Helena Soares Correia abriu os olhos e percebeu de imediato que algo tinha mudado. Não no quarto luxuoso da ala VIP da sua clínica em Lisboa, mas no ar, nos movimentos do pessoal, na forma como o diretor clínico, o Dr. Simão Lopes, falava com Pedro do outro lado da porta. Ela deixou apenas uma fresta entre as pálpebras, um velho truque de negociações quando queria ouvir o que diziam pensando que ela estava distraída.

— Pedro, meu caro. A voz de Simão Lopes soava cansada. — Tenho o dever de ser honesto. O estado da Helena é crítico.
A insuficiência hepática está a progredir apesar de toda a terapia. Os órgãos estão a falhar um após o outro. Estamos a fazer tudo o que é possível. — Mas o quê?
A voz de Pedro denotava tensão. — No máximo três dias, talvez menos. Lamento. Helena ouvia o próprio coração abater.
Três dias. Os médicos finalmente admitiam o que ela sentia na última semana. O corpo recusava-se a obedecer. Quarenta e nove anos, um império de clínicas privadas e imóveis comerciais na Baixa de Lisboa, ações, ativos — e três dias.
A porta abriu-se e Pedro entrou. Ela sentiu o cheiro do seu perfume, aquele caro que lhe oferecera no aniversário. Ele sentou-se na beira da cama e pegou na sua mão. Há três anos, estas mãos pareceram-lhe a salvação da solidão.
Um homem bonito, dez anos mais novo, atencioso, cortês. Ela não tinha filhos. O primeiro casamento terminara há vinte anos e desde então dedicara-se inteiramente aos negócios. Construíra tudo sozinha.
Pedro entrou na sua vida quando ela fez quarenta e seis anos e percebeu que a casa estava vazia e as noites se arrastavam infinitamente. Pedro inclinou-se. Helena mal respirava, mantendo os músculos do rosto relaxados. Ele pensava que ela estava inconsciente devido aos fortes sedativos — as enfermeiras tinham-lhe dito isso de manhã, quando perguntou se ela ouvia alguma coisa.
Ele apertou-lhe a mão, passou o polegar pelo pulso e sussurrou quase com ternura:
— Finalmente. Esperei tanto por isto. Helena arrepiou-se por dentro, mas o corpo não tremeu. — A tua casa, os teus milhões.
A voz dele adquiriu uma entoação que ela nunca ouvira. — Tudo isto será meu agora. Três anos inteiros. Três anos a aguentar, a fingir, a ouvir os teus sermões sobre negócios, a sorrir para as tuas amigas, a deitar-me contigo.
Ele riu-se. — Finalmente, tudo vai acabar. Levantou-se, soltou os dedos dela, ajeitou o cobertor com solicitude fingida e saiu. No corredor, disse a alguém, provavelmente à enfermeira, para vigiarem bem a sua esposa, que ele voltaria em breve.
A voz estava cheia de compaixão e dor. Quando a porta se fechou, Helena abriu os olhos. O teto ondulava, não de fraqueza, mas de fúria e horror. Os últimos meses formavam agora um quadro claro.
A deterioração gradual da saúde: primeiro uma leve náusea, depois fraqueza, tonturas. Os médicos atribuíam ao stress e ao excesso de trabalho. Há três semanas, após outro ataque em pleno escritório, levaram-na para a clínica. As análises mostraram desvios estranhos.
Desconfiada, Helena enviara uma amostra de sangue para um laboratório externo no Porto. O resultado chegara dias depois, quando ela já estava internada. A análise toxicológica revelara vestígios de um fármaco raro, usado em cuidados paliativos para aliviar o sofrimento de doentes terminais. Em pequenas doses causa sonolência; em grandes, falência hepática e subsequente falência de todos os órgãos.
Na altura, Helena não acreditou. Pediu uma repetição. A segunda análise confirmou. E agora, depois das palavras de Pedro, não restavam dúvidas: estavam a envenená-la sistematicamente durante meses.
Tentou levantar-se, mas o corpo não obedeceu. As mãos tremiam. Três dias. Se os médicos estivessem certos, tinha três dias para consertar tudo.
Conhecia Pedro: bonito, charmoso e vazio por dentro. Pensara que uma vida confortável lhe bastaria. Enganara-se. Ele queria tudo.
Helena virou lentamente a cabeça para a porta. No corredor, alguém mexia num balde. Ouviu-se o som de água, o ruído de um pano. — Menina!
— chamou em voz baixa. O barulho parou. Segundos depois, a porta entreabriu-se e uma auxiliar de limpeza espreitou. Uma rapariga jovem, magra, de cabelo escuro preso num gancho na nuca.
Rosto simples, agradável, sem maquilhagem. Helena já a vira antes, a lavar o chão, a mudar a roupa de cama. — Está a sentir-se mal? — A auxiliar aproximou-se preocupada.
— Vou chamar a enfermeira. — Não é preciso. — Helena forçou-se a falar com clareza. — Como se chama?
— Marisa. Marisa Silva Antunes. — Marisa, feche a porta. Preciso da sua ajuda.
A rapariga ficou confusa, mas fechou a porta e aproximou-se. — Estou perfeitamente consciente — disse Helena. — Preciso que faça uma coisa por mim. Não diga a ninguém que estou lúcida, nem ao meu marido, nem aos médicos.
Mas chame aqui o meu advogado, o Dr. Jorge Oliveira Bastos. O número dele está no meu telemóvel, na mesa de cabeceira. Diga-lhe que Helena Correia pede que ele venha com urgência.
Assunto pessoal. Marisa abanou a cabeça. — Mas eu não posso. Não faz parte das minhas funções.
Se eles descobrem… — Se fizer tudo como eu digo — Helena fez uma pausa, reunindo forças —, receberá tanto dinheiro que nunca mais terá de trabalhar como auxiliar. Nunca mais lavará o chão dos outros. Estou a falar a sério.
A rapariga olhava com desconfiança, mas algo brilhou nos seus olhos. Esperança. Desespero. Helena viu que esta rapariga estava encurralada pela vida.
Pessoas assim agarram-se a qualquer tábua de salvação. — A senhora está a falar a sério? — Absolutamente. Mas temos pouco tempo.
Ligue ao Dr. Bastos. Agora. Marisa correu para a mesa de cabeceira, pegou no telemóvel.
Os dedos tremiam enquanto percorria os contactos. Encontrou o nome, pressionou para chamar. Helena ouviu os longos toques. — Dr.
Jorge Oliveira Bastos. — A voz do advogado atendeu. — Desculpe, estou a ligar da clínica, da parte da dona Helena Soares Correia. Ela pede que venha com urgência.
Sim. Ela está… ela está consciente. Diz que é um assunto pessoal, muito urgente.
Marisa estendeu o telemóvel a Helena. — Jorge, sou eu — disse Helena. — Preciso de fazer um novo testamento hoje. Agora.
Vem e traz um notário contigo. Nem uma palavra a ninguém. Bastos ficou em silêncio um segundo, depois respondeu seco:
— Estou a caminho. Chego dentro de uma hora.
Helena devolveu o telemóvel a Marisa. — Obrigada. Agora espere aqui e fique calada. Quando ele chegar, será testemunha.
Entendido? — Mas porquê eu? Porque confia em mim? — Porque é uma estranha.
Não pertence ao meu círculo. O meu marido não a pode comprar nem intimidar. Você não lhe interessa. Preciso de si exatamente como é.
Marisa sentou-se numa cadeira junto à parede, aterrorizada. Helena fechou os olhos, reunindo forças. Uma hora. Tinha de aguentar.
O tempo arrastou-se. Lá fora escurecia, uma noite de outubro chegava cedo. Marisa permanecia em silêncio, lançando olhares ocasionais a Helena, que dormitava intermitentemente sem perder a consciência. Exatamente uma hora depois, a porta abriu-se e entrou o Dr.
Jorge Oliveira Bastos, um homem de quarenta e cinco anos, aprumado num fato rigoroso, com o olhar perspicaz de um jurista experiente. Atrás dele, a assistente, Tânia Valente, de vinte e cinco anos, com um tablet nas mãos. — Helena, dona Helena. — Bastos aproximou-se, observando o rosto dela.
— O que se passa? — Feche a porta. Sentem-se e ouçam com atenção. Bastos acenou a Tânia, que fechou a porta.
Marisa permaneceu junto à parede, como se tivesse medo de se mexer. Bastos sentou-se e tirou um gravador de voz. — Permite que grave, para clareza jurídica? — Permito.
Helena contou tudo de forma breve e clara: os resultados das análises, a substância tóxica no sangue, as palavras de Pedro meia hora antes. Bastos ouvia sem interromper, mas o rosto tornava-se cada vez mais rígido. — Tem essas análises no cofre de casa? — A combinação é a data de nascimento da minha mãe.
Vá buscá-las e faça cópias. — Isto é base para uma queixa-crime — disse Bastos lentamente. — Mas primeiro precisamos de registar a sua vontade. Caso contrário, todos os bens passarão por lei para o cônjuge.
— É exatamente por isso que o chamei. Quero deixar tudo a esta rapariga. — Helena acenou na direção de Marisa. — A Marisa Silva Antunes.
E pagar-lhe generosamente pelos seus serviços. Isso também incluiremos no testamento. Bastos virou-se para a auxiliar. Ela empalideceu, mas acenou afirmativamente.
— Mas porquê ela? — Porque está aqui. Porque confio nela. E porque não tenho tempo para dúvidas.
Todos os meus bens são anteriores ao casamento. Não tenho filhos. São meus e tenho o direito de dispor deles como entender. Redija o testamento de forma que o Pedro não o possa contestar.
— Será necessário um notário e um médico que confirme a sua capacidade mental no momento da assinatura. Sem isso, o testamento é vulnerável. — Organize isso. Agora.
— Tânia — Bastos virou-se para a assistente —, chama o notário de serviço e encontra um neurologista ou psiquiatra independente, de outra clínica, que venha imediatamente. Tânia saiu, pegando no telemóvel. Bastos virou-se para Marisa. — Menina, compreende o que vai acontecer?
Vai herdar todos os bens da dona Helena. A casa, as clínicas, os imóveis, as contas. Tornar-se-á uma mulher muito rica. Mas também se tornará um alvo para o marido dela.
Ele tentará contestar o testamento, possivelmente tentará intimidá-la, suborná-la ou algo pior. Está preparada para isso? Marisa ficou em silêncio, depois disse lentamente:
— Tenho de estar. — Legalmente faremos tudo corretamente.
Mas psicologicamente será uma guerra. Helena interveio:
— Marisa, não lhe peço que seja uma santa. Receba o dinheiro, faça o que quiser com ele. Mas peço-lhe uma coisa: leve o caso do envenenamento até ao fim, para que ele seja preso, para que não mate mais ninguém.
E recompense generosamente todos os que a ajudarem nisto. Promete? A rapariga olhava para ela com lágrimas nos olhos. — Prometo.
Meia hora depois, reuniram-se no quarto o notário, um homem idoso com uma pasta e um selo, um psiquiatra de um hospital vizinho, uma mulher de cerca de cinquenta anos, Bastos, Tânia, Marisa e a própria Helena. O psiquiatra realizou o exame, fez perguntas: que dia era, onde estava, como se chamava o presidente da República. Helena respondia com clareza. O médico escreveu no formulário: “Paciente orientada no tempo, no espaço e na identidade própria, consciência clara, capaz.
” Assinou e apôs o selo. O notário abriu o portátil e começou a redigir o texto do testamento. Leu-o em voz alta:
— Eu, Helena Soares Correia, no meu perfeito juízo e memória, lego todos os bens que à data da minha morte me pertençam a Marisa Silva Antunes. — Ergueu os olhos.
— Dona Helena, compreende que está a deserdar o seu cônjuge? — Compreendo. — Está a agir por vontade própria, sem coação? — Sim.
Confirmo. O notário acenou e imprimiu o documento numa mini impressora portátil. Bastos apontou a câmara do telemóvel, gravando todo o procedimento. Helena assinou com mão trémula.
O notário autenticou e apôs o selo. Tânia e uma enfermeira da ala ao lado assinaram como testemunhas. Quando tudo terminou, o notário guardou o documento na pasta. — Vou depositá-lo em custódia no cartório notarial.
Amanhã de manhã farei cópias autenticadas. Helena acenou. As forças abandonavam-na. Bastos inclinou-se:
— Vou tratar da toxicologia.
Vou reunir todas as análises. Contactarei a Polícia Judiciária. O Pedro vai pagar por isto. — Obrigada — sussurrou ela.
Todos saíram. Apenas Marisa ficou, de pé junto à cama, sem saber o que dizer. — Vá para casa — disse Helena, cansada. — Amanhã talvez nos vejamos.
Marisa acenou e saiu. Helena ficou sozinha, olhando para a escuridão lá fora. Três dias, talvez menos. Mas conseguira.
Privara Pedro daquilo pelo qual ele a estava a matar. E isso era a única coisa que importava agora. Durante a noite, morreu silenciosamente, sem sofrimento. As enfermeiras encontraram-na de manhã.
Pedro, quando lhe contaram, desatou a chorar no corredor, alto, de forma ostensiva. Os funcionários consolavam-no. Ele agradecia, apertando um lenço, enquanto nos seus olhos dançavam chamas de triunfo. Na manhã seguinte, Pedro estava sentado no escritório de Helena — agora o seu escritório, como acreditava —, folheando papéis: documentos de propriedade, extratos de contas, contratos de arrendamento.
Toda aquela riqueza pertencia-lhe. Três anos de espera, três anos a fazer o papel de marido amoroso. Recostou-se na cadeira de couro, espreguiçando-se. Lá fora, o dia de outubro estava claro.
A vida estava a melhorar. O telemóvel vibrou. Verónica Guedes, a amante. — Sim, meu amor.
Como estás? — Excelente. Ela morreu esta noite, silenciosamente, sem testemunhas. Os médicos disseram insuficiência hepática.
Nenhuma pergunta. — Tens a certeza? — Absoluta. Calculei tudo.
A dosagem foi mínima, distribuída ao longo de meses. O fármaco decompõe-se rapidamente, quase não deixa vestígios. Mesmo que alguém queira verificar, não encontrará nada. Verónica ficou em silêncio.
— E o testamento? — Que testamento? Ela não fez nenhum. Verifiquei.
Os bens são anteriores ao casamento. Não há filhos. Portanto, eu herdo como cônjuge. A lei está do meu lado.
— Espero que tenhas razão. — Daqui a seis meses trato de tudo. Vendo as clínicas, os imóveis, e vamos embora. Para onde quiseres.
O dinheiro chegará para várias vidas. — Está bem, mas tem cuidado. Finge o luto. — Sou um profissional.
Não me ensines. Pedro pousou o telemóvel e dirigiu-se ao armário onde Helena guardava uma coleção de vinho do Porto. Serviu-se e provou. Excelente.
Tudo naquela casa era excelente. E agora tudo era dele. Bateram à porta. Entrou a empregada, uma mulher idosa de olhos vermelhos.
— Senhor Pedro, tem aqui o advogado, o Dr. Jorge Oliveira Bastos. Pedro franziu o sobrolho. Bastos sempre fora demasiado esperto.
O que quereria ele? Bastos apareceu no escritório, aprumado, com rosto sério. Não estendeu a mão. — Senhor Pedro, os meus pêsames.
— Obrigado. — Pedro fingiu dor. — É uma tragédia. — Sem dúvida.
Preciso de discutir consigo algumas questões jurídicas. — Estou a ouvir. Bastos sentou-se sem esperar convite e tirou uma pasta. — A dona Helena Soares Correia deixou um testamento.
Pedro retesou-se. — A sério? E o que diz? — Todos os bens que lhe pertenciam no momento da morte foram legados a outra pessoa.
Pedro não compreendeu imediatamente. Depois perguntou de novo:
— Ou seja, não sou o herdeiro? — A dona Helena dispôs dos seus bens de outra forma. — Isso é impossível.
— Pedro levantou-se de um salto. — Ela estava em coma. Quando é que teve tempo? — O testamento foi feito um dia antes da morte dela, na presença de um notário, de um psiquiatra que confirmou a capacidade mental e de duas testemunhas.
Tudo absolutamente legal. — Para quem é que ela deixou tudo? — Isso será anunciado no notário amanhã às dez da manhã. A sua presença é obrigatória.
— Vou contestar. — Pedro bateu com o punho na mesa. — Ela não estava sã. Estava doente.
— Temos um atestado médico da plena capacidade mental no momento da assinatura. Temos gravação em vídeo. Temos o depoimento do notário. — Bastos levantou-se.
— Aconselho-o a preparar-se psicologicamente e a contratar o seu próprio advogado. Ele saiu sem se despedir. Pedro ficou sozinho, a respirar com dificuldade. Um testamento.
Como se atrevera? Pegou no telemóvel e ligou a Verónica. — Temos um problema. Um problema enorme.
Na manhã seguinte, Pedro compareceu no cartório notarial com Verónica, a quem apresentou como uma amiga da família. O notário recebeu-os no gabinete. Já lá estavam Bastos e Tânia. — Onde está o herdeiro?
— perguntou Pedro bruscamente. — A herdeira enviou um representante — respondeu o notário. — Os seus interesses são representados pelo Dr. Bastos, com base numa procuração autenticada.
— Quem é ela? O notário abriu a pasta. — De acordo com o testamento de Helena Soares Correia, a única herdeira de todos os seus bens é Marisa Silva Antunes. — Quem é essa?
— Pedro não acreditou. — Nunca ouvi falar dela. — Auxiliar de limpeza da clínica onde a sua esposa faleceu — confirmou o notário. Verónica agarrou o braço de Pedro, apertando-o como um aviso.
Ele engoliu a fúria. — Isto é um absurdo. A Helena não conhecia essa rapariga. Como pode deixar-lhe tudo?
— O testador tem o direito de legar os seus bens a qualquer pessoa — respondeu Bastos com serenidade. — A lei não exige explicação dos motivos. — Mas ela estava doente, incapaz! — Pelo contrário.
— Bastos colocou o atestado médico sobre a mesa. — Aqui está o relatório do psiquiatra. Capacidade plena, consciência clara, vontade livre. Existe gravação em vídeo do procedimento.
O notário certificou pessoalmente a vontade dela. Pedro sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. — E para mim, o que me resta? O notário explicou paciente, como quem explica o óbvio:
— Os bens da sua esposa foram adquiridos antes do casamento, portanto não são bens comuns do casal.
O senhor, como cônjuge sobrevivo, tem direito apenas à sua parte nos bens comuns — o que foi adquirido ou ganho durante os três anos de casamento. A casa, as clínicas, os imóveis comerciais, as contas pertenciam à dona Helena antes do casamento. Por testamento, esses ativos passam para a senhora Antunes. — Então, para mim, nada?
— Tem o seu salário dos últimos três anos, as suas poupanças pessoais, o carro registado em seu nome. Essa é a sua parte nos bens comuns. Pedro ficou em silêncio. A cabeça zumbia-lhe.
Três anos a envenená-la, a fingir, a aguentar. Para quê? Para que uma qualquer auxiliar de limpeza recebesse milhões. — Onde está ela?
— perguntou em voz baixa, perigosamente baixa. — A senhora Antunes apresentou a declaração de aceitação da herança através de um representante — respondeu o notário. — Não é necessário que saiba a sua localização. — Quero falar com ela.
— Isso é impossível. — Interveio Bastos. — A minha cliente não deseja encontrar-se consigo. — Vou contestar o testamento.
Vou para tribunal. — É o seu direito. Mas aviso que a contestação será infrutífera. O testamento está juridicamente bem elaborado.
A vontade da testadora foi expressa com clareza. Os documentos médicos confirmam a capacidade. Não há fundamentos para o declarar inválido. Pedro levantou-se cambaleando.
Verónica amparou-o pelo cotovelo. Saíram do cartório em silêncio. Na rua, Pedro parou. — Tudo ruiu — sussurrou.
— Nem tudo. — Verónica olhava-o com dureza. — Vamos encontrar essa rapariga. Vamos obrigá-la a renunciar, intimidá-la, suborná-la.
Não importa o quê. O principal é agir depressa. O Bastos escondeu-a em algum lado. Encontraremos.
Tenho contactos. Dá-me uns dias. Pedro acenou. O ódio borbulhava-lhe no peito.
Helena enganara-o. Mesmo a morrer, conseguira vingar-se. Mas ele não se renderia. Não depois de tudo o que investira.
Entretanto, no escritório de Bastos, decorria uma reunião. O Dr. Jorge estava sentado à mesa, em frente a Tânia e a um detetive privado, André Bernardes, um ex-agente da Judiciária, homem robusto de quarenta e dois anos, com cabelos grisalhos. — A situação é a seguinte — começou Bastos.
— A Marisa está segura por agora. Foi para o Alentejo, alugou um quarto, arranjou trabalho temporário. Mas o Rodrigues vai procurá-la. Ele não vai parar.
— O que é que ele pode fazer? — perguntou Tânia. — Intimidar, subornar, forçá-la a renunciar à herança. No caso extremo, eliminá-la fisicamente.
Estamos a lidar com um homem que envenenou sistematicamente a própria mulher. Bernardes acenou. — Vou verificar as câmaras de vigilância da clínica, rastrear quem contactou a Correia nos últimos meses. Vou verificar farmácias, o que o Rodrigues comprou.
Se ele a envenenou, deixou vestígios. — Outro ponto — continuou Bastos. — Precisamos de uma queixa-crime. Sem ela, o Rodrigues continuará em liberdade a perseguir a Marisa.
Já preparei a queixa para apresentar à Polícia Judiciária, anexando os relatórios toxicológicos que a dona Helena mandou fazer. Vê-se claramente no sangue uma substância que ela não tomava por prescrição médica. — E se a perícia não confirmar o envenenamento? — perguntou Tânia.
— Vai confirmar. A Helena era meticulosa. Enviou as análises para dois laboratórios independentes. Os resultados são idênticos.
Além disso, registou a deterioração do seu estado por datas. Mantinha um diário de sintomas. Isto são provas indiretas, mas de peso. — A quem entregamos o caso?
— Ao inspetor Vítor Azevedo. Trabalha na PJ, é profissional, não aceita subornos. Se alguém levar este caso a tribunal, será ele. Bernardes levantou-se.
— Começo a trabalhar amanhã. Apresento os primeiros resultados. Ele saiu. Bastos virou-se para Tânia.
— Contacta a Marisa. Diz-lhe que tudo está a correr como planeado. Que se mantenha discreta. Não se exponha.
Se acontecer alguma coisa, que me ligue imediatamente. E mais uma coisa: reúne todos os documentos da Correia. Contratos, atas, extratos. Quero ter a certeza de que cada ativo está juridicamente protegido.
O Rodrigues vai tentar encontrar lacunas. Vamos fechá-las antecipadamente. Tânia acenou e saiu. Bastos ficou sozinho.
Abriu o cofre e tirou a cópia do testamento. Releu-a mais uma vez. Tudo correto. Cada palavra, cada vírgula.
Helena Correia era uma mulher inteligente. Mesmo a morrer, pensara em tudo ao pormenor. Lembrou-se da última conversa deles no quarto do hospital. Como ela o olhara calmamente, sem medo.
— Jorge, eu sei que estou a morrer. Mas quero que ele não receba nada. Nem um cêntimo. Que perceba que me matou em vão.
— Dona Helena, tem a certeza de que quer dar tudo à Marisa? Mal a conhece. — Conheço o suficiente. É honesta.
Trabalha por uma miséria, aluga um quarto, paga um crédito do tratamento da mãe falecida. Pessoas assim não se compram. A pessoas assim pode confiar-se uma vingança. — Vingança?
— Sim. Quero que o Pedro vá para a prisão. Que seja julgado pelo meu homicídio. E a Marisa é uma testemunha.
Ela viu entrar no quarto. Ouviu o que eu disse. Ajudará a investigação. Prometeu-me.
Bastos guardou o testamento de volta no cofre e pegou no telemóvel. Marcou o número do inspetor Azevedo. — Inspetor Vítor, é o Dr. Bastos.
Tenho material para si. Possível homicídio doloso por envenenamento sistemático. Enviarei os documentos. O caso é complexo, mas promissor.
Azevedo ficou em silêncio do outro lado. — Envie. Vou dar uma vista de olhos. — Obrigado.
Aguardo o seu contacto. Bastos pousou o telemóvel. Agora restava esperar que a máquina da justiça começasse a funcionar — lentamente, mas de forma inexorável. E nesse mesmo tempo, num pequeno quarto alugado numa cidade vizinha, Marisa Antunes estava sentada num sofá velho a olhar pela janela.
Lá fora caía uma chuva miudinha de outono. Ela ainda não acreditava. Há dois dias lavava o chão de um corredor de hospital, recebia um salário miserável, contava os trocos até ao fim do mês. Hoje, o advogado Bastos informara-a de que era herdeira de uma fortuna imensa.
Marisa não estava feliz. Tinha medo. Compreendia que o marido de Helena Correia não a deixaria em paz. Ele viria procurá-la.
O telemóvel vibrou. Tânia Valente. — Marisa, como está? — Normal.
Estou em casa. — Ótimo. Não saia sem necessidade. O Rodrigues já começou as buscas.
Estamos a seguir os passos dele. Por enquanto, não sabe onde está. Mas tenha cuidado. Mais uma coisa: em breve o inspetor vai querer ouvi-la.
Sobre o que viu no hospital. O que a dona Helena disse. Esteja preparada. — Estou pronta.
Eu prometi-lhe. — Muito bem. Aguente firme. Marisa pousou o telemóvel.
Lembrou-se do rosto de Helena Correia — pálido, macilento, mas com um olhar claro e firme. Lembrou-se das suas últimas palavras: “Leva o caso do envenenamento dele até ao fim, para que ele seja preso. ” Ela levaria, acontecesse o que acontecesse. Helena dera-lhe uma oportunidade para outra vida.
Marisa não a desiludiria. Lá fora, o crepúsculo adensava-se. Noutra cidade, Pedro Rodrigues preparava-se para o ataque. E aqui, naquele quarto silencioso, a rapariga que ontem não era ninguém preparava-se para se defender.
O jogo começara — e as apostas eram demasiado altas para perder. O inspetor Vítor Azevedo estava no seu gabinete na Polícia Judiciária, a estudar os materiais enviados por Bastos. A pasta era grossa: laudos médicos, análises toxicológicas de dois laboratórios independentes, excertos do historial clínico, o diário pessoal da falecida onde registava os sintomas por data. Azevedo era um investigador experiente, meticuloso e incorruptível.
Lia o laudo toxicológico pela terceira vez. No sangue de Correia foram encontrados vestígios de um fármaco usado em medicina paliativa, uma substância rara de venda estritamente controlada. Correia não tinha cancro. De onde veio?
Pegou no telefone e ligou a Bastos. — Dr. Jorge, recebi os materiais. Uma pergunta: a Correia tinha motivos para tomar este fármaco?
— Nenhuns. O médico assistente confirmou que não prescreveu nada do género. A própria dona Helena suspeitou e fez secretamente as análises num laboratório externo. — Quem tinha acesso à comida e aos medicamentos dela?
— Em primeiro lugar, o cônjuge, Pedro Rodrigues. Viviam juntos. Ele preparava-lhe o chá, trazia-lhe os comprimidos. A empregada doméstica ia três vezes por semana, mas está com eles há vinte anos.
É de confiança. — E o motivo do cônjuge? — A herança. A Correia era dona de uma rede de clínicas, imóveis comerciais, contas avultadas.
Tudo adquirido antes do casamento. Se ela morresse sem testamento, tudo iria para Rodrigues como único herdeiro legal. Mas ela deixou um testamento a favor de uma pessoa estranha — a auxiliar de limpeza, Marisa Antunes. O Rodrigues ficou sem nada.
— Então ele tinha motivo, meios e oportunidade. A tríade clássica. — Exatamente. Além disso, há uma testemunha.
A Marisa ouviu a dona Helena contar-me as suspeitas. Está disposta a depor. — Onde está ela agora? — Num lugar seguro.
O Rodrigues está a procurá-la ativamente, tenta intimidá-la, forçá-la a renunciar à herança. Temo pela vida dela. — Está bem. Vou abrir um inquérito por crime de homicídio.
Vou requerer a exumação e uma nova autópsia médico-legal. Se o envenenamento se confirmar, Rodrigues apanhará uma pena pesada. Dois dias depois, Azevedo obteve autorização judicial para a exumação do corpo. Os materiais foram enviados para o Instituto de Medicina Legal em Lisboa.
Enquanto os peritos trabalhavam, Azevedo mandou verificar as gravações das câmaras das farmácias na zona onde Correia vivia. Uma semana depois, o resultado chegou: numa gravação vê-se claramente Pedro Rodrigues a comprar o fármaco, dois meses antes da morte da esposa. Azevedo convocou a farmacêutica para interrogatório. Ela confirmou que Rodrigues comprara o medicamento várias vezes, sem receita, dizendo que a mãe tinha cancro.
— Percebe que infringiu a lei? — perguntou Azevedo. — Venda de medicamentos sujeitos a receita sem a apresentar. E se este fármaco foi usado num homicídio, a senhora é cúmplice.
A mulher começou a chorar. — Eu não sabia. Juro que não sabia. — Escreva uma declaração.
Confesse voluntariamente. Isso atenuará a sua culpa. Mas terá de testemunhar em tribunal. Ela acenou, enxugando as lágrimas.
Mais um fio que conduzia a Rodrigues, formalizado em documento. Entretanto, o detetive Bernardes conduzia a sua própria investigação. Analisou as gravações da clínica onde Correia esteve internada. Estudou quem entrava no quarto, quando, por quanto tempo.
Rodrigues aparecia regularmente, trazia fruta, flores, sentava-se junto à cama. Nas câmaras, parecia um marido exemplar. Mas um dia Bernardes notou um pormenor: Rodrigues entra com um termo, fica dez minutos, sai sem ele. Uma hora depois, uma enfermeira recolhia a loiça.
O termo estava vazio. Consultou os registos médicos: nesse dia, o estado de Correia piorara drasticamente — náuseas, fraqueza, confusão mental. Os médicos atribuíram à progressão da doença. Bernardes encontrou a enfermeira e entrevistou-a informalmente.
— Lembra-se daquele dia? O senhor Rodrigues trouxe chá para a esposa num termo? — Sim. A dona Helena bebeu um pouco.
Depois disse que o chá estava amargo. Pensei que fosse por ser muito forte. — E o que disse o senhor Rodrigues? — Nada.
Sorriu. Disse que ela sempre fora esquisita. Mais um tijolo no muro da acusação. Paralelamente, Bernardes seguia as ações de Rodrigues após a leitura do testamento.
Pedro contratara dois homens fortes de uma empresa de segurança privada. Eles vasculhavam a cidade, interrogavam ex-colegas de Marisa, vizinhos, procurando saber para onde ela fora. Bernardes reportava a Bastos:
— O Rodrigues está ativo. Os homens dele já descobriram que a Antunes alugava um quarto na periferia.
Interrogaram a senhoria. Ela disse que a rapariga se mudou há uma semana, sem deixar morada. Vão encontrá-la mais cedo ou mais tarde. — Precisamos de nos antecipar.
Proponho organizar um encontro entre a Marisa e os homens do Rodrigues, mas sob o nosso controlo. Registamos a tentativa de pressão, de intimidação. Isso será fundamento para abrir outro processo-crime: coação e ameaças. Bastos pensou.
Arriscado, mas viável. — Vou falar com a Marisa. Contactou-a e explicou o plano. A rapariga não concordou de imediato.
Tinha medo. Mas Bastos convenceu-a:
— Marisa, eles vão encontrá-la de qualquer maneira. É melhor que aconteça nos nossos termos. Estaremos por perto.
A polícia estará por perto. Não se vai magoar. E o Rodrigues ficará ainda mais encurralado. — Está bem — disse ela em voz baixa.
— Eu faço. Bernardes organizou uma fuga de informação. Através de um conhecido na empresa de segurança, deu uma pista aos homens de Rodrigues: a Marisa trabalhava num pequeno laboratório privado na cidade vizinha de Setúbal. A informação chegou a Pedro em dois dias.
Ele partiu imediatamente com Verónica e dois seguranças. O plano era simples: encontrar a rapariga, intimidá-la, forçá-la a assinar a renúncia à herança. Localizaram-na à noite, quando saía do laboratório, e cercaram-na numa rua deserta. Pedro deu um passo à frente, sorrindo.
— Marisa Antunes. Finalmente. Precisamos de falar. A rapariga recuou.
— Recebeste o que me pertence por direito — continuou Pedro, sem levantar a voz. — A Helena era minha mulher. Cuidei dela durante três anos. E tu és uma rapariga qualquer que apareceu no momento certo.
Achas isso justo? Marisa ficou em silêncio. Pedro tirou papéis do bolso. — Aqui está a renúncia à herança.
Se assinares, dou-te cinquenta mil euros. Chega para pagares as tuas dívidas e começares uma nova vida. Se recusares… — acenou para os seguranças.
— Vais arrepender-te. — Eu não assino — conseguiu dizer Marisa. Verónica aproximou-se, falando de forma insinuante:
— Querida, tu não percebes com quem te meteste. O Pedro não é dos que desistem.
Se não assinares por bem, ele vai obrigar-te. Vai doer. Pensa em ti. — Eu disse que não.
Um dos seguranças avançou, mas nesse momento Bernardes apareceu da esquina. Atrás dele, dois polícias fardados. — Polícia. Pedro gelou.
Verónica empalideceu. Os seguranças olharam uns para os outros, confusos. Bernardes aproximou-se de Marisa. — Está tudo bem?
— Sim. — Ela tremia, mas aguentava-se. — Eles ameaçaram-me. Exigiram que assinasse a renúncia à herança.
— Temos tudo gravado — disse Bernardes, tirando um gravador do bolso de Marisa. — Cada palavra, incluindo a frase sobre ela se arrepender. Pedro percebeu que fora apanhado. Os polícias lavraram auto e levaram-no a ele e a Verónica para prestarem declarações.
Os seguranças foram libertados com termo de identidade e residência. Na esquadra, Pedro ficou detido até de manhã, depois libertado com a mesma medida de coação. Mas o processo fora aberto. Azevedo instaurou um processo por crime de coação e ameaça com uso de violência.
Agora corriam dois processos contra Rodrigues: o homicídio de Helena e as ameaças à herdeira. A situação tornava-se crítica. Pedro voltou para a casa que já não lhe pertencia. Verónica estava sentada no sofá, com a cabeça entre as mãos.
— Está tudo a ruir, Pedro. Eles estão a encurralar-nos. — Cala-te. Estou a pensar.
— Pensar em quê? Temos de fugir enquanto é tempo. — Fugir para onde? Não tenho dinheiro.
A Helena deixou tudo a essa maldita rapariga. Só me resta o meu salário de três anos, que já não existe. Pedro percebia que o tempo era escasso. Em breve seria detido e tudo acabaria.
Precisava de um plano desesperado, arriscado, mas um plano. Pegou no telefone e marcou o número de um dos seus seguranças. — Ouve com atenção. Preciso de informações sobre a Antunes.
Tudo o que encontrares. Onde vive, onde trabalha, quem a protege. Pago o dobro do normal. — Está combinado.
Verónica olhava para ele com horror. — Estás louco? Depois do que aconteceu, vais outra vez? — Eu não me rendo — interrompeu Pedro.
— Passei três anos com aquela mulher. Três anos. E agora uma qualquer auxiliar de limpeza vai ficar com tudo. Vou obrigá-la a renunciar.
Custe o que custar. — Então, sem mim. Não quero ir presa por causa da tua vingança. — Então desaparece daqui.
Já não preciso de ti. Verónica bateu com a porta. Pedro ficou sozinho, sentado no escuro, a respirar com dificuldade. O ódio transbordava: por Helena, que o enganara; por Marisa, que roubara o seu futuro; por Verónica, que fugira; por Bastos, que transformara tudo numa guerra jurídica.
Mas ele não se renderia. Nunca. Nesse mesmo tempo, o inspetor Azevedo estudava novos materiais. A perícia de Lisboa chegara mais cedo do que o esperado.
O resultado era inequívoco: a morte de Helena Correia resultara de falência multiorgânica causada pela administração sistemática de um fármaco tóxico. A concentração da substância nos tecidos indicava envenenamento prolongado de pelo menos três meses. Azevedo ligou a Bastos. — A perícia está pronta.
O envenenamento foi confirmado. Vou deduzir acusação contra Rodrigues. Amanhã chamo-o para interrogatório. Vou pedir ao tribunal a prisão preventiva — o risco de fuga e de perturbação do inquérito é evidente.
— Concordo. Mantenha-me informado. O cerco apertava-se. Pedro Rodrigues recebeu a notificação às oito da manhã.
Um estafeta entregou-lhe o envelope e pediu-lhe que assinasse. Convoca-tória para interrogatório na Polícia Judiciária na qualidade de arguido pelo crime de homicídio. Pedro releu duas vezes. Então a perícia estava pronta.
Então encontraram provas. Já não havia tempo. Atirou a notificação para a mesa, pegou no telemóvel e ligou ao segurança. — Descobriste onde vive exatamente a Antunes, em Setúbal?
— Sim. Aluga um quarto na Rua de Luís T, número dezassete. Não tem proteção, mas o detetive Bernardes aparece de vez em quando. — Excelente.
Quanto te devo? — Cem mil euros. Mas preciso de mais um serviço. Quero que a assustes a sério.
Para que perceba: ou renuncia à herança, ou… — Ou quê? — Encontram-na numa valeta. O segurança ficou em silêncio.
— Isso já é outro dinheiro. E outros riscos. — Duzentos mil euros. Metade agora, metade depois.
— Quando? — Hoje à noite. Eu próprio vou. Tu vens comigo.
Levamos mais um homem de confiança. — Combinado. Pedro desligou. A adrenalina disparou.
Sabia que era uma loucura — o inspetor já estava no seu encalço, o interrogatório seria no dia seguinte — mas se não fizesse nada, perderia definitivamente. E se a Antunes renunciasse à herança, o caso desmoronar-se-ia. Sem herança, não há motivo. Sem motivo, a acusação enfraquece.
Arrumou dinheiro, documentos, um telemóvel de reserva. Deixou um bilhete à empregada, que fora à casa de um amigo por uns dias. Entrou no carro e foi ao encontro do segurança. Entretanto, em Setúbal, Marisa Antunes terminava o dia de trabalho.
O laboratório fechava às seis. Trocou de roupa e saiu para a rua. Novembro instalara-se: vento frio, humidade, escurecia cedo. Caminhava por uma rua deserta em direção à paragem de autocarro.
O telemóvel vibrou. — Marisa, onde está? — Era Tânia. — A caminho de casa.
— O Bernardes não a pode ir buscar hoje. Tem outro assunto. Tenha cuidado. Se acontecer alguma coisa, ligue imediatamente.
— Está bem. Marisa guardou o telemóvel e olhou para trás. A rua estava deserta. Sentiu um desconforto e apressou o passo.
Ouviu atrás de si o som de um motor. Um carro. Virou-se: um jipe preto vinha devagar, quase ao seu lado. O vidro desceu.
Ao volante, um homem desconhecido. No banco de trás, Pedro Rodrigues. — Marisa Antunes. Entre.
Precisamos de falar. — Não. O jipe parou. As portas abriram-se de rompante.
Dois homens fortes saltaram, agarraram Marisa por um braço, taparam-lhe a boca. Ela tentou soltar-se, mas não teve forças. Empurraram-na para dentro do carro, prenderam-na entre os seguranças. O jipe arrancou.
Pedro virou-se para ela. — Fizeste mal, Marisa. Teimosa. Podíamos ter chegado a um acordo pacificamente.
Agora terá de ser de outra forma. Ela ficou em silêncio, a sufocar de medo. O carro saiu da cidade, virou para uma estrada de terra batida e parou junto a um armazém abandonado. Pedro saiu e acenou aos seguranças:
— Tragam-na.
Tiraram Marisa do carro e levaram-na para o armazém. Lá dentro estava frio e escuro, cheirava a humidade e a ferrugem. Pedro ligou a lanterna do telemóvel e iluminou-lhe o rosto. — Ouve com atenção.
Tens duas opções. Primeira: assinas a renúncia à herança aqui e agora. Eu levo-te de volta, dou-te cinquenta mil euros e separamo-nos como amigos. Segunda opção…
Fez uma pausa. — Ninguém te encontrará. Nunca. Percebes?
Marisa tremia. — Andam à minha procura. Se eu desaparecer, suspeitarão logo de si. — Que suspeitem.
Sem corpo, não há crime. E o corpo… — Pedro riu-se. — O sapal aqui perto é fundo.
Até um camião se afunda lá. Pedro tirou os papéis do bolso. — Aqui está a renúncia. Vais assinar?
— Não. Pedro acenou a um dos seguranças. O homem deu um murro na cara de Marisa. Ela caiu, batendo com o joelho no chão de cimento.
Pedro agachou-se ao lado dela. — Achas que estou a brincar? Eu matei a Helena lenta e metodicamente. Durante três meses, misturei-lhe veneno no chá.
Vi-a definhar e não me importei. Achas que vou tratar-te de forma diferente? Marisa levantou a cabeça e olhou-o nos olhos. O sangue escorria do lábio partido.
— Você é um assassino. E vai ser preso. Mais cedo ou mais tarde. Pedro levantou-se e deu-lhe um pontapé na barriga.
Ela dobrou-se de dor. Ele agachou-se novamente. — Pergunto pela última vez. Vais assinar?
— Não. Pedro endireitou-se e acenou aos seguranças. — Preparem o carro. Levamo-la para o sapal.
Lá tratamos do assunto. Nesse momento, ouviram-se sirenes do lado de fora. Pedro gelou. Os seguranças correram para a porta, mas já entravam polícias armados.
— Mãos na cabeça! Pedro tentou fugir, mas foi imobilizado e algemado. Os seguranças também foram detidos. A seguir entrou Bernardes, aproximou-se de Marisa e ajudou-a a levantar-se.
— Como está? — Estou viva — rouquejou ela. — Muito bem. Aguente.
Chamámos uma ambulância. Levaram Pedro do armazém e meteram-no no carro da polícia. Ele olhava para Marisa com ódio. Ela estava de pé, apoiada em Bernardes, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu: vai ficar tudo bem.
Bernardes explicou-lhe mais tarde no hospital, enquanto os médicos tratavam das feridas:
— Estávamos a seguir o telemóvel do Rodrigues. Quando ele saiu da cidade, percebemos que estava a planear alguma coisa. Contactámos a polícia local, coordenámos as ações. Chegámos a tempo.
— Obrigada. — Marisa segurava um saco de gelo no lábio partido. — Se não fossem vocês… — Não pense nisso.
O importante é que está viva. E o Rodrigues vai preso por muito tempo. Tentativa de homicídio, sequestro, ameaças. Mais o processo principal, o homicídio da Correia.
Arrisca-se a uns vinte anos. Marisa acenou. Fechou os olhos e lembrou-se do rosto de Helena Correia. A promessa que lhe fizera, cumprira-a.
No dia seguinte, o inspetor Azevedo interrogou Pedro Rodrigues, que estava numa cela de detenção provisória, com barba por fazer e olhar apagado. — Pedro, é acusado de homicídio doloso da sua esposa, Helena Soares Correia, por envenenamento sistemático, e de sequestro e tentativa de homicídio de Marisa Silva Antunes. Declara-se culpado? — Não.
— Pedro olhava carrancudo para a mesa. — Temos a perícia que confirma o envenenamento. Temos testemunhas que o viram comprar o fármaco na farmácia sem receita. Temos as gravações das câmaras da clínica, onde levava chá à sua esposa, após o qual ela piorava.
E temos a gravação da sua conversa com a Antunes, onde diz claramente: “Eu matei a Helena. Durante três meses, misturei-lhe veneno no chá. ” Quer que eu ponha a gravação? Pedro ficou em silêncio.
Azevedo ligou o gravador. A voz de Pedro soava nitidamente:
— Eu matei a Helena. Lenta e metodicamente. Durante três meses, misturei-lhe veneno no chá.
Vi-a definhar e não me importei. Azevedo desligou. — É a sua voz? — Pedro não respondeu.
— Também temos o depoimento da Antunes, que raptou, agrediu e ameaçou de morte se ela não renunciasse à herança. As lesões no corpo dela foram documentadas. Os seus seguranças já depuseram, confirmando que agiram sob as suas ordens. Encurralou-se a si mesmo.
A única coisa que o pode ajudar é uma confissão completa. Pedro levantou a cabeça. — Quero um advogado. — É o seu direito.
O interrogatório terminou. Azevedo saiu e ligou a Bastos:
— Dr. Jorge, o Rodrigues está detido. O tribunal decretou prisão preventiva.
Fuga e pressão sobre testemunhas estão excluídas. — Excelente. Estou a preparar os documentos para o processo cível. O Rodrigues continua a contestar o testamento, mas agora a posição dele é ainda mais fraca.
Um homem acusado de matar a mulher tenta obter os bens dela. — Que hipóteses tem ele de ganhar o processo cível? — Nulas. O testamento foi feito de forma irrepreensível.
O testamento, o atestado médico, a gravação em vídeo, o depoimento do notário. O tribunal vai indeferir o pedido dele, sem dúvida. — Então resta apenas o processo-crime. Continuo a recolher provas.
Em breve enviarei o caso ao Ministério Público para acusação. — Mantenha-me informado. Entretanto, na cidade vizinha, Marisa Antunes estava sentada no apartamento que Bastos alugara para ela — um lugar seguro, com segurança vinte e quatro horas. Olhava pela janela para o céu de novembro e pensava em como a vida mudara.
Há um mês não era ninguém: lavava o chão, recebia um salário de miséria, vivia num quarto alugado. Agora era herdeira de uma fortuna imensa, testemunha-chave num processo-crime, uma mulher que tentaram matar. Não se alegrava com o dinheiro. Ainda não.
Percebia que ele era o preço — o preço da vida de Helena Correia — e esse preço obrigava-a. O telefone tocou. Era Bastos. — Marisa, como está?
— Normalmente. As nódoas negras estão a passar. — Ótimo. Tenho novidades.
O Rodrigues está preso. A investigação está a reunir as últimas provas. Em breve, o caso irá a tribunal. Paralelamente, corre o processo cível sobre o testamento.
Dentro de um mês, haverá decisão. — E o que devo fazer? — Esperar. Prestar declarações quando for solicitada.
E preparar-se para, depois do julgamento, se tornar a legítima proprietária de todos os bens da Correia. Marisa ficou em silêncio. — Dr. Jorge, e se eu não quiser?
Tudo isto. O dinheiro, as casas, as clínicas. Tenho medo. Não sei viver com tudo isto.
Bastos suspirou. — Marisa, a Helena não a escolheu por acaso. Ela viu em si algo que não via nos outros. Honestidade, talvez.
Ou simplesmente bondade. Queria que tivesse uma oportunidade. Não desista dela. Pegue no dinheiro.
Construa a sua vida. Mas lembre-se: prometeu-lhe levar o caso até ao fim. — Eu lembro-me. — Então, ótimo.
Aguente firme. Em breve tudo acabará. Marisa pousou o telemóvel e olhou para a fotografia de Helena Correia que Bastos lhe dera. Uma mulher de meia-idade, rosto inteligente, olhar firme.
Viveu uma vida difícil, construiu um negócio, perdeu o amor, depois foi traída e morta. Marisa disse baixinho para o vazio:
— Eu levarei o caso até ao fim. Prometo. Na prisão, Pedro Rodrigues estava deitado na cama, a olhar para o teto.
A vida desmoronara-se. Tudo o que construíra em três anos ruíra num mês. Helena vencera-o mesmo depois da morte. Lembrava-se dos últimos dias dela: pálida, fraca, a ouvi-lo confessar tudo, pensando que estava inconsciente.
E ela ouviu tudo, compreendeu tudo e desferiu um contra-ataque do qual ele nunca se recuperaria. Na cela estava frio e abafado ao mesmo tempo. Em algum lugar pingava água. Verónica partira quando sentiu o perigo.
Usou-o tal como ele usara Helena. Pedro virou-se para a parede. Amanhã outro interrogatório. Depois o julgamento.
Depois a sentença. Vinte anos, talvez mais. Não viveria até à liberdade. Na sua idade, vinte anos era uma sentença de morte.
Riu-se amargamente. Helena sabia o que fazia. Deixou-lhe a vida, mas tirou-lhe tudo aquilo pelo qual vivera. Era pior do que a morte.
Passaram-se meses. A primavera chegou inesperadamente depressa. A cidade encheu-se do cheiro a verdura fresca. Marisa Antunes estava à janela do seu novo apartamento, a olhar para a avenida lá em baixo.
O apartamento era espaçoso, luminoso, com tetos altos. O seu apartamento, comprado com o dinheiro de Helena. Nestes meses, muita coisa mudara. A investigação terminara.
O processo de Pedro Rodrigues fora a tribunal. O processo cível sobre o testamento também terminara: o tribunal considerara a vontade de Helena Correia legal e fundamentada, indeferindo o pedido de contestação de Rodrigues. Marisa tornara-se oficialmente herdeira de todos os bens: a casa, as clínicas, os imóveis comerciais, as contas. Ainda não conseguia acreditar.
Há seis meses precisava desesperadamente de dinheiro. Agora tinha milhões à disposição. O telefone tocou. Bastos.
— Marisa, amanhã é a leitura da sentença. Vai estar presente? — Sim, sem falta. — Ótimo.
Encontrámo-nos à porta do tribunal às nove. No dia seguinte, Marisa chegou ao Tribunal da Comarca de Lisboa. Bastos já esperava à entrada com Tânia. Passaram pelos detetores de metais e subiram ao terceiro andar.
A sala de audiências era pequena, mas havia muita gente: jornalistas, familiares de outros réus, advogados. Pedro Rodrigues estava sentado no banco dos réus, emagrecido, abatido, com barba por fazer. Ao seu lado, Verónica Guedes, também arguida, mas por crimes menos graves. Ela olhava para o chão, evitando os olhares.
A juíza entrou — uma mulher de meia-idade, austera, de toga com colarinho branco. Todos se levantaram. Ela sentou-se, pôs os óculos e abriu a pasta. — Em nome do povo, o Tribunal da Comarca de Lisboa, tendo julgado o processo-crime em que é arguido Pedro Matos Rodrigues pela prática dos crimes previstos nos artigos 131, 158 e 154 do Código Penal, deu como provado o seguinte…
Começou a ler a sentença. Marisa ouvia atentamente. Cada palavra era importante. — O arguido Rodrigues, estando casado com Helena Soares Correia, com a intenção de se apoderar dos seus bens, misturou-lhe sistematicamente na comida e nas bebidas um fármaco tóxico usado em medicina paliativa.
As ações do arguido levaram ao desenvolvimento na vítima de falência multiorgânica e à sua subsequente morte… A culpa é confirmada pelo laudo da autópsia, pelo depoimento da farmacêutica que lhe vendeu o fármaco sem receita, pelas gravações das câmaras da farmácia e da clínica, pelo depoimento da testemunha Marisa Silva Antunes e pela gravação áudio da confissão do arguido durante o sequestro da mesma. Pedro estava imóvel, a serrar os dentes. A juíza continuou:
— Além disso, Rodrigues cometeu o sequestro de Antunes com o objetivo de a coagir a renunciar à herança.
Usou de violência contra ela e ameaçou-a de morte. A culpa é confirmada pelo depoimento da vítima, pelas testemunhas, pelos agentes que a encontraram no armazém abandonado, pelo exame médico das lesões corporais e pela gravação áudio das ameaças. Fez uma pausa e olhou para Pedro. — O tribunal considera a culpa totalmente provada.
Não foram encontradas circunstâncias atenuantes. Pelo contrário, existem agravantes: o crime foi cometido por motivos torpes, com especial crueldade, contra uma pessoa próxima. O arguido não mostrou arrependimento nem confessou a culpa. Marisa apertava as mãos nos joelhos.
Bastos pousou a mão no ombro dela, tranquilizando-a. A juíza leu a parte dispositiva:
— Pelo exposto, o tribunal condena o arguido Pedro Matos Rodrigues, em cúmulo jurídico, pela prática dos crimes de homicídio qualificado, sequestro e coação agravada, na pena única de vinte e dois anos de prisão. Pedro estremeceu e agarrou-se às grades. Verónica soluçou.
A juíza passou ao caso dela:
— Condena-se a arguida Verónica Andrade Guedes, em coautoria, pela prática dos crimes de sequestro e coação agravada, na pena de sete anos de prisão efetiva. A juíza fechou a pasta. — A sentença é passível de recurso. A sessão está encerrada.
Todos se levantaram. A guarda levou Pedro e Verónica para a saída. Pedro virou-se e cruzou o olhar com Marisa. No seu olhar havia ódio, mas também algo mais: a consciência de um colapso total.
Marisa olhava-o com calma. Não se regozijava. Apenas cumprira a promessa feita a Helena Correia: levara o caso até ao fim. Saíram da sala.
Bastos abraçou Marisa pelos ombros. — Acabou. Está livre. — Obrigada.
— Ela sorriu fracamente. — A si, à Tânia, ao Bernardes, ao inspetor Azevedo. Sem vocês, nada disto teria sido possível. — Apenas fizemos o nosso trabalho.
E a senhora foi corajosa. Isso é o principal. Desceram as escadas do tribunal. Lá fora brilhava o sol.
Marisa respirou fundo. Pela primeira vez em seis meses, sentiu alívio. Marisa tornou-se a legítima proprietária da casa de Helena Correia, de três clínicas privadas, dois centros comerciais, espaços de escritórios e contas bancárias. A soma era enorme — cerca de quarenta milhões de euros.
Marisa contratou gestores para as clínicas e agentes imobiliários para vender parte dos imóveis. Não queria ficar com tudo. Era demasiado. Vendeu os centros comerciais e um dos edifícios de escritórios.
Ficou com a casa e uma clínica que funcionava bem e gerava rendimento estável. O dinheiro das vendas foi investido em ativos seguros. Parte foi doada a uma instituição de apoio a doentes oncológicos. Outra parte foi gasta a pagar todas as dívidas — as suas, as da mãe, as de familiares distantes.
A Bastos e à sua equipa pagou honorários generosos, mais do que pediram. A Bernardes também. Ao inspetor Azevedo ofereceu um relógio caro — ele não podia aceitar dinheiro, mas aceitou o presente. — Obrigado — disse Azevedo, apertando-lhe a mão.
— Nem todos aguentam uma pressão destas. A senhora foi fantástica. — Apenas cumpri uma promessa. — Isso tem muito valor.
Azevedo foi-se embora e ela ficou sozinha no escritório de Bastos. O Dr. Jorge serviu-lhe um chá e sentou-se à sua frente. — E agora, Marisa?
— Não sei. Quero viver em paz. Sem medo, sem perseguições. Quero ir estudar.
Tirar uma licenciatura em psicologia. Agora tenho essa possibilidade. — É o correto. A Helena gostaria que fosse feliz.
— Vou tentar. Bastos acenou. — Se precisar de alguma coisa, contacte-me. Ajudarei sempre.
— Obrigada. Ela acabou o chá, despediu-se e saiu para a rua. O dia estava quente, soalheiro. A cidade vivia a sua vida normal: as pessoas apressavam-se, as crianças brincavam nos pátios, os lojistas atendiam clientes.
Marisa apanhou um táxi e deu a morada. A casa de Helena Correia — agora a sua casa — situava-se num bairro tranquilo, rodeada por um jardim. Ela entrou e percorreu as divisões. Estava tudo limpo, arrumado.
A empregada reformara-se, mas vinha uma vez por semana para arejar e limpar. Marisa subiu ao segundo andar e entrou no quarto de Helena. O quarto era espaçoso, luminoso. Na mesa de cabeceira havia uma fotografia: Helena em jovem, bonita, confiante.
Marisa tirou as chaves de casa da mala e pousou-as na mesa de cabeceira, ao lado da fotografia. Disse baixinho:
— Dona Helena, fiz tudo como pediu. O Pedro foi condenado. Apanhou vinte e dois anos.
Não vai envenenar mais ninguém, não vai enganar mais ninguém. Obrigada pela sua confiança. Tentarei ser digna do que me deixou. Ficou em silêncio por um momento, depois saiu do quarto, desceu, foi para a sala de estar e sentou-se numa poltrona junto à lareira.
Fechou os olhos. Tudo acabara. Pedro estava atrás das grades. Verónica também.
A herança estava regularizada, as dívidas pagas. A vida começava de novo. Lembrou-se daquele dia no quarto do hospital, quando Helena a chamara. Lembrou-se das palavras: “Se fizeres tudo como eu digo, nunca mais terás de trabalhar como auxiliar.
” Na altura, parecera-lhe o delírio de uma doente. Agora era a realidade. Abriu os olhos e olhou para a lareira. A vida dera-lhe uma oportunidade.
Helena dera-lhe uma oportunidade. Ela não a desperdiçaria. Marisa ficou com a casa, mas raramente vivia lá. Passava mais tempo no apartamento no centro.
A clínica dava lucro, os gestores trabalhavam honestamente. Marisa controlava as finanças, mas não interferia na gestão operacional — percebia que ainda não tinha conhecimentos para tal. Pensava muitas vezes em Pedro. Não o perdoara, mas também não sentia ódio.
Apenas indiferença. Pedro ficara no passado, juntamente com a vida em que ela lavava o chão e vivia na miséria. No outono, Marisa entrou na universidade, na faculdade de psicologia. Nessa altura, voltou à casa de Helena, percorreu as divisões, parou junto ao quarto, entrou e sentou-se na beira da cama.
Olhou para a fotografia. — Dona Helena, passou um ano. Eu consegui. Aprendi a viver com esta herança.
Não a esbanjei, não enlouqueci com o dinheiro. O Pedro está preso a cumprir a pena. A Verónica também. Tudo como a senhora queria.
Obrigada pela sua confiança. Pela oportunidade. Levantou-se, saiu do quarto e fechou a porta suavemente, com cuidado. A vida continuava, sem vingança, sem ódio.
Simplesmente a vida. E isso era o melhor que Marisa podia fazer: viver com dignidade, honestamente, lembrando-se da mulher que lhe dera tudo. Helena Correia vencera não pela força, nem pela raiva, mas pela inteligência, pelo cálculo e pela fé de que a justiça existe. Pedro pagou por cada dose de veneno, por cada mentira, por cada segundo em que viu a sua mulher morrer.
E Marisa recebeu uma oportunidade — e essa oportunidade, ela usou-a corretamente.


