O céu estava limpo, sem uma única nuvem, e o avião cortava o silêncio com a sua linha branca. Era o voo internacional 177, Tóquio–Nova Iorque. Na primeira classe, o espaço mais silencioso e luxuoso da aeronave, uma frieza viscosa começava a preencher o ar. Misa Takahashi estava sentada junto à janela.

Tinha trinta e poucos anos, vestia uma camisa simples e gasta com um cardigã desbotado, sem malas caras nem bolsas de marca. O cabelo preto comprido estava preso num rabo de cavalo, mas o rosto mostrava um cansaço profundo, como se não dormisse há dias. À sua volta, os passageiros eram todos pessoas de sucesso. Cavalheiros com fatos impecáveis, senhoras ricas com vestidos brilhantes e sorrisos elegantes.
A aura deles fazia Misa parecer ainda mais deslocada. Foi então que, de uma fileira atrás, ouviu um sussurro malicioso: “Porque é que uma pessoa como ela está num lugar como este? Deve ter havido um erro. ” Uma senhora com unhas vermelhas escondeu a boca com uma mão delicada e lançou um olhar ao marido ao lado.
“Não é agradável ver isto. Estraga uma viagem tão confortável. ” As palavras entraram nos ouvidos de Misa como vidro partido. O coração apertou-se, como se tivesse mergulhado em água fria.
Mas ela não levantou a cabeça. Manteve os olhos no livro sobre os joelhos, respirando baixinho, tentando desaparecer. A poucos metros, um piloto pendia inconsciente, preso pelo cinto de segurança. Com as últimas forças, batia numa peça de metal à sua frente, pedindo ajuda.
Misa, com um grito, estendeu a mão através da fresta do canopy empenado. O piloto era jovem, talvez no início dos vinte anos. O cabelo loiro estava sujo de suor e terra, o rosto contorcido de dor. Abriu os olhos ligeiramente e, ao ver Misa, mexeu os lábios.
Não saía som algum, mas o movimento da boca pedia claramente: “Ajuda-me. ” Misa inalou fumo e tossiu violentamente. Sentiu calor nas mãos. Olhou para baixo.
Estava a sangrar, mas não era o seu sangue. Era do piloto. Um fio escuro escorria pelo seu pulso. Misa apertou os lábios e tentou alcançá-lo, mas o espaço era pequeno e os escombros bloqueavam o caminho.
O piloto voltou a bater na peça de metal. Desta vez, com menos força. Misa percebeu que ele estava a perder a consciência de novo. “Não!
Mantém-te acordado! ” gritou. Estendeu o braço o mais que pôde e conseguiu agarrar os dedos dele. Estavam frios.
Muito frios. Quando o avião caiu, Misa estava na casa de banho. O corpo foi atirado com violência. Ouvia os gritos dos outros passageiros, o som de metal a rasgar, e depois tudo escureceu.
Ao acordar, estava enterrada entre os destroços. Fazia parte de um pequeno grupo de sobreviventes. Havia o piloto, agora inconsciente, e uma mulher idosa com uma perna partida. E havia Hikaru, um homem de fato escuro que se apresentou como executivo.
Ele mantinha a calma, tentava organizar as pessoas, mas Misa notou algo estranho na forma como ele observava a mulher idosa. A mulher chamava-se Kiyoko e tinha um anel de diamante enorme, além de uma corrente de ouro. “Você não deveria estar aqui”, disse Hikaru, com um sorriso forçado. “Esta zona é perigosa.
Fique perto de mim. ” Mas Misa viu o brilho no olhar dele quando olhava para as joias. Não confiava naquele homem. Durante as horas seguintes, Misa tentou fazer o melhor que podia.
Limpou as feridas de Kiyoko, improvisou uma tala para a perna, partilhou a pouca água que encontrou. Mas o piloto estava cada vez pior. A ferida no peito não parava de sangrar. Misa sabia que, sem assistência médica, ele não sobreviveria.
“Precisamos de encontrar ajuda”, disse. Hikaru riu-se. “Não há ajuda. Estamos no meio do nada.
A melhor coisa é racionar os recursos e esperar. ” Misa não concordou. Havia uma colina a leste. Talvez lá de cima pudessem ver uma estrada, uma aldeia, qualquer coisa.
À noite, o frio apertava. Misa enrolou-se perto de Kiyoko, que tremia. “Tenho tanto frio”, murmurou a idosa. Misa tirou o casaco e deu-lhe.
Ficou apenas com a camisa fina. Hikaru olhou para ela com desprezo. “És tola a dar-te a ela”, sussurrou. “Devias guardar as forças para ti.
” E depois, num gesto que Misa quase não viu, Hikaru passou a mão pelo bolso de Kiyoko enquanto fingia ajudá-la. Quando se afastou, o anel dela estava solto no chão. Misa apanhou-o. De manhã, Hikaru exigiu que o grupo seguisse em direção ao norte.
“Eu vi fumo naquela direção. É a nossa melhor hipótese. ” Misa olhou para ele. Não havia fumo nenhum.
“Mentira”, disse. “Não há fumo. ” Hikaru franziu o sobrolho. “O que é que sabes tu?
És apenas uma empregada de limpeza que se perdeu. ” Misa não respondeu. Em vez disso, apontou para a colina. “Vou subir.
Se encontrarmos ajuda, trago-a. Vocês ficam aqui com o piloto. ” Hikaru apertou os olhos. “Não vais a lado nenhum sozinha.
É perigoso. ” Misa sentiu o medo. Mas não era pela segurança dela. Era pelo piloto, por Kiyoko, por ela mesma, porque sabia que, se ficasse ali, Hikaru ia fazer algo pior.
Subiu a colina com o coração a bater. Os joelhos tremiam, mas continuou. Quando chegou ao topo, ficou sem fôlego. Lá em baixo, entre as árvores, viu o brilho de um telhado.
Uma aldeia. Corria em direção a ela, gritando com toda a força. Uma mulher de vestido azul apareceu à porta. “Por favor!
Um acidente de avião! Sofremos um acidente! ” A mulher chamou o marido. Em minutos, a aldeia mobilizou-se.
Homens com macas, mulheres com água, crianças com cobertores, correram para o local do acidente. No local, encontraram o piloto pálido, quase sem pulso. Hikaru parecia furioso. “Onde é que estiveste?
” perguntou, com os dentes cerrados. “Encontrei ajuda”, respondeu Misa, apontando para a equipa que chegava. “Ajuda. ” Os olhos de Hikaru passaram por Misa, pelo piloto, pela Kiyoko, e depois pelas joias que ainda brilhavam no pulso da idosa.
Ele controlou a expressão, mas Misa viu a raiva por baixo. O piloto foi levado numa maca. Quando passou ao lado de Misa, abriu os olhos ligeiramente. “Obrigado”, sussurrou, antes de perder a consciência.
Kiyoko estendeu a mão para Misa. “Aquele homem… ele tentou roubar o meu anel”, disse, com a voz fraca. Misa assentiu.
“Eu sei. Eu vi. ” O marido de Kiyoko, que tinha chegado com a aldeia, aproximou-se e olhou para Hikaru. “O que é que ele fez?
” perguntou. Hikaru recuou. “Não fiz nada. A senhora está confusa.
” Mas Misa confirmou. “Ele tentou tirar-lhe as joias enquanto dormia. ” O marido de Kiyoko chamou um dos aldeões. “Segurem esse homem.
” Hikaru protestou, mas ninguém o ouviu. Foi levado para o posto da aldeia, onde as autoridades o interrogariam. Misa ficou para trás, observando. Horas depois, um helicóptero de resgate chegou.
Os sobreviventes foram levados para o hospital. Misa recebeu tratamento para os cortes e uma dose de oxigénio, mas recusou deitar-se. Ficou no corredor, à espera de notícias do piloto. O médico saiu da sala de operações.
“Ele vai ficar bem”, disse, com um sorriso. “Foi muita sorte. Se não tivesse recebido os primeiros socorros imediatamente… ” Misa sentiu os ombros relaxarem.
Kiyoko, já com uma tala nova, segurou-lhe a mão. “Você arriscou a vida por nós”, disse, com lágrimas nos olhos. “Porquê? ” Misa pensou na irmã, no dia em que a deixara partir, na culpa que carregava há anos.
“Porque ninguém merece ser abandonado”, respondeu. Quando o sol se pôs, Misa sentou-se no quarto do hospital, ao lado da janela. Lá fora, o céu estava limpo outra vez, sem nuvens. O piloto dormia na cama, o peito subindo e descendo lentamente.
O coração dele batia. Ele estava vivo. Kiyoko já estava com a família, num quarto ao lado. Hikaru estava detido pelas autoridades da província.
Tudo estava resolvido. Mas Misa não conseguia dormir. Pensava no que dissera a Kiyoko, na promessa que fizera. E sabia que, quando voltasse para casa, havia uma coisa que precisava de fazer.
Algo em que nunca pensara antes. Algo que mudaria tudo. Mas isso, pensou, é outra história. Misa ficou em silêncio.
O quarto estava escuro, exceto pela luz fraca do monitor. O piloto abriu os olhos. “Misa? ” “Estou aqui”, respondeu.
“Está tudo bem. Dorme. ” Ele fechou os olhos. Ela observou-o durante um momento e depois disse, quase em voz alta: “Vou encontrá-la.
Eu prometo. Não importa quanto tempo demore. ” A luz do monitor continuou a piscar, regular e constante. O sol nasceu, dourado, e Misa soube que, pela primeira vez em muitos anos, tinha finalmente encontrado o início de um caminho.
E foi assim que a história de Misa começou. Não com o acidente, nem com a decisão no hospital, mas naquele momento em que, com a mão do piloto na dela, ela escolheu não deixar ninguém para trás. Escolheu recomeçar. No final, Misa não ficou para sempre naquela aldeia.
Regressou a Tóquio semanas depois, com uma nova cicatriz no braço e uma carta na mala. A carta era um endereço. O endereço de uma casa que não era a dela. A história de como chegara lá será contada noutra altura, mas, por agora, ela sabia exatamente para onde iria.
O sol brilhava, o céu estava limpo e, pela primeira vez, Misa não tinha medo.

