O boato de que eu tinha herdado dez milhões se espalhou como fogo em palha seca. Minha prima Jéssica, que me expulsara de casa quando pedi ajuda para comprar o remédio da minha mãe, agora segurava minha mão suada e chorava sobre as dívidas de jogo do filho. “Larissa, você tem dez milhões, só me empresta duzentos e cinquenta mil. Não é nada para você, mas é a vida do meu filho!

” — uivou, chamando a atenção das mesas próximas. Puxei minha mão da dela e olhei fundo nos seus olhos. “Você sabe o que eu paguei por esse dinheiro? Paguei com a medula óssea do meu marido, com o sangue dele, com sua dor agonizante.
Rodrigo vendeu a vida dele por isso. Acha que vou usar o sangue do meu marido para pagar as dívidas do seu filho? ”
Jéssica empalideceu e cuspiu: “Os mortos estão mortos. Você está viva!
É tão mesquinha. Não é à toa que seu marido te largou. ”
Bati o copo na mesa. “Cale a boca!
Você não tem direito de mencionar meu marido. Prefiro queimar esse dinheiro do que alimentar sanguessugas. Saia da minha frente e nunca mais me procure. ”
Saí do bar sem olhar para trás.
Eu sabia que a partir daquele dia teria fama de rica mesquinha, mas não me importava. Eu havia aprendido a lição de Rodrigo: a bondade deve ser dada a quem merece, senão é só estupidez. Naquela mesma tarde, fui a um dos escritórios de advocacia mais prestigiados da cidade. O advogado ergueu as sobrancelhas quando pedi para redigir um testamento.
“Senhora Larissa, para quem deseja deixar todo o seu patrimônio? ”
“Metade para meus sogros, para a velhice”, respondi firme. “A outra metade para ajudar pacientes com câncer sem recursos, pessoas como meu marido, que não tinham como comprar analgésicos. ”
Sai do escritório leve.
Eu havia transformado o tesouro de Rodrigo numa fortaleza inexpugnável. Naquela noite, choveu novamente. Me encolhi na cama ouvindo a chuva no telhado, e então ele veio. No sonho, eu estava em frente ao fórum, chovia forte.
Rodrigo se aproximou com sua capa preta, mas dessa vez não jogou um cartão. Abriu os braços e me abraçou forte. “Rodrigo, onde você esteve? Senti tanto sua falta!
” — solucei, sentindo seu cheiro de tabaco e menta. “Desculpe, não fui a lugar nenhum, Larissa. Sempre estive aqui ao seu lado. Você sofreu tanto, mas se saiu tão bem.
”
No sonho, ele não estava mais emaciado. Era o Rodrigo de antes, bonito e cheio de vida. Enxugou minhas lágrimas e sorriu. “Não chore mais.
Não posso te devolver meu corpo, mas este coração, este amor, sempre será seu. Viva feliz. Só se você sorrir, poderei descansar em paz. ”
Quando acordei, estava encharcada de suor e lágrimas, mas não sentia mais dor.
O sonho foi uma cura. Ele havia voltado para se despedir. Depois daquela noite, renasci. Comecei a fazer exatamente o que Rodrigo queria.
Fui ao banco e transferi os dez milhões para aplicações seguras. Voltei para a cidade natal dele e pedi permissão aos meus sogros para reformar a casa. Fiquei uma semana cozinhando e conversando com eles. “Esse é o dinheiro que o Rodrigo está dando para vocês”, disse à sogra.
“Se ele não pode cuidar de vocês, eu cuidarei no lugar dele. ”
Com parte dos juros, fiz doações anônimas para a fundação de assistência a pacientes com câncer no hospital onde ele foi tratado. Um ano depois, cheguei a Búzios. A névoa fina vinha do Atlântico.
Eu estava sentada num pequeno café com vista para o oceano, exatamente como Rodrigo prometera para nossa lua de mel que nunca aconteceu. À minha frente, uma taça de vinho tinto e uma cadeira vazia. “Estou aqui, Rodrigo”, sussurrei, erguendo a taça para o assento vazio. “Búzios é linda, exatamente como você disse.
O vinho é amargo no começo, mas doce no final, exatamente como nossa vida. ”
Tirei o cartão preto e o coloquei na mesa, sorrindo. “Veja, estou gastando seu dinheiro. Estou num hotel cinco estrelas.
Estou comprando bolsas de grife. Estou sendo muito má. Dói em você? Se sim, apareça e me repreenda.
”
A brisa do oceano bagunçou meu cabelo, e jurei ter ouvido sua risada grave e carinhosa no vento. “Gaste, meu amor. Ganhei esse dinheiro para você gastar, desde que esteja feliz. ”
Guardei o cartão e me levantei.
Continuaria minha jornada: Búzios, Tiradentes, uma viagem pela costa. Todos os lugares que ele havia anotado no diário. Viajaria pelas pernas cansadas dele, veria o mundo pelos olhos fechados dele. Saí do café e entrei na multidão.
O céu havia aberto, e um arco-íris vibrava sobre a baía. Levantei a cabeça e respirei fundo o ar fresco e livre. “Aqui vou eu, Rodrigo. Nossa jornada ainda é longa.
”
Caminhei com passo leve e firme pela calçada de pedras. Minha sombra se estendia longa, solitária, mas orgulhosa e cheia de vida.


