Era para ser uma noite de celebração. Eu tinha passado quase quarenta e cinco anos construindo a minha construtora do zero, tijolo por tijolo, e agora estava de pé diante do espelho do meu closet, ajustando uma gravata que custava mais que o primeiro carro do meu filho. Sobre a cama, descansava uma caixa de veludo com um cheque administrativo de dois milhões de reais, um presente para o jantar de ensaio que eu mesmo tinha pago em segredo no clube de campo mais fechado da região. A festa era do meu menino, o Rafael, que iria se casar no dia seguinte.

Eu me sentia no auge, aposentado no papel, mas ainda segurando as rédeas do conselho. Então o telefone vibrou no bolso do paletó. Era uma mensagem do meu filho. Apoiei o celular na penteadeira e li as palavras que congelaram o meu sangue: “Não venha hoje à noite.
E não traga a Larissa. ”
A frieza da frase me atingiu como um soco no estômago. Rafael nunca tinha me falado daquele jeito. Uma cicatriz no meu polegar esquerdo, de um acidente com serra circular em 89, começou a latejar.
Pensei no jeito que ele olhava para aquela Larissa, como um cachorro esperando resto de comida. Queriam me esconder no escuro. Queriam que eu não aparecesse. Mas eu era o dono daquela porra.
E ninguém, nem meu próprio sangue, mandava em mim. Enfiei a mão no fundo da gaveta e tirei as chaves do Porsche 911 clássico, aquele que eu guardava sob uma lona e que não rodava havia anos. Saí de ré, os pneus rangendo no cascalho da garagem. Se eles queriam uma noite tranquila, iam conhecer o presidente do conselho em pessoa.
Estacionei bem no lugar reservado ao dono, ao lado do Jaguar alugado do Herculano, o melhor amigo do meu filho. Fiquei sentado um instante no silêncio do carro, olhando a caixa de presente no banco do carona. Era o dia do juízo final. Peguei o celular e liguei para Rafael de novo.
Ele atendeu no segundo toque. — Rafael, eu paguei quatrocentos mil por esse jantar. O que está acontecendo? — perguntei, a voz tensa.
— Pai, por favor, só não apareça hoje. Fica em casa. É melhor para você. Escutei a voz trêmula do meu filho e senti uma dormência gelada no peito.
Ele não estava me afastando por maldade. Ele estava com medo. Lembrei do cheiro de água parada e mosquito naquela visita ao galpão do setor 4 na semana passada. Liguei para o Renato, o meu gerente de confiança.
— Tá tudo certo com a transferência do pagamento? — perguntei. — Tudo certo, seu Vicente. O senhor pode ficar tranquilo.
Mas eu não fiquei. O segurança da guarita bateu no meu vidro com a lanterna, me dando um atendimento frio, como se eu fosse um estranho. Dirigi devagar pelo perímetro do estacionamento, afastando-me do valet, rumo à escuridão dos fundos do prédio. Liguei para o Adalberto, meu advogado que cuidava das finanças da construtora havia vinte anos.
— Adalberto, preciso que você puxe a movimentação do galpão do setor 4 agora. Agora, rapaz. Ele hesitou. — Vicente, a assinatura no documento é sua.
Eu só segui as ordens. — Mas tenho as passagens aéreas registradas no seu nome, Vicente. Quer que eu diga para eles me encontrarem no clube dos IPs? A linha caiu.
Eu estava aplaudindo a destruição da empresa do pai. Herculano e os outros estavam de pé, celebrando, batendo palmas para o discurso de agradecimento do meu filho, que falava em “renascimento do Zaguirrire” enquanto a multidão bebia champanhe Dom Pérignon vintage a três mil reais a garrafa. O salão inteiro estava imerso naquela falsa alegria, os saltos dos meus sapatos ecoando no piso de mármore que eu mesmo tinha escolhido anos atrás. Fiquei parado ali no meio do salão, vendo os dois homens serem escoltados para fora, algemados, enquanto os convidados sussurravam entre si.
E eu fiquei sozinho no centro daquele salão que eu mesmo construí, olhando o filho que eu tinha criado, sendo levado pela porta que eu mesmo pendurei. O som de vidro se espatifando no chão de mármore foi o único ruído por vários segundos. Cancelei a venda do apartamento e virei as costas para o esqueleto do prédio que um dia seria o meu legado. Agora, o calendário marca catorze de setembro, o aniversário daquele jantar, o aniversário do fim da minha vida antiga.
Gosto do cheiro de concreto fresco e do som das serras cortando madeira. Me recosto no capô da minha caminhonete, desembrulhando um sanduíche e desenroscando a tampa da garrafa térmica. Dou uma mordida, mastigando devagar, com o olhar preso no chão. É uma escalada longa e dura até o topo.
Não era o sonho que tive quando peguei o Rafael no colo, no berço do hospital, trinta e três anos atrás. Mas o futuro precisa ser reconstruído. Vendo os troncos virarem cinza, penso no Rafael na cela dele, e no medo do que ainda pode estar escondido dentro daquela caixa de veludo que nunca foi aberta.


