A água gelada escorria pelo meu pescoço enquanto a voz do meu filho ainda ecoava no celular. Sou a Ivete, 71 anos, nascida na garoa de Curitiba. Acharam que eu ia chorar na chuva, mas esqueceram quem é a dona do teto deles. A madrugada na capital paranaense tem um jeito peculiar de castigar os ossos de quem já passou das sete décadas.

Não é um frio que bate na pele e para. É uma humidade cortante, uma garoa fina e invisível que a gente respira e que se instala nas juntas, pesa a roupa e esfria a alma. Eram cinco horas da manhã de uma terça-feira. Eu estava escorada na estrutura de metal do ponto de ônibus da Avenida Presidente Afonso Camargo, com o casaco de lã grossa completamente encharcado.
Tinha passado a noite a viajar de ônibus de Londrina para cá. Fui cuidar da minha irmã mais nova, a Jurema, que tinha operado a vesícula e não tinha ninguém por ela. Foram três dias a dormir numa cadeira de hospital, a comer pão com margarina e a beber café. Peguei o ônibus da meia-noite para voltar a Curitiba, porque tinha perícia médica no INSS às nove da manhã.
O plano era chegar, apanhar o biarticulado, ir para a minha casinha no bairro do Boqueirão, tomar um banho quente e seguir para a agência. Mas a vida, como dizia o meu falecido pai, é um moinho que não avisa quando vai moer. Assim que desembarquei, dei de cara com os portões de vidro dos tubos de ônibus trancados. Uma folha de papel sulfite colada com fita adesiva anunciava uma paralisação surpresa dos motoristas.
Não havia um único ônibus a circular na cidade. Os táxis que estavam na fila da rodoviária já tinham sido engolidos pela multidão de passageiros desesperados. O meu celular, um aparelho velho com o ecrã trincado no canto, marcava sete por cento de bateria. Eu não tenho esses aplicativos de transporte modernos.
Nunca consegui aprender a usá-los. Os meus dedos tremem na tela lisa. Foi então que fiz o que qualquer mãe faria. Pensei nos meus três filhos: Marcos, Priscila e Leandro.
Três adultos criados com o suor do meu rosto, com as madrugadas que passei acordada na central da antiga Telepar. Fui telefonista a vida inteira. Conectei milhares de vozes. Ouvi o Brasil inteiro através de cabos e pinos.
Trabalhei em turnos dobrados para que nunca faltasse comida no prato deles. Puxei o celular do bolso do casaco molhado. As mãos estavam tão duras de frio que mal conseguia apertar os botões. Liguei primeiro para o Marcos.
Ele é o mais velho, 42 anos, gerente de uma concessionária. O telefone chamou três vezes e caiu na caixa postal. Aquele bip seco no meu ouvido foi o primeiro aviso. Ele tinha rejeitado a chamada.
O Marcos tem o sono leve. Sei que viu o meu nome brilhar no ecrã do celular caro dele, debaixo do edredão quentinho. Engoli em seco. A água da chuva pingava da ponta do meu nariz.
Tentei a Priscila. 38 anos. Vive de aparências em salões de beleza, a gastar o que tem e o que não tem. O telefone chamou até ao fim.
Ninguém atendeu. Tentei de novo. Na segunda tentativa, ela atendeu com a voz pastosa de quem acabou de ser arrancada de um sonho bom. Alô?
resmungou. Filha, é a mãe. Perdoa a hora. Estou na rodoviária.
Houve greve de ônibus. Está a chover muito e não tenho como ir para o Boqueirão. Podes vir buscar-me? É rápido para ti, de carro.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Um suspiro longo e carregado de irritação, um som que me rasgou o peito mais do que o vento que soprava na avenida. Mãe, pelo amor de Deus, né? A voz da Priscila perdeu o tom de sono e ganhou um tom de repulsa.
A senhora sabe que eu tomo remédio para dormir. O meu carro está na garagem. Está um frio do caraças lá fora. Espere aí que uma hora a greve acaba.
Vou desligar que estou tonta de sono. E desligou. O sinal na linha parecia um martelo a bater na minha cabeça. As pernas começaram a fraquejar.
Olhava para os lados e só via a escuridão molhada de Curitiba. Um cão de rua passou a trotar apressado, com o rabo entre as pernas, a fugir da chuva. Senti inveja dele, que pelo menos sabia para onde correr. O relógio do visor pulou para as 5h15, a bateria caiu para três por cento.
Era a minha última chance. Liguei para o Leandro, o mais novo, 32 anos nas costas e até hoje diz que está a estudar para concurso, mas a verdade é que acorda ao meio-dia e passa a madrugada a jogar no computador. De todos, foi o que mais protegi, o que mais enchi de mimos, tirando da minha própria boca. O telefone dele tocou apenas uma vez.
Ele devia estar acordado. Fala, coroa. Atendeu, com o som de tiros de videojogo a ecoar ao fundo. Leandro, meu filho, ouve-me.
A mãe está presa na chuva na rodoviária. Não há ônibus. Os teus irmãos não querem vir. Pega na chave do carro do Marcos, ele deixa na estante da sala, e vem buscar a mãe.
Estou a congelar, filho. As minhas mãos estão roxas. O barulho do videojogo parou. Ouvi uma cadeira a ranger e depois vieram as palavras que mudaram o rumo do resto da minha vida.
Mãe, na boa, vocês os idosos têm uma mania feia de achar que o mundo gira à volta de vocês, não é? O tom dele era de um professor a repreender um aluno burro. O Marcos tem de trabalhar daqui a pouco. A Priscila está a babar aqui no quarto do lado.
Eu estou no meio de uma partida classificada. A gente quer dormir em paz. Ninguém mandou a senhora viajar de madrugada. Desenrasque-se e pegue num táxi, mãe.
Peça a alguém para chamar na rua, sei lá. Tchau. O clique seco encerrou a chamada e, logo em seguida, o ecrã do meu celular piscou e apagou completamente. A bateria tinha morrido.
Fiquei ali sozinha, no escuro, na chuva, aos 71 anos. O vento soprou mais forte, levantando a barra do meu casaco e atirando a água suja do asfalto contra as minhas meias de compressão. A primeira reação do corpo de uma mãe diante da rejeição de um filho é tentar encontrar uma desculpa para eles. É automático.
A gente pensa: ah, mas eles estão cansados. Ah, mas é muito cedo. Ah, a culpa é minha que não me programei direito. Passamos a vida inteira a engolir o choro e a beber a culpa.
Mas naquela madrugada, encostada ao metal gelado daquele ponto de ônibus, a água fria que escorria pelo meu rosto não se misturou com lágrimas. Pela primeira vez em 42 anos de maternidade, eu não chorei. Um calor estranho, quase insuportável, começou a nascer na boca do meu estômago e a subir pelo peito. Era a indignação.
Uma fúria silenciosa, densa e absoluta. Fechei os olhos e a imagem da minha vida inteira passou à minha frente. Lembrei-me das noites na central telefónica, com o fone pesado a apertar as minhas orelhas, a transferir chamadas enquanto os pés inchavam dentro do sapato. Lembrei-me das vezes em que cheguei a casa exausta e fui direta para o tanque esfregar os uniformes brancos do colégio deles com sabão em pedra até os nós dos dedos sangrarem.
Lembrei-me do jogo de xícaras Duralex que tinha na cozinha, de onde bebia o meu café preto e frio enquanto deixava o único pão francês fresco para o Marcos. Eu dei tudo. Esvaziei-me para que eles ficassem cheios. E onde estavam eles agora, enquanto eu congelava na rua?
Estavam a dormir, os três, no apartamento do Água Verde. O apartamento do Água Verde. Só de pensar naquelas paredes, o meu sangue ferveu. É um apartamento lindo.
Quatro quartos, piso de madeira maciça, varanda fechada com vidro de frente para uma praça arborizada. Um luxo que eu nunca me permiti ter. Comprei aquele apartamento há doze anos, com o dinheiro da minha aposentadoria especial, com a venda da casa que herdei dos meus pais e com o suor de todas as férias que vendi na vida. Estava no meu nome.
A escritura, o IPTU, a conta de luz, a taxa de condomínio, a água, tudo no nome da Ivete. Deixei os três morarem lá de graça, sem pagar um centavo de aluguel, com a desculpa esfarrapada de que precisavam de juntar dinheiro para começar a vida. O Marcos ganha rios de dinheiro, mas gasta tudo em carro e mulheres. A Priscila torra o salário em roupas de marca que não cabem no armário.
O Leandro nem trabalha, e eu vivo na minha casinha húmida no Boqueirão, a apanhar goteiras no teto da cozinha nos dias de temporal, a contar moedas para comprar os meus remédios de pressão. A gente quer dormir em paz. Desenrasque-se e pegue num táxi. A frase do Leandro ecoou na minha cabeça de novo.
O tom de desprezo, a certeza absoluta de que podiam tratar-me como lixo descartável e que no domingo seguinte eu estaria ao fogão, a fazer o empadão de frango de que tanto gostam. A certeza de que a mãe sempre perdoa. A certeza de que a mãe é eterna, burra e subserviente. Abri os olhos.
A chuva parecia ter parado de me incomodar. O frio já não doía nas juntas. Puxei a minha bolsa de couro sintético, aquela mesma bolsa preta e gasta que eles viviam a criticar. Abri o fecho com firmeza.
Tateei no escuro, a passar a mão por cima do porta-medicamentos, da caderneta de anotações velha, do frasco de dipirona, até que os dedos encontraram o que procurava. Um molho de chaves pesado. Eram três chaves tetra, compridas e douradas, além da tag azul magnética do portão principal. Eram as minhas chaves do apartamento do Água Verde.
As chaves do império onde os meus três pequenos imperadores dormiam o sono dos justos, protegidos do frio, a zombar da velha que os colocou no mundo. Eu andava sempre com elas na bolsa, para o caso de uma emergência. Bem, a emergência tinha chegado. Segurei o molho de chaves na mão direita.
O metal frio pareceu moldar-se aos meus dedos calejados. E ali, no meio da tempestade, sozinha, molhada até aos ossos, a olhar para o vazio da avenida, fiz uma coisa que há muito não fazia. Sorri. Um sorriso largo, a mostrar as marcas do tempo no rosto.
Um sorriso de quem acabou de acordar de um transe de décadas. Quem avisa amigo é, mas a vida não avisa. A vida ensina a bater. E os meus filhos iam aprender a lição mais dura das suas vidas.
Caminhei até ao orelhão laranja que ficava na esquina do terminal, um dos poucos que ainda funcionavam na cidade. Peguei nas únicas três moedas de um real que tinha no bolso. Não precisava do meu celular sem bateria. Na minha cabeça, graças a trinta anos a trabalhar como telefonista, guardava os números importantes como se fossem o meu próprio CPF.
Joguei a primeira moeda na fenda. Disquei o número do Osvaldo, um chaveiro vinte e quatro horas que tem uma lojinha perto do estádio. Conheço-o há vinte anos, desde que o ajudei a conseguir uma linha de telefone para a mãe dele. Alô, chaveiro do Osvaldo.
Bom dia. Osvaldo, meu querido, é a Ivete, a telefonista da Telepar. Dona Ivete? Nossa, que milagre.
E a esta hora, aconteceu alguma coisa? Aconteceu, Osvaldo. Aconteceu que preciso de um favor gigante seu, e preciso dele para agora. Para agora?
Mas está a cair um dilúvio, dona Ivete. Eu sei. Estou no meio dele. Você tem aí a sua carrinha com as ferramentas?
Tenho, claro. Está na garagem. Então ligue essa carrinha e venha buscar-me à rodoviária. Pago-lhe o triplo de uma corrida de táxi, mas traga a sua mala de ferramentas pesadas, a furadeira grande, e traga também os cilindros de fechadura mais modernos que tiver no estoque.
Aqueles que ninguém consegue abrir, nem com reza braba. Houve um silêncio do outro lado. O Osvaldo era um homem esperto. Sabia que eu não estava a brincar.
Dona Ivete, vai trocar as fechaduras da sua casa lá no Boqueirão? Não, Osvaldo. Respondi, a olhar para a chuva que começava a lavar o asfalto. Vou trocar as quatro fechaduras do meu apartamento no Água Verde.
E vamos fazer isso antes das dez da manhã. Desliguei o telefone no gancho. A tempestade continuava a cair sobre Curitiba, impiedosa e gelada, mas a verdadeira tormenta estava apenas a começar a formar-se dentro daquela bolsa preta. O farol amarelo da carrinha de trabalho do Osvaldo cortou a névoa espessa da avenida como um farol de navio a rasgar um mar escuro.
Quando o veículo encostou perto da calçada onde eu estava, o barulho do motor a diesel pareceu-me a melodia mais bonita que já tinha ouvido na vida. A porta do passageiro abriu-se com um ranger metálico e o calor do aquecedor bateu no meu rosto encharcado, trazendo consigo um cheiro forte de graxa, café amanhecido e fumo de corda. Por Deus do céu, dona Ivete! exclamou o Osvaldo, com os olhos arregalados atrás dos óculos de grau grosso.
A senhora está roxa! Entre já, pelo amor de Deus, que vai apanhar uma pneumonia. Agarrei-me à pega de ferro da carrinha com as duas mãos. Os dedos doíam, rígidos como gravetos secos.
Subi o degrau alto com dificuldade, a sentir a calça de lã encharcada a colar-se às pernas, e bati a porta. O silêncio dentro daquela carrinha bagunçada, cheia de caixas de ferramentas e cilindros de fechadura, foi o meu primeiro momento de paz naquelas últimas horas. Muito obrigada, Osvaldo. A minha voz saiu rouca.
O aquecedor está no máximo? Está sim, dona Ivete. Vou ligar as luzes de emergência e a gente espera a senhora aquecer um pouco antes de arrancar. Quer que a leve ao hospital?
A senhora está a tremer que nem uma vara verde. Não preciso de hospital, meu filho. Só preciso que me leve ao bairro do Água Verde, Rua Silveira Peixoto, edifício das Araucárias. O Osvaldo engatou a primeira mudança, mas manteve o pé na embreagem, a olhar-me de soslaio.
Ele conhecia-me bem. Sabia que eu não era mulher de armar confusão à toa. A senhora tem a certeza? Fazer serviço de chaveiro no apartamento dos seus filhos a esta hora da manhã?
Eles não vão achar mal o barulho? Tirei o capuz do casaco, a sentir a água escorrer dos cabelos brancos para o banco de vinil rasgado. Olhei para a frente, a observar as palhetas do limpa-para-brisas a empurrar a água para os lados, num ritmo constante, obstinado. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Passei a vida inteira a ser a pedra que aguentava as pancadas. Deixei os meus filhos baterem, exigirem, sugaram tudo o que eu tinha, achando que o amor de mãe era exatamente isso: suportar o desgaste até desaparecer por completo. Eles estão a dormir, Osvaldo. Respondi num tom de voz que até eu estranhei.
Era calmo, gelado e afiado. E quando acordarem, o problema não vai ser o barulho. Toque essa carrinha, faz favor. A carrinha arrancou, a cruzar as ruas desertas e molhadas do centro de Curitiba.
Enquanto os prédios cinzentos passavam pela janela embaciada, o calor do aquecedor começou a derreter o gelo das minhas juntas e, com ele, a névoa que encobria a minha memória. Por muito tempo, permiti que os meus filhos me tratassem como uma velha caduca, uma coitada que só servia para fazer bolo de fubá, coser botões e emprestar o nome limpo para financiar as loucuras deles. Criaram uma narrativa onde eu era a figura frágil e eles eram os donos do mundo. E de tanto ouvir isso, quase acreditei.
Mas encostada ao banco daquela carrinha, lembrei-me de quem eu era. Sou a Ivete, filha de pedreiro com lavadeira. Comecei a trabalhar aos catorze anos. Fui telefonista da Telepar por mais de três décadas.
Eles não sabem o que é passar doze horas sentada num banquinho de madeira com um fone de ferro a esmagar as orelhas, a operar painéis cheios de cabos elétricos grossos para conectar chamadas interurbanas. Não sabem o que é o choque de uma linha cruzada, o stress de chefes a gritar no cangote, a necessidade de ter memória de elefante para decorar centenas de ramais, códigos de área e protocolos. Eu não fui uma mulher fraca. Fui o pilar de ferro fundido daquela família.
Quando o meu marido, que Deus o tenha, infartou e morreu, deixando três crianças pequenas e um carnê de prestações atrasadas, eu não me sentei na calçada para chorar. Dobrei os meus turnos. Vendia cosméticos de revistinha na hora do almoço. Dormia quatro horas por noite.
Lembrei-me da minha modesta casa no Boqueirão. No fundo do corredor, no meu quarto, tenho uma cristaleira antiga, daquelas com vidro bisotado, que herdei da minha mãe. Dentro dela, na prateleira de baixo, atrás da coleção de dedais de porcelana, fica uma pasta sanfonada de plástico azul. É lá que guardo o meu maior troféu, que os meus filhos acham que é apenas um pedaço de papel velho.
A escritura original do apartamento do Água Verde. Eles moram lá há quatro anos e, com o tempo, começaram a referir-se ao lugar como o nosso apartamento. O Marcos diz: vou pintar a minha varanda. A Priscila diz: o síndico do meu prédio é um chato.
O Leandro diz: a minha internet de fibra ótica. Apagaram a dona da história. Acham que, porque não pagam aluguel, o espaço lhes pertence por direito divino. Mas a memória daquela compra é viva na minha mente.
Lembro-me do dia em que fui ao cartório. Vesti a minha melhor saia plissada. Lembro-me do peso da caneta dourada do tabelião. Lembro-me do valor exato.
Pago com o suor de uma vida inteira. O IPTU anual, que custa mais de três mil reais, pago à vista todos os meses de fevereiro com as minhas economias, porque eles dizem que o condomínio já está caro demais para racharem. A taxa de condomínio, a luz, a água, a internet, tudo, absolutamente tudo, está no meu CPF. Eu sou a dona perante a lei, perante Deus e perante o suor do meu rosto.
E eles, na sua arrogância de adultos mimados, esqueceram o detalhe mais importante. Quem tem a chave do castelo é quem manda no reino. Enquanto a carrinha cruzava a Avenida República Argentina, comecei a mapear os meus alvos. Uma mãe conhece os filhos melhor do que a si mesma.
Eu sabia exatamente onde batia o pulso fraco de cada um deles. O Marcos, 42 anos, gerente de concessionária. Anda num SUV importado do ano, veste fato por medida, usa relógio que custa o preço de um carro popular. Mas eu sei a verdade que ele esconde dos amigos do clube.
O carro é da empresa. Os fatos estão divididos em doze vezes no cartão de crédito da namorada, porque o nome dele está sujo no SPC. Ganha bem, mas gasta o dobro com festas, viagens e aparências. O único luxo real que tem para ostentar e atrair as mulheres que engana é aquele apartamento de alto padrão.
Se não morar lá, não é ninguém. A Priscila, 38 anos. A princesa que nunca quis sujar as mãos. Trabalhou alguns meses como rececionista, mas achou indigno.
Hoje diz que é consultora de estilo. A vida dela resume-se a tirar fotos na varanda envidraçada do apartamento, com vista para a praça, a fingir que é uma herdeira da alta sociedade curitibana. O apartamento do Água Verde é o palco do teatro da vida dela. Sem aquele cenário, a peça acaba.
E o Leandro, o meu mais novo, 32 anos, aquele que me mandou pegar num táxi e desenrascar-me porque eu estava a atrapalhar o joguinho dele. O Leandro tem pavor do mundo real. Fobia de responsabilidade. Vive trancado no quarto que era para ser o escritório, cercado por ecrãs que piscam, cadeiras ergonómicas e fones de ouvido caros.
A vida dele depende daquela tomada, daquela internet de alta velocidade que eu pago rigorosamente no dia dez de cada mês, e daquela geladeira duplex de inox, sempre cheia das compras que os irmãos fazem. Ele é um carrapato agarrado às costas de um cão gordo. Se eu tirar o cão, ele morre de inanição. Eles não me respeitavam porque eu nunca cobrei respeito com juros.
Fui a mãe que perdoava os atrasos, que aceitava as desculpas esfarrapadas para não a visitarem no Dia das Mães, que engolia em seco quando tinham vergonha de me levar aos restaurantes chiques onde iam, porque as minhas roupas cheiravam a naftalina e eu não sabia pronunciar os nomes dos pratos no cardápio. Olhei para as minhas mãos, a descansar no colo. Unhas curtas, sem esmalte, manchas da idade espalhadas pelo dorso, veias saltadas como rios azuis num mapa antigo. Essas mãos construíram o pedestal onde eles estavam a pisar.
E essas mesmas mãos iam puxar o tapete. Dona Ivete, chegámos ao bairro. A voz do Osvaldo tirou-me do transe. É aquele ali na esquina, Osvaldo.
O de pastilhas cor de tijolo, com os vidros escuros nas sacadas. Pode parar a carrinha mesmo em frente ao portão de serviço. O Osvaldo manobrou e parou rente à calçada larga, debaixo da sombra de uma árvore enorme que pingava água. O relógio no painel marcava 6h40.
O sol tentava, sem muito sucesso, furar a barreira de nuvens cinzentas, deixando o dia com aquela claridade pálida e melancólica, típica de Curitiba no inverno. Bom, dona Ivete. O Osvaldo desligou o motor, puxou o travão de mão e virou-se para me encarar, de braços cruzados. Estou com a minha mala aqui.
Trouxe quatro cilindros de segurança máxima. Daqueles em que a chave é cheia de furinhos, sabe? Ninguém faz cópia sem o cartão de autorização. Mas a senhora tem de me explicar como vamos fazer isto.
Os seus filhos estão lá dentro a dormir. Se eu começar a desmontar a fechadura da porta principal, o barulho vai acordar o prédio inteiro. Dei um sorriso contido, a apertar os lábios. A inocência do Osvaldo era tocante.
Ele achava que a minha vingança seria um escândalo. Que eu ia entrar a partir pratos, a gritar, a fazer barraco de novela. Quem faz muito barulho não tem estratégia. O lobo não uiva antes de dar o bote.
Pisa macio na folha seca. Não vamos usar furadeira nenhuma agora, Osvaldo. Respondi, a abrir a minha bolsa preta e a tirar o molho de chaves pesadas. Tenho as chaves originais de todas as portas.
Vamos fazer tudo no silêncio, como um sopro. Apontei para a guarita de vidro escuro na entrada do prédio. A primeira coisa que tenho a meu favor é o porteiro. O turno da noite e do início da manhã é do seu Sebastião.
E ele vai deixar a gente subir com caixa de ferramentas e tudo a esta hora? As regras do condomínio não permitem serviços antes das oito da manhã. O seu Sebastião não segue regras de condomínio quando se trata de mim. Arranjei a gola do casaco húmido.
Há seis anos, a neta dele precisou de uma cirurgia de emergência no hospital. Ele estava desesperado, sem dinheiro para pagar as passagens de ônibus da família que vinha do interior para doar sangue. Peguei um empréstimo no meu nome e dei o dinheiro na mão dele. Ele nunca esqueceu.
Chama-me madrinha. Sabe que o apartamento é meu. Odeia os meus filhos porque o Marcos o destrata toda a vez que chega de madrugada, e a Priscila nem o olha na cara quando passa pelo hall. O Sebastião vai dar-nos passe livre.
Vai desligar até a câmera do andar, se eu pedir. O Osvaldo arregalou os olhos atrás das lentes grossas. Começou a entender que não estava a lidar com uma velhinha assustada que perdeu a chave de casa. Estava a ser contratado por uma general prestes a retomar o seu quartel.
Está certo, dona Ivete. Estou a entender. E depois de subirmos? Depois de subirmos, meu filho, o serviço é cirúrgico.
O apartamento tem duas entradas. A porta social, que dá para a sala de estar, e a porta de serviço, que dá diretamente para a lavanderia e a cozinha. Eles têm o sono pesado. O Marcos bebe meia garrafa de vinho para adormecer.
A Priscila toma aqueles remédios de tarja preta que deixam a pessoa a babar no travesseiro. E o Leandro joga com um fone de ouvido tão grande que parece um capacete de astronauta. Pode cair um avião ao lado dele que ele não ouve. Bati o dedo indicador no painel do carro, a desenhar o meu plano invisível.
Vou abrir a porta de serviço bem devagarinho. Você entra comigo, só com a mala de mão, e vamos direto para a porta social por dentro. Troca o cilindro da porta principal ali mesmo, no escuro do hall de entrada, pelo lado de dentro. É só desaparafusar e colocar o novo.
Sem furadeira. Se não precisar de adaptar o buraco, é só tirar dois parafusos longos, puxar o cilindro velho, meter o novo e apertar. Faço isso em cinco minutos, com uma chave Philips e um pouco de óleo de máquina, sem fazer um pio. Perfeito.
Depois de trocar a da porta social e me entregar as chaves novas, faz o mesmo na porta de serviço. Troca o cilindro. Enquanto faz isso, eu vou preparar o terreno. Preparar o terreno, dona Ivete?
A senhora vai fazer o quê? Vou garantir que quando eles forem acordados para serem expulsos, não tenham para onde correr, não tenham a quem ligar, e entendam de uma vez por todas que o poço secou, a fonte secou, a vaca foi para o brejo. Peguei na minha bolsa de couro sintético, que de repente parecia muito mais leve nos meus ombros. Não era mais a bolsa de uma aposentada cansada.
Era o meu arquivo. O meu cofre. A minha pasta de documentos oficiais. Ali dentro estava o meu RG, a minha dignidade recuperada e o meu instinto de sobrevivência, que ficou adormecido por mais de quatro décadas.
O vento frio soprou contra o vidro da carrinha, mas eu já não sentia frio nenhum. O fogo da justiça divina e terrena ardia no meu peito, a aquecer o meu sangue, a devolver-me a postura reta que os anos de trabalho pesado tinham tentado entortar. Eles acharam que podiam deixar-me abandonada numa calçada sob a chuva de Curitiba, como se eu fosse um saco de lixo que o caminhão esqueceu de recolher. Acharam que a mãe era um ser humano sem limite de estoque para a humilhação.
Abri a porta da carrinha. O cheiro de terra molhada e asfalto húmido invadiu as minhas narinas. Olhei para a fachada imponente do edifício das Araucárias, com os vidros a refletir o céu nublado. Pega nas tuas ferramentas, Osvaldo.
Disse, a pisar firme na calçada molhada, a sentir a água sujar a ponta do sapato, sem me importar. O leilão acabou. E a dona chegou para recolher as chaves. O seu Sebastião estava com a farda cinzenta do condomínio impecavelmente passada, a segurar uma garrafa térmica de café junto ao peito, quando parei em frente à vidraça da guarita.
A chuva ainda respingava nas minhas costas, mas mantive-me ereta. Bati no vidro com os nós dos dedos. Ele deu um pulo na cadeira giratória, quase derrubando o copo de plástico. Quando os seus olhos cansados me reconheceram através do vidro escuro, a porta de alumínio destravou num estalo rápido.
Dona Ivete do céu, a senhora por aqui num dilúvio destes e a esta hora da madrugada? Disse ele, a puxar a porta para eu entrar na guarita quentinha. O cheiro de café forte e sabão de coco abraçou-me. Sebastião, meu querido, não tenho muito tempo para explicar.
Falei com a voz firme, a cortar a gentileza. Preciso de subir ao apartamento. O Osvaldo, o chaveiro, está comigo. Vamos trocar as fechaduras.
Ele olhou para a carrinha parada na rua, depois para mim. O Sebastião é um homem vivido, nordestino, de fala mansa. Não precisou de mais do que três segundos a olhar nos meus olhos para entender que o poço da minha paciência tinha secado. Ele sabia como os meus filhos me tratavam.
Via o Marcos chegar embriagado com o carro da empresa, a destratar os funcionários. Via a Priscila passar reto pela portaria, sem dar um bom dia. Sabe quando a gente cria cobra e ainda dá leite na mamadeira? O Sebastião sabia.
Estão a dormir, dona Ivete. O senhor Marcos chegou depois das três da manhã, a fazer ziguezague na garagem. Sussurrou ele, a baixar o tom de voz, como se estivéssemos numa conspiração. Melhor ainda, Sebastião.
Podes desligar as câmeras do décimo andar por meia hora? Não quero registo do Osvaldo a trabalhar no corredor. E se alguém do prédio reclamar de algum barulho, diz que é manutenção do elevador. Ele deu um sorriso de canto de boca.
Aquele sorriso de quem espera por justiça há muito tempo. Para a senhora, dona Ivete, desligo até a luz do prédio, se precisar. Pode subir pelo elevador de serviço. A câmera do corredor já está cega.
Quem pariu o Mateus que o embale, não é? Agradeci com um aceno de cabeça e fiz sinal ao Osvaldo para descer da carrinha. Caminhámos pela garagem escura do subsolo. O silêncio do prédio de luxo era pesado.
O chão de cimento queimado brilhava com as poças de água que os carros importados deixavam. Quando entrámos no elevador de serviço, de paredes de inox riscadas, olhei para o meu reflexo. Estava ensopada. O cabelo branco, que eu sempre mantinha com laquê, estava colado à testa.
O casaco de lã cheirava a cão molhado. Mas por baixo daquela figura de velha castigada, os meus olhos brilhavam como duas brasas. Chegámos ao décimo andar. O corredor de serviço era estreito e pintado de branco hospitalar.
Fui até à porta dos fundos, puxei a minha chave tetra, inseri na fechadura e girei. O mecanismo estalou suavemente. A porta abriu-se. A primeira coisa que me bateu no rosto foi o ar quente do aquecimento central.
Os meus filhos viviam num oásis tropical enquanto a mãe congelava no ponto de ônibus. O segundo baque foi o cheiro. Um misto de perfume caro, aromatizador de ambiente de lavanda e lixo acumulado. Entrámos na lavanderia na ponta dos pés.
O Osvaldo abriu a mala de ferramentas no chão de porcelanato com a delicadeza de um cirurgião. Tirou uma chave de fendas e um frasco de óleo de máquina. Vou começar pela porta social. Lá na frente, dona Ivete.
Sussurrou, a apontar para o corredor que cruzava o apartamento. Depois volto para cá e faço essa. Fiz que sim com a cabeça. Enquanto o Osvaldo deslizava silenciosamente pelo apartamento, comecei a minha própria inspeção.
A execução silenciosa da minha revolta. A cozinha era de revista. Armários planejados pretos, bancadas de mármore branco, uma geladeira duplex de inox que custava o preço de um carro popular. Mas a pia estava abarrotada de pratos sujos com restos de comida importada, taças de cristal manchadas de vinho e embalagens de aplicativos de entrega.
No canto da bancada, debaixo de uma máquina de café expresso chiquérrima, o meu coração deu um solavanco. Lá estava ela. A minha panela de ferro fundido. Uma panela que foi da minha mãe, preta, pesada, com o cabo um pouco torto.
Emprestei-a ao Marcos há dois anos, quando ele decidiu que ia aprender a fazer risoto caipira para impressionar uma namorada. Ele nunca a devolveu. E ali estava a herança da minha família, jogada num canto, enferrujada nas bordas, a ser usada como apoio para aparar os pingos de café que vazavam da máquina chique dele. Peguei na panela de ferro pelas pegas, a sentir a textura grossa do metal.
Limpei o fundo com um pano de prato sujo que estava ali e coloquei-a com cuidado dentro da minha sacola de pano, que levava dobrada na bolsa. A panela voltaria para o Boqueirão. O que é do homem, o bicho não come. E o que é da Ivete, os filhos ingratos não usam mais.
Caminhei pelo corredor principal. O piso de madeira maciça rangia de leve, mas eu conhecia cada milímetro daquele apartamento. Sabia onde pisar para não fazer barulho. Afinal, fui eu que assinei o cheque de cada tábua daquele chão.
No aparador de vidro do hall de entrada havia uma tigela de prata. Era ali que eles atiravam as chaves quando chegavam da rua. Aproximei-me como um fantasma. Dentro da tigela repousavam as três cópias das chaves do apartamento.
As do Marcos, com um porta-chaves de couro de marca de carro. As da Priscila, penduradas num pompom rosa de pelúcia encardido. As do Leandro, num porta-chaves de borracha de videojogo. Peguei nas três.
O metal tilintou de leve. Guardei todas no fundo da minha bolsa preta. Eles podiam até acordar, mas daquela porta para fora não teriam mais autonomia nenhuma. Eram prisioneiros no castelo da mãe.
Ouvi o som suave do Osvaldo a girar a chave de fendas na porta social, a poucos metros de mim. Trabalhava rápido, a desaparafusar o cilindro velho. Estava quase a terminar a primeira fase. Continuei a minha ronda.
Parei em frente à porta entreaberta do Leandro. O quarto estava escuro, iluminado apenas pelas luzes piscantes de verde e roxo que saíam do computador dele, que parecia uma nave espacial. O ar condicionado estava no máximo, a congelar o ambiente. O Leandro estava esparramado na cama de casal desfeita, de boca aberta, a ressonar.
Ainda usava aquele fone de ouvido gigantesco, a dormir com o pescoço torto. Fiquei a olhar para ele. 32 anos. Aquele era o menino que eu levava ao colo de madrugada para o postinho de saúde quando a asma atacava.
O menino para quem eu comprava gelado às escondidas para não dividir com os irmãos. O homem que, há duas horas, me mandara pegar num táxi e desenrascar-me, porque eu estava a atrapalhar o joguinho dele. No canto do quarto, perto da porta, piscavam as luzinhas verdes do router de internet. O cordão umbilical do Leandro com o mundo.
A conta de fibra ótica de alta velocidade que vinha cobrada no meu cartão de crédito todo dia dez. Agachei-me devagar. As juntas dos joelhos estalaram, mas suportei a dor. Segurei o cabo de energia do router e o cabo amarelo da fibra ótica.
Com um movimento firme e silencioso, puxei os dois da tomada. As luzes verdes apagaram instantaneamente. O computador na mesa deu um bip e o ecrã secundário desligou por falta de rede. Enrolei os cabos na mão e coloquei-os na minha bolsa, junto com as chaves.
O menino da internet agora estava isolado no escuro. Fui até ao quadro elétrico no corredor e desliguei o disjuntor específico do quarto dele, cortando o ar condicionado. Aos poucos, ia começar a suar. Segui para o quarto da Priscila.
A porta estava escancarada. O cheiro de creme caro era nauseante. Ela dormia atravessada na cama, a usar uma máscara de seda nos olhos para bloquear a claridade. O quarto parecia o estoque de uma loja de departamentos que foi saqueada.
Roupas atiradas pelas poltronas, dezenas de pares de sapatos espalhados pelo chão. Na penteadeira dela, iluminada por um espelho cheio de lâmpadas, vi uma cena que fez o meu estômago revirar. A minha antiga lata de biscoito amanteigado. Aquela lata de metal redonda, azul, com desenhos de flores, que toda mãe brasileira transforma em caixa de costura.
Tinha deixado aquela lata ali no ano passado, quando vim fazer a bainha de um vestido de festa que ela comprou, porque dizia que a costureira cobrava caro demais. A lata ficou. Agora a tampa estava atirada ao chão e, dentro da minha lata de costura, onde eu guardava as minhas linhas de pesponto e as minhas agulhas de mão, a Priscila tinha enfiado dezenas de pincéis de maquiagem sujos de base, esponjas imundas e lápis de olho quebrados. Aquilo era um retrato perfeito de como eles me viam.
Eu era a lata velha que servia de lixo para as vaidades deles. Peguei na lata, tirei todos os pincéis nojentos de dentro e atirei-os direto para o cesto de lixo do quarto dela. Limpei o interior com um lenço umedecido que estava na mesa. Coloquei a tampa.
Ajeitei a lata debaixo do braço. Mais uma herança recuperada. Antes de sair do quarto, peguei nos três frascos de perfume importado mais cheios que ela tinha na prateleira e enrosquei as tampas até ao fim. Levei-os comigo e escondi-os dentro do armário dos produtos de limpeza da lavanderia.
Ela ia achar que estava louca, a procurar pequenas sabotagens de uma velha que cansou de ser invisível. Faltava um. O Marcos. A porta da suíte principal estava fechada, mas não precisava de chave para abrir a porta que eu própria paguei.
Girei o puxador devagar. O quarto cheirava a suor masculino e álcool. O Marcos ressonava tão alto que as janelas pareciam vibrar. Na mesa de cabeceira, uma garrafa vazia de vinho e uma taça com marcas de dedos.
O fato risca de giz estava atirado ao chão, amarrotado. Pisei por cima da roupa de marca. Na mesinha de cabeceira, ao lado do celular de última geração dele, estavam as chaves do carro. O famoso SUV da empresa que ele usava para fingir que era o dono de Curitiba.
Peguei no molho de chaves. Não ia roubar o carro dele. Não sou criminosa. Mas tirei a tag magnética redonda que abria o portão da garagem do prédio.
Sem aquela tag pequena, o portão da rua não abria nem para entrar nem para sair. Atirei a tag para a minha bolsa. O todo-poderoso gerente ia ter de sair a pé na chuva. Voltei para o corredor.
O Osvaldo estava parado na porta da cozinha, a limpar as mãos numa estopa suja de graxa. Tinha um sorriso satisfeito no rosto. O serviço está feito, dona Ivete. Murmurou bem baixinho, a entregar-me dois conjuntos de chaves novinhos em folha, dourados e brilhantes.
Troquei a da sala e a de serviço. O cilindro é de segurança máxima, como falei. Ninguém abre isto sem estas chaves que estão na sua mão. As chaves antigas deles agora não servem nem para palito.
Peguei nas chaves novas. O metal estava frio, mas esquentou na minha palma. Senti como se estivesse a segurar a coroa do meu próprio reinado de volta. Quanto te devo, Osvaldo?
Perguntei, a abrir o fecho lateral da minha bolsa e a puxar a carteira velha. A senhora não me deve nada hoje, dona Ivete. A senhora salvou o emprego da minha mãe na Telepar quando o chefe dela queria pô-la na rua por causa de uma falta. Este serviço é por conta da casa.
E, pelo visto, a senhora tem muita coisa para resolver por aqui. Dei-lhe um sorriso triste. Puxei duas notas de cem e uma de cinquenta da carteira e enfiei-as no bolso da camisa dele, antes que pudesse recusar. Farinha pouca, meu pirão primeiro, Osvaldo.
Eu cobro as minhas dívidas, mas também pago as minhas. Leva esse dinheiro, compra uma carne boa para o almoço da tua família e sai bem devagarinho. Deixa que a porta de serviço eu tranco por dentro. Ele assentiu, pegou na mala pesada e saiu para o corredor do elevador.
Fechei a porta de serviço atrás dele. Coloquei a chave nova na fechadura e dei duas voltas pesadas e sonoras. Claque, claque. Eu estava trancada dentro do meu apartamento com os três traidores.
Eles não podiam sair e, se saíssem, nunca mais voltariam a entrar. A armadilha estava armada. As presas estavam a dormir. Fui até à sala de estar ampla.
O sol finalmente começava a vencer as nuvens pesadas de Curitiba, a iluminar a varanda envidraçada e a lançar uma luz cinzenta e fria sobre os móveis caros. O meu casaco de lã ainda pingava. As pontas do cabelo estavam molhadas. As calças estavam encharcadas de água da rua.
Olhei para o sofá branco de couro italiano do Marcos. Ele vivia a gritar com a empregada se caísse uma migalha de pão naquele sofá. Não deixava nem eu sentar ali com a minha roupa de ir à feira, quando vinha visitá-los. Caminhei até ao centro da sala, olhei para a brancura imaculada daquele couro chique.
Virei-me de costas, soltei o peso do corpo e sentei. Afundei no sofá molhado, a sentir a água suja da chuva de Curitiba a transferir-se das minhas calças diretamente para o couro branco, a deixar uma mancha escura e húmida que arruinaria a peça para sempre. Abri a minha pasta sanfonada azul no colo. Tirei o carnê do IPTU pago, a conta de luz no meu nome, as faturas do condomínio e, no topo de tudo, a escritura pública do imóvel com o nome Ivete, sublinhado em letras de forma.
Espalhei os documentos na mesa de centro de vidro temperado, como um jogador de cartas a espalhar um royal flush na mesa do casino. O silêncio do apartamento era ensurdecedor. Apenas o som constante da garoa a bater no vidro da varanda me fazia companhia. O relógio digital do micro-ondas, lá no fundo da cozinha, marcava 7h45 da manhã.
Cruzei as mãos no colo, fechei os olhos por um segundo e respirei fundo. O ar já não cheirava a lixo e aromatizador barato. Cheirava a justiça iminente. O café estava frio, a armadilha estava armada, os recursos estavam cortados.
E o dia do juízo final tinha acabado de amanhecer no Água Verde. O silêncio na sala era quebrado apenas pelo barulho contínuo da chuva a chicotear os vidros da varanda. Sentei ali imóvel, a sentir a água gelada das minhas calças de lã a ensopar lentamente o assento do sofá de couro italiano branco do Marcos. O relógio digital da cozinha marcava 8h40.
O frio já não me castigava, pois uma fornalha invisível ardia dentro do meu peito. Eu estava pronta. O primeiro sinal de vida veio do corredor dos fundos. Ouvi o ranger da porta do quarto do Leandro.
Passos arrastados e pesados começaram a aproximar-se. Ele apareceu no arco da sala, vestido apenas com uma cueca amarrotada e uma camiseta preta de banda. Estava suado, a coçar a barriga, com os olhos miúdos e remelentos, a tentar habituar-se à claridade pálida que vinha da janela. Ô, Marcos, esqueceste-te de apagar a luz, pá.
O ar condicionado parou e a internet caiu do nada no meio da… Parou de falar no momento em que virou o rosto e me viu. O Leandro piscou duas vezes, como se eu fosse uma alucinação causada pela falta de sono. Olhou para o meu cabelo colado à testa, para o meu casaco a pingar água no tapete felpudo e, por fim, para as minhas mãos a repousar sobre os cabos do router que eu segurava no colo.
Mãe! A voz dele saiu fina, esganiçada. O que é que a senhora está aqui a fazer? Como é que a senhora entrou?
Meu Deus do céu, a senhora está encharcada em cima do sofá do Marcos. Ele vai surtar. E por que é que a senhora está com os cabos da minha internet na mão? Eu não movi um músculo.
Não alterei a expressão. Apenas sustentei o olhar nos olhos assustados do meu mais novo. Aquele olhar submisso e culpado de mãe que eu carreguei por 32 anos tinha morrido na rodoviária. Antes que eu pudesse responder, um grito estridente cortou o ar vindo do quarto da Priscila.
Quem foi o desgraçado que mexeu nas minhas coisas? A voz dela ecoou pelo corredor, carregada de histeria. Segundos depois, ela marchou para a sala, a bater os pés descalços no piso de madeira. Vestia um pijama de seda rosa que custava o equivalente a três meses da minha aposentadoria.
A Priscila vinha furiosa, a segurar a minha lata de biscoitos vazia numa mão. Leandro, foste tu que atiraste os meus pincéis de maquiagem importados para o lixo do banheiro? Vou matar-te, seu inútil. Esbravejava, até que os olhos dela bateram na cena da sala de estar.
A expressão de fúria derreteu e transformou-se em choque absoluto. Ela ofegou, a cobrir a boca com a mão livre. Mãe, ficaste maluca? Olha o estado em que estás.
Estás a arruinar o sofá. Sabes quanto custa mandar higienizar esse couro? Levanta daí agora. E que palhaçada é essa com a minha maquiagem?
O tom dela era de repulsa. A mesma repulsa que eu vira no telefone horas antes, quando disse que estava tonta de sono enquanto eu congelava na rua. Ela não perguntou se eu estava bem. Não perguntou como eu tinha chegado.
A preocupação dela era com o sofá do irmão e com a vaidade no lixo. A comoção na sala foi suficiente para acordar o imperador. A porta da suíte principal abriu-se com um tranco. O Marcos apareceu no corredor, a vestir a calça de um fato escuro e a abotoar uma camisa social branca, com o rosto amarrotado de sono e a cheirar a álcool da noite anterior.
Mas que inferno de gritaria é esta na minha casa a esta hora? Vociferou, a esfregar o rosto. Tenho reunião de diretoria às dez horas e a tag desapareceu da minha mesa. Alguém viu a porcaria da chave do…
Travou no meio da sala. O cérebro dele levou alguns segundos a processar a imagem da mãe idosa, molhada, sentada no trono branco da sala, cercada pelos irmãos de boca aberta. O rosto do Marcos ficou vermelho. A veia do pescoço saltou.
Ele sempre tivera o pavio curto, uma arrogância que achava que era liderança, mas que era apenas pura falta de educação. Ivete! Gritou, esquecendo até de me chamar de mãe. O que significa isto?
Perdeste o resto do juízo que tinhas? Que merda estás a fazer sentada e molhada no meu sofá de couro? Não te disse ao telefone para te desenrascares e pegares num táxi para o teu bairro? Como é que entraste aqui?
Levanta daí agora, antes que eu chame o síndico e te mande tirar daqui à força. Foi nesse exato momento, diante das ameaças do meu primogénito, diante da indignação nojenta da minha filha do meio e da cara de tonto do meu mais novo, que a catarse aconteceu. Apoiei as duas mãos nos joelhos doridos e levantei-me devagar. O som do meu casaco molhado a descolar-se do couro branco foi alto.
Uma mancha escura, lamacenta e definitiva, tinha-se formado no assento impecável. O Marcos deu um passo à frente, com os punhos cerrados, como se fosse puxar-me pelo braço. Ergui a mão direita. Um gesto simples, mas carregado com a força de 42 anos de suor.
A mesma mão que lavou as cuecas sujas dele, que preparou a mamadeira, que assinou os boletins escolares. Abaixa o tom de voz e dá um passo para trás, Marcos. A minha voz não tremeu. Era a voz firme e cortante de uma telefonista que passou décadas a controlar o caos de milhares de linhas cruzadas.
Não vais chamar síndico nenhum, porque o síndico sabe muito bem quem é a dona deste chão onde estás a pisar. O Marcos soltou uma risada nasal cheia de escárnio, de braços cruzados. Dona, estás a divagar da cabeça. A velhice bateu forte, hein?
Este apartamento é nosso. Nós moramos aqui. Tu moras naquele buraco no Boqueirão. Estás a invadir a nossa casa.
Não respondi de imediato. Abaixei o olhar para a mesa de centro de vidro temperado, onde a pasta sanfonada azul estava aberta. Apontei o dedo indicador trémulo para os papéis espalhados. Lê.
Ordenei. Não vou ler porcaria nenhuma. Quero-te fora da… Lê, Marcos.
A minha voz estalou como um chicote na sala, fazendo a Priscila dar um pulo no lugar e o Leandro encolher os ombros. O Marcos piscou, surpreendido com o meu grito. Ele nunca me tinha ouvido gritar daquele jeito. A contragosto, curvou-se sobre a mesa de centro.
Os olhos dele percorreram o primeiro documento. A escritura pública lavrada em cartório. O selo dourado brilhava sob a luz cinzenta da manhã. O nome Ivete estava sublinhado.
Franziu a testa e olhou para o papel seguinte: o carnê do IPTU daquele ano, pago à vista. Nome do contribuinte: Ivete. Puxou a fatura de energia e a taxa de condomínio. Tudo com o meu nome.
Tudo pago com o dinheiro da minha conta bancária. O rosto do meu filho mais velho começou a perder a cor. A arrogância escorreu pelas bochechas dele, substituída por um pânico silencioso. A memória de vocês é muito curta.
Comecei a falar, a caminhar lentamente pela sala, a deixar um rasto de gotas de chuva no piso de madeira caro. Acostumaram-se tanto a brincar de casinha no bairro nobre que esqueceram quem construiu o teto. Eu comprei este apartamento com o dinheiro do meu trabalho e com a herança dos meus pais. Coloquei-vos aqui dentro para que pudessem economizar e construir a vida de vocês.
Parei em frente à Priscila, que apertava a lata de biscoitos contra o peito. Passei os últimos quatro anos a viver numa casa com goteiras, a contar moedas na feira do bairro para comprar remédio de pressão, enquanto vocês três viviam como marajás. E em troca, eu não pedia aluguel. Só pedia um pingo de consideração.
Meti a mão dentro da minha bolsa preta molhada. O som do metal a tilintar fez os três prenderem a respiração. Puxei o molho de chaves antigas deles. As do Marcos, da Priscila e do Leandro.
Esta madrugada, eu estava no meio de uma tempestade na rodoviária. Liguei a pedir socorro às três pessoas que pus no mundo. As três pessoas pelas quais vendi as minhas férias, dobrei turnos na Telepar e furei os dedos a coser. Olhei para o Leandro, que agora tremia de frio e de choque.
Tu, Leandro, disseste-me que eu estava a atrapalhar o teu joguinho. Mandaste-me desenrascar e pegar num táxi. Cortaste-me a chamada na cara. Voltei os olhos para a Priscila.
Tu, Priscila, reclamaste que eu estava a atrapalhar o teu remédio para dormir e desligaste. Por fim, encarei o Marcos, que ainda segurava a minha conta de luz, com as mãos visivelmente a tremer. E tu, Marcos, o grande gerente de sucesso que anda no carro da empresa porque tem o nome sujo no SPC, nem te deste ao trabalho de atender a mãe, porque a cama estava quente demais. Atirei as chaves velhas dele para cima da mesa de vidro.
O barulho do metal a bater pareceu um tiro dentro do apartamento. Vocês mandaram-me desenrascar. E eu desenrasquei-me. Tirei do bolso do casaco as duas chaves douradas novinhas, de formato de segurança máxima, e ergui-as à altura dos meus olhos.
O Osvaldo, o chaveiro, acabou de sair daqui. As fechaduras da porta social e da porta de serviço foram trocadas há vinte minutos. Vocês não têm mais a chave da minha casa. E não adianta tentar abrir, porque a chave antiga de vocês agora não serve nem para enfeite.
Estão trancados por dentro. O quê? O Marcos deu um passo para trás, a esbarrar na poltrona. Não podes fazer isto.
Isto é ilegal. Nós temos direitos. Temos posse. Posse?
Dei uma risada amarga, a abanar a cabeça. Vai estudar as leis, meu filho. Vocês moram aqui de graça, por mera tolerância minha. Um comodato verbal que eu acabo de revogar.
A dona sou eu. As contas estão no meu nome. E eu quero o meu imóvel de volta. Hoje.
A Priscila começou a chorar, um choro feio, a borrar o resto de maquiagem que ainda tinha no rosto. Mãe, pelo amor de Deus, para com isto. A gente estava com sono. Foi só um mal-entendido.
Para onde é que eu vou levar as minhas roupas? Os meus sapatos? Eu não tenho dinheiro guardado. O problema das tuas roupas é teu, Priscila.
Desenrasca-te. Podes morar dentro de uma das tuas bolsas de marca. E quanto aos teus pincéis de maquiagem sujos que enfiaste na minha lata de costura, eu já fiz o favor de os deitar para o lixo do teu banheiro. A lata volta comigo para o Boqueirão.
A panela de ferro da minha mãe, que o Marcos deixou enferrujar na cozinha, também. O Leandro deu um passo à frente, a juntar as mãos como se fosse rezar. Mãe, desculpa. Fui parvo.
Desculpa, mas liga a internet de volta, por favor. Tenho um torneio classificado agora de manhã. A minha equipa está à minha espera. O nível de desconexão com a realidade deu-me náuseas.
Ele estava a ser despejado e a preocupação era o videojogo. Tirei os fios amarelos do router de dentro da bolsa e deixei-os cair no chão aos pés dele. O teu router desligou porque eu desliguei o disjuntor do teu quarto. E vou cancelar a conta da fibra ótica hoje à tarde.
Acabou a mamata, Leandro. Vai arranjar um emprego a sério. O Marcos passava a mão pelos cabelos ralos, a andar em círculos pela sala. A pose de homem de negócios tinha desaparecido.
Era apenas um menino mimado e encurralado, a ver o castelo de cartas a desabar. Estás a destruir as nossas vidas por causa de uma chuva, Ivete? Gritou, a apontar o dedo na minha cara. És uma egoísta, uma velha rancorosa.
Eu tenho de trabalhar. Tenho de sair com o carro agora. Abri a bolsa mais uma vez e puxei a tag magnética redonda da garagem, a balançá-la presa pelo cordão. Estás à procura disto, Marcos?
Sem isto, o portão da rua não abre. Vais ter de sair a pé. Ou melhor, porque é que não chamas um táxi pelo aplicativo? É rapidinho.
Desenrasca-te, meu filho. O feitiço virou-se contra o feiticeiro. Caminhei até à porta social, coloquei a chave nova na fechadura, destranquei e abri a porta de madeira pesada, a deixar o vento frio do corredor do prédio invadir a sala. O seu Sebastião já devia estar lá em baixo, a acompanhar tudo pelas câmeras que ele fingiu que não estavam a funcionar.
Parei no batente da porta e virei-me, a encarar os três adultos paralisados no meio da sala de luxo. Prestem muita atenção, porque eu só vou dizer uma vez. A minha voz baixou de tom, a tornar-se uma lâmina fria e inegociável. Agora são quase nove da manhã.
Vocês têm exatamente até às seis da tarde de hoje para fazerem as malas. Peguem nas vossas roupas, nos vossos sapatos, nos vossos computadores e saiam do meu apartamento. O que ficar para trás depois das seis da tarde, amanhã de manhã, eu chamo o caminhão do Exército de Salvação para recolher como doação. Não vais ter coragem.
A Priscila soluçava alto, agarrada ao braço do Marcos. Tenta ver, filha. Tenta. Se às seis e um minuto da tarde estiver alguém dentro deste apartamento, eu chamo a Polícia Militar e denuncio por invasão de domicílio de idoso.
Eu tenho os documentos a provar a propriedade. E a lei está do meu lado. Eles olhavam-me com um terror genuíno, os olhos arregalados, as bocas abertas, os corpos a tremer. Finalmente estavam a ver a mulher que eu realmente era.
Não a velha boba que fazia empadão ao domingo. Mas a mulher que construiu tudo do zero e que, com a mesma força, estava a demolir o pedestal deles. Às seis da tarde, eu volto. Disse, a ajeitar a alça da minha bolsa preta no ombro.
Aproveitem as últimas horas debaixo do meu teto. E lembrem-se de trancar a porta quando saírem. Minto. Não precisam.
Vocês não têm a chave mesmo. Saí para o corredor e puxei a porta de madeira. O estrondo da porta a bater ecoou pelo hall do décimo andar. Girei a chave nova duas vezes por fora.
Naquele instante, o silêncio no apartamento não era mais de sono. Era o silêncio ensurdecedor de três parasitas que acabavam de ser arrancados do seu hospedeiro para sempre. O relógio do painel do táxi marcava dez para as seis da tarde quando o motorista virou a esquina da Rua Silveira Peixoto. A chuva, que tinha castigado Curitiba a madrugada inteira, tinha dado uma trégua, a deixar no ar aquele cheiro de asfalto molhado que todo curitibano conhece de olhos fechados.
Paguei a corrida com notas trocadas, agradeci ao motorista e desci. Olhei para o alto do edifício das Araucárias. As luzes de alguns apartamentos já começavam a acender-se na penumbra do fim de tarde, mas as janelas do décimo andar estavam escuras como breu. Caminhei até à portaria com um passo que eu não usava há anos.
Um passo sem pressa, sem o peso da culpa a entortar a minha coluna. O seu Sebastião estava lá de pé, à porta da guarita, a segurar um pano de chão, como se estivesse a limpar uma sujeira invisível. Mas eu sabia que ele só estava à minha espera. Quando me aproximei, o sorriso no rosto enrugado dele abriu-se de orelha a orelha.
Foram-se embora, dona Ivete? Disse num sussurro conspiratório, os olhos a brilhar de satisfação. Pareciam baratas tontas quando se acende a luz da cozinha. O senhor Marcos desceu com duas malas a arrastar no chão, a xingar até à quinta geração do síndico.
A dona Priscila saiu a chorar, borrada, a pedir um carro de aplicativo com o celular na mão a tremer. E o mais novo desceu com a CPU do computador enrolada num cobertor. Parecia que estava a carregar um bebé recém-nascido. Devolveram as chaves antigas na portaria, mandaram a senhora para o inferno e desapareceram.
Dei uma risada solta, a sentir um alívio tão grande que parecia que tinha tirado uma âncora do pescoço. O inferno deles acabou de começar, Sebastião. E o meu céu, graças a Deus, está a clarear. Fica com as chaves velhas de lembrança.
Subi pelo elevador social desta vez. Nada de entrada de serviço. Eu era a dona. Quando coloquei a chave dourada nova na fechadura e girei, o apartamento recebeu-me com um silêncio sepulcral.
Acendi as luzes do hall. O cenário era de um furacão que tinha passado às pressas. Havia cabides de plástico atirados pelo corredor, caixas de sapatos vazias espalhadas pela sala, gavetas abertas nos quartos. O cheiro de desespero estava impregnado nas paredes.
Fui até ao quarto da Priscila. O armário estava vazio, mas o chão estava coberto de roupas que ela considerou fora de moda e não quis levar. No quarto do Leandro, um cemitério de latas de energético e pacotes de salgadinho vazios. Na suíte do Marcos, o cheiro de loção pós-barba misturado com o azedo do suor de quem teve de fazer as malas a correr.
Voltei para a sala de estar. O sofá de couro branco italiano estava lá, a exibir no assento do meio uma mancha escura, lamacenta e redonda. A marca das minhas calças encharcadas. A marca da minha libertação.
Sentei-me numa poltrona de frente para a varanda envidraçada e vi a noite cair sobre o bairro do Água Verde. Por um momento, o silêncio pesou. A sociedade ensina que a mãe tem de ser o porto seguro eterno, o saco de pancadas que sorri e agradece. Dizem que o amor de mãe é incondicional, mas esquecem de avisar que a paciência tem limite e a dignidade não tem preço.
Quem poupa o lobo sacrifica a ovelha. Eu passei a vida inteira a poupar três lobos criados a leite com pera, enquanto a ovelha velha aqui ficava na chuva. Naquela mesma noite, tomei uma decisão que mudaria o resto da minha velhice. Eu não ia morar naquele apartamento.
Aquele lugar era grande demais, frio demais, e carregava a energia de quatro anos de ingratidão. Eu sou mulher do Boqueirão. Gosto do barulho do ônibus a passar na rua de baixo. Gosto da vizinha a varrer a calçada e a fofocar no portão.
Gosto da padaria da esquina, onde o padeiro sabe que eu prefiro o pão mais branquinho. No dia seguinte, liguei para uma imobiliária de alto padrão. Uma corretora engravatada, cheia de perfumes e sorrisos ensaiados, veio avaliar o imóvel. Quando ela viu os quatro quartos, o piso de madeira maciça e a vista para a praça, os olhos dela brilharam.
Quando eu disse que queria alugar, ela quase deu um pulo. O valor do aluguel de um apartamento daquele porte na região pagaria a minha aposentadoria três vezes por mês, com troco. Em menos de quinze dias, o apartamento estava alugado a um casal de médicos recém-chegados de São Paulo. Assinaram o contrato, depositaram três meses de caução adiantado na minha conta e prometeram cuidar do lugar como se fosse deles.
A primeira coisa que pedi com aquele dinheiro adiantado foi que levassem o sofá branco manchado para um brechó e doassem o dinheiro para a caridade. Eu não queria nenhum rasto daquela vida falsa. O dinheiro do primeiro aluguel caiu na minha conta numa terça-feira ensolarada. Fui ao banco, tirei um extrato e fiquei a olhar para os números impressos no papel amarelo por um bom tempo.
Eu nunca tinha visto tanto dinheiro junto no meu nome desde que comprei o imóvel. A partir daquele dia, a casa húmida do Boqueirão começou a ganhar vida nova. Contratei o seu Zé Carlos, um pedreiro de mão cheia do meu bairro, para arranjar o telhado. Adeus, goteiras na cozinha nos dias de temporal.
Troquei o piso velho por uma cerâmica clara que não esfriava os meus pés. Mandei pintar as paredes de um amarelo suave, a cor do sol que eu passei tantas madrugadas na Telepar a sonhar em ver. Na minha cozinha reformada, em cima do fogão de seis bocas que comprei à vista, coloquei a minha panela de ferro fundido. Tratei-a com óleo e fogo grosso, a tirar toda a ferrugem que o Marcos deixou acumular.
Hoje ela brilha de tão preta, e é nela que eu faço a minha costeleta de porco com canjiquinha aos fins de semana. Na cristaleira antiga da minha mãe, o meu jogo de xícaras Duralex ganhou um lugar de destaque, a reluzir sob a luz da janela. E na mesinha de canto da sala, a minha lata de biscoito azul com estampa de flores voltou a guardar apenas agulhas, linhas de pesponto e botões de madrepérola, longe da sujeira das maquiagens da Priscila. Comprei uma cadeira de vime verde e amarela, daquelas bem confortáveis, e coloquei-a na varanda da frente, ao lado de uma samambaia chorona, gigantesca, que pendurei no caibro do telhado.
É ali que me sento no fim da tarde, com um copo de chá de camomila, a ver o movimento da rua. E os meus filhos? O que aconteceu aos três imperadores destronados? O mundo, minha gente, é um professor impiedoso para quem não quer aprender com a mãe.
A queda deles não foi cinematográfica, mas foi cirúrgica, como a realidade costuma ser. O Marcos, sem o apartamento de luxo para levar as namoradas e sem a pose de rico, teve de alugar uma kitnet minúscula no centro da cidade, em cima de uma lanchonete que frita pastel o dia inteiro. A roupa dele vivia a cheirar a gordura. Com o stress da mudança e a falta de dinheiro para as bebedeiras, começou a chegar atrasado à concessionária e a tratar mal os clientes.
Não demorou três meses para o dono da loja pedir a chave do carro da empresa e pô-lo na rua. Hoje, o meu filho mais velho, o todo-poderoso gerente, trabalha a vender consórcios de moto num stand de shopping. Tem de apanhar o ônibus biarticulado cheio todos os dias às sete da manhã. Dizem que a garoa de Curitiba, no ponto de ônibus, cura qualquer arrogância.
E ele deve estar a sentir isso na pele. A Priscila, a dondoca que vivia de aparências, teve um choque de realidade ainda mais duro. Sem o cenário perfeito do Água Verde para tirar fotos, as amigas ricas dela desapareceram como fumo. As roupas de marca foram vendidas uma a uma na internet para pagar o aluguel de um quarto nos fundos da casa de uma colega.
Sem saída e sem diploma, a menina que tinha nojo de trabalhar teve de engolir o choro e aceitar uma vaga como vendedora numa loja de sapatos, no bairro do Batel. Passa oito horas por dia em pé, a agachar-se para calçar sapatos nos pés de madames que a tratam exatamente como ela tratava o porteiro do meu prédio. As mãos dela, antes com unhas de gel intactas, agora vivem ressecadas de tanto limpar vitrines. E o Leandro, o menino da internet que me mandou pegar num táxi.
Quando o disjuntor do quarto dele foi desligado, a vida dele apagou-se junto. Sem a minha internet de fibra ótica, sem o ar condicionado e sem a geladeira cheia de comida de graça, não tinha como sobreviver na capital. Sem dinheiro nenhum no bolso, teve de pedir arrego à irmã do meu falecido marido, a tia Odet, que mora na zona rural de Ponta Grossa. A Odet é uma mulher da roça que acorda às quatro da manhã e não tem paciência para vadios.
Aceitou o sobrinho lá com uma condição: que trabalhasse no armazém de ração do marido dela. Hoje o Leandro acorda com o galo a cantar, carrega sacos de milho de quarenta quilos nas costas e suja as mãos de terra. O videojogo de última geração dele foi vendido para pagar a passagem de ônibus até lá. Durante os primeiros seis meses, tentaram dobrar-me.
Recebi dezenas de mensagens de áudio chorosas da Priscila. Recebi chamadas do Marcos a tentar falar grosso, a exigir que eu desse uma parte do dinheiro do aluguel do apartamento para os ajudar a reerguerem-se. O Leandro mandou-me uma carta escrita à mão, a dizer que sentia falta do meu empadão e a pedir para voltar a morar comigo no Boqueirão. A antiga Ivete, a telefonista calejada que vivia para servir, teria aberto as portas.
Teria cancelado o aluguel, devolvido o apartamento ou acolhido os três na casinha do Boqueirão, a apertar o próprio cinto para alimentar os parasitas de novo. A culpa materna é uma droga poderosa que vicia a alma da gente. Mas a nova Ivete apenas sorriu ao ler cada mensagem antes de as apagar. Eu não mudei o meu número de telefone.
Atendo as chamadas. Ouço-os a choramingar, mas a minha resposta é sempre uma rocha inabalável. Eu sou mãe de vocês. Não sou banco, nem asilo de adultos preguiçosos.
A porta da minha casa está aberta para uma visita ao domingo, para tomar um café e conversar. Mas morar comigo, pegar no meu dinheiro ou depender das minhas costas, nunca mais. Quem avisa amigo é. E a mãe avisou.
Foi só no segundo Dia das Mães, quase dois anos depois daquela madrugada chuvosa na rodoviária, que as coisas realmente mudaram. Eu estava na minha varanda a regar a samambaia chorona quando o portão de ferro bateu. Olhei para a rua e lá estavam os três. O Marcos, a vestir uma camisa polo simples e o crachá de consórcio pendurado no pescoço.
A Priscila, com o cabelo preso num coque desajeitado, a usar ténis ortopédicos por causa das dores nas pernas. E o Leandro, com os braços grossos de carregar sacos de ração, a pele queimada de sol, a segurar uma sacola de padaria. Entraram tímidos. Pediram licença.
Não empurraram a porta. Não foram diretos à geladeira à procura de comida. Não reclamaram do cheiro do bairro. Sentaram-se à volta da minha mesa de cozinha, com tampo de fórmica, calados, à espera que eu servisse o café.
Peguei no meu jogo de xícaras Duralex. Enchi as três xícaras com café passado na hora, bem quente, e coloquei-as no centro da mesa, ao lado do bolo de fubá que eu tinha acabado de tirar do forno. Não falámos sobre o apartamento. Não falámos sobre a chuva, nem sobre chaves, nem sobre a rodoviária.
O Leandro abriu a sacola da padaria e tirou de lá um pacote de bolachas amanteigadas, as minhas preferidas. A Priscila elogiou a cor nova das paredes da cozinha. O Marcos perguntou-me se eu precisava de ajuda para trocar o botijão de gás. Foi ali, a olhar para os rostos cansados e, finalmente, adultos dos meus filhos, que eu entendi o verdadeiro legado daquele dia.
Muitas mulheres da minha geração foram ensinadas que ser uma boa mãe é entregar a própria pele para os filhos vestirem. Ensinaram-nos a desaparecer para que eles pudessem brilhar. Mas o sacrifício cego não cria homens e mulheres fortes. Cria crianças egoístas presas em corpos adultos, que acham que o universo lhes deve tudo de bandeja.
Eu não destruí a vida dos meus filhos quando troquei as fechaduras daquele apartamento. Eu salvei-lhes a vida. Ao cortar a mordomia, obriguei-os a conhecer o peso do próprio suor. Ao fechar a porta do luxo, forcei-os a abrir a porta da realidade.
A dor ensina o que o mimo esconde. Eles não me amavam quando tinham tudo de graça. Apenas me usavam. Hoje, sem um centavo meu, respeitam-me.
E o respeito, na minha idade, vale muito mais do que qualquer declaração de amor comprada com mesada. Hoje, aos 73 anos, a minha vida é leve. Com o dinheiro do aluguel daquele império no Água Verde, viajo com o grupo da terceira idade da igreja para as Termas, no interior de Santa Catarina. Compro as minhas meias de compressão importadas, sem olhar ao preço.
Não perco mais o sono com as faturas de cartão de crédito de marmanjos. Quando chove em Curitiba, e olhem que chove bastante, já não fico preocupada com as goteiras na panela da cozinha. Pego na minha cadeira de vime, sento-me na varanda segura da minha casa, enrolo um xaile de lã grossa nos ombros e fico a observar a água a lavar o asfalto da rua. O som da chuva agora é uma canção de embalar, não um castigo.
E, de vez em quando, enfio a mão no fundo da minha velha bolsa de couro sintético, tateio até encontrar aquele molho com as três antigas chaves tetra dos meus filhos, e dou um sorriso largo. Sabendo que a única porta que preciso de manter aberta, de agora em diante, é a do meu próprio coração. Desde que quem entre por ela saiba limpar os pés e respeitar a dona da casa.