Minha filha me mandou uma mensagem: “Pai, não vem. Os sogros não querem você aqui. ”
Eu estava no corredor de casa, já de terno, segurando o envelope com o cheque de 300 mil reais que eu tinha preparado como presente de casamento. Era um valor que representava um trimestre inteiro de dividendos da empresa que eu construí com as próprias mãos ao longo de 40 anos.

Minha filha não sabia disso. Ela achava que era minha reserva de aposentadoria. Não chorei. Não liguei para implorar um lugar na mesa de um jantar que eu mesmo paguei.
Fiquei parado, olhando meu reflexo no espelho antigo do corredor, o mesmo espelho que comprei numa feira de segunda mão quando tinha 32 anos e ainda dormia num colchão no chão do meu primeiro escritório. Olhei para as minhas mãos, as mãos que minha filha aparentemente tinha vergonha de mostrar aos sogros, e fiz uma única ligação que durou 45 segundos. Meu nome é Roberto Cavalcante, tenho 63 anos, nasci em Feira de Santana, filho de pedreiro, neto de pedreiro. Vim para São Paulo aos 18 anos com uma mala de couro remendada e 200 cruzeiros no bolso.
Dormia na obra, comia o que sobrava, aprendia tudo que podia com qualquer mestre de obras que me deixasse perto. Aos 30 anos, fundei a Cavalcante Engenharia com um único contrato de reforma de sobrado em Moema. Hoje, minha empresa foi responsável por 23 edifícios comerciais, dois hospitais no interior, um viaduto em Campinas e um shopping center em Ribeirão Preto. Mas minha filha Letícia achava que eu era um aposentado que vivia de pensão e dirigia um Gol 2009 porque não tinha dinheiro para trocar.
Eu deixei ela acreditar nisso. Letícia tinha 31 anos, era advogada, brilhante, bonita. Ela tinha encontrado nos Fontes uma família que considerava sua chegada ao mundo que eu nunca consegui lhe dar. Márcio Fontes, o noivo, era consultor financeiro.
O pai dele, Dirceu, tinha feito fortuna nos anos 90 com especulação imobiliária e vivia exibindo esse dinheiro com a urgência de quem sabe que ele pode acabar a qualquer momento. A mãe, Aparecida, tratava garçons como se fossem móveis. Letícia era minha única filha. A mãe dela, Dalva, morreu quando ela tinha 12 anos.
Criei ela sozinho, pagando escola particular, faculdade de direito, intercâmbio em Lisboa. Dei a ela o caminho pavimentado que eu nunca tive. E agora, na véspera do casamento, eu estava recebendo uma mensagem dizendo que minha presença constrangia os convidados. Reli a mensagem três vezes.
A segunda frase chegou logo depois, como socos em sequência: o deputado Ferreira vai estar lá. Os sócios do escritório do Márcio também. “Você sabe como é, pai. Não é pessoal.
”
Não era pessoal. Eu construí metade dos edifícios que esse deputado frequenta. Eu paguei a faculdade que formou a advogada que agora estava me impedindo de ver jantar. Coloquei o celular no bolso do paletó.
Não joguei, não gritei, não mandei resposta nenhuma. Fui até minha escrivaninha de jacarandá, a mesma que comprei quando assinei o contrato do primeiro edifício de 12 andares em 1998. Abri a gaveta central e tirei um cartão de visita amarelado nas bordas. Liguei para o número escrito nele.
O jantar de ensaio acontecia no Terraço Fontes, na verdade o salão de eventos do Clube dos Pinheiros, no Morumbi. O que Dirceu Fontes não sabia era que o clube tinha passado por uma reforma estrutural completa em 2019, e a empresa responsável por essa reforma tinha o meu nome no CNPJ. Eu conhecia cada cano dentro daquelas paredes. Liguei para Sebastião.
Sebastião Neves tinha começado como ajudante na minha empresa em 1994. Hoje era meu gerente geral, o homem que sabia onde estavam todos os contratos, todas as atas, todos os projetos arquivados em 30 anos de empresa. Ele atendeu no segundo toque. “Seu Roberto”, disse ele, com aquela voz de quem já aprendeu que quando eu ligo fora de hora é porque algo importante está acontecendo.
“Sebastião, preciso que você abra o sistema agora. ”
“Tô abrindo. O que aconteceu? ”
“Puxa o contrato da reforma do Clube dos Pinheiros, unidade Morumbi, e me manda o contato do Geraldo, o supervisor de manutenção de lá.
”
Houve uma pausa. Sebastião não perguntou porquê. Em 30 anos, aprendeu que eu não faço perguntas desnecessárias e não espero que ele faça também. Mandou em dois minutos.
Enquanto aguardava, fui até o guarda-roupa. No fundo, embaixo de uma caixa de sapatos que Letícia nunca abriu, estava o segundo conjunto de chaves que eu guardava há 4 anos: as chaves do Corolla preto 2022, que ficava na garagem da empresa. Eu dirigia o Gol porque preferia. O Corolla existia para ocasiões em que eu precisava lembrar alguém quem era Roberto Cavalcante.
Essa era uma dessas ocasiões. Quando cheguei na portaria do Clube dos Pinheiros, o segurança de plantão era um rapaz que eu nunca tinha visto. Ele olhou para o carro, depois olhou para mim e, com aquela expressão treinada de educação forçada, perguntou se eu tinha reserva. “Não tenho reserva.
Mas tenho o número do Geraldo Silva, supervisor de manutenção. Me faz o favor de ligar para ele e dizer que Roberto Cavalcante está na portaria. ”
O rapaz hesitou. Provavelmente ia dizer que eventos privados não permitiam visitantes externos.
Mas alguma coisa na minha voz ou talvez no meu rosto fez ele pegar o rádio. 30 segundos depois, Geraldo estava na portaria pessoalmente. Geraldo Silva tinha 58 anos e uma cicatriz no queixo de quando caiu de andaime em 2003. Eu estava na obra naquele dia.
Paguei o hospital. Quando ele quis me agradecer, eu disse que não precisava de agradecimento, precisava de um bom profissional de manutenção. Ele trabalhou comigo por 8 anos antes de ir para o clube. “Seu Roberto”, disse ele, apertando minha mão com as duas dele.
“Que surpresa! O que o senhor precisa? ”
“Preciso entrar, Geraldo. Não pelo salão principal, pela manutenção.
”
Ele não perguntou porquê. Passamos por corredores que cheiravam a produto de limpeza e fritura de camarão do evento ao lado. Geraldo me levou até uma sala pequena com monitores de segurança, um bebedouro velho e duas cadeiras de escritório desgastadas. Era o centro nervoso do clube, invisível para quem jantava no terraço com taça de espumante na mão.
“O senhor quer ver os monitores? ”, ele perguntou. “Quero ver e ouvir. Você ainda tem o sistema de áudio que instalamos em 2019?
”
Ele sorriu com um lado só da boca. “O senhor mesmo insistiu pra gente instalar. ”
Sentei na cadeira principal. Geraldo ajustou as câmeras.
A imagem do terraço apareceu na tela central em alta definição. Mesas cobertas com toalhas de linho branco, velas altas em castiçais de prata, arranjos de orquídeas. Tudo muito caro, muito planejado, muito vazio de substância. E lá estava Dirceu Fontes de smoking que apertava nos ombros, segurando uma taça de espumante com a postura de quem está posando para uma foto que ninguém vai tirar.
Ao lado dele, Aparecida usava joias que faiscavam demais para serem discretas. Márcio, o noivo, sentava reto demais, como alguém que cresceu ouvindo que postura é caráter. E Letícia, minha filha, estava sentada ao lado do noivo, sorrindo para alguém que eu não reconhecia. Era um sorriso que eu não conhecia.
Não era o sorriso dela de criança, aquele que torcia um lado da boca antes do outro. Era um sorriso praticado, um sorriso de pertencimento. Geraldo ajustou o áudio. A voz de Dirceu Fontes encheu a sala de manutenção com a clareza de quem fala alto porque está acostumado a ser escutado.
“Olha, o importante é que essa história do pai dela não vire problema”, disse Dirceu, inclinando-se para Aparecida, mas sem baixar o volume. “Você viu como ela ficou sem graça quando o deputado perguntou da família dela? ”
“Fica tranquilo”, disse Aparecida, passando o dedo na borda da taça. “Eu já conversei com a Letícia.
Ela entendeu. ”
“Entendeu o quê exatamente? ”, perguntou Márcio. E eu prestei atenção porque queria acreditar que havia um homem decente naquela mesa.
“Que imagem é tudo”, disse Dirceu, como se estivesse ensinando aritmética básica. “O velho é pedreiro aposentado. Filho, não tem nada de errado com isso. Mas você vai estar fechando sociedade com o escritório do Dr.
Ferraz semana que vem. Você quer que o primeiro jantar que eles lembrem de você seja com um senhor de macacão contando história de obra? ”
Márcio não respondeu. Eu observei minha filha naquele momento.
Letícia estava olhando para a toalha de mesa. Não disse nada. Não defendeu nada. Então Aparecida se inclinou para Letícia e disse algo que o microfone captou com precisão cirúrgica: “Sua mãe era de família boa, né, meu bem?
Você puxou mais ela do que o pai. Isso é uma bênção. ”
Letícia sorriu. Foi aquele sorriso praticado de novo.
Fechei os olhos por 3 segundos. Pensei em Dalva. Pensei em Dalva acordando às 5 da manhã para empacotar o lanche de Letícia antes de eu sair para a obra. Dalva, que trabalhou em caixa de supermercado até os últimos seis meses antes de adoecer, não porque precisava, mas porque dizia que trabalho era dignidade.
Dalva, que morreu sem saber que eu tinha colocado o nome dela num pequeno jardim interno do hospital que construí em Franca. Um jardim que existe até hoje com uma plaquinha discreta que diz “Jardim Dalva Cavalcante”. A família da Dalva era boa porque a Dalva era boa. Não por causa de sobrenome.
Abri os olhos. “Geraldo, você ainda tem acesso ao sistema de sonorização do terraço? ”
“Tenho controle total daqui. E as telas de projeção que instalamos no fundo do salão funcionam.
”
“Perfeito. ”
Tirei o celular do bolso e mandei mensagem para Sebastião: “Preciso que você me mande três documentos agora. Escaneados em PDF: o extrato de sócio-participação da Cavalcante Engenharia dos últimos 12 meses, o contrato de prestação de serviços com o Clube dos Pinheiros, datado de 2019, e a declaração de bens que eu assinei no ano passado para renovação do alvará da empresa. ”
“Seu Roberto, são documentos confidenciais.
”
“Eu sei. São meus documentos. Manda para o meu celular agora. ”
Três minutos depois, os arquivos estavam no meu telefone.
Enquanto esperava, peguei o envelope com o cheque de 300 mil que eu tinha trazido. Olhei para o nome de Letícia escrito com minha letra de engenheiro, aquela letra grande e angulada que ela sempre reclamou que parecia projeto arquitetônico. Não rasguei o cheque ainda. Dobrei o envelope e coloquei no bolso interno do paletó.
No lugar do cheque, coloquei dentro do envelope um único papel que imprimi em casa antes de sair. Era a lista de imóveis registrados em meu nome: 12 imóveis comerciais, três residenciais, dois terrenos no ABC. Valor total de avaliação: 42 milhões e 300 mil reais. Não era bravata, era informação.
No monitor, Dirceu Fontes estava de pé agora, batendo uma colher na taça para chamar atenção. O salão foi silenciando. “Quero fazer um brinde”, disse Dirceu, com a voz inflada de orgulho emprestado. “Ao Márcio, que vai trazer para essa família uma mulher extraordinária, e à família Fontes, que vai acolher a Letícia como se fosse filha nossa, porque é isso que ela merece: uma família à altura dela.
”
Os convidados aplaudiram. Minha filha estava com os olhos marejados. Pensava que estava sendo acolhida. Não percebia que estava sendo comprada.
Me levantei da cadeira. “Geraldo, eu vou entrar pelo fundo do salão, pela saída de serviço que dá para a lateral do palco. Você conhece essa passagem? ”
“Conheço.
Mas, seu Roberto, vai ter uma surpresa aí. Tem coisa que o senhor precisa saber antes. ”
Parei. Geraldo estava com o rosto fechado.
Ele apontou para um monitor secundário que eu não tinha prestado atenção antes. Era a câmera da área da recepção, onde os convidados tinham chegado mais cedo. A gravação estava pausada num momento de 2 horas atrás. “Vou ativar o áudio e te mostrar o que gravou quando o pessoal chegou.
”
Ele apertou o botão. A imagem era de Dirceu Fontes conversando com um homem de terno cinza que eu não conhecia. Mas a conversa que o microfone captou me fez sentar de volta na cadeira. “O sogro dela é o quê mesmo?
”, perguntou o homem de cinza. “Pedreiro aposentado”, disse Dirceu, sem relevância nenhuma. “A Letícia cresceu bem, apesar disso. ”
“E os bens da moça?
Ela tem alguma coisa no nome? ”
“Nada. Mas o contrato pré-nupcial que o Márcio vai assinar tem uma cláusula de comunhão parcial com reversão em 10 anos. Se o casamento durar, o que o Márcio construir com o escritório novo vai ser metade dela.
É um bom negócio para ela e para vocês. ”
Dirceu Fontes sorriu. Foi o sorriso de um homem fazendo uma conta que fechou. “O Márcio vai abrir o escritório com o capital que eu vou injetar.
Mas esse capital vem de um empréstimo que precisa de garantia. A garantia é um apartamento no Itaim que está no nome da mãe dele, que vai assinar como fiadora. ”
Dirceu baixou a voz, mas o microfone era bom. “A mãe do Márcio vai assinar porque ela acha que eu tenho liquidez suficiente para cobrir qualquer problema.
Ela não sabe que eu estou refinanciando um refinanciamento desde 2021. ”
O homem de cinza franziu a testa. “Isso é arriscado, Dirceu. ”
“Todo negócio é arriscado.
O importante é que quando o escritório do Márcio começar a gerar receita, eu pago o empréstimo e ninguém fica sabendo de nada. E se não der certo”, ele deu de ombros com uma leveza que me gelou o sangue, “o apartamento da velha cobre. ”
A gravação terminou. Fiquei sentado olhando para a tela preta por alguns segundos.
Não era mais um pai excluído de um jantar. Era um pai que havia descoberto que o homem que ia se casar com sua filha era filho de um especulador que estava usando a sogra de Márcio como garantia numa dívida que ele sabia que podia não conseguir pagar. Minha filha ia entrar em uma família que vivia de aparência e devia de verdade. E Letícia, minha filha advogada que estudou direito durante 5 anos, não tinha visto isso porque estava apaixonada demais pela ideia de pertencer.
Me levantei pela segunda vez. Desta vez não voltei. Entrei pelo corredor de serviço com Geraldo dois passos atrás. As portas laterais do salão davam para uma área elevada, uma espécie de palco baixo onde ficava o microfone para discursos.
Eu conhecia a planta do lugar de memória. Empurrei a porta. O salão estava com toda a atenção voltada para Dirceu Fontes, que ainda estava de pé com a taça na mão, se preparando para completar o brinde. As luzes eram quentes, cor de âmbar, aquele tipo de iluminação que faz todo mundo parecer mais rico do que é.
Eu entrei pelo canto, devagar, sem fazer barulho. Fui até o centro do pequeno palco e parei ali. Não disse nada, só fiquei em pé. Levou alguns segundos para as pessoas mais perto do palco perceberem.
E quando perceberam, o silêncio foi se espalhando pelo salão como uma mancha de umidade numa parede. Dirceu Fontes me viu por último. A taça congelou na mão dele. Letícia me viu ao mesmo tempo.
A expressão dela passou por sete coisas em dois segundos: surpresa, confusão. Ela estava calculando o estrago. “Boa noite”, eu disse. Não precisei de microfone.
40 anos de obra ensinaram a projetar voz. Dirceu se recuperou rápido. Deu um passo em direção ao palco com aquela postura de dono do espaço que homens endividados aprendem a usar como armadura. “Roberto”, disse ele com falsa cordialidade.
“Que surpresa! Achei que você não estava vindo. ”
“Achei que não ia vir também”, eu disse. “Mas aí lembrei que sou pai da noiva e que a Letícia não tem mais ninguém além de mim.
”
Letícia fechou os olhos por um segundo. “Olha”, disse Dirceu, baixando a voz, mas sem conseguir impedir que o microfone de lapela que Geraldo tinha ligado à distância captasse cada palavra. “A gente pode resolver isso depois do jantar. Não precisa fazer cena aqui na frente de todo mundo.
”
“Não vou fazer cena nenhuma. Vim trazer um presente para minha filha. ”
Tirei o envelope do bolso, segurei acima da cabeça por um momento visível para todos e fui andando devagar até a mesa onde Letícia estava sentada. Letícia estava branca.
Coloquei o envelope fechado em frente a ela. “Pode abrir depois”, eu disse para ela em voz baixa, mas não tão baixa que os de perto não ouvissem. “Mas quero que você saiba o que tem lá dentro antes de assinar qualquer contrato pré-nupcial amanhã. ”
Márcio abriu a boca, fechou, abriu de novo.
“Senhor Roberto, talvez a gente possa conversar em particular. ”
“Márcio, quanto você sabe sobre a situação financeira do seu pai? ”
O salão ficou tão quieto que eu ouvia o ar condicionado. “Como assim?
”, disse Márcio. “Pergunto porque você está prestes a abrir um escritório usando o capital que seu pai vai levantar com um empréstimo garantido pelo apartamento da sua mãe. E seu pai não tem liquidez para cobrir esse empréstimo se o escritório não gerar resultado em tempo hábil. ”
Márcio olhou para Dirceu.
Dirceu estava vermelho. “Isso é mentira”, disse Dirceu, com a voz saindo grossa. “Não sei de onde você tirou isso. ”
“Tirei de uma conversa que você teve nessa recepção duas horas atrás com um homem de terno cinza, cujo nome eu ainda vou descobrir.
” Tirei o celular do bolso. “Mas, se você preferir, posso passar o áudio agora para os presentes. ”
Aparecida se levantou. “Quem você pensa que é?
Você não foi convidado. Você tem algum direito de entrar aqui? ”
“Eu tenho mais do que direito. Tenho as chaves.
”
Geraldo apareceu na entrada lateral do salão. Segurava um envelope azul, o tipo que escritórios de engenharia usam para guardar contratos. Caminhou até mim e me entregou sem dizer nada. Abri o envelope.
Tirei o contrato de prestação de serviços. Eram 12 páginas com o timbre da Cavalcante Engenharia, assinadas em 2019 pelo então presidente do clube, pelo engenheiro responsável e por mim. “Reforma estrutural completa”, disse eu, folheando com calma. “Fundação, impermeabilização, sistema elétrico, sistema hidráulico, ar condicionado central, sonorização e iluminação.
” Levantei os olhos para Dirceu. “Esse salão onde você está servindo espumante, usando o nome de família que não pagou para ter, foi construído por pedreiro aposentado. ”
O silêncio tinha uma textura agora. O deputado Ferreira, que eu tinha identificado numa mesa do canto, estava com a expressão de quem acabou de perceber que entrou num lugar errado.
Disfarçou mexendo no celular. Dirceu tentou mais uma vez. “Olha, Roberto, seja lá o que você pensa que sabe…”
“Não penso. Sei.
” Dobrei o contrato e coloquei no bolso. “E sua esposa acabou de invocar a memória da minha mulher para insinuar que minha filha é melhor do que eu. Então vou pedir que você sente, porque agora eu quero falar com a Letícia. ”
Aparecida se sentou.
Dirceu ficou em pé por mais 3 segundos. Depois também sentou. Eu me voltei para minha filha. Letícia estava com a mão sobre o envelope fechado.
Os olhos dela eram dois reservatórios na iminência de transbordar. “Pai”, ela disse. A voz saiu pequena. “Não precisa dizer nada agora.
Mas quero te perguntar uma coisa e quero que você responda quando estiver pronta. Não agora. ”
Ela assentiu. “Quando foi a última vez que você me perguntou como eu estava?
Não o que eu precisava. Não se eu tinha dinheiro suficiente para as contas. Só como eu estava. ”
Ela abriu a boca.
“Não agora”, repeti com calma. Então puxei a cadeira vazia ao lado dela, a cadeira que tinham retirado da mesa quando me excluíram da lista, e sentei ao lado da minha filha pela primeira vez em muito tempo. O jantar continuou de uma forma diferente da que Dirceu Fontes havia planejado. Nos dias que se seguiram, o casamento foi suspenso.
Não por mim. Letícia foi até a fonte depois de abrir o envelope e passar duas horas lendo a relação de bens que eu nunca tinha mostrado a ela. Quando ela me ligou naquela madrugada, não estava com raiva. Estava com aquela voz de quem acabou de entender que estava vivendo numa versão diferente da realidade.
“Por que você nunca me contou? ”, ela perguntou. “Por que você nunca perguntou? ”, eu disse.
“E, em seguida: “Mas isso não é justo. A culpa não é só sua. Eu também errei. Fiquei tão ocupado construindo coisas para você ter que esqueci de te ensinar a reconhecer o que tem valor de verdade.
”
Ela ficou quieta por um tempo. “O apartamento da mãe do Márcio”, ela disse finalmente. “Ele sabia? ”
“Não sei.
Mas você é advogada. E agora você sabe? ”
Letícia pediu para ver os documentos que Geraldo tinha arquivado. Passou três dias fazendo pesquisa.
Descobriu por conta própria que Dirceu Fontes tinha dois processos de cobrança em andamento no Tribunal de Justiça de São Paulo, um deles movido por um banco e outro por um ex-sócio. Descobriu que o apartamento dado como garantia tinha uma hipoteca que Márcio desconhecia completamente. Quando ela confrontou Márcio, ele a olhou por um longo tempo e disse que seu pai tinha cometido alguns erros de gestão, que estava tentando resolver, que ia ficar tudo bem. Letícia ligou para mim logo depois.
“Ele falou exatamente como Dirceu fala”, disse ela com aquela voz de quem está vendo algo com clareza. “Você sabe o que fazer. Eu disse. ”
Ela disse e desligou.
O contrato de casamento foi cancelado uma semana antes da cerimônia. Letícia me ligou para me contar, não como uma tragédia, mas com aquela sobriedade de quem está voltando de uma viagem que saiu errada. Disse que estava bem, que ia precisar de tempo. Não insisti em falar mais do que ela queria.
Aprendi com Dalva que silêncio na hora certa é mais generoso do que palavras. Nos meses seguintes, tomei algumas decisões que meus contadores acharam excêntricas. Vendi o contrato de manutenção que eu tinha com o Clube dos Pinheiros. Não precisava do dinheiro e não queria mais o vínculo afetivo com aquele lugar.
Usei o valor para criar uma bolsa de formação técnica em parceria com o SENAI para jovens de Feira de Santana, minha cidade natal. Filhos e filhas de pedreiros que queriam seguir na construção, mas não tinham como pagar um curso de elétrica ou hidráulica. Batizei a bolsa com o nome da Dalva. Letícia soube da bolsa por um post nas redes sociais que um jornalista de Feira fez sobre a inauguração.
Me ligou sem avisar na hora do almoço, enquanto eu estava num canteiro de obras no Tatuapé. “Você colocou o nome da mãe? ”, ela disse. “Coloquei.
E ela ia gostar. ”
Silêncio. O tipo que não precisa de preenchimento. “Posso ir na inauguração?
”, ela perguntou. “A inauguração já foi. ”
“Eu sei. Mas você vai voltar lá, né, para ver como tá andando.
Me avisa quando for. ”
“Aviso. ”
Faz 5 meses que Letícia trabalha como voluntária nos fins de semana num projeto de assistência jurídica gratuita para trabalhadores da construção civil. Descobriu o projeto sozinha.
Nem me contou quando começou. Soube por Sebastião, que soube por um dos capatazes que reconheceu ela no posto de atendimento. Quando perguntei, ela disse que tinha percebido que passou a vida inteira cercada de contratos e nunca tinha pensado em quem tinha menos proteção. Hoje é um sábado comum.
Estou numa obra pequena em Santo André, reforma de uma escola pública que a prefeitura não tinha orçamento para terminar e que eu decidi bancar do próprio bolso porque o diretor me procurou por carta, carta de papel, envelope com endereço escrito à mão, que era o tipo de coisa que eu não via há 20 anos. O sol bate forte. Estou de camiseta, capacete e bota de segurança. Tenho 63 anos e o joelho direito reclama de escadas desde os 58.
Mas o resto funciona. Um dos jovens da equipe passa perto de mim carregando uma saca de cimento. Ele tem uns 19 anos, olhos atentos, aquele jeito de quem está aprendendo e sabe que está aprendendo. “Tá pesando?
”, eu pergunto. “Um pouco”, admite, sem parar de andar. “Daqui a seis meses não vai mais pesar. ”
Ele sorri sem me olhar e continua.
Lembro que eu tinha a mesma idade quando aprendi que cimento pesado não é problema de falta de força, é problema de postura, de como você distribui o peso. Meu pai me ensinou isso numa tarde em Feira de Santana que eu ainda consigo cheirar se fechar os olhos. O celular vibra no bolso. É Letícia.
Manda um áudio. “Tô em obra. Pode falar. ”
Ela responde: “Só queria saber como você tá.
Não precisa de mais nada. ”
Fico parado no meio do canteiro por um momento, com o telefone na mão, o sol batendo na nuca, o barulho de betoneira ao fundo e aquela sensação de quando uma estrutura que estava torta finalmente encaixa no lugar certo. Não foi o jeito que eu planejei. Mas na construção civil você aprende cedo que o projeto inicial raramente sobrevive ao contato com o terreno real.
Você adapta, resolve, constrói com o que tem no lugar onde está. Fui um pai que deu à minha filha todos os recursos e esqueci de dar o exemplo mais importante: que dignidade não tem preço de tabela, que respeito não vem com o sobrenome, e que o homem mais rico da mesa pode muito bem ser o que está sentado no canteiro de obras às 6 da manhã. Letícia está aprendendo isso agora, com 31 anos. No ritmo dela, do jeito que tinha que ser.
E eu, aos 63, ainda estou construindo. Porque construir é a única forma que eu conheço de dizer que ainda estou aqui, que ainda tenho algo a deixar, que o nome que coloquei nessa plaquinha de jardim lá em Franca vai continuar fazendo sentido enquanto eu puder trabalhar para merecê-lo. Mando o áudio para Letícia: “Tô bem. Obra em Santo André.
Termina semana que vem. ”
Ela responde em segundos: “Me fala quando terminar. Posso ir ver? ”
Esse velho construtor ainda tem muito para erguer.
E, pela primeira vez em muito tempo, vai ter alguém junto para ver a obra ficar de pé.


