Passei 31 anos como perito contábil forense para o Ministério Público do Paraná. Nada me abalava. Até a manhã em que acordei sem sentir o lado esquerdo do corpo. Foi assim que comecei a contar: passos no corredor, degraus, 19 ao todo, respirações.

Contar era a única forma de não perder o chão. Aos 67 anos, com um histórico impecável, eu sabia que minha mente seguia afiada. Mas o corpo falhava. E eu precisava de mais tempo para concluir minha última perícia.
Foi então que Norberto propôs o acordo: eu assinaria os laudos que ele precisava, e ele garantiria que meu último ano fosse tranquilo. Sem pressão, sem escândalo. Eu aceitei. Vanessa estava na sala, equilibrada no braço do sofá, com aquela postura de quem esperava aquelas palavras havia tempo.
Norberto me explicou o mecanismo do depósito em garantia. R$ 280. 000 pagáveis a Ronaldo Guedes para depósito em custódia. Ele recebeu o dinheiro com as duas mãos e guardou no bolso interno do paletó.
Na semana seguinte, tudo parecia sob controle. Até que o cartório encontrou um problema pequeno na documentação do vendedor. Nada grave, mas o suficiente para adiar. Achei estranho, mas não dei muita importância.
Então, numa noite, ouvi a voz de Iracema vazando pela fresta da porta do escritório. Ela falava baixo, com aquela calma calculada. Encostei as costas na parede fria do corredor e escutei. “A visita do perito é semana que vem.
”
Minha mente disparou. Eu sabia que algo estava sendo arquitetado. Norberto tinha comprado a dívida de Ronaldo através de um fideicomisso cego, oferecendo ao banco 8% acima do capital. E agora, com a documentação travada, ele estava prestes a expor tudo.
Na semana do evento, o salão estava lotado. 300 pessoas. O ar condicionado falhava, e o cheiro de suor se misturava ao perfume caro. Eu estava no palco, apresentando um caso de rotina, quando vi Vanessa se aproximar.
Ela sorriu, daquele jeito que nunca significou nada bom. “Olha o que você acabou de fazer numa camisa de R$ 15. 000”, ela disse, apontando para uma mancha quase invisível. Antes que eu pudesse responder, a voz de Ronaldo saiu pelo sistema de som.
Ele estava perto demais do microfone do palco. E então, ele anunciou: “Senhoras e senhores, permitam-me apresentar devidamente a filha do respeitado perito Raimundo Andrade. ”
Iracema surgiu do lado esquerdo do palco, movendo-se com aquela fluidez sem pressa, o vestido vermelho brilhando. Ela não estava ali por acaso.
Ela estava ali para destruir tudo. “A Vanessa ainda é filha do Raimundo”, ela disse, aproximando o rosto a poucos centímetros do meu. Minha mão foi até o bolso do colete. Eu sabia o que ela pretendia.
Ela queria expor o esquema, provar que eu era corrupto, que tinha aceitado suborno. Mas ela não sabia de tudo. Ela não sabia que eu tinha guardado cada recibo, cada conversa gravada, cada detalhe daquele plano. Ela não sabia que eu tinha um trunfo.
“Pode me dar a data do depósito? ”, perguntei, mantendo a voz firme. Silêncio. Ela hesitou.
Eu continuei. “Transação em 14 de outubro, dois dias depois do meu cheque ser compensado. R$ 280. 000.
R$ 1. 000 gastos em dois dias. ”
Vi o choque passar pelo rosto dela. Ela não esperava que eu soubesse.
“Os R$ 280. 000 foram um teste, doutor”, ela finalmente disse. “Isso precisa ficar completamente fora do registro oficial. Se apresentaria exatamente como deterioração natural.
”
Levantei, dobrei o laudo que tinha no bolso e guardei no bolso interno do palitó, perto do coração, onde ele batia surdo e implacável contra as costelas. “Você recebeu confirmação por escrito do cartório? ”, perguntei. Silêncio do outro lado.
Ela não tinha. “Então, a visita do perito é semana que vem”, eu disse. “E ele vai encontrar exatamente o que eu preparar. ”
Do lado esquerdo do salão, uma mulher de vestido azul escuro se levantou e avançou.
Era a perícia forense do Dr. Almeida, meu antigo colega. Ele havia sido contratado para avaliar minha saúde mental. As portas do salão se abriram 60 segundos depois.
O salão esvaziou devagar, não do jeito que esvazia depois de eventos comuns, mas com um silêncio pesado, de quem sabe que algo grave aconteceu. Em menos de 20 minutos, o salão tinha passado de 300 pessoas para três. Naquela noite, saímos do prédio para a noite de Curitiba. Eu tinha garantido que os R$ 280.
000 voltariam integralmente para minha conta. Mas Vanessa não brigou por nada do que veio do dinheiro de Ronaldo. A linha do tempo federal. O apartamento térreo voltou ao mercado depois que o negócio original caiu por terra.
Eu tinha vencido, mas não havia vitória. Havia apenas o silêncio, a noite fria, e a certeza de que nada na minha vida voltaria a ser como antes.


