A diretora ficou branca quando ouviu o nome do meu pai. A caneta escorregou-lhe da mão e rolou pela mesa com um estalido seco, e por um instante, os cinco entrevistadores desapareceram atrás do…

A diretora ficou branca quando ouviu o nome do meu pai. A caneta escorregou-lhe da mão e rolou pela mesa com um estalido seco, e por um instante, os cinco entrevistadores desapareceram atrás do...

A entrevista correu melhor do que Yamato esperava até ao momento em que mencionou o nome do pai. Ele estava sentado na sala de reuniões da sede do Grupo Seiwa, com cinco entrevistadores à sua frente, e respondera com honestidade às perguntas sobre os dias difíceis em Yokohama, sobre trabalhar no porto e estudar de madrugada. Quando a diretora Shiori lhe perguntou sobre a família, ele não hesitou. — Vivo só com o meu pai.

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O nome dele é Sato Tsuyoshi. O silêncio caiu como uma pedra. A caneta de Shiori escorregou-lhe dos dedos e rolou pela mesa com um estalido seco. Ela ficou a olhar para ele, o rosto pálido, os lábios ligeiramente trémulos, os olhos fixos como se tivesse visto um fantasma.

Yamato sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Ele não sabia porquê, mas aquele nome, o nome do pai, tinha acabado de abrir uma ferida antiga. — Desculpe. Continue, por favor — disse Shiori, a voz a tremer de forma quase impercetível.

Outro entrevistador tentou recuperar o controlo da conversa, mas Yamato não conseguia afastar a sensação estranha. Quando a entrevista terminou, ele saiu da sala com as pernas fracas e ligou ao melhor amigo, Kenta. — A diretora ficou branca quando ouviu o nome do meu pai. — Estás a brincar?

Achas que o teu pai teve algum problema com essa empresa? — Ele nunca me falou de nada. — Não penses nisso agora. Quando acabares, vamos comer oden em Yokohama.

Yamato desligou a chamada, mas a inquietação não o largou. Algo naquela mulher, na forma como ela olhara para ele, ficou gravado na sua mente. Naquela noite, em casa, o pai preparou ramen com oden de Yokohama, como sempre fazia. Tsuyoshi era um homem do porto, de mãos calejadas e rosto marcado pelo sal e pelo vento, mas tinha um olhar doce quando olhava para o filho.

Cantarolava baixinho uma canção antiga. — Homens são barcos, mulheres são o porto — murmurou, enquanto mexia o caldo. — Pai, outra vez essa música? — Yamato sorriu.

Tsuyoshi apenas encolheu os ombros e continuou a cantarolar. Yamato conhecia aquela canção desde criança, mas nunca soubera o que ela significava para o pai. Durante o jantar, Yamato contou como foi a entrevista, mas omitiu o episódio da diretora. Não queria preocupá-lo.

No entanto, notou que o pai bebia água com mais frequência do que o normal e o via levar as mãos à zona lombar, com expressão dorida. — Isso é o quê, pai? — perguntou, apontando para a caixa de comprimidos que Tsuyoshi escondera no bolso. — Só um remédio para o estômago.

Não te preocupes. A resposta foi rápida demais. Yamato sentiu a desconfiança crescer, mas não insistiu. Dias depois, a notificação da empresa chegou: estava aprovado para o programa de trainees.

Mas, no mesmo dia, Tsuyoshi, ao saber que o filho iria para Tóquio, ficou pálido. A sua reação foi imediata e dura. — Não vás. — Porquê, pai?

Tens algum motivo para isso? Tsuyoshi abriu a boca, mas fechou-a logo. O sofrimento passou-lhe pelo rosto, como se um segredo de vinte e cinco anos estivesse a subir-lhe pela garganta e a afundar-se de novo no peito. — Não é nada.

Esquece o que eu disse. Deves seguir o teu caminho. Yamato sabia que aquilo não era nada. O pai nunca o tinha contrariado daquela forma.

Na noite seguinte, encontrou-se com Kenta numa banca de rua perto do porto, onde o oden fervia sobre o fogareiro. — Ele disse mesmo para não ires? — Kenta arqueou as sobrancelhas. — Sim.

E quando lhe perguntei o motivo, desviou o olhar. — Talvez ele só tenha medo de ficar sozinho. — Não é só isso. Eu sinto que há qualquer coisa que ele não me está a contar.

Naquela noite, ao voltar para casa embriagado pelo saquê, Yamato lembrou-se da gaveta que vira uma vez, quando era criança. Dentro dela, havia uma fotografia antiga do pai ao lado de uma mulher bonita, de ar refinado. E um documento dobrado. Ele sempre quisera saber o que era, mas o pai nunca o deixara aproximar-se.

Silenciosamente, entrou no quarto do pai e abriu a gaveta. Encontrou a fotografia. E ao ver o rosto da mulher, o coração parou. Era Shiori, a diretora do Grupo Seiwa.

A mesma mulher que ficara branca ao ouvir o nome do pai. No verso da fotografia, uma data de há vinte e cinco anos. Debaiixo dela, um documento intitulado Memorando. — Isso é um documento antigo — ouviu atrás de si.

Yamato virou-se. Tsuyoshi estava à porta, o rosto devastado. Sentaram-se os dois no sofá. Yamato segurou as mãos do pai, aquelas mãos grossas e quentes, marcadas por vinte e cinco anos de trabalho.

— Pai, sou adulto. Se há algo que eu deva saber, conta-me agora. Tsuyoshi respirou fundo. Os olhos encheram-se de lágrimas, as primeiras em vinte e cinco anos.

— A diretora Shiori é a tua mãe. As palavras entraram devagar no ouvido de Yamato, como gotas de água gelada. A mãe, que ele julgara morta, estava viva. E era a diretora da empresa onde acabara de ser contratado.

Sentiu a raiva, a confusão, a tristeza e a traição atropelarem-se-lhe no peito. — Porque é que nunca me contaste? Tsuyoshi contou-lhe tudo. O amor jovem na biblioteca da universidade, o casamento contra a vontade da família dela, a gravidez, a doença de Shiori durante o parto.

Os pais dela, uma família de um zaibatsu, tinham-no pressionado: para salvar a vida de Shiori, ele tinha de desaparecer para sempre. Tsuyoshi assinara o memorando, aceitara sumir com o filho, para que ela pudesse ser tratada nos Estados Unidos. E cumprira a promessa durante vinte e cinco anos. Nessa manhã, Yamato olhou pela janela do pequeno apartamento.

A luz do sol entrava sobre Yokohama. Pegou no telefone e ligou ao departamento de recursos humanos do Grupo Seiwa. — Venho confirmar a minha data de início. Decidira não fugir.

Ia enfrentar a verdade. No dia da nova reunião, Chiyoko convocou-o para uma sala pequena, mais íntima do que a grande sala de reuniões. Uma chávena de chá esperava por ele. Ela estava diferente, sem a frieza habitual, o olhar cheio de uma ternura contida.

— Como tem vivido com o seu pai? — Vivemos juntos no porto. Eu e ele. — Deve ter sido difícil.

O trabalho no porto é pesado. — O meu pai sempre se sacrificou por mim. Mesmo a chegar a casa morto de cansaço, fazia-me ramen com oden de Yokohama. Os olhos de Shiori brilharam.

Ela conteve as lágrimas com esforço. — O oden dele era mesmo bom. Yamato ficou surpreendido. Ela conhecia o oden de Yokohama?

O silêncio instalou-se, pesado, cheio de palavras por dizer. Shiori parecia prestes a revelar algo, mas acabou por recuar. — A sua capacidade é notável. Gostaria que começasse o estágio na próxima semana, na equipa de logística.

Yamato assinou os documentos sem hesitar. Quando lhe apertou a mão, sentiu o calor dela a transmitir-lhe algo que não sabia nomear. Ao sair, olhou para trás e viu-a de pé, a observar o horizonte de Tóquio. A chuva tinha parado e um raio de sol atravessava as nuvens.

No dia seguinte, começou o trabalho na equipa de logística. O chefe de equipa, Inoue, recebeu-o com simpatia. Na primeira tarde, durante uma reunião sobre atrasos nas entregas no Sudeste Asiático, Yamato reparou num padrão estranho nos dados. — O problema não é só a distribuição — disse, levantando a mão, com algum receio.

— A equipa noturna foi reduzida em trinta por cento, os camiões esperam em média duas horas e o sistema informático é atualizado à noite, o que atrasa o processamento ao amanhecer. A sala ficou em silêncio. Inoue sorriu. — Como é que percebeu isso tão depressa?

— Cresci no porto de Yokohama. Vejo estes problemas todos os dias. O seu relatório foi aprovado pela própria Shiori, que o mandou chamar para o desenvolver. No entanto, os rumores começaram a espalhar-se na empresa.

Porque é que a diretora tinha tanto interesse num estagiário recém-chegado? O vice-presidente, Kenji, irmão de Shiori, ouviu os boatos com atenção. Conhecia aquele nome: Sato Tsuyoshi. O homem que a irmã quisera casar há vinte e cinco anos.

O homem que eles tinham afastado à força. Enquanto observava o horizonte, tomou uma decisão fria: ia descobrir tudo e proteger a empresa, custasse o que custasse. Certo dia, Yamato preparava-se para sair quando recebeu uma chamada do pai. A voz de Tsuyoshi estava rouca, fraca.

— Andei a esconder isto durante meses. Os rins estão a falhar. Estou internado no hospital universitário de Yokohama. Yamato saiu em pânico, avisou Inoue e apanhou o comboio para Yokohama.

Kenta encontrou-o no hospital, já depois da meia-noite. — Falei com o médico. Há três meses que a doença se agravou. Ele escondeu-te isso.

Quando Yamato entrou no quarto, viu o pai pálido, com um soro no braço. Apertou-lhe a mão fria e seca. — Porque é que não me disseste nada? — Queria ver-te a dar certo em Tóquio.

Não queria atrapalhar-te. Nesse momento, a porta abriu-se lentamente. Shiori estava à entrada, imóvel, o rosto pálido, os olhos fixos em Tsuyoshi. Yamato ficou atónito.

— Como é que soubeste? — Disseste que precisavas de te ausentar por motivos familiares. Mandei verificar. Vim assim que soube.

Ela entrou devagar, aproximou-se da cama e ficou a olhar para o homem que amara. Depois, sentou-se ao lado de Yamato e, finalmente, as palavras saíram. Contou-lhe o que Tsuyoshi lhe contara, pouco tempo depois, com a voz embargada. A separação forçada, o memorando, o exílio dela nos Estados Unidos, a promessa mantida durante vinte e cinco anos.

Yamato ouviu tudo, o coração apertado. — O pai ainda canta aquela canção — disse ele, baixinho. — Homens são barcos, mulheres são o porto. Agora percebo.

Era a saudade de ti. Shiori não conteve as lágrimas. Yamato olhou para ela e, pela primeira vez, chamou-lhe mãe. — Quero que fiques ao lado dele, mãe.

Mesmo que seja aos poucos. Ela acenou, com a emoção a apertar-lhe a voz. Depois, voltaram ao quarto. Tsuyoshi acordou, viu Shiori e os seus olhos encheram-se de lágrimas, enquanto murmurava o nome dela como quem reencontra a vida.

Yamato saiu do quarto para lhes dar espaço e olhou pela janela. A chuva ainda caía, mas um fio de luz rompia as nuvens. No hospital, o estado de Tsuyoshi piorou subitamente. Uma noite, depois de uma crise violenta, o médico foi claro.

— A diálise já não chega. Precisamos de um transplante de rim. Sem isso, ele não vai aguentar. Nas horas seguintes, enquanto o pai dormia, Yamato não hesitou.

Fez os exames e os resultados mostraram que era compatível. Quando partilhou a decisão com Shiori, ela tentou demovê-lo. — Não podes sacrificar-te, Yamato. — Ele sacrificou a vida inteira por mim, mãe.

Agora é a minha vez. O médico explicou os riscos da cirurgia e exigiu uma confirmação formal de que a decisão era voluntária. — É a minha decisão. Ninguém me está a pressionar.

Aliás, todos estão a tentar impedir-me. Assinou o consentimento e marcou a operação para três dias depois. Nesse período, Shiori recebeu uma chamada da empresa: Kenji tinha convocado o conselho de administração, com medo de que a revelação do caso destruísse o valor das ações. Ela respondera com determinação.

— Não deixei que ele usasse o medo para nos afastar. O mercado não pode valer mais do que uma vida. Yamato sentiu o peito aquecer. Finalmente, a mãe tinha escolhido a família.

No dia da cirurgia, a operação decorreu durante horas. Na sala de espera, Chiyoko e Kenta mantinham-se em silêncio, com os olhos colados à porta. Quando o médico apareceu com uma expressão tranquila, Chiyoko levantou-se de um salto. — A cirurgia foi um sucesso.

Ambos estão estáveis. Ela desatou a chorar depois de tantos anos a segurar tudo. Na sala de recuperação, Yamato abriu os olhos e viu o pai ao lado, também acordado. Trocaram um olhar longo, sem palavras.

Tsuyoshi estendeu a mão e Yamato apertou-a. — Vamos viver muito tempo, pai. — Sim. Juntos.

Chiyoko entrou na sala, aproximou-se e segurou nas mãos dos dois homens. A família que fora separada há vinte e cinco anos estava, finalmente, reunida. Uma semana depois, Shiori convocou uma conferência de imprensa na sede do Grupo Seiwa. Diante de dezenas de jornalistas, olhou para as câmaras com serenidade.

— Hoje venho contar a verdade. Sato Yamato é meu filho. Passei vinte e cinco anos sem ele. Agora voltei a encontrá-lo.

Acredito que a verdade nos torna mais fortes. No conselho de administração, a tensão era elevada. Kenji atacou, mas um diretor externo tomar a palavra a favor de Shiori. — Quando uma empresa coloca as pessoas à frente dos interesses, isso gera confiança.

Apoio a diretora. Passado um mês, Tsuyoshi recuperava na fisioterapia. Yamato levou-lhe um pote de oden fumegante. — Isto não é oden, pai.

É remédio. O velho riu-se, e Chiyoko, que chegara com um pequeno ramo de flores, sentou-se com eles à mesa. Partilharam o oden em silêncio, um silêncio doce e sereno. Na semana seguinte, Tsuyoshi teve alta.

Foram os três para um restaurante junto ao mar, em Yokohama. A noite caía suave sobre as ondas, enquanto o oden fervia na mesa. — Vinte e cinco anos foi muito tempo — disse Chiyoko, com os olhos húmidos. — Mas nunca mais vos deixo ir.

Tsuyoshi não disse nada, mas o olhar bastou. Yamato olhou para os dois e sentiu que o coração estava finalmente inteiro. No dia seguinte, voltou ao Grupo Seiwa. As pessoas olhavam para ele de forma diferente, com respeito.

Inoue entregou-lhe o relatório que Yamato preparara, agora aprovado e pronto a implementar. — A tua ideia vai ser posta em prática. Estás pronto? — Sim.

Estou pronto. Seis meses depois, Yamato apresentou os resultados do novo sistema logístico numa reunião de administração. Falou com clareza e convicção. — Eu sou Sato Yamato.

Assumo a responsabilidade em meu próprio nome. Na última fila, Tsuyoshi, de bengala, sorria com orgulho. Chiyoko acenou com a cabeça, os olhos cheios de luz.

A história que começara num porto de Yokohama, entre um jovem pobre e uma filha de um império, tinha finalmente encontrado o seu porto.