz-me lembrar de mim em jovem. Ambicioso, faminto por sucesso. ””

Tillmann ficou em silêncio, mas interiormente triunfava.

Sabia que as negociações corriam na direção certa. Ainda passou mais uma hora em detalhes jurídicos. Finalmente, o advogado fechou a pasta e assentiu para Krasnov. Este trocou olhares com os seus, que também assentiram.

““Senhor Lübert. ”” Krasnov levantou-se e estendeu a mão por cima da mesa. “Vamos assinar este contrato. ”

O coração de Tillmann deu um salto.

Levantou-se e apertou a mão, esforçando-se por não mostrar a alegria interior. ““Obrigado pela confiança, Viktor Sergejewitsch. Não se vai arrepender. ””

““Esperemos.

Os meus juristas contactam-no amanhã. Preparamos tudo para a assinatura. ””

““Excelente. ””

Trocaram mais algumas palavras, esclareceram detalhes e os investidores saíram.

A porta fechou e Tillmann finalmente pôde relaxar. Afundou-se na cadeira e deitou a cabeça para trás. Olhos fechados. ““Conseguimos”, sussurrou.

Ren deu-lhe uma palmadinha no ombro. ““Foste brilhante, amigo. Simplesmente brilhante. ””

““Fomos brilhantes”, corrigiu Tillmann, abrindo os olhos.

“Sem ti, não tinha conseguido. ”

““Não digas disparates, isto é a tua vitória. ””

Tillmann levantou-se e foi até à janela. A cidade brilhava lá em baixo à luz do entardecer.

Sentia-se no topo do mundo. Aquele contrato abria novos horizontes. Agora podiam expandir internacionalmente, contratar os melhores profissionais. E, acima de tudo, tinha finalmente ultrapassado o pai.

A empresa dele tornar-se-ia líder de mercado, e o império de Otto Lübert ficaria para trás. ““Sabes no que estou a pensar? ”, perguntou Tillmann, sem se virar. ““Em quê?

””

““No meu pai. Será interessante ver o que ele diz quando souber. ””

““Ele não vai ficar contente”, sorriu Ren. “Mas esses são problemas dele.

A culpa é dele. ”

““Sim, ele é o culpado de tudo. ””

Ficaram em silêncio. Ren começou a recolher os documentos.

Tillmann continuava à janela, perdido em pensamentos. ““Então queres mesmo avançar com isso? ”, perguntou Ren, finalmente, sem tirar os olhos dos papéis. ““Com a Viviane, queres dizer?

””

““Sim. ””

Tillmann virou-se. ““Vou pedi-la em casamento. ””

Ren endireitou-se e olhou para o amigo.

No olhar dele, havia uma preocupação que tentava esconder. ““Ouve, Tillmann, sou teu amigo e desejo-te felicidade. ””

““A sério? Mas…

mas o quê? ””

Ren suspirou e pousou a pasta. ““Vejo Rosalie em Viviane”, disse Tillmann, interrompendo-o. ““Percebes?

Ela é igualmente bondosa, simples, sincera. Não posso simplesmente deixá-la ir. ””

““É exatamente isso que me preocupa”, Ren abanou a cabeça. “Ela é demasiado parecida, demasiado.

Tens a certeza de que amas a ela, e não a imagem de Rosalie que vês nela? ””

Tillmann franziu a testa. ““Do que estás a falar? ””

““De que passaste quinze anos de luto, quinze anos a sentir-te culpado pela morte de Rosalie, e de repente aparece uma mulher que parece uma cópia dela.

Não achas isso suspeito? ””

““Estás a dizer que a estou a usar? ”” A voz de Tillmann ficou mais cortante. ““Não”, respondeu Ren rapidamente.

“Acho que tu próprio não sabes o que estás a fazer. Queres tanto a Rosalie de volta que te agarras a qualquer mulher que se pareça com ela. ”

““Estás enganado. ”” Tillmann aproximou-se da mesa e apoiou as mãos nela.

“Viviane não é uma substituta. Ela é ela própria, e eu amo-a. ”

““Tens a certeza? ””

““Absoluta.

””

Ren olhou-o de forma penetrante, depois assentiu. ““Bem, se dizes isso, acredito em ti. Mas tem cuidado, amigo. O passado adora voltar.

““Sei o que estou a fazer”, disse Tillmann, firme, mas algo se remexeu lá dentro. As palavras de Ren instalaram-se. E se ele tivesse razão? E se Tillmann estivesse realmente à procura de Rosalie em Viviane?

E se estivesse a enganar-se a si próprio? Não, ele amava Viviane. Tinha a certeza. Rosalie dera-lhe um sinal aquela manhã.

O pássaro, o canto, a sensação de calor e perdão. Tudo aquilo era real. Ele não se estava a enganar. ““Tenho de ir”, disse Tillmann, dirigindo-se à porta.

“Comprar um anel. ”

““Boa sorte. ”” Ren sorriu, mas o sorriso pareceu forçado. Tillmann saiu da sala de reuniões e foi para o elevador.

O dia tinha sido cheio de vitórias. O contrato, a decisão do pedido, a sensação de que a vida finalmente seguia na direção certa. Mas as palavras de Ren não o deixavam em paz. Ele abanou a cabeça e afastou os dúvidas.

Tudo ia correr bem. Viviane era o futuro dele. Rosalie, o passado que ele honrava, mas que precisava de largar. Tillmann estava diante do espelho do vestiário do restaurante,a vestir a camisa branca de empregado de mesa.

Os dedos tremiam tanto que mal conseguia apertar os botões. A gravata borboleta preta estava ao lado, na mesa. ““Acalma-te”, sussurrou ao reflexo. “É só um pedido de casamento.

O pedido mais importante da tua vida. ”

Tirou do bolso do casaco uma pequena caixa de veludo e abriu-a. O anel brilhava à luz da lâmpada, ouro branco com um brilhante, elegante e sóbrio, exatamente como Viviane haveria de gostar. Tinha-o comprado à tarde na melhor joalheria de Berlim e quase duas horas para escolher.

Tillmann passou o dedo pela caixa, verificando se fechava bem. O coração batia-lhe na garganta. Imaginou-se a ir até à mesa, a ajoelhar-se diante de Viviane, a abrir a caixa, a vê-la soltar um suspiro, a levar as mãos à boca, a chorar de alegria e a dizer sim. Tinhá ensaiado aquela cena cem vezes nas últimas horas.

““Tudo vai correr perfeitamente”, disse para si mesmo, guardando a caixa no bolso interior do colete. “Ali fica segura e não atrapalha o trabalho. ”

O plano era simples e romântico. Viviane tinha combinado encontrar-se com a amiga Olívia naquele restaurante às 19h.

Tillmann soubera disso por acaso, quando ela o mencionou numa conversa. A ideia surgira imediatamente. Disfarçar-se de empregado e fazer o pedido ali mesmo, diante de todos os clientes. Viviane adorava gestos românticos, e aquele havia de ser o momento mais inesquecível da vida dela.

Tillmann tinha falado com o dono do restaurante, um velho conhecido de negócios. Ele ajudara entusiasmado, oferecendo até champanhe por conta da casa e música ao vivo. Tudo estava planeado ao detalhe. Tillmann vestiu o colete preto e, finalmente, conseguiu apertar a gravata borboleta.

Olhou-se ao espelho. Parecia bastante convincente. Só tinha tirado o relógio caro, para não chamar a atenção. A porta abriu um palmo e o gerente do restaurante espreitou.

““Senhor Lübert, a sua noiva acabou de chegar. Está sentada à mesa da janela, como pediu. . ”

““Sozinha, ainda sozinha”, precisou Tillmann.

““Disse que estava à espera de um convidado. ””

““Perfeito. Saio daqui a cinco minutos. ””

O gerente assentiu e fechou a porta.

Tillmann verificou mais uma vez se o anel estava lá. A caixa estava segura no bolso. Respirou fundo e tentou controlar o tremor. ““Consegues”, disse para si.

“Rosalie deu-te a bênção dela. Viviane ama-te. Tudo vai correr bem. ””

Saiu do vestiário e entrou na sala principal.

O restaurante estava cheio, quase todas as mesas ocupadas, luz baixa, música suave, cheiro a comida requintada. A atmosfera perfeita para um pedido de casamento. O gerente ia à frente e indicava o caminho, embora Tillmann soubesse onde ficava a mesa de Viviane. Tinham combinado que primeiro outro empregado a atenderia.

Anotar o pedido, trazer as bebidas, e depois de uns vinte minutos, quando a amiga chegasse e começassem a conversar, Tillmann apareceria. O fator surpresa era o mais importante. ““Ali está a mesa dela”, disse o gerente, acenando para a janela. Tillmann olhou e ficou paralisado.

O coração parou e depois disparou. À mesa estava, de facto, Viviane, num lindo vestido de verão, cabelo solto. Mas à frente dela não estava a amiga Olívia. À frente dela estava Otto Lübert, o pai dele.

Tillmann sentiu o chão fugir-lhe dos pés. O que estava ele ali a fazer? Porque estavam os dois juntos? ““Senhor Lübert, está tudo bem?

”, perguntou o gerente, preocupado. “Está muito pálido. ”

““Sim, está tudo bem”, murmurou Tillmann. “Só estou nervoso.

““Compreensível. Boa sorte. ””

O gerente afastou-se e Tillmann ficou parado, incapaz de se mexer. Olhou para a mesa e tentou compreender o que se passava.

Viviane e o pai dele conversavam calmamente, sem tensão, como velhos conhecidos. Tillmann deu um passo em frente, depois outro. Precisava de ouvir sobre o que falavam. Aproximou-se, mas sem ser notado.

Por sorte, a mesa ao lado acabava de ficar livre. Tillmann dirigiu-se rapidamente para lá e fingiu estar a arrumar a loiça, empilhando pratos numa bandeja. Estava perto o suficiente para ouvir tudo. Viviane riu de algo que o pai dissera.

Otto Lübert também sorriu. Aquele sorriso frio e calculista que Tillmann conhecia tão bem. ““Viviane, está a desempenhar o seu papel na perfeição”, disse o pai. A voz dele era suave, quase carinhosa.

““Na verdade, não é assim tão fácil representar a mulher simples”, sorriu Viviane, provando o vinho. “É preciso estar sempre atenta, conter-se, quando o que se quer é vestir bem, fingir que se amam coisas simples. Mas o seu filho vale a pena. ”

O mundo de Tillmann começou a desmoronar-se.

Um prato escapou-lhe da mão e caiu com estrondo na mesa. Ele nem notou. Toda a atenção estava na conversa da mesa ao lado. ““Não se preocupe, não falta muito”, sorriu Otto Lübert, recostando-se.

“Ouvi dizer que ele vai pedi-la em casamento, portanto pode tirar a máscara em breve. Ele está perdidamente apaixonado por si. ”

““Então estou no caminho certo. ”” Viviane assentiu, serena.

“Depois do casamento, tenho acesso às contas dele, como combinado. Naturalmente, 50% de tudo o que ele ganhou nestes anos. O resto, eu trato de arranjar. ”

““O meu filho jogou durante demasiado tempo ao grande empresário.

Está na hora de lhe mostrar quem manda nesta família. ””

Viviane riu. Aquele riso, que Tillmann antes achara tão doce e sincero, agora cortava-lhe os ouvidos como uma faca. ““Você é um génio, Otto, por ter planeado tudo isto.

Encontrar uma rapariga que se parecesse com a falecida noiva dele, treinar-me para representar o papel. Não foi fácil, mas o resultado vale a pena. ””

““Conheço o meu filho”, disse o pai, frio. “Ele é sentimental.

Sempre soube que o único caminho através das muralhas dele era pelo passado. Rosalie era o ponto fraco dele, e você, minha cara, tornou-se a arma perfeita. ””

Tillmann ficou como petrificado. As mãos tremiam tanto que deixou cair a bandeja.

Ela caiu com estrondo no chão. Pratos partiram, copos rolaram. A sala inteira virou-se para o barulho. Viviane e Otto também viraram a cabeça.

Por um momento, os olhares cruzaram-se. O pai empalideceu. Viviane abriu a boca, mas nenhum som saiu. Tillmann olhou para ambos, para o pai que odiara durante quinze anos, e para a mulher com quem se queria casar.

Na cabeça dele, fragmentos de conversa giravam: representar o papel da mulher simples… perdidamente apaixonado… 50% de tudo… a arma perfeita…

Tudo tinha sido mentira desde o início. O encontro no café, as conversas, o sorriso dela, a ternura dela. Tudo um esquema cuidadosamente planeado. O pai tinha encontrado uma rapariga que se parecia com Rosalie, tinha-a treinado, tinha-lha apresentado, e ele tinha caído como um idiota.

A raiva varreu-o como uma onda, cega e avassaladora. Tillmann arrancou a gravata borboleta e atirou-a ao chão. Atravessou os pratos partidos, os cacos, os olhares espantados dos clientes, até à mesa deles. ““Tillmann”, começou Viviane, levantando-se, mas ele nem a olhou.

Foi diretamente para o pai. Otto Lübert também se levantou, tentando manter a dignidade, mas nos olhos dele tremulava medo. ““Filho, vamos conversar com calma. ””

Tillmann não o deixou terminar.

O punho bateu-lhe na cara com toda a força. O golpe foi tão forte que Otto cambaleou e derrubou a cadeira. Caiu no chão e levou a mão ao lábio rasgado. Sangue escorria entre os dedos.

““Foste tu que planeaste tudo isto? ”, gritou Tillmann. Havia tanta dor na voz dele que Viviane recuou. ““Tu encontraste-a.

Tu obrigaste-a a representar este papel. ””

Tillmann, por favor, ouve-me. Viviane estendeu a mão, quis tocar-lhe. Ele virou-se bruscamente para ela.

Nos olhos dele, ardiam raiva e dor. ““E tu? ”” Olhou para ela com tanto desprezo que ela recuou. As palavras ficaram-lhe presas na garganta.

Não conseguia dizer tudo o que queria. Porque se começasse, haveria de gritar, de chorar, e ele não lhes queria dar esse prazer. À volta, uma multidão tinha-se formado. Empregados, o gerente, clientes, todos olhavam chocados para a cena.

Alguns já tiravam os telemóveis para filmar. Tillmann virou-costas e dirigiu-se rapidamente para a saída. Pelo caminho, arrancou o colete de empregado e atirou-o ao chão. O avental seguiu.

Sentia tudo a ferver lá dentro, a querer sair. Precisava de sair dali. Já. Tillmann, espera, gritou Viviane, mas ele não se virou.

Empurrou a porta e saiu para a rua. O ar frio da noite bateu-lhe na cara. Tillmann respirou fundo, mas não ajudou. O peito estava apertado.

Não chegava ar. Deu uns passos e agarrou-se ao poste de iluminação, tentando recuperar o fôlego. ““Não, não, não! ”, murmurou, levando as mãos à cara.

Tudo em que acreditara nos últimos três meses tinha desmoronado num segundo. Viviane, a esperança dele numa vida nova, na felicidade, na cura, era uma mentira, um isco, uma atriz contratada para o destruir. E ele tinha caído como um perfeito idiota. O pior era que o pai tinha usado Rosalie.

O amor dele por ela, a dor dele, a culpa dele. Tinha encontrado uma rapariga parecida, tinha-a treinado para representar a mulher simples, tinha imitado todos os traços que Tillmann amara em Rosalie. E ele tinha mordido o isco. Tinha traído a memória de Rosalie por uma falsificação barata.

Meu Deus, sussurrou ele, e as lágrimas escorriam-lhe pelas faces. Rosalie, perdoa-me! Perdoa-me! A porta do restaurante abriu.

Tillmann ouviu passos atrás de si. Virou-se e viu Viviane. Ela estava no limiar, abraçada a si própria de frio, o rosto pálido, os olhos cheios de lágrimas. Tillmann, por favor, deixa-me explicar.

A voz dela tremia. Explicar? Ele riu, amargamente, desesperado. O que queres explicar?

Que és uma atriz contratada pelo meu pai, que o teu amor fazia parte do negócio? Sim, no início era assim, confessou ela. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Mas depois…

Cala-te. Tillmann disse, baixinho, e ela calou. Simplesmente cala-te. Não quero ouvir as tuas justificações.

Virou-costas e foi-se embora. Os passos ecoaram no silêncio da noite. Viviane não o seguiu. Ficou à entrada, a chorar, abraçada a si própria.

Tillmann caminhou sem olhar para onde ia. Passou por montras, pessoas, carros. Dentro dele, só vazio. Tudo o que sentira nos últimos meses, esperança, alegria, amor, tinha evaporado, deixando apenas dor.

Durante três dias, Tillmann não saiu do apartamento. As cortinas ficaram fechadas, luz apagada. Ficou deitado no sofá, com a mesma roupa com que fugira do restaurante, a olhar para o teto. O telemóvel não parava de tocar.

Viviane, Ren, sócios. Não atendeu nenhum. No segundo dia, ela veio. Tillmann ouviu a campainha, depois batidas.

Tillmann, abre a porta, por favor. A voz de Viviane soava desesperada. Preciso de falar contigo, de explicar. Ele ficou imóvel no sofá.

Cada palavra dela era como uma facada. Tillmann, sei que estás aí. Por favor, ouve-me. Sim, aceitei a proposta do teu pai, mas tudo mudou.

Apaixonei-me mesmo por ti. Tillmann fechou os olhos. Apaixonada. Que ironia.

Ela passara três meses a representar um papel, e agora dizia que o amava, depois de ele ter ouvido a conversa dela com o pai, depois da verdade. Não quero o teu dinheiro, gritou Viviane através da porta. Só quero a ti, Tillmann, abre, por favor. Ele levantou-se do sofá e foi até à porta, pousando a mão na madeira fria.

Apenas uns centímetros o separavam dela. Ouvia-a a chorar do outro lado. Vai-te embora, disse ele, alto o suficiente para ela ouvir. Vai-te embora e nunca mais voltes.

O choro parou. Silêncio. Depois, um soluço, e os passos afastaram-se no corredor. Tillmann voltou para o sofá e deitou-se outra vez, a olhar para o teto.

Dentro dele, estava tão vazio que apetecia-lhe gritar. No terceiro dia, Ren telefonou. Tillmann olhou para o telemóvel a vibrar e pensou se deveria atender. Ao quinto toque, atendeu.

Sim. Tillmann, ainda bem. Já pensava que te tinha acontecido alguma coisa. A voz de Ren soava aliviada e preocupada.

Porque não atendes? O que se passou? História longa. Vou aí já.

Não precisas. Cala-te. Estou aí em vinte minutos. A chamada terminou.

Tillmann olhou para o telemóvel, depois atirou-o para o sofá. Talvez fosse bom. Guardar tudo para si estava a tornar-se insuportável. Levantou-se e foi à casa de banho.

Olhou-se ao espelho e assustou-se. Barba por fazer, olheiras escuras, rosto encovado. Parecia ter envelhecido dez anos em três dias. Lavou a cara com água fria, mas não ajudou muito.

Foi para a sala e abriu as cortinas. A luz do dia inundou o espaço. Ele semicerrau os olhos. O apartamento estava um caos.

Garrafas vazias de whisky na mesa de centro, loiça suja, roupa espalhada. Tillmann começou a arrumar, mas depois desistiu. Que diferença fazia? Passados exatamente vinte minutos, a campainha tocou.

Tillmann abriu e, no limiar, estava Ren com um saco de comida e ar preocupado. Ei, onde estiveste? Entrou e olhou à volta. Meu Deus, o que aconteceu aqui?

Parece que passou um furacão. Pode-se dizer isso. Tillmann fechou a porta. Ren pousou o saco na mesa e virou-se para o amigo.

O que se passa? Aproximou-se e pousou a mão no ombro de Tillmann. Estás horrível. Sinto-me pior.

Tillmann foi até ao bar no canto, pegou numa garrafa de whisky e em dois copos. Senta-te, isto vai ser uma conversa longa. Tenho tempo. Tillmann serviu.

As mãos ainda tremiam quando passou um copo a Ren. Lembras-te de eu querer pedir Viviane em casamento? , começou ele, sentando-se na poltrona. Ren sentou-se em frente.

Copo na mão. Sim, no restaurante, certo? Franziu a testa. Ela recusou?

Não. Tillmann sorriu, amargamente. Foi muito pior. Bebeu um grande gole, sentindo a queimadura na garganta.

Depois começou a contar, devagar, com pausas, à procura das palavras: como se disfarçara de empregado, como vira Viviane com o pai, o que ouvira. Ouvi o pai a elogiá-la por representar tão bem o papel. A voz de Tillmann tremia. Percebes?

Ele procurou deliberadamente uma rapariga que se parecesse com Rosalie. Treinou-a para representar a mulher simples. Apresentou-ma. Ren ficou paralisado, com o copo na mão, olhos arregalados.

O quê? Não… isso não é possível. É mais possível do que pensas.

Tillmann segurou a cabeça com as mãos. Ouvi-os com os meus próprios ouvidos. Falaram de ela ter acesso às minhas contas depois do casamento, de eu estar perdidamente apaixonado, de eu ser um idiota. Meu Deus.

Ren pousou o copo. Sim, amigo. Não esperava isto do teu pai. Eu também não.

Tillmann riu, amargamente. Embora devesse ter adivinhado. Ele sempre foi um porco. Há quinze anos, matou Rosalie com as palavras dele, e agora queria acabar comigo de vez.

Ren levantou-se e foi até à janela, a olhar para a cidade, em silêncio por uns segundos, a digerir o que ouvira. E imagina como me sinto, continuou Tillmann. Tinha o anel no bolso. Ia ajoelhar-me diante dela, na sala cheia, diante de todos.

E ela… Não conseguiu continuar, um nó na garganta. Tillmann bebeu mais um gole, tentando engolir a amargura. Que porcos!

, sussurrou. Brincar com destinos, usar a memória de Rosalie contra mim. Isto é o fundo do poço. Tillmann.

Ren virou-se para ele. Percebo o quanto isto dói, mas talvez devesses dar uma hipótese a Viviane de explicar, de ouvir a versão dela. Para quê? Tillmann ergueu a cabeça, raiva nos olhos.

O que é que ela vai explicar? Ouvi tudo com os meus próprios ouvidos. Não há nada para explicar. Ela veio cá?

, perguntou Ren. Sim, esteve à porta, a chorar, a implorar que eu abrisse. Tillmann fez um gesto vago. Disse que se apaixonou mesmo por mim.

Imagina. E se for verdade? , perguntou Ren. Ren, estás a falar a sério?

Tillmann saltou da poltrona. Três meses a representar um papel. Três meses a fingir, a estudar-me, a copiar o comportamento de Rosalie, e agora queres que eu acredite que ela me ama a sério? Confesso que não parece convincente, disse Ren, baixinho.

Não posso acreditar nela, não posso perdoá-la. Ela traiu-me. Sentou-se outra vez, sentindo as forças a esvair. Três dias sem dormir e sem comer normalmente faziam-se sentir.

Sabes o que é pior? , perguntou Tillmann, baixinho, a olhar para o copo vazio. Eu acreditei mesmo que ela era a certa, que Rosalie ma tinha enviado,que eu tinha uma segunda hipótese de ser feliz. E afinal, tudo aquilo foi planeado pelo meu pai.

Ele usou a minha dor, o meu amor por Rosalie. Ren voltou para a mesa e serviu mais whisky. O que vais fazer agora? Nada.

Tillmann encolheu os ombros. Vou voltar ao trabalho, esquecer este pesadelo, continuar a viver como vivi nos últimos anos. Sozinho? Sim, sozinho, porque agora não posso confiar em mais nenhuma mulher.

Olhou para o amigo. Aprendi outra vez que a minha Rosalie era a única em quem se podia confiar, a única que era verdadeira. Nem todas as mulheres são assim, tentou Ren objetar. Pode ser.

Tillmann levantou-se e foi até à janela. Mas não quero correr mais riscos. Uma vez, perdi o amor da minha vida. A segunda vez, fui enganado, usando a imagem dela.

Chega. Não há terceira vez. Ficaram em silêncio. Lá fora, a cidade vivia a sua vida.

Carros, pessoas, luzes das montras. Tudo continuava como sempre, como se o mundo de Tillmann não tivesse desmoronado pela terceira vez. Trouxe comida, rompeu Ren o silêncio. Comeste alguma coisa nestes dias?

Não. Então come agora. Depois, toma um banho, barbeia-te e dorme como deve ser, e amanhã voltas ao escritório. Ren…

Sem discussão, disse o amigo, com firmeza. Não podes ficar aqui deitado a morrer de desgosto. Tens uma empresa, funcionários, obrigações. Temos de fechar o contrato com o Krasnov.

A vida continua, Tillmann. Tillmann olhou para ele e assentiu lentamente. Ren tinha razão. Como sempre tinha.

A vida continuava mesmo, e ele não se podia deixar ir abaixo. Não depois de quinze anos a construir o império, não depois de finalmente ter ultrapassado o pai. Está bem, disse ele, baixinho. Vou voltar ao trabalho.

Mas, com mulheres, acabou de vez. Ren não disse nada, apenas assentiu e começou a desembrulhar os recipientes de comida. O cheiro da comida encheu o apartamento e o estômago de Tillmann ronronou. Comeram em silêncio.

Tillmann mastigava mecanicamente, sem sentir o sabor. Os pensamentos continuavam a girar, a voltar à cena do restaurante, ao rosto de Viviane quando percebeu que ele ouvira tudo, à careta satisfeita do pai. Sabes, disse Tillmann, empurrando o recipiente vazio. O mais insultuoso é que a culpa é minha.

Tu avisaste-me. Disseste que ela era demasiado parecida com Rosalie, que isso era suspeito. Não podia saber. Deveria ter sabido.

Mas queria tanto acreditar que tinha uma segunda hipótese, que ignorei todos os sinais de alerta. Levantou-se e foi à casa de banho, ligando o duche. Tirou a roupa. A água quente lavou a sujidade dos três dias de reclusão, mas não lavou a dor.

Essa ficava lá dentro, afiada e latejante. Quando saiu, limpo, barbeado e com roupa fresca, sentia-se fisicamente melhor. A alma continuava em pedaços. Ren estava no sofá, a olhar para o telemóvel.

Pronto para voltar ao mundo dos negócios? , perguntou. Tanto quanto é possível. Tillmann sentou-se ao lado dele.

Obrigado por teres vindo. Por me teres tirado deste buraco. Para isso servem os amigos. Ren deu-lhe uma palmadinha no ombro.

Amanhã cedo passo por ti. Vamos juntos para o escritório. Temos muito trabalho. Está bem.

Ficaram mais um pouco, a falar de trabalho. Ajudava a distrair. Mergulhar em números, planos, estratégias. Tudo o que Tillmann compreendia e controlava, ao contrário dos sentimentos.

Quando Ren finalmente foi embora, Tillmann ficou sozinho no apartamento silencioso. Deitou-se no sofá e fechou os olhos. Amanhã começava uma vida nova. Pela terceira vez.

Uma vida sem Rosalie, sem Viviane, sem esperança no amor, apenas trabalho, apenas negócios, apenas vingança contra o pai, e mais nada.