Eu já tinha visto muito medo na vida. Trinta e dois anos de Polícia Civil me ensinaram a reconhecer quando alguém está com medo de verdade. Não foi por causa do luto, não foi por causa da idade. Foi naquela manhã, na sala do velório da minha esposa, que eu percebi que algo estava errado.

A sala estava cheia de gente, mas eu só conseguia pensar em Conceição e no jeito calmo como ela partiu. Karine, a namorada do meu filho Edilson, chegou com um perfume caro que eu senti antes de ver qualquer um deles. Ela se inclinou para me dar um abraço e Edilson respondeu sem tirar os olhos do celular, dizendo que o banco estava com problema na conta do atelier. Depois do sepultamento, as pessoas foram embora.
Eu fiquei ali, sentado, quando Edilson ficou na minha frente, bloqueando a janela, e disse numa voz baixa e direta: “Pai, preciso da senha do aplicativo do banco dela. ”
A senha do banco. Mãe tinha uma conta no nome do atelier. Eu congelei.
Ele repetiu, mais firme: “Você não faz ideia do que está acontecendo. ” Karine me olhou por cima do ombro e saiu com ele. No dia seguinte, procurei um amigo que ainda trabalhava na polícia e pedi para ele investigar Karine. Ele descobriu que Karine tinha feito um seguro de vida em nome de Conceição, e que o beneficiário era Edilson.
O valor? R$ 308. 000. Fui até o escritório do Dr.
Augusto Menezes, o advogado que Conceição usava para os contratos do atelier. Sobre a mesa, havia um gravador de fita cassete, do tipo que ela usava para ouvir as novelas enquanto costurava. A voz que saiu do gravador era de Karine. Ela conversava com Edilson sobre os sintomas de Conceição, sobre como já estava na hora de “empurrar” as visitas ao médico.
A voz do meu filho respondeu, baixa e fria, como eu nunca tinha ouvido: “E o dinheiro do atelier? ” Karine respondeu que a casa, os equipamentos e os contratos valiam mais de R$ 300. 000, e que a conta conjunta que ela tinha com Conceição já estava no nome dela. Eu fiquei ali, parado, ouvindo a fita até o fim.
Depois fui para o atelier onde ela trabalhou por mais de trinta anos. Peguei o carretel de linha azul-marinho onde sabia que ela escondia a chave reserva. Abri o armário e encontrei um caderno velho com recortes de revistas sobre as tunas do Ceará, e junto dele, um envelope de papel pardo com o nome “Edilson” escrito à mão. Dentro do envelope, havia anotações de dívidas.
Dinheiro que meu filho devia a um agiota chamado Giota. A última anotação dizia: “R$ 308. 000, mais os juros. ” E no rodapé, uma frase com a letra de Conceição: “Não guarda os recipientes na lata de biscoito azul embaixo da pia do atelier.
”
Eu entendi tudo. Minha esposa sabia das dívidas do filho. Ela estava com medo há meses. Me lembrei das noites em que acordava e a encontrava sentada na beira da cama, sem dormir.
Me lembrei dela recusando a sopa que Karine preparava. Nunca foi natural. Foi calculado, gradual e cruel. A polícia encontrou traços de chumbinho no sangue de Conceição.
Karine confessou. Edilson, no início, negou, mas acabou falando. A fita gravada, os registros de transferências e as mensagens no celular dele fecharam o caso. Hoje, um ano depois do enterro, peguei um ônibus, não um avião.
Fui até o Ceará, o lugar que Conceição sonhava em conhecer. Levei comigo as cinzas dela. No fim da tarde, na beira do mar, abri a urna e deixei as cinzas irem junto com o vento. Depois, tirei do bolso do paletó uma carta em branco que eu mesmo tinha escrito, imitando a letra de Conceição.
Era para Edilson, Karine e o agiota. Dizia: “Rosendo, se você está lendo isso, não foi do coração. Foi do tamanho do medo que eu senti. ”
Usei o dinheiro do seguro para montar uma fundação em nome dela, paguei o aluguel do atelier por cinco anos adiantado e contratei duas assistentes sociais.
Mas meu filho continua na cadeia, e Karine, também. E toda vez que eu penso naquela voz fria e na fita gravada, sinto o mesmo aperto no peito. Aqui estou eu, no Ceará, do jeito que ela sempre quis.
Ainda sinto falta dela, mas pelo menos sei que ela descansou longe do medo.


