No meio do incêndio que consumia a minha casa, minha filha gritou pra eu buscar os documentos no cofre, mas a mulher ao meu lado falou com uma calma que não combinava com o fogo. No quintal, minha…

No meio do incêndio que consumia a minha casa, minha filha gritou pra eu buscar os documentos no cofre, mas a mulher ao meu lado falou com uma calma que não combinava com o fogo. No quintal, minha...

Larguei o corpo pesado da cama, minhas próteses de joelho protestando a cada movimento, quando uma viga do teto cedeu e me derrubou no chão do corredor. A voz da minha filha, aguda e desesperada, vinha do fundo da casa, e uma parede de calor me atingiu com tanta força que meus olhos encheram de lágrimas. “Pega os documentos no cofre primeiro”, uma voz de mulher soou perto do meu ouvido direito. “Minha filha”, comecei, “ela tá no quintal”.

Thumbnail

Algo no jeito dela falar me fez olhar além, para a frente da casa. No quintal, separada do caos por aquela linha invisível que os civis não cruzam instintivamente, estava Renata. Cláudio ficava a um metro dela, uma pasta de couro aos pés, o celular brilhando no escuro. Escutei a batida quando cheguei no pé da escada, e minha mente arquivou aquilo com a mesma eficiência mecânica que usou para arquivar as palavras de Cláudio.

Do outro lado do quintal, Renata finalmente olhou na direção dela. Pensei naquela pergunta mais tempo do que ela esperava. Meu irmão Osvaldo tinha falecido no inverno passado, e ainda no jardim, olhando a casa arder com o queixo apoiado na cabeça de Pu, ela nunca olhou pra ambulância. Acordei em um quarto de hospital, o quarto 208, com azulejos brancos e uma mancha de umidade que tinha o formato do estado do Piauí, bem acima da minha cama.

Terezinha me disse naquela tarde, ajeitando Renata de dois anos, e eu sentava no batente do quarto da menina, que mantive exatamente igual, as cortinas vermelhas, a prateleira com livrinhos, a cesta de vime com os laços, esperando algo que eu sabia que… “Você gosta mais dela do que de mim? ”

Alguma coisa se mexeu no rosto dele entre um sorriso e uma careta de dor, quando ele virou à esquerda no patamar da escada. Virei para olhar a mancha que parecia o Piauí.

É, lembro dos azulejos fazendo algo que nunca tinham feito antes, se movendo, respirando em cima de mim no escuro. Sabia desde o instante em que escutei minha própria voz no escuro: “É. A outra eu perdi numa festa junina em Recife, no inverno de 96. Ela tinha dois anos”, contei.

Quando levantei o olhar, a cor tinha mudado no rosto dela, e meu coração executava um movimento no peito que eu não conseguiria descrever. Lá fora, no corredor, alguém riu, um som breve e agudo, completamente alheio ao que acontecia no quarto 208. Ela apertou minha mão uma vez antes de sair, um aperto breve, quente, totalmente natural, e saiu sem olhar para trás. Fiquei deitado, olhando o Piauí no teto, uma voz chamando um nome, sempre fora do alcance.

Levei a mão ao bolso interno do palitó pendurado no encosto da cadeira, ao peso pequeno e familiar que descansava contra minhas costelas todos os dias há 28 anos. Não tirei do bolso, só descansei os dedos através do tecido e fiquei bem quieto enquanto a noite de São Paulo me envolvia. E quando achei no bolso do paletó que cortaram na ambulância, guardada ali por puro costume, apertei contra o peito naquela cama de hospital e não deixei ninguém tirar de mim. Ela ficou parada no meio do quarto, ainda com a mochila nas costas, olhando pra boneca com uma expressão que eu nunca tinha visto.

“Bruno”, falei, sentado na única poltrona do apartamento, a voz chamando um nome fora do alcance, do jeito que se pode. Me afastei do microfone. Renata e Cláudio saíram da cidade antes do fim do ano. Camila sentou do meu lado, apoiou a cabeça no meu ombro.

Às vezes as pessoas me perguntam o que eu aprendi com tudo isso, do incêndio, dos dois anos, do caminho longo de volta. Se algum pedaço do caminho do Vicente Almeida sentou com você do mesmo jeito que sentou comigo, deixa um comentário aqui embaixo e me conta o que foi.