Eu sempre gostei do silêncio de um código bem escrito e da certeza de uma planilha que fecha perfeitamente. Mas na minha antiga empresa, esse silêncio começou a pesar. A primeira fase foi a redução do meu reconhecimento. O Roberto, meu gerente, um homem de 45 anos que valorizava mais a aparência de ocupação do que a produtividade real, começou a tratar os meus relatórios automatizados como se nascessem sozinhos, sem nenhum esforço da minha parte.

Os e-mails estratégicos sobre o futuro do departamento deixaram de chegar à minha caixa de entrada. Um dia, ele me disse: “Deixa a estratégia com quem entende do negócio. ” Eu sabia que ele precisava mostrar serviço e, principalmente, reduzir a folha de pagamento do setor dele. O Lucas, o novo estagiário, deu de ombros com uma confiança inabalável de quem não faz ideia do tamanho do problema.
Fui movido para uma mesa num canto mais escuro, longe da janela. O ar condicionado ali era mais forte, gelado, e o zumbido do servidor central era constante. A ironia era uma mancha circular de café na capa de um documento técnico que eu tinha feito – o símbolo perfeito do desprezo que ele sentia pelo meu trabalho. O convite no calendário dizia apenas “Atualização de estrutura”.
Eu olhei para a minha mesa, toquei as teclas do meu teclado mecânico uma última vez e fechei o meu caderno preto. A reunião com o Roberto não durou mais de dez minutos, mas a escalada até lá foi meticulosa. O novo indicador do departamento passou a ser o número de tickets atendidos, e ele disse: “Aqui estão os detalhes do seu desligamento e a extensão do plano de saúde por 30 dias. O Lucas vai assumir a operação a partir de agora com um custo muito mais alinhado ao orçamento.
” Peguei a minha mochila, guardei o meu teclado mecânico e senti o peso familiar do metal. Saí do prédio com a cabeça erguida. Semanas depois, recebi uma mensagem do Lucas. Ele perguntava: “Você sabe onde fica a senha mestra do portal de fornecedores?
” Era uma exigência de segurança do banco. Eu não respondi na hora. Depois, ele mandou outra mensagem: “Acho que é bug do banco, né? ” Eu sabia que, sem a renovação da autenticação, o sistema não conseguiria baixar os arquivos de retorno do banco e o disco do servidor estouraria em dias.
Não avisei. Na sexta-feira à tarde, o fundo do poço chegou para o Roberto. O disco encheu e tudo travou. Ele tinha ignorado o mapa do tesouro que eu havia deixado para trás.
Eu já tinha seguido em frente. Montei um escritório pequeno em Pinheiros, com piso de madeira, muita luz natural e uma equipe de cinco pessoas que falavam a mesma língua. Em duas semanas, implementei uma versão simplificada do meu sistema de rastreamento. O sistema me avisou que o caminhão do Cláudio, um cliente, estava parado há duas horas no posto.
Fui pessoalmente resolver, e aquele aperto de mão valeu mais do que qualquer bônus corporativo que eu já tinha recebido. No final do primeiro ano, tínhamos 25 clientes ativos. Fui convidado para falar num painel sobre a era da automação humanizada. A cultura que construímos na minha empresa era o exato oposto do ambiente tóxico de onde eu viera.
Eu dizia aos meus colaboradores: “Quero que você use esse tempo para resolver o problema de latência no banco de dados do cliente três. Isso vale muito mais para mim do que você copiando e colando células no Excel. ”
Quase um ano depois da minha demissão, cruzei com o Roberto na rua. Ele hesitou, mexendo nas chaves do carro.
“Como vai? “, perguntou. Eu respondi que a culpa não era do sistema, mas de quem decidiu ignorar o manual de instruções. Ele disse: “Estou fazendo consultoria autônoma agora”, e tirou um cartão amassado do bolso.
Eu sorri, acenei e segui o meu caminho, sabendo que o meu valor não dependia do reconhecimento de ninguém.


