A milionária contratou a mãe solteira para encontrar a noiva perfeita para ele. Ela levou o trabalho a sério, encontrou sete candidatas impecáveis, mas quando as apresentou todas, ele olhou para cada uma e depois olhou para ela e disse algo que ninguém esperava. E tudo mudou naquele momento. Valentina começou a chorar às cinco da manhã.

Joana abriu os olhos no escuro e já sabia. Fome, sempre fome. Levantou-se e pegou a bebé no berço improvisado ao lado. Quatro meses e já tinha aquele choro que Joana reconhecia de longe, o choro de barriga vazia.
Foi para a cozinha com Valentina contra o peito. A lata de leite em pó estava na prateleira, quase vazia. Joana balançou-a. Dava para mais dois dias, talvez três, se fizesse as mamadeiras mais ralas.
Mas não podia. Valentina já era magrinha demais. A pediatra tinha avisado na última consulta: ela precisa de ganhar peso, Joana. Está a alimentá-la bem?
Estava, quando tinha. Preparou a mamadeira com água morna e sentou-se no sofá. Valentina agarrou-a e começou a mamar desesperadamente. Joana olhou para a filha.
Quatro meses. Quatro meses desde que tudo desmoronara. Quatro meses desde que acordara na maternidade e ele já não estava lá. Tinha ido embora, vendido tudo.
A lojinha que tinham juntos, os móveis, as tralhas de casa. Desaparecera. Deixara-a sozinha com uma recém-nascida e nada mais, nem um recado. Joana abanou a cabeça.
Não ia pensar nisso agora. Não adiantava. Valentina terminou a mamadeira e arrotou. Joana limpou-lhe a boquinha e olhou pela janela.
Ainda estava escuro, seis horas. Tinha de tomar banho, arranjar-se, sair para mais uma entrevista de emprego às nove, e Valentina ia ficar com a dona Célia, do terceiro andar, outra vez. A mulher já estava cansada, Joana via-lhe nos olhos. Não posso todos os dias, Joana.
Eu também tenho as minhas coisas. Mas não tinha opção. A creche custava quatrocentos reais por mês. Quatrocentos que ela não tinha.
O telemóvel vibrou na mesinha de centro. Joana franziu a testa. Seis da manhã e alguém a mandar mensagem. Pegou no aparelho.
Número desconhecido. Joana Melo? respondeu. Sim, quem é?
Cláudia Freitas. Trabalhámos juntas na empresa de eventos. Lembra-se de mim? Joana lembrou.
Cláudia era gerente de outro setor. Nunca tinham conversado muito. Lembro, sim. Desculpe a hora, sei que é cedo, mas tenho uma proposta para si e preciso de resposta rápida.
Joana olhou para Valentina a dormir no colo. Proposta? Que tipo de proposta? Pode falar.
Tenho um cliente, Rafael Mendes, dono de uma startup de tecnologia. Muito dinheiro. A família está a pressioná-lo para casar. A avó está doente e quer vê-lo com alguém antes de morrer.
Joana não percebeu onde entrava nisto. Está bem. E então? Ele quer contratar alguém para encontrar candidatas para ele.
Uma espécie de consultora de relacionamentos. Alguém que entreviste mulheres, veja o perfil e as apresente. Pensei em si. Joana quase se riu.
Cláudia, eu organizava festas de casamento. Não arranjo casamentos a ninguém. É parecido. Você é boa com pessoas, sempre foi.
E ele vai pagar cinquenta mil reais. Joana deixou de respirar. O quê? Cinquenta mil?
Metade agora, metade no final. Sessenta dias de trabalho. Você procura candidatas, apresenta-as, pronto. Cinquenta mil reais.
Vinte e cinco mil. Agora. Leite para a Valentina. Fraldas, renda, luz, água, tudo.
Eu não sei fazer isso. Ninguém sabe até fazer. Ele não quer nada complicado. Só quer alguém organizada que encontre mulheres interessantes.
Você consegue. Joana olhou para a lata de leite quase vazia na cozinha. Quando é que ele quer começar? Hoje.
Ele quer conhecê-la hoje. Almoço, meio-dia. Mando o endereço. Joana desligou e ficou a olhar para o telemóvel.
Cinquenta mil reais. Nunca tinha visto tanto dinheiro junto na vida. E ele ia dar metade assim, sem sequer a conhecer. Valentina mexeu-se no colo e abriu os olhinhos.
Joana olhou para a filha. Quatro meses, pequenina, frágil, a depender dela para tudo. A mamã vai dar um jeito, meu amor. Dá sempre.
Mas será que dava? Será que conseguia fazer aquilo? Encontrar mulheres para um milionário casar? Como?
Onde? Mal saía de casa, mal tinha roupa decente, mal tinha dinheiro para o autocarro. O telemóvel vibrou de novo. Mensagem de Cláudia com o endereço.
Restaurante nos Jardins. Joana conhecia o nome. Lugar caro, muito caro. Lugar onde nunca tinha entrado na vida.
Ele vai mandar um motorista buscá-la. A que horas pode? Joana olhou para o relógio. Às nove tinha entrevista numa loja de roupas.
Ia cancelar por uma coisa que nem sabia se ia dar certo. Mas vinte e cinco mil agora. Digitou a resposta. Onze e meia.
Perfeito. O motorista vai buscá-la à porta. Mande o seu endereço. Joana mandou.
Vila Progresso, zona norte. O homem ia achar estranho. Ia achar que ela não tinha nível para trabalhar com um milionário. Mas e daí?
Não tinha nível mesmo. Não tinha roupa chique, não tinha carro, não tinha nada. Só tinha uma bebé de quatro meses e dezassete reais na carteira. Levantou-se e foi para o quarto.
Abriu o guarda-roupa. Três calças de ganga, cinco blusas, um vestido preto que usava nas festas que organizava, velho, meio desbotado. Mas era o que tinha. Pegou no vestido e numas sandálias rasas pretas.
Ia ter de servir. Às sete e meia acordou a dona Célia. A mulher atendeu o interfone com voz de sono. Joana, que foi, dona Célia?
Desculpe acordá-la cedo. Preciso de deixar a Valentina hoje outra vez. Sei que a senhora já fez muito, mas hoje não dá, querida. Vou sair.
Tenho consulta no médico. Joana sentiu o chão fugir-lhe. A senhora volta a que horas? Só à tarde, umas quatro.
O almoço era ao meio-dia. Quanto tempo ia demorar? Uma hora, duas? E se demorasse mais?
E se o homem quisesse conversar e explicar tudo direitinho? Joana. Está bem, dona Célia. Obrigada.
Desligou. E agora? Quem mais? Não tinha ninguém.
A mãe tinha morrido três anos antes. O pai nunca conheceu. Amigas, as poucas que tinha, sumiram quando engravidou. Ninguém quer ser amiga de uma mãe solteira falida.
Olhou para Valentina. Vais ter de vir comigo, não é, filha? A bebé olhou para ela e fez aquele sorrisinho desdentado que derretia o coração de Joana. Está bem, vamos juntas.
Sempre foi assim, afinal. Às onze e um quarto, Joana estava pronta. Vestido preto, sandálias, cabelo preso num coque. Maquilhagem não tinha.
Vendera tudo há dois meses para pagar as contas. Pegou em Valentina, na mala das fraldas, e desceu. O motorista já estava lá. Carro preto, vidros fumados.
O homem saiu e abriu a porta. Olhou para Joana, olhou para a bebé, não disse nada. Joana entrou. O carro cheirava a novo.
Banco de couro, ar condicionado gelado. Valentina mexeu-se no colo. Joana ajeitou a manta à volta dela. Quanto tempo até lá?
Uns quarenta minutos. O trânsito está pesado. Quarenta minutos. Valentina ia aguentar ou ia começar a chorar a meio do caminho?
Joana rezou para que dormisse. Só desta vez, precisava. O carro saiu da Vila Progresso e apanhou a marginal. Joana olhou pela janela.
Prédios, pontes, carros. São Paulo gigante e indiferente. Ela morava ali a vida inteira e, às vezes, parecia uma cidade estranha. Valentina dormiu, graças a Deus.
Joana encostou a cabeça no banco e respirou fundo. Vinte e cinco mil agora. Mas e se ele olhasse para ela e visse o que ela era? Uma mãe solteira falida com uma bebé de quatro meses?
E se desistisse? E se achasse que ela não servia? Não podia pensar assim. Precisava daquele dinheiro.
Precisava. O carro parou. Chegámos. Joana olhou pela janela.
Restaurante elegante, fachada requintada, pessoas bem vestidas a entrar e a sair. Ela não pertencia ali. Nunca pertencera. Mas tinha Valentina no colo, e Valentina precisava de leite, de fraldas, de um teto.
Obrigada. Saiu do carro e entrou. O restaurante era tudo o que imaginara. Silencioso, chique.
Mesas com toalhas brancas, empregados de gravata. Ela com um vestido velho e uma bebé ao colo. Toda a gente olhou. Joana sentiu o rosto a aquecer.
Uma mulher aproximou-se. Posso ajudar? Tenho um almoço marcado. Rafael Mendes.
A mulher olhou para Valentina, olhou para o vestido de Joana. Ele já está à mesa, por aqui. Atravessaram a sala. Joana sentia os olhares.
Sabia o que estavam a pensar. O que é que ela está a fazer aqui? Chegaram a uma mesa no canto. Um homem levantou-se.
Alto, fato cinzento, cabelo escuro penteado para trás. Bonito, muito bonito. Olhou para Joana, depois para Valentina. Joana Melo, sou eu, Rafael Mendes.
Sente-se, por favor. Joana sentou-se e acomodou Valentina no colo. A bebé estava a acordar. Não, agora não.
Desculpe trazê-la. Não tinha com quem a deixar. Sem problema. Quantos meses?
Quatro. Ele assentiu. Não parecia incomodado. Parecia curioso.
A Cláudia explicou-lhe o que eu preciso? Mais ou menos. Você quer que eu encontre mulheres para si conhecer? Isso.
Candidatas. Mulheres interessantes, bem-sucedidas, que façam sentido para mim. Joana não fazia ideia de que tipo de mulher fazia sentido para um milionário. E como é que eu vou saber quem faz sentido?
Você vai entrevistar, conhecer, ver se a pessoa é séria, se tem objetivos, se não é maluca atrás de dinheiro. Quantas mulheres? Sete. Quero conhecer sete em sessenta dias.
Sete mulheres em sessenta dias. Joana fez as contas. Uma por semana, mais ou menos. Dava, talvez.
E vai pagar cinquenta mil por isso? Vinte e cinco agora. Vinte e cinco quando apresentar a sétima. Valentina começou a choramingar.
Joana balançou-a. Não, agora não, filha, só mais um bocadinho. E porquê eu? Há muita gente que faz isto profissionalmente.
Rafael inclinou-se sobre a mesa. Porque eu não quero uma profissional. Uma profissional vai trazer-me o que eu pedir no papel. Eu quero alguém real, alguém que olhe para a pessoa e veja se ela é verdadeira.
A Cláudia disse que você é assim, que vê as pessoas. Joana não sabia se via as pessoas. Só sabia que precisava daquele dinheiro. E se eu não encontrar ninguém de quem você goste?
Vai encontrar. Sessenta dias, sete mulheres. Se eu não gostar de nenhuma, o problema é meu. Você recebe os cinquenta mil na mesma.
Parecia fácil demais. Tinha de haver uma armadilha. E o que espera delas? Alguém com quem eu consiga conversar, que seja inteligente, que não esteja atrás só de dinheiro, que queira construir alguma coisa comigo.
Joana olhou para ele. Rafael Mendes, milionário, bonito e sozinho. Posso fazer uma pergunta? Pode.
Porque é que não procura sozinho? Deve haver mulheres a mais quererem ficar consigo. Ele sorriu, mas era um sorriso sem alegria. Exatamente.
Mulheres a mais. Mas nenhuma me quer. Querem o dinheiro, o estatuto, a vida que eu posso dar. Eu não quero isso.
Quero alguém que me escolha a mim. Joana percebeu de uma forma estranha. Percebeu mesmo. Está bem, aceito.
Tem a certeza? Tenho. Não tinha, mas vinte e cinco mil agora. Rafael pegou no telemóvel.
Dê-me os seus dados. Vou transferir agora. Agora? Agora.
Joana deu. Ele digitou. Menos de um minuto depois, o telemóvel dela vibrou. Notificação do banco.
Vinte e cinco mil reais depositados. Joana olhou para o ecrã, piscou, olhou de novo. Ainda estava lá. Vinte e cinco mil reais.
Olhou para Rafael. Pronto. Agora trabalha para mim durante sessenta dias. Começa amanhã.
Valentina começou a chorar. Agora sim, fome outra vez. Joana levantou-se. Desculpe, ela precisa de mamar.
Tudo bem. Falamos mais amanhã. Mando-lhe mensagem. Joana saiu do restaurante com Valentina a chorar ao colo e vinte e cinco mil reais na conta.
Sentou-se num banco na calçada e deu a mamadeira que tinha trazido. A bebé agarrou-a e mamou. Joana olhou para o céu, azul, limpo. Pela primeira vez em quatro meses, respirou sem sentir o peito apertado.
Sessenta dias. Sete mulheres. Ela conseguia. Tinha de conseguir.
Joana entrou no apartamento e a primeira coisa que fez foi abrir a aplicação do banco outra vez. Ainda estava lá. Vinte e cinco mil reais. Não tinha sumido.
Não era um sonho. Sentou-se no sofá com Valentina ao colo e ficou a olhar para o ecrã. Há quanto tempo não via tantos números juntos? Nunca.
Nunca tinha visto. Valentina puxou-lhe o cabelo. Joana nem sentiu. Estava a calcular.
Renda, novecentos. Luz, cento e cinquenta. Água, oitenta. Internet, noventa e nove.
Fraldas, duzentos por mês. Leite, cento e cinquenta. Comida, quatrocentos. Se soubesse esticar, dava para uns três meses a viver apertado, ou dois a viver normal.
E ainda sobrava para o resto. Roupa para a Valentina, consultas médicas, remédios, se precisasse. Finalmente, ia conseguir respirar. O telemóvel tocou.
Número desconhecido outra vez. Atendeu. Joana, era ele. Rafael.
Olá. Esqueci-me de lhe dizer uma coisa. Vai precisar de um escritório. Não dá para fazer as entrevistas em sua casa.
Joana olhou à volta. O apartamento minúsculo, a parede descascada, o sofá velho. Claro que não dava. Está bem.
E onde? Vou arranjar um lugar. Amanhã mando-lhe o endereço. E outra coisa, vai precisar de roupa.
Joana olhou para o vestido preto que ainda vestia. Velho, desbotado. Que tipo de roupa? Roupa de trabalho.
Social. Vai entrevistar mulheres de alto nível. Precisa de parecer profissional. Joana não tinha roupa profissional.
Tinha vendido tudo. Quanto posso gastar? O que precisar. Manda a fatura depois que eu reembolso.
Ia comprar roupa com dinheiro dele. Parecia estranho, mas era trabalho. Precisava de parecer apresentável. Está bem.
Amanhã falamos melhor. Nove horas, mando-lhe o endereço. Desligou. Joana ficou a olhar para o telemóvel.
Estava a acontecer rápido demais. Ontem estava falida. Hoje tinha vinte e cinco mil na conta e um trabalho de que não fazia ideia como fazer. Valentina começou a choramingar outra vez.
Fome. Sempre fome. Joana levantou-se e foi para a cozinha. Abriu a lata de leite, quase vazia, mas agora podia comprar mais.
Podia comprar dez latas, se quisesse. Fez a mamadeira e deu a Valentina. Enquanto a bebé mamava, Joana pensou: sete mulheres. Como é que ia encontrar sete mulheres para um milionário?
Onde é que essas mulheres estavam? Não podia sair à rua e perguntar: quer casar com um homem rico? Tinha de haver uma forma, um processo, alguma coisa. Pegou no telemóvel e abriu o Google.
Digitou: como funciona uma matchmaker? Apareceram vários resultados, agências, consultoras, processos elaborados, questionários, testes de compatibilidade. Joana leu tudo, anotou mentalmente. Precisava de um formulário, perguntas, critérios.
Rafael tinha dito: inteligente, que não esteja atrás só de dinheiro, que queira construir alguma coisa. Tudo bem. Mas como saber se a pessoa era assim de verdade? Toda a gente sabia mentir.
Toda a gente sabia dizer o que o outro queria ouvir. Ia ter de confiar no instinto, ver além das palavras, ver a pessoa de verdade. Tipo o que ele tinha dito que ela fazia. Será que fazia?
Joana sempre achou que sim. Sempre soube quando alguém mentia, quando alguém era falso. Era como um radar interno que nunca falhava. Por isso tinha sido boa a organizar casamentos.
Sabia quando a noiva estava feliz de verdade ou só a fazer teatro. Sabia quando o noivo estava apaixonado ou só a cumprir protocolo. Via as pessoas. Talvez conseguisse fazer aquilo outra vez, só que agora para encontrar uma esposa para um milionário que mal conhecia.
No dia seguinte, Joana acordou cedo. Valentina tinha dormido a noite toda. Um milagre. Tomou banho, vestiu umas calças de ganga e uma blusa branca.
Era o melhor que tinha até comprar roupa nova. Pegou em Valentina e desceu. Ia de autocarro mesmo. Ainda não se tinha habituado à ideia de ter dinheiro.
Às oito e meia, o telemóvel tocou. Mensagem de Rafael com o endereço. Rua Oscar Freire. Joana conhecia o nome.
Zona chique, muito chique. Apanhou dois autocarros. Chegou às nove e um quarto, atrasada. Encontrou o prédio, vidro espelhado, porteiro de fato.
Ela com Valentina ao colo e a mala das fraldas pendurada. O porteiro olhou-a. Posso ajudar? Tenho uma reunião com o Rafael Mendes.
Ele consultou a lista. Décimo segundo andar, sala mil e duzentos. Joana entrou. Elevador espelhado.
Viu o próprio reflexo. Cabelo preso num rabo de cavalo simples, sem maquilhagem, olheiras fundas. Parecia cansada. Parecia pobre.
Porque era. O elevador parou. Décimo segundo andar. Joana saiu e procurou a sala.
Mil e duzentos, porta de vidro. Entrou. Era um escritório pequeno. Mesa, duas cadeiras, computador, nada mais.
Rafael estava de pé, a olhar pela janela. Virou-se quando ela entrou. Chegou. Desculpe o atraso.
O autocarro demorou. Ele olhou para Valentina. Ela vai ficar aqui durante o trabalho? Joana não tinha pensado nisso.
Não tenho com quem a deixar. Contrate alguém, uma ama. Dou-lhe uma ajuda de custo mensal para isso. Ama?
Joana nunca teve ama. Nunca pensou que teria hipótese. Quanto? Dois mil por mês.
Para cobrir a ama e outras despesas de trabalho. Dois mil por mês. Além dos cinquenta mil. Joana ia receber setenta e dois mil em dois meses.
Era irreal. Obrigada. Sente-se. Vamos conversar sobre como isto vai funcionar.
Joana sentou-se, acomodou Valentina no colo. Rafael sentou-se do outro lado da mesa. Primeiro, o perfil. Preciso que entenda que tipo de mulher procuro.
Disse ontem: inteligente, que não esteja atrás de dinheiro, que queira construir alguma coisa. Isso. Mas há mais. Não quero alguém fútil, alguém que só pense em festas, roupa, viagens.
Quero alguém com propósito, que faça alguma coisa, que tenha carreira ou projeto, qualquer coisa que não seja gastar dinheiro dos outros. Joana anotou mentalmente. Idade entre vinte e oito e trinta e cinco. Tem de ser de São Paulo?
Não necessariamente, mas tem de estar disposta a morar aqui. Aparência. Rafael hesitou. Não vou mentir, tem de haver atração.
Mas beleza padrão não me interessa. Prefiro alguém interessante, diferente, que tenha algo especial. Joana não sabia o que era algo especial, mas deixou para lá. Como quer conhecê-las?
Você entrevista primeiro. As que passarem no seu filtro, marca um jantar informal comigo para eu conhecer. Se eu gostar, marcamos um segundo encontro, e assim por diante. E se não gostar de nenhuma das sete?
Improvável. Mas se acontecer, recebe os cinquenta mil na mesma. O combinado é encontrar e apresentar. O que eu faço depois é problema meu.
Parecia justo. Ou generoso demais. Joana ainda não sabia qual. Quando quer que eu comece?
Hoje. Agora. Faça uma divulgação, redes sociais, anúncio, o que achar melhor. Só não pode dizer que é para mim.
Tem de ser discreto. Como assim? Diga que é para um cliente, um empresário bem-sucedido, que procura uma relação séria. Sem nome, sem foto, nada que me identifique.
Não quero aparecer em fofocas da internet. Fazia sentido. E as mulheres vão aceitar isso? Conhecer alguém sem saber quem é.
Se forem sérias, vão. Se só se interessarem quando souberem quem eu sou, eliminam-se sozinhas. Esperto. Pensou em tudo?
Pensei. Não é a primeira vez que tento resolver isto. Já contratou outras pessoas antes de mim? Não.
Mas já tentei sozinho. Aplicações de relacionamento, eventos sociais. Sempre a mesma coisa. Mulheres interessadas no dinheiro.
E porque é que acha que eu vou encontrar diferente? Rafael olhou para ela, depois para Valentina. Porque você sabe o que é precisar de verdade. Não me vai trazer gente fútil.
Vai trazer gente real. Joana não tinha a certeza disso, mas não ia discutir. Precisava do dinheiro. Precisava que desse certo.
Está bem, vou começar hoje. Ótimo. Qualquer coisa, chame-me. Já tem o meu número.
Levantou-se. Joana também. Valentina tinha adormecido no colo. Graças a Deus.
Ah, e Joana? Sim. Compre a roupa hoje. Amanhã vai precisar.
Provavelmente vai ter candidatas a querer entrevista. Está bem. Saiu do escritório e apanhou o elevador lá para baixo. Parou na calçada.
Comprar roupa. Onde? Centro comercial, loja de departamento. Quanto gastava?
Rafael tinha dito o que precisasse, mas ela não tinha noção. Decidiu ir a um centro comercial perto. Entrou numa loja de roupa social feminina. As vendedoras olharam para ela, para Valentina, para o jeito como estava vestida.
Uma aproximou-se. Posso ajudar? Preciso de roupa de trabalho. Social.
Duas ou três peças. A vendedora avaliou-a. Que tipo de trabalho? Entrevistas, reuniões.
Nada muito formal, mas tem de ser apresentável. Percebi. Venha comigo. Meia hora depois, Joana saiu da loja com duas calças de alfaiataria, três blusas e um blazer.
Oitocentos reais. Nunca tinha gasto tanto em roupa na vida, mas precisava. Era trabalho. Foi para casa e pôs Valentina no berço.
A bebé dormiu. Joana sentou-se no sofá com o telemóvel e abriu o Instagram. Tinha uma conta pessoal com trezentos seguidores, não servia. Precisava de algo profissional.
Criou uma conta nova, deu-lhe o nome Conexões Verdadeiras, consultoria de relacionamentos. Fez uma biografia simples: encontramos pessoas compatíveis para relações sérias. Discrição garantida. Publicou o primeiro anúncio.
Escolheu uma foto genérica de um casal de mãos dadas. Escreveu: empresário bem-sucedido, trinta e cinco anos, procura relação séria. Perfil: mulher inteligente, independente, com propósito de vida. Interessadas, enviem mensagem direta.
Processo seletivo discreto. Publicou. Esperou. Nada, claro.
Conta nova, zero seguidores. Ninguém ia ver. Precisava de impulsionar. Mas como?
Não percebia nada de Instagram. Pegou no telemóvel e ligou para Rafael. Joana, olá, desculpe incomodar. Fiz um anúncio no Instagram, mas a conta é nova, ninguém vai ver.
Conhece alguém que perceba disso que possa ajudar? Mande o link. Vou pedir à equipa de marketing da empresa para dar uma força. A sério?
A sério. Mande. Joana mandou. Meia hora depois, a conta tinha dois mil seguidores, o post tinha curtidas e quinze mensagens na caixa de entrada.
Joana abriu, leu a primeira. Olá, interessei-me. Tenho vinte e nove anos. Sou arquiteta.
Como funciona? Segunda: ele é bonito, tem foto. Terceira: quanto ganha? Joana suspirou.
Ia ser mais difícil do que pensava. Passou a tarde a responder mensagens, a explicar o processo, a enviar um formulário simples que tinha feito no Google Forms. Perguntas básicas. Nome, idade, profissão, procura relação séria, o que considera importante num parceiro.
Das quinze que escreveram, dez preencheram o formulário. Joana leu as respostas, eliminou três na hora. Respostas vazias, frases feitas. Dava para ver que só queriam conhecer alguém rico.
Sobraram sete. Marcou entrevistas presenciais com as sete para a semana seguinte. Segunda, terça e quarta. Duas por dia na segunda e terça, três na quarta.
No fim da tarde, ligou para Rafael. Consegui sete candidatas para entrevistar. Já? Já.
A semana que vem. Rápido. Você impulsionou, ajudou. Ótimo.
Avise-me como correram as entrevistas. E, Joana? Sim? Obrigado por aceitar isto.
Sei que é estranho. É estranho, sim. Mas preciso do dinheiro. Então estamos quites.
Ele riu-se. Gosto da sua honestidade. É tudo o que tenho. Desligou.
Olhou para Valentina a acordar no berço. A mamã arranjou um trabalho maluco, filha. Mas vamos conseguir. A bebé olhou para ela e sorriu.
Joana pegou-lhe ao colo e abraçou-a. Sessenta dias. Sete mulheres. Vinte e cinco mil já no bolso.
Outros vinte e cinco no final. Ia conseguir. Tinha de conseguir, porque agora, pela primeira vez em quatro meses, tinha esperança. E esperança era tudo o que precisava para continuar.
Segunda-feira chegou rápido demais. Joana acordou às seis, deu banho a Valentina, preparou a mala das fraldas e arranjou-se. Calças de alfaiataria pretas, blusa branca, blazer cinzento. Olhou-se ao espelho.
Parecia outra pessoa. Parecia profissional. Parecia alguém que sabia o que estava a fazer. Mentira.
Não sabia nada. Mas ia fingir até conseguir. Às sete e meia tocaram à campainha. Joana atendeu o interfone.
Joana Melo? Sim. Sou a Dalva. O senhor Rafael contratou-me para cuidar da Valentina.
Joana abriu a porta. Uma mulher de uns cinquenta anos subiu as escadas. Cabelo grisalho preso, roupa simples, mas limpa, sorriso gentil. Bom dia.
Pode tratar-me por Dalva. Trabalho com crianças há trinta anos. O senhor Rafael passou-me todas as informações da bebé. Joana ficou parada.
Rafael tinha contratado a ama sem sequer perguntar. Devia ficar zangada, mas não conseguia. Precisava muito daquilo. Obrigada por ter vindo.
Imaginemos, querida. Onde está a pequena? Joana mostrou Valentina no berço. Dalva aproximou-se e pegou na bebé ao colo com aquele jeito de quem sabia exatamente o que fazer.
Valentina nem chorou. Ficou quietinha a olhar para a mulher. Que fofura. Quantos meses?
Quatro. Boa fase. Já está a começar a interagir. Dalva olhou para Joana.
Pode ir descansada para o seu trabalho. Eu cuido dela direitinho. O senhor Rafael já pagou adiantado. Fico das oito ao meio-dia.
Se precisar de mais tempo, é só avisar. Joana sentiu os olhos a arder. Quando foi a última vez que alguém tinha cuidado de alguma coisa por ela? Obrigada, a sério.
Vá, querida, senão vai chegar atrasada. Joana pegou na mala e saiu. No autocarro, ficou a pensar. Rafael tinha resolvido o problema da ama sem ela pedir.
Tinha impulsionado o Instagram sem ela pedir. Estava a facilitar tudo. Porquê? Será que era sempre assim?
Generoso, ou só queria garantir que ela fizesse o trabalho direito? Chegou ao escritório às oito e cinquenta. A primeira entrevista era às nove. Sentou-se na cadeira, ligou o computador, abriu o formulário da candidata.
Beatriz Carvalho, vinte e nove anos, advogada, escritório próprio, solteira. Na pergunta sobre por que procurava uma relação séria, tinha escrito qualquer coisa sobre estar cansada de relações superficiais e querer construir algo real. Parecia boa no papel. Joana ia ver pessoalmente.
Às nove em ponto, tocaram à campainha. Joana abriu. Beatriz Carvalho era exatamente o que esperava. Bonita, elegante, cabelo liso nos ombros, maquilhagem impecável, roupa de marca.
Sorriu profissionalmente. Joana, sou eu. Entre, por favor. Beatriz entrou e sentou-se na cadeira em frente à mesa.
Cruzou as pernas, pôs a mala no colo. Tudo muito calculado. Joana sentou-se do outro lado. Obrigada por ter vindo.
Vou fazer-lhe algumas perguntas para perceber melhor o seu perfil. Claro. É advogada. Em que área?
Empresarial. Tenho o meu próprio escritório. Faturação boa, clientela sólida. Há quanto tempo?
Três anos. E porque decidiu procurar uma relação através de uma consultoria? Beatriz inclinou a cabeça. Porque no meu meio toda a gente é casada ou comprometida, e os solteiros geralmente têm medo de mulheres bem-sucedidas.
Pensei que através de uma consultoria conseguiria conhecer alguém ao mesmo nível. Ao mesmo nível? Joana anotou mentalmente. O que considera importante numa relação?
Parceria, objetivos comuns, respeito mútuo e, claro, estabilidade financeira. Claro. Disse no formulário que quer construir algo real. O que significa isso para si?
Significa casar, ter filhos, construir património juntos, crescer como casal. Resposta ensaiada. Joana conhecia quando alguém estava a recitar. E se a pessoa não tiver interesse em ter filhos?
Bom, eu tenho. É algo com que não posso abdicar. Percebo. E quanto à rotina?
Trabalha muito. Bastante, mas consigo equilibrar. Tenho disciplina. Joana fez mais algumas perguntas sobre família, sobre hobbies, sobre o que fazia nas horas livres.
Beatriz respondeu a tudo certinho, tudo no lugar, tudo perfeito demais. Obrigada, Beatriz. Vou analisar o seu perfil e entrarei em contacto. Quando vou saber se passei?
Até sexta-feira. Beatriz levantou-se, apertou a mão de Joana e saiu. Joana ficou sentada a olhar para as anotações. Beatriz era perfeita no papel.
Bonita, bem-sucedida, articulada. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que não encaixava. Era mecânica demais.
Fria demais. Parecia mais uma negociação de contrato do que alguém à procura de amor. A segunda entrevista era às onze. Amanda Rocha, trinta e um anos, médica, pediatra.
Joana leu o formulário outra vez. A resposta sobre relação séria mencionava anos focada na carreira e agora queria encontrar alguém que percebesse isso, mas que também quisesse construir uma vida em conjunto. Diferente, menos rígida. Às onze, Amanda chegou.
Diferente de Beatriz. Cabelo encaracolado, preso num rabo de cavalo, pouca maquilhagem, roupa simples, mas bonita. Sorriu, cansada. Desculpe se parecer meio morta.
Plantão de vinte e quatro horas. Acabei agora mesmo. Tudo bem. Sente-se.
Quer água? Café. Café, por favor. Joana preparou um café na cafeteira pequena que tinha no escritório.
Trouxe para Amanda. A mulher bebeu e suspirou. Obrigada. Estava a precisar.
Joana sorriu. Gostou dela na hora. Trabalha em hospital? Trabalho.
Hospital público. Pediatria. Deve ser puxado. É, mas eu adoro crianças.
É o que me faz acordar todos os dias. Joana pensou em Valentina. Eu percebo. Tem filhos?
Tenho. Uma bebé de quatro meses. Amanda sorriu. Que boa fase.
Aproveite. Joana apercebeu-se de que gostava cada vez mais dela. Conte-me porque procurou a consultoria. Amanda encostou-se na cadeira.
Sinceramente, por favor, porque eu não tenho tempo. A minha rotina é maluca. Plantões, cirurgias, consultas. Quando chego a casa, só quero dormir.
As aplicações de relacionamento não funcionam. Os homens acham que uma médica ganha muito dinheiro e ficam dececionados quando descobrem que uma pediatra de hospital público está longe de ser rica. Joana riu-se. E o que procura?
Alguém que perceba que não vou deixar a minha carreira, que não tenha ciúmes do meu trabalho, que queira construir algo junto. Não precisa de ser médico. Só precisa de ser um parceiro a sério. Sincera, direta, real.
E filhos? Quer? Quero. Mas não agora.
Daqui a uns anos, quando tiver mais estabilidade. Estabilidade financeira, emocional. Não quero ter um filho só porque me apeteceu. Quero estar pronta.
Joana fez mais perguntas sobre família, sobre sonhos, sobre medos. Amanda respondeu a tudo com uma honestidade que Beatriz não tinha. Quando a entrevista terminou, Joana tinha a certeza. Amanda passava.
Obrigada, Amanda. Dou-lhe resposta até sexta-feira. Obrigada eu, e pelo café. Salvou-me a vida.
Saiu. Joana ficou sozinha no escritório. Duas entrevistas. Uma parecia um contrato.
A outra parecia gente. O telemóvel tocou. Rafael, olá. Como correram as entrevistas?
Tive duas. Uma advogada e uma médica. E então? A advogada é perfeita no papel.
Bonita, bem-sucedida, elegante. Mas é fria. Parece que está a fechar negócio, não a procurar uma relação. E a médica?
Diferente. Sincera. Cansada. Real.
Trabalha em hospital público, pediatria, plantões de vinte e quatro horas. Gosta do que faz. Quer um parceiro, não um provedor. Silêncio do outro lado.
Depois Rafael perguntou: e acha que eu ia gostar dela? Joana pensou. Acho que ia respeitá-la, que é diferente de gostar. Mas é um começo.
Mande-me o contacto dela. Vou convidá-la para jantar. A sério? Já?
Já. Se acha que vale a pena, confio no seu julgamento. Joana desligou e ficou a olhar para o telemóvel. Ele confiava no julgamento dela.
Um milionário que mal a conhecia confiava nela. Era estranho. Mas também era bom. Mandou o contacto de Amanda para Rafael e guardou o telemóvel.
Voltou para casa ao meio-dia e meia. Dalva estava na sala com Valentina ao colo. A bebé dormia. Como correu?
Perguntou Joana baixinho. Tranquilo. Mamou, brincou um bocadinho e dormiu. É uma fofura.
Obrigada, Dalva, a sério. Amanhã volto à mesma hora. A mulher entregou Valentina a Joana e saiu. Joana ficou sozinha com a filha.
Sentou-se no sofá e olhou para a bebé. Quatro meses. Pequenina, a dormir tranquila. Não fazia ideia do que a mãe estava a fazer, do trabalho maluco que tinha arranjado, de como a vida delas tinha mudado numa semana.
Joana encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos. Estava cansada. Mas era um cansaço diferente. Já não era o cansaço de não saber como pagar as contas.
Era o cansaço de trabalhar, de fazer alguma coisa, de ter esperança. Na terça, teve mais duas entrevistas. Camila, publicitária de trinta anos. Inteligente, engraçada, mas deixou escapar três vezes que adorava viajar e conhecer lugares caros.
Eliminada. Fernanda, engenheira de vinte e oito. Séria, focada. Mas quando Joana perguntou o que fazia para relaxar, disse que não relaxava.
O trabalho era a vida. Joana anotou como talvez. Na quarta, teve três: Juliana, professora universitária, Tatiana, arquiteta, e Renata, empresária. Juliana era doce, mas insegura demais.
Passava o tempo todo a comparar-se com outras mulheres. Tatiana era interessante, mas deixou claro que não abdicava da rotina dela. Tudo tinha de se encaixar no horário dela. Renata foi a surpresa.
Trinta e três anos, dona de uma pequena empresa de cosméticos naturais. Lutadora, tinha começado do zero, construído tudo sozinha. Quando Joana perguntou porque procurava uma relação através da consultoria, respondeu: porque estou cansada de homens com ego frágil que não aguentam uma mulher que ganha mais. Pensei que através de uma consultoria encontrasse alguém que já tivesse resolvido as próprias questões.
Joana gostou. Anotou como forte candidata. No fim da semana, tinha três nomes. Amanda, a pediatra.
Fernanda, a engenheira workaholic. Renata, a empresária. Ligou para Rafael na quinta à noite. Tenho três nomes para lhe dar.
Três das sete? As outras quatro não passaram no meu filtro. Porquê? Uma só falava em viajar para lugares caros.
Outra era insegura demais. Outra queria que tudo girasse em volta dela. A última era boa, mas deixou claro que o casamento tinha de ser nos termos dela ou nada. E as três que passaram?
Amanda, a pediatra de que já falei. Fernanda, engenheira. Workaholic, como você. Pode ser que se entendam.
E Renata, empresária. Lutou muito, construiu tudo sozinha, tem personalidade forte. Mande-me os contactos. Vou marcar jantares com as três.
Em dias diferentes. Quero conhecê-las, ver se acertou. Joana mandou os contactos e desligou. Três de sete.
Menos de metade. Será que estava a ser exigente demais? Ou será que estava a fazer certo? Na sexta de manhã, o telemóvel tocou.
Rafael outra vez. Joana, marquei jantar com a Amanda hoje, às oito, no restaurante Antiquários. Está bem, mas porque está a avisar-me? Quero que vá comigo.
Joana quase deixou cair o telemóvel. O quê? Quero que vá. Observe.
Veja a interação. Dê-me a sua opinião depois. Mas não é estranho eu ficar a observar-vos a jantar? Não vou dizer que está a observar.
Vou dizer que faz parte do processo, que a consultora precisa de estar presente no primeiro encontro. Ela vai perceber. Joana não tinha a certeza. Rafael, eu tenho uma bebé de quatro meses.
Não posso sair à noite. A Dalva pode ficar. Já falei com ela. Disse que pode precisar de horas extra.
Ela aceitou. Ele tinha pensado em tudo. Não tenho roupa para jantar num sítio desses. Compre.
Mande a fatura. Rafael. Joana, eu preciso disto. Preciso de alguém que veja as coisas que eu não vejo, que perceba o que eu não percebo.
Você é boa nisso. Eu sei que é. Joana suspirou. Está bem, vou.
Ótimo. Vou buscá-la às sete e meia. Desligou. Joana ficou a olhar para o telemóvel.
Ia jantar com um milionário e uma candidata a esposa dele num restaurante caro, a observar a interação dos dois. O trabalho estava a ficar cada vez mais estranho. Joana passou a tarde toda à procura de roupa. Entrou em três lojas antes de encontrar um vestido que servisse.
Preto, simples, mas elegante. Trezentos e noventa reais. Caro demais para o gosto dela, mas era trabalho. Voltou para casa às cinco.
Dalva já estava lá com Valentina. A pequena mamou e está a dormir. Eu fico até ao que precisar. Obrigada, Dalva.
Não sei a que horas volto. Sem pressa, querida. Aproveite a sua saída. Saída.
Joana não sabia se era saída ou trabalho. Provavelmente os dois. Tomou banho, secou o cabelo, maquilhou-se um pouco. Não sabia fazer aquelas coisas elaboradas.
Vestiu o vestido preto e olhou-se ao espelho. Parecia outra pessoa. Alguém que frequentava restaurantes caros. Alguém que tinha vida social.
Mentira. Mas a aparência engana. Às sete e vinte desceu. O carro de Rafael já estava à porta.
Não era o mesmo de antes. Era mais pequeno, mais discreto. Ele estava lá dentro. Joana entrou.
Olá. Rafael olhou para ela. Demorou um segundo a mais. Está diferente.
É o vestido. Não. É outra coisa. Joana não soube o que responder.
Ficaram em silêncio enquanto o carro saía da Vila Progresso. Rafael conduzia. Ela olhava pela janela. Nervosa?
Perguntou ele. Um pouco. Nunca fiz isto antes. Eu também não.
Nunca jantou com uma candidata? Já. Mas nunca levei a pessoa que escolheu essa candidata comigo. Fazia sentido.
E se ela achar estranho? Eu explico. Digo que faz parte do processo. E se ela não gostar de mim?
Rafael olhou para Joana de lado. Porque é que não haveria de gostar? Sei lá. As mulheres são competitivas.
Pode achar que estou a invadir o espaço. Não está. Está a trabalhar. Para ela, tanto faz.
Rafael não respondeu. Continuou a conduzir. Chegaram ao restaurante às oito e dez. O Antiquários.
Joana nunca tinha ouvido falar. Fachada discreta, porta de madeira, nada chamativo. Mas quando entraram, percebeu. Era o tipo de lugar que não precisa de uma placa grande.
Quem frequenta sabe onde é. Silencioso, mesas espaçadas, empregados de colete, decoração sóbria. Rico sem ser exibido. O maître reconheceu Rafael na hora.
Senhor Mendes, a sua mesa está pronta. Levou-os até uma mesa no canto, discreta. Joana sentou-se. Rafael sentou-se ao lado.
Não, à frente. Ao lado. Estranho. A Amanda deve chegar em cinco minutos, disse ele, a olhar para o telemóvel.
Quando ela chegar, observe-me. Observe-a. Observe-nos juntos. Depois diga-me o que achou.
Está bem. E, Joana? Sim? Relaxe.
Não está a ser avaliada. Está só a fazer o seu trabalho. Fácil de dizer. Joana nunca se sentiu confortável em lugares assim.
Sempre achou que não pertencia. Cinco minutos depois, Amanda chegou. Cabelo solto, vestido azul-marinho, maquilhagem leve. Bonita, mas não exagerada.
Viu Rafael e sorriu. Caminhou até à mesa. Rafael levantou-se. Amanda, obrigado por ter vindo.
Olá, desculpe o atraso. O trânsito estava impossível. Sem problema. Esta é a Joana, a consultora de que falei.
Amanda olhou para Joana. Não pareceu surpreendida. Olá, Joana. Já nos conhecemos da entrevista.
Olá, Amanda. Sente-se, por favor. Rafael puxou-lhe a cadeira. Amanda sentou-se à frente dele.
Joana ficou ao lado. Posição estranha. Parecia a terceira a incomodar. Mas era o trabalho.
O empregado trouxe os menus. Joana abriu e quase se engasgou com os preços. A entrada custava oitenta reais. O prato principal, cento e cinquenta.
O vinho, trezentos. Fechou o menu. Escolham vocês. Aceito qualquer coisa.
Rafael olhou para ela. Tem a certeza? Tenho. Ele pediu ao empregado.
Entrada, prato principal, vinho. Joana nem prestou atenção. Estava ocupada a observar. Amanda parecia tranquila.
Conversava naturalmente, sem aquele jeito ensaiado da Beatriz. Rafael também parecia confortável, mais do que Joana esperava. Então, trabalha em hospital público? Perguntou ele.
Trabalho. Pediatria, há seis anos. Deve ser difícil. É, mas compensa.
Há dias em que atendo cinquenta crianças, a maioria com problemas simples. Gripe, diarreia, essas coisas. Mas há dias em que salvo uma vida. E esses dias fazem tudo valer a pena.
Rafael assentiu. Percebo. O meu trabalho não salva vidas, mas percebo a sensação de fazer algo que importa. Trabalha com tecnologia, não é?
A Joana falou-me. É. Trabalho numa startup. Desenvolvemos software para gestão hospitalar.
Amanda animou-se. A sério? Nós usamos um sistema desses no hospital. Mas é horrível.
Está sempre a falhar. Rafael riu-se. Qual sistema? Amanda disse o nome.
Rafael abanou a cabeça. Conheço. É da concorrência. O nosso é melhor.
Então porque é que o hospital não usa o vosso? Porque o outro é mais barato, e os hospitais públicos não têm dinheiro para investir em tecnologia. Amanda ficou quieta por um segundo. É triste.
Trabalhamos com um sistema mau porque não há verba, e no fim quem perde é o doente. É, mas há gente a tentar mudar isso. Pessoas como você, e muitas outras além de mim. Joana observou a conversa.
Havia química. Não era aquela química explosiva de novela. Era a química de gente que se percebe, que fala a mesma língua, que vê o mundo da mesma maneira. A entrada chegou.
Joana nem viu o que era. Comeu no automático. Estava a prestar atenção à forma como Rafael olhava para Amanda. Interessado, curioso, presente.
Não era o olhar de quem cumpria um protocolo. Era o olhar de quem estava a gostar. Amanda contou sobre um caso difícil que tinha atendido. Uma criança com pneumonia, família sem condições de internar num hospital particular.
Ela conseguiu uma vaga no público, mas teve de lutar. Ligar para cinco hospitais, ameaçar acionar o Ministério Público. No fim, deu certo. A criança sobreviveu.
Fez tudo isso? Perguntou Rafael. Fiz, porque era o meu doente, e eu não abandono o meu doente. Mesmo quando não é a minha responsabilidade legal.
A responsabilidade legal não significa nada para mim. Tenho responsabilidade humana. Joana viu a maneira como Rafael olhou para Amanda naquele momento. Era admiração.
Respeito. E algo mais. Interesse real. O prato principal chegou.
Joana comeu sem saber o sabor. Rafael e Amanda continuaram a conversar sobre trabalho, família, sonhos. Amanda contou que crescera pobre, mãe empregada doméstica, pai pedreiro. Conseguira uma bolsa para estudar, passara em medicina na federal, fora a primeira da família a licenciar-se.
A minha mãe chorou na formatura, disse ela. Chorou tanto que achei que ia ficar desidratada. Rafael sorriu. A minha mãe também chorou quando abri a primeira empresa.
Disse que não acreditava que o filho dela tinha conseguido. Você também veio de baixo? Vim. A mãe era empregada doméstica.
O pai morreu quando eu tinha doze anos. Estudei numa escola pública. Consegui uma bolsa para a faculdade particular. O resto foi trabalho.
Amanda olhou para ele de outra maneira. Então percebe? Percebo. Percebe o que é ter medo de não conseguir, de voltar para o lugar de onde se veio, de desiludir quem acreditou em nós?
Percebo tudo isso. Ficaram em silêncio por um momento. Não era um silêncio desconfortável. Era o silêncio de quem se reconhecia.
Joana sentiu algo estranho no peito. Não sabia o quê. A sobremesa chegou. Joana comeu mecanicamente.
Rafael e Amanda continuaram a conversar, mas agora mais leve, mais solto, a rir, a contar histórias engraçadas. Parecia que tinham esquecido que Joana estava ali. Ela não se importou. Era bom ver.
Ver que o trabalho dela estava a dar certo. Ver que tinha acertado em Amanda. Às dez e meia, o jantar terminou. Rafael pagou a conta.
Amanda agradeceu. Foi muito bom. Obrigada pelo convite. Obrigado por ter aceitado.
Podemos repetir? Amanda sorriu. Podemos. Rafael levantou-se.
Levo-a a casa. Não precisa. Vim de Uber. Tenho a certeza.
Tenho. Mas obrigada. Despediram-se. Amanda foi embora.
Rafael e Joana ficaram parados na calçada. E então? Perguntou ele. Acho que gostou dela.
Gostei. Mas não foi isso que perguntei. Quero saber se acha que faz sentido, se ela é o que estou à procura. Joana pensou.
Ela é inteligente, lutadora, tem propósito. Não está atrás de dinheiro. Quer um parceiro. Vocês perceberam-se.
Falaram a mesma língua. Então sim, faz sentido. Rafael assentiu. Obrigado pela honestidade.
É o meu trabalho. Não, o seu trabalho é encontrar candidatas. Honestidade é quem você é. Joana não soube o que dizer.
Entraram no carro. Rafael conduziu em silêncio. Joana olhava pela janela. Quando chegaram à Vila Progresso, ele parou em frente ao prédio.
Obrigada pela noite, disse ela. Obrigado por ter vindo. Ajudou muito. Joana ia sair, mas ele falou outra vez.
Joana? Sim? Você é boa nisto. Não sei se alguém já lhe disse, mas é muito boa a ler pessoas.
Obrigada. E outra coisa. O quê? Ficou bonita hoje.
Diferente, mas bonita. Joana sentiu o rosto aquecer. É o vestido. Não é.
É você. Ela saiu do carro antes que ele visse que estava sem jeito. Subiu para o apartamento. Dalva tinha ido embora.
Valentina dormia. Joana tirou o vestido, vestiu o pijama e deitou-se. Ficou a olhar para o teto, a pensar no jantar. Em Amanda.
Em Rafael. Na forma como ele tinha olhado para Amanda. Na forma como tinha olhado para ela quando disse que estava bonita. Abanou a cabeça.
Não podia pensar assim. Era trabalho. Só trabalho. Nada mais.
A semana seguinte passou rápido. Rafael marcou mais dois jantares. Um com Fernanda, a engenheira. Outro com Renata, a empresária.
Pediu a Joana que fosse aos dois. Ela foi. Fernanda foi um desastre. Passou o jantar inteiro a falar de trabalho, projetos, prazos, metas.
Não perguntou nada sobre Rafael. Não mostrou interesse em nada além da própria carreira. No carro de volta, Rafael perguntou: e então? Não resultou.
Porquê? Ela não está à procura de um parceiro. Está à procura de uma plateia. Quer alguém que a ouça falar do trabalho, mas não está disposta a ouvir de volta.
Rafael assentiu. Também percebi isso. Renata foi diferente. Forte, decidida.
Contou sobre a empresa que construíra do zero, sobre como tivera de provar que uma mulher podia empreender tão bem quanto um homem, sobre como lutara por cada cliente, cada contrato, cada real. Rafael pareceu impressionado, mas não ligado. Era respeito profissional. Não era química.
No carro de volta, perguntou outra vez: e então? Ela é incrível. Mas não é para você. Porquê?
Porque não precisa de um parceiro. Quer, mas não precisa. E você vai sentir isso. Vai sentir que está a competir com a vida dela, em vez de fazer parte dela.
Rafael ficou quieto, depois disse: voltou a ter razão. Então ficou só a Amanda. Ficou. E agora?
Agora marco mais encontros com ela. Conheço-a melhor. Vejo se realmente faz sentido. Joana assentiu.
Missão cumprida. Três candidatas apresentadas, uma com potencial real. Devia estar satisfeita. Mas sentia algo estranho no peito.
Não sabia o quê. Na quinta-feira, Rafael ligou. Joana, preciso de mais candidatas. Mais?
Mas está a sair com a Amanda? Sei. Mas o combinado eram sete. Apresentou três.
Faltam quatro. Mas gostou dela? Gostei. Mas e se não der certo?
Preciso de opções. Fazia sentido. Mas doía. Joana não percebia porquê.
Está bem. Vou procurar mais quatro. Obrigado. E, Joana?
Sim? Está bem? A sua voz está estranha. Estou bem.
Só cansada. Tem a certeza? Tenho. Mentira.
Não sabia o que tinha. Mas não estava bem. Desligou e ficou a olhar para o telemóvel. Porque é que doía pensar em Rafael a sair com outras mulheres?
Era trabalho. Ela própria o tinha arranjado. Era exatamente aquilo que ele pagara para ela fazer. Abanou a cabeça.
Precisava de se focar. Ainda faltava encontrar quatro candidatas. Ainda faltava receber os outros vinte e cinco mil. Não podia distrair-se.
Abriu o Instagram. A conta já tinha cinco mil seguidores. Publicou um novo anúncio. Ainda procuramos candidatas.
Perfil: mulher independente, inteligente, com propósito de vida. Interessadas, enviem mensagem direta. Em duas horas, tinha vinte mensagens. Joana leu todas.
Selecionou oito para entrevistar. Marcou para a semana seguinte. Segunda teve duas entrevistas, terça mais duas, quarta mais quatro. Das oito, quatro passaram no filtro.
Priscila, dentista. Carolina, jornalista. Larissa, professora de inglês. Débora, nutricionista.
Joana enviou os quatro contactos para Rafael. Ele demorou dois dias a responder. Vou marcar jantares com elas, mas vai demorar um pouco. Estou a focar-me na Amanda agora.
Estou a focar-me na Amanda agora. A frase ficou a ecoar na cabeça de Joana. Porque é que a incomodava tanto? Era bom.
Era o que devia acontecer. Ela tinha feito o trabalho direito. Tinha encontrado alguém que fazia sentido para ele. Devia estar orgulhosa.
Mas só sentia um vazio. Na sexta-feira, Rafael ligou outra vez. Joana, preciso de um favor. Que favor?
A Amanda quer conhecê-la melhor. Disse que você parece simpática, que quer conversar mais consigo. Porquê? Não sei.
Talvez porque estava presente no primeiro jantar. Talvez porque ficou curiosa. Enfim, aceita almoçar connosco amanhã? Almoçar com os dois?
Ver os dois juntos outra vez? Ver como Rafael olhava para ela, como sorria, como se interessava. Não sei se é boa ideia. Porque não?
Porque vocês precisam de espaço. Tem de ser só vocês dois. Joana, ela pediu. E eu quero que você vá.
Por favor. Como recusar? Está bem. A que horas?
Meio-dia. Mando-lhe o endereço. No sábado, Joana acordou com o estômago embrulhado. Deu banho a Valentina, deixou-a com Dalva e arranjou-se.
Calças de ganga, blusa clara, ténis. Nada muito arranjado. Era um almoço, não um jantar. O restaurante era diferente do outro.
Mais descontraído. Música ambiente, mesas na calçada. Rafael e Amanda já estavam sentados quando ela chegou. Conversavam, riam, próximos.
Joana sentiu algo a apertar no peito outra vez. Joana! Amanda acenou. Joana aproximou-se e sentou-se.
Olá. Olá. Obrigada por ter vindo. Sei que é o seu dia de folga.
Sem problema. Rafael olhou para ela. Está tudo bem. Tudo.
Mentira. Mas ele não precisava de saber. Pediram a comida. Amanda começou a conversar.
Joana, queria conhecê-la melhor, porque é uma parte importante disto. Foi você que me encontrou, que viu que eu podia fazer sentido para o Rafael. Sou grata por isso. Joana forçou um sorriso.
Só fiz o meu trabalho. Não, fez mais do que isso. Olhou verdadeiramente para mim, viu quem eu sou. Não é qualquer pessoa que faz isso.
Rafael concordou. É verdade. A Joana é excecional nisto. Excecional.
A palavra doeu de uma forma que Joana não esperava. Porquê? Obrigada, foi tudo o que conseguiu dizer. Almoçaram.
Amanda contou histórias do hospital. Rafael contou histórias da empresa. Joana só ouvia. Participava pouco.
Sentia que estava a sobrar, que não devia estar ali. A meio do almoço, Amanda pegou na mão de Rafael. Foi rápido, natural. Mas Joana viu.
E sentiu como se tivesse levado um murro. Percebeu naquele momento. Percebeu o vazio, o aperto no peito, a dor de pensar nele com outra pessoa. Gostava dele.
Não sabia quando tinha começado. Não sabia como tinha deixado acontecer. Mas gostava. E era tarde demais.
Porque ele estava com Amanda, e Amanda era perfeita. Amanda era tudo o que ela tinha procurado para ele. Inteligente, lutadora, com propósito. Tudo certo.
Menos o facto de que não era ela. Joana levantou-se. Com licença, vou à casa de banho. Foi.
Trancou a porta, olhou-se ao espelho, viu o próprio rosto. Cansado. Confuso. Apaixonado.
Idiota. Como tinha deixado aquilo acontecer? Como tinha sido tão parva? Ele tinha-a contratado para encontrar uma esposa.
Não para ela se apaixonar por ele. Respirou fundo. Precisava de se recompor. Precisava de voltar lá para fora, fingir que estava tudo bem, terminar o trabalho, receber o dinheiro e desaparecer.
Voltar para a sua vida, para Valentina, para o apartamento pequeno, para a realidade. Voltou para a mesa. Rafael e Amanda conversavam baixinho. Olhou e viu que estavam bem juntos, que fazia sentido, que ela tinha acertado.
Sentou-se. Desculpe a demora. Está tudo bem? Perguntou Rafael.
Tudo. Amanda continuou a conversar. Joana continuou a ouvir, a participar pouco, a querer ir embora. Quando o almoço terminou, Amanda despediu-se.
Tenho plantão às três. Preciso de ir. Levo-a. Ofereceu-se Rafael.
Não precisa, apanho um Uber. Tem a certeza? Tenho. Mas obrigada.
Abraçou Rafael, depois abraçou Joana. Obrigada por tudo, a sério. De nada. Amanda foi embora.
Joana ia-se embora também, mas Rafael segurou-lhe o braço. Espere. O quê? Há qualquer coisa errada.
Sei que há. Está estranha desde que chegou. Não estou. Está, sim.
Diga-me o que é. Joana afastou o braço. Não é nada. Só cansaço.
Joana. Rafael, preciso de ir. A Valentina está com a Dalva. Não posso deixá-la muito tempo.
Está bem. Mas conversamos depois. Não há nada para conversar. Há, sim.
Alguma coisa mudou, e quero saber o quê. Joana saiu antes que ele visse as lágrimas. Apanhou o autocarro, voltou para casa. Dalva tinha ido embora.
Valentina dormia. Joana sentou-se no sofá e chorou. Chorou porque era idiota. Porque se tinha apaixonado por um homem que nunca ia olhar para ela daquela maneira.
Porque ele a tinha contratado para encontrar alguém, e ela tinha encontrado alguém perfeito. Alguém que não era ela. O telemóvel tocou. Rafael.
Não atendeu. Tocou outra vez. Não atendeu. Mensagem: Joana, atenda.
Preciso de falar consigo. Outra mensagem: por favor. Outra: eu sei que há qualquer coisa errada. Deixe-me ajudar.
Ajudar? Como é que ele ia ajudar? A dizer que ela era ótima, mas que gostava de outra? Que era excecional a encontrar mulheres para ele, mas que não era a mulher?
Joana bloqueou o número. Precisava de distância. Precisava de esquecer. Precisava de voltar a ser quem era antes.
Mãe solteira, pobre, sozinha. Sem ilusões de que um milionário fosse olhar para ela. No domingo, não saiu de casa. Ficou com Valentina, deu-lhe banho, brincou, fez comida.
Tentou não pensar. Mas pensava o tempo todo. Na segunda de manhã, tocaram à campainha. Joana atendeu o interfone.
Quem é? Sou eu, Rafael. O coração disparou. O que quer?
Conversar. Desça, ou eu subo. Não quero conversar. Joana, desça, por favor.
Suspirou. Desceu. Ele estava parado na calçada. Ganga, t-shirt, ténis.
Sem fato, sem formalidade. Só ele. O que quer? Saber o que aconteceu.
Porque me bloqueou. Porque está a evitar-me. Não estou a evitar. Só estou a dar espaço para si e para a Amanda.
Não é isso. Há outra coisa. Sei que há. Joana respirou fundo.
Não há. Há, sim. E não vou embora até você me contar. Rafael, o que foi?
O que é que eu fiz? Não fez nada. Então porquê? Porque eu gostei de si.
Porque fui idiota. Porque me esqueci de que era só trabalho. Porque preciso de distância. Porquê?
Porque sim. Isso não é uma resposta. É a única que tenho. Rafael deu um passo em frente.
Joana, olhe para mim. Ela olhou. Diga-me a verdade, por favor. Joana sentiu as lágrimas a chegar.
A verdade é que já não posso fazer isto. Não posso ir a mais jantares. Não posso ajudar a escolher uma mulher para si. Não posso continuar perto de si.
Porquê? Porque eu gostei de si, Rafael. Gostei, e não devia. E agora preciso de sair antes que piore.
Silêncio. Rafael ficou parado, a olhar para ela sem dizer nada. Joana limpou as lágrimas. Termino o trabalho.
Apresento as outras quatro candidatas. Recebo o dinheiro. E despedimo-nos. Não precisa de ser mais do que isso.
Virou-se para entrar no prédio, mas Rafael segurou-lhe a mão. E se eu também gostar de si? Joana ficou parada. Não conseguia processar.
O quê? Rafael ainda lhe segurava a mão. Eu disse: e se eu também gostar de si? Mas você está com a Amanda.
Não. Estou a conhecer a Amanda. É diferente. Saiu com ela três vezes.
Vocês dão-se bem. Fazem sentido. No papel, fazem. Mas não é o que eu quero.
Joana puxou a mão. Rafael, não faça isto. Não complique. Já está complicado.
Está complicado desde o primeiro dia. Desde o primeiro dia em que apareci no restaurante com uma bebé ao colo e dezassete reais na carteira. Exatamente. Quando você apareceu, e eu vi coragem, vi força, vi alguém real no meio de tanta gente falsa.
Você contratou-me para encontrar alguém para si. Eu sei. E encontraste? Encontrei a Amanda, que é ótima, que faz sentido.
Mas não é você. Joana abanou a cabeça. Isto é loucura. Viemos de mundos diferentes.
Você é milionário. Eu sou uma mãe solteira falida. Não funciona. Porque não?
Porquê? Porque quando se cansar de brincar aos pobres, eu fico destruída. E a Valentina não merece isso. Acha que isto é uma brincadeira?
Não sei o que é. Mas sei o que não pode ser. Rafael deu um passo para trás, passou a mão pelo cabelo. Joana, nunca brinquei consigo.
Desde o início, respeitei-a, valorizei-a, confiei em si. Eu sei. Então porque não confia em mim? Porque tenho medo.
De quê? De acreditar. De achar que pode dar certo e depois descobrir que era uma ilusão. Rafael olhou para ela.
Quer saber porque gostei de si? Joana não respondeu. Porque não tentou impressionar-me. Não fingiu ser quem não é.
Apareceu com uma bebé, sem desculpas, sem vergonha. E quando eu ofereci dinheiro, foi honesta. Disse que precisava. Não inventou uma história bonita.
Foi real. Toda a gente precisa de dinheiro, Rafael. Mas nem toda a gente o admite. Você admitiu.
E trabalhou. E fez um trabalho incrível. Encontrou pessoas que eu nunca teria encontrado sozinho. E em algum momento, no meio de tudo isto, percebi que a pessoa mais interessante que conheci foi você.
Joana sentiu as lágrimas voltarem. Mas e a Amanda? Vou ser honesto com ela. Vou dizer-lhe que conheci alguém, que não seria justo continuar.
Ela vai perceber. E se não perceber, vai perceber, porque é adulta e porque merece alguém que esteja cem por cento presente. E eu não consigo. Não quando fico a pensar em si.
Joana limpou as lágrimas. Não sei se consigo. Consigo o quê? Acreditar que não vai desistir de mim.
Que quando vir a minha vida de verdade, o apartamento pequeno, a Valentina a chorar de madrugada, as contas apertadas mesmo com dinheiro, não vai perceber que errou. Rafael aproximou-se e segurou-lhe o rosto com as duas mãos. Joana, eu cresci num apartamento mais pequeno que o seu. A minha mãe criou-me sozinha.
Sei exatamente como é. E não tenho medo disso. Tenho medo de a perder por você não acreditar em mim. Joana fechou os olhos.
E a Valentina? Já pensou nisso? Ela faz parte de mim. Não pode ficar comigo sem ficar com ela.
Eu sei. E eu quero as duas. Está a dizer isso agora. Mas quando for real, quando ela acordar de madrugada, quando tiver de se trocar fraldas, quando não pudermos sair porque ela está doente.
Então fico em casa convosco. Joana, não estou a pedir-lhe que seja diferente. Estou a pedir-lhe que me deixe fazer parte da vida que já tem. Joana abriu os olhos.
Olhou para ele. Viu sinceridade. Viu medo também. Medo de ser rejeitado.
Rafael, fale comigo. Se eu aceitar isto, se tentarmos, promete que não vai desistir ao primeiro problema? Prometo. E promete que, se não der certo, vai ser honesto, que não me vai enrolar?
Prometo. Mas também prometo que vou fazer de tudo para dar certo. Joana respirou fundo. Está bem.
Está bem. O quê? Está bem. Vamos tentar.
Rafael sorriu. Era a primeira vez que ela o via sorrir daquela maneira. Feliz de verdade. A sério?
A sério. Mas devagar. Porque estou morta de medo. Eu também.
De quê? De estragar tudo. De fazer mal. De a perder.
Joana sorriu apesar das lágrimas. Então vamos errar juntos. Rafael puxou-a para um abraço. Joana encostou a cabeça ao peito dele, ouviu o coração a bater depressa, igual ao dela.
Ficaram assim por um tempo, até Joana se afastar. Preciso de subir. A Valentina está sozinha. Posso subir consigo?
Agora? Quero vê-la. Ver onde mora. Ver a sua vida de verdade.
Joana hesitou. Depois assentiu. Subiram. O apartamento estava como sempre fora.
Pequeno, simples, mas limpo. Rafael entrou e olhou à volta. É acolhedor. É pequeno.
Pequeno não é mau. Só é pequeno. Valentina acordou e começou a choramingar. Joana foi ao berço e pegou-lhe ao colo.
Olá, meu amor. A mamã está aqui. Rafael aproximou-se e olhou para a bebé. Posso pegar-lhe?
Joana hesitou. Depois entregou-lha. Rafael segurou Valentina com cuidado. A bebé olhou para ele, ficou quieta, curiosa.
Olá, Valentina. Eu sou o Rafael. A bebé pôs a mãozinha no rosto dele. Rafael sorriu.
Ela é linda, Joana. É. Ela é tudo para mim. Eu sei.
E vou respeitar isso sempre. Valentina começou a choramingar outra vez. Fome. Deixe-me ficar com ela.
Ela precisa de mamar. Rafael devolveu a bebé. Joana preparou a mamadeira e deu-a a Valentina. Sentou-se no sofá.
Rafael sentou-se ao lado. Ficaram em silêncio. Valentina a mamar. Os dois apenas a olhar.
Sabe o que estou a pensar? Perguntou Rafael. O quê? Que isto aqui é mais real do que qualquer jantar num restaurante caro.
Que isto é a vida de verdade. E que eu quero fazer parte disto. Joana olhou para ele. Tem a certeza?
Absoluta. Mesmo sabendo que vai ser difícil, que viemos de lugares diferentes, que vai haver gente a julgar. Mesmo assim. Porque o que importa não é o que os outros pensam.
É o que sentimos. Valentina terminou a mamadeira. Joana pô-la a arrotar. A bebé arrotou e sorriu.
Rafael riu-se. Ela é esperta. É. Puxou à mãe.
Com certeza. Joana pôs Valentina de volta no berço. A bebé bocejou e fechou os olhinhos. Adormeceu rápido.
Joana voltou para o sofá. E agora? Agora vamos devagar, como você pediu. Liguei para a Amanda hoje de manhã.
Expliquei tudo. Disse que conhecia alguém. Ela percebeu. Disse que já sentia que o meu coração estava noutro lugar.
E começamos de verdade. Ainda quer as outras candidatas? Não. Mas quero que receba o dinheiro que lhe prometi.
Trabalhou. Merece. Já não preciso. Já tenho os vinte e cinco mil, Joana.
O combinado eram cinquenta. E vai receber cinquenta. Não por pena. Porque fez o trabalho.
Encontrou sete mulheres. O facto de eu a ter escolhido não muda isso. Joana sentiu os olhos a arder outra vez. Obrigada.
Não agradeça. É o que é justo. Rafael pegou no telemóvel. Aliás, deixe-me resolver isto agora.
Digitou rápido. O telemóvel de Joana vibrou. Notificação do banco. Vinte e cinco mil reais depositados.
Ela olhou para o ecrã. Cinquenta mil completos. Rafael guardou o telemóvel. Pronto.
Agora está tudo certo. Ficaram em silêncio. Depois Rafael perguntou: posso beijá-la? Joana olhou para ele.
Pode. Ele aproximou-se devagar. Deu-lhe tempo de recuar, se quisesse. Mas ela não recuou.
Deixou-o encostar os lábios aos dela. Suave, cuidadoso, real. Quando se afastaram, Joana estava a chorar. Porque está a chorar?
Porque não achei que isto fosse acontecer. Não achei que alguém como você fosse olhar para alguém como eu. Joana, você salvou-me a vida sem saber. Mostrou-me o que eu estava à procura.
E no meio do caminho, tornou-se no que eu precisava. Eu não salvei nada. Salvou. Salvou-me de casar com a pessoa errada.
De viver uma vida que não era minha. De me esquecer do que realmente importa. Joana encostou a cabeça ao ombro dele. Ainda tenho medo.
Eu também. Mas vamos juntos. E isso faz toda a diferença. Ficaram no sofá em silêncio.
Valentina a dormir no berço. A cidade ruidosa lá fora. E ali, naquele apartamento pequeno, com móveis velhos e paredes descascadas, tudo parecia finalmente fazer sentido. Joana tinha começado aquela história a precisar de dinheiro, desesperada, sozinha.
Ia acabar com cinquenta mil reais na conta, com uma bebé saudável e com alguém ao lado que a via de verdade. Não a mãe solteira pobre. Não a mulher destruída. Mas ela, Joana.
Com tudo o que isso significava. Rafael tinha começado à procura de uma esposa. Alguém que coubesse nos critérios. Que fizesse sentido no papel.
E tinha encontrado muito mais. Tinha encontrado alguém que o via como Rafael. Não como o milionário. Não como o CEO.
Mas como ele. Com tudo o que isso significava. E ali, naquele sofá velho, com uma bebé a dormir e a vida inteira pela frente, os dois perceberam. Às vezes, o que procuramos não é o que precisamos.
Às vezes, o que precisamos está mesmo à nossa frente, à espera que tenhamos coragem de ver. E eles tinham visto. Finalmente. Joana olhou para Rafael.
Obrigada. Porquê? Por me escolher. Mesmo quando tinha opções melhores.
Rafael segurou-lhe a mão. Ainda não percebeu, pois não? O quê? Que nunca houve uma opção melhor.
Sempre foi você. E naquele momento, com Valentina a dormir, o sol a entrar pela janela e a vida a recomeçar, Joana finalmente acreditou. Acreditou que merecia. Acreditou que podia dar certo.
Acreditou que, às vezes, fazer a coisa certa traz recompensas que nem imaginamos. Tinha procurado sete mulheres para ele. E no fim, tinha-se encontrado a si própria.
E isso valia mais do que qualquer dinheiro do mundo.


