O sinal tocou e eu estava prestes a entrar naquela sala quando ouvi o riso. Não era um riso normal. Era o som de trinta alunos que já tinham destruído três professores antes de mim. Empurrei a…

O sinal tocou e eu estava prestes a entrar naquela sala quando ouvi o riso. Não era um riso normal. Era o som de trinta alunos que já tinham destruído três professores antes de mim. Empurrei a...

O ar pesado da zona industrial de Keiyo envolvia o edifício de betão como um vício antigo. O cheiro a ferrugem misturava-se com resíduos químicos queimados, um perfume que se colava à garganta de quem ali entrava. A Escola Secundária Industrial Keiyo, outrora um orgulho que formava técnicos brilhantes, era agora um monumento ao abandono, uma ruína gigante que o tempo tinha deixado para trás. Entre as suas salas decadentes, a turma 2-D ocupava um lugar único no inferno.

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Conhecidos como os isolados, os casos perdidos, os inadaptados, eram o depósito final de todas as derrotas da escola. Os professores chamavam àquele lugar o cemitério dos professores. Kirishima Kyoko, trinta anos, foi nomeada a nova diretora de turma da 2-D. Tinha o cabelo preto preso num rabo de cavalo apertado, um fato sóbrio sem qualquer adorno e um rosto sem maquilhagem que a tornava distante.

À primeira vista, parecia uma professora comum, séria e dedicada. Mas havia algo escondido naquela calma, algo afiado como uma lâmina pronta a ser usada. Sentada no sofá gasto da sala da direção, Kyoko enfrentou o olhar do diretor Murata. Ele tinha o rosto oleoso vincado por rugas profundas, e por um momento pareceu que ia chorar.

— Professora Kirishima, certamente já ouviu o que a turma 2-D representa nesta escola — disse ele, com uma voz cansada, como um peso que carregava há demasiado tempo. — Casos problemáticos. O cemitério dos professores. Foi o que me disseram.

A voz de Kyoko era plana, sem emoção. Essa neutralidade perturbava mais do que qualquer grito. — Não é exagero. O último titular durou três meses antes de ter um esgotamento.

O anterior partiu o braço quando um aluno lhe atirou uma cadeira. Aquilo já não é uma sala de aula. É uma zona sem lei. Talvez seja mais apropriado chamar-lhe uma instalação de tratamento de resíduos tóxicos.

Murata queria dissuadi-la, genuinamente preocupado com a possibilidade de aquele corpo frágil ser esmagado pelas feras da turma. — É professora de Língua Japonesa. Antes de ensinar literatura, devia aprender a proteger-se. Pense de novo, por favor.

Kyoko interrompeu-o. — Diretor, sabe qual é a primeira coisa que ensinam no treino das Forças de Operações Especiais da Força Terrestre de Autodefesa? Sobrevivência. Sobreviver a qualquer ambiente e cumprir a missão.

Para mim, a turma 2-D é uma nova zona de operações, e esses alunos são vítimas que precisam de ser resgatadas. Os olhos dela não vacilaram. Murata não encontrou mais palavras. Desistiu, levantou-se e carimbou a papelada com um gesto pesado, como quem assina uma sentença.

O som surdo ecoou na sala. A porta da sala da 2-D estava torta, como chapa velha. Ficava no fundo do corredor, num lugar que até a luz parecia evitar. O sinal para o início das aulas já tinha tocado há muito, mas do outro lado da porta ouviam-se gritos, objetos a bater e risos selvagens.

Kyoko parou no corredor e fechou os olhos. Na sua mente, voltou o silêncio tenso antes de uma infiltração em território inimigo, quando a única coisa em que se podia confiar era nos sentidos apurados. — Número quinze — murmurou para si mesma. Nas Forças Especiais, antes de uma missão perigosa, cada soldado repetia um número para desejar o regresso seguro dos camaradas.

Para ela, o número quinze era o número de identificação de um jovem soldado que tinha perdido a vida. Decidida, Kyoko agarrou no puxador da porta. Esta rangeu, um som metálico que ecoou pela sala. O barulho morreu instantaneamente.

Trinta pares de olhos masculinos, brilhantes e hostis, cravaram-se nela. Havia desprezo, gozo e desejo cru naqueles olhares, como se a despissem. A sala era um campo de batalha. Cadeiras partidas espalhadas, vidros rachados, graffiti e insultos nas paredes, e um recipiente de noodles abandonado sobre uma secretária.

Kyoko atravessou aquele caos com passos lentos e calculados, o som das botas ecoando como os de um soldado em terreno hostil. — Uau, a nova gaja é boa. — Ei, professora, quantos anos tem? Tem namorado?

Os gracejos e assobios choveram. Ela não reagiu. Chegou ao estrado, empurrou o recipiente de noodles para o lado e abriu o livro de presenças. Foi então que encontrou o olhar do aluno sentado na última fila, junto à janela.

Kuroki Ren. O rei não oficial da 2-D. Cabelo comprido e sujo caía-lhe sobre o rosto, escondendo um olhar frio. O uniforme estava desleixado, deixando ver uma t-shirt preta.

Ele observava-a com o queixo apoiado na mão, como uma besta a estudar a presa. Não havia curiosidade nos olhos dele, apenas uma vigilância calculista. O silêncio que se seguiu foi cortante. Mas não durou muito.

Um aluno grande, sentado ao lado de Ren, levantou-se com um barulho. Akagi Tsuyoshi, o chamado líder de ação da turma. — Ei, calem-se! — gritou, com um sorriso de escárnio.

— Se és a nova professora, ao menos cumprimenta-nos. Não conheces as regras da 2-D? Akagi aproximou-se dela, ainda a sorrir. — Professora, gosta do presente que preparámos para si?

Fez um sinal e outro aluno levantou-se com uma esfregona velha. Na ponta, pendia um pano sujo e nojento. Era um ritual de boas-vindas cheio de duplo sentido. As risadas aumentaram.

— Professora, vamos dançar? Um blues, que tal? Akagi estendeu-lhe a esfregona. Kyoko olhou para ele.

Depois para a esfregona. E pela primeira vez, um sorriso apareceu no seu rosto. Não era um sorriso caloroso. Era um sorriso de predador.

— Blues? — disse ela, em voz baixa. — Prefiro tango. Antes que a frase terminasse, o corpo dela movia-se.

Agarrou a ponta da esfregona com a mão esquerda, puxou Akagi para a frente e, com a perna direita, varreu-lhe o tornozelo. O corpo enorme dele desabou no chão. Kyoko torceu-lhe o braço para trás, um estalo seco acompanhou um grito de dor. Ajoelhou-se sobre as costas dele, imobilizando-o por completo.

Inclinou-se sobre a orelha dele e sussurrou, com uma voz fria como agulhas de gelo:

— Isto é o passo básico do tango. Se alguém lidera, o parceiro obedece. Certo? A sala ficou em silêncio absoluto.

Os alunos olhavam, incrédulos, para a professora que tinha derrubado o líder de ação da turma em três segundos. Kyoko ergueu o olhar, ainda a segurar Akagi, e fixou Ren. Ele estreitou os olhos. Pela primeira vez, uma centelha de interesse cruzou o seu rosto distante.

— Eu sou a vossa nova diretora de turma. Kirishima Kyoko — declarou ela, para toda a sala. — E isto deixou de ser uma instalação de resíduos tóxicos. A partir de hoje, isto é a minha zona de operações.

Na minha zona, seguem as minhas regras. Alguma objecção? Ninguém respondeu. Apenas os gemidos de Akagi cortavam o silêncio.

Kyoko libertou-o e voltou para o estrado. Abriu o livro de presenças. — Primeira regra: quando o sinal toca, todos sentados. Nesse instante, como se tivesse sido calculado, o som do sinal ecoou pelos altifalantes.

Os alunos olharam uns para os outros, hesitantes. — Então. A palavra foi suficiente. Como um reflexo condicionado, todos correram para os seus lugares.

Até Akagi se levantou, a gemer, e se sentou a respirar com dificuldade. Apenas Ren permaneceu imóvel, o queixo apoiado na mão, a olhar para ela como se desafiasse qualquer tentativa de o controlar. Kyoko caminhou até à secretária dele. O som das botas parou.

— Nome? — E então? — Ren sorriu, um sorriso provocador. — Vais usar o meu nome para me castigar?

A sala congelou novamente. Kyoko não mudou de expressão. Inclinou-se, ficando ao nível dos olhos dele, e fez algo que ninguém esperava. Puxou o autocolante com o nome dele, colado na secretária.

— Kuroki Ren, dezoito anos. Pai é presidente de uma empresa de construção local. Mãe desapareceu há três anos. Já tiveste problemas com a polícia por violência doméstica.

Estás em liberdade condicional. A voz dela lia a informação como quem lê um relatório, fria e precisa. Era como uma lâmina a cortar a pele dele, expondo carne que nunca tinha sido tocada. O sorriso de Ren desapareceu.

A cor abandonou-lhe o rosto. A família, a sua fortaleza e a sua maior fraqueza, tinha sido exposta. — A arrogância é o disfarce da insegurança. Sabes que és fraco, que não tens nada, por isso usas as palavras como última arma.

Não é verdade? As palavras dela eram mais do que informação. Eram um murro direto à alma. Ren tremia.

Raiva, orgulho e, talvez pela primeira vez, medo puro. Tentou responder, mas os lábios não lhe obedeciam. As mãos suavam. — Uma fera verdadeiramente forte não ladra em vão — sussurrou ela, junto ao ouvido dele, antes de se endireitar.

— Aponta diretamente para a garganta. Kyoko voltou-se para a turma. — Ouçam com atenção. São três regras.

Simples. Até vocês conseguem decorar. Pegou num giz e escreveu no quadro, cada movimento a prender a atenção de todos. Primeira regra: é proibido sair do lugar sem a minha autorização.

Se precisarem de ir à casa de banho, primeiro levantem a mão e peçam. Quem se levantar sem permissão será considerado um desertor e punido severamente. A turma murmurou, mas um olhar de Kyoko calou-os. Segunda regra: conversas proibidas.

Se tiverem dúvidas, levantem a mão e esperem que eu vos nomeie. Nesta sala, apenas se ouve a minha voz, o som das canetas e a respiração. Tudo o resto é ruído. Terceira regra, a mais importante.

Kyoko virou-se para eles, os olhos profundos e frios como um abismo. — Não mintam. A frase pairou no ar. — Detesto mentiras.

Não sei com que mentiras vocês se têm protegido até agora, mas aqui não funcionam. Se tentarem enganar-me, o preço será muito mais alto do que imaginam. Pegou no livro de presenças. — Akagi Tsuyoshi.

Akagi, que ainda gemia no chão, estremeceu. — Sim. — Consegues levantar-te? — Sim.

— Volta para o teu lugar. Fica em sentido até ao fim da aula. É o teu castigo. Akagi levantou-se, a gemer, e ficou ao lado da secretária, hirto.

Ninguém se atreveu a rir. — Kuroki Ren. Ren estremeceu ligeiramente. — Sim.

— É assim que se responde? Ele mordeu o lábio, a humilhação a queimá-lo por dentro. Mas percebeu, por instinto, que não podia desafiar aquela mulher. — Sim — murmurou, uma voz espremida.

O resto da aula foi bizarro. Kyoko limitou-se a ler o manual escolar, sem emoção. Mas ninguém dormiu, ninguém desenhou, ninguém sussurrou. Todos ficaram como estátuas, a suportar o silêncio opressivo criado pela presença absoluta da professora.

Não era uma aula. Era uma tortura. Quando o sinal anunciou o fim, soou como um sino de libertação do inferno. — A aula terminou.

Levantem-se. Os alunos levantaram-se como robôs e curvaram-se profundamente. — Obrigado. Kyoko respondeu com um aceno de cabeça e saiu da sala, como se nada tivesse acontecido.

Durante alguns minutos, ninguém se mexeu. A ausência dela era como um campo magnético desligado. Akagi foi o primeiro a falar. — Mas que raio de mulher é aquela?

— A voz dele tremia. Os alunos olharam uns para os outros. Não havia arrogância nos seus rostos, apenas a confusão de marinheiros apanhados numa tempestade. Na janela, Ren apertava o punho, as unhas a cravar na palma até sangrar.

Olhava para a porta por onde Kyoko tinha saído, com um misto de raiva e algo parecido com medo. — Quem é aquela mulher? — murmurou ele, sem se dirigir a ninguém. A turma 2-D mudou da noite para o dia.

No dia seguinte, o caos físico desapareceu, substituído por uma tensão constante. Ninguém se levantava sem autorização. Ninguém falava. Mas aquilo não era submissão.

Era a cautela de animais que se escondem durante uma tempestade, a observar o predador. Kyoko sentia os olhares sobre si, mas não reagia. As suas aulas tornaram-se ainda mais estranhas. Um dia, em vez do manual, distribuiu uma folha de papel.

— O tema de hoje é a autoanálise — anunciou ela. — Escrevam cinco pontos fortes e cinco pontos fracos. Têm trinta minutos. Quem não terminar, fica depois da aula.

Entregar uma folha em branco é o mesmo que declarar que não têm capacidade de raciocínio. Os alunos hesitaram, mas pegaram nas canetas. Para eles, que só conheciam a lógica do forte e do fraco, pensar em pontos fortes era algo estranho. A maioria parou logo.

Kyoko caminhava pela sala, os braços cruzados, a observar tudo. A forma como seguravam a caneta, o movimento dos olhos, os tremores nos dedos. Ela não estava a ver o que escreviam. Estava a analisá-los.

No seu caderno, anotava observações sobre cada um. Ren, dominador mas com baixa autoestima, traumatizado pelo desaparecimento da mãe. Akagi, impulsivo, leal a uma figura de autoridade. Cada aluno era um alvo a estudar.

O seu olhar parou num aluno no canto, perto da janela. Kotera Wataru. Um miúdo pequeno e frágil, com um uniforme demasiado grande, como se tivesse emprestado. Os olhos eram os de um animal assustado.

Era o saco de pancada da turma. Akagi e os amigos extorquiam-lhe o dinheiro do almoço. Empurravam-no no corredor. Ele nunca resistia.

Aceitava a violência como algo natural. Agora, Wataru olhava para a folha em branco, a caneta a tremer na mão. Kyoko parou ao lado da secretária dele. — Kotera.

Ele estendeu-lhe o papel, sem conseguir olhar para ela. Na secção dos pontos fracos, escrevera apenas uma palavra: medroso. A secção dos pontos fortes estava vazia. Kyoko pegou no papel sem dizer nada.

Terminada a aula, ela saiu. Os alunos voltaram ao seu comportamento habitual. Akagi e os amigos aproximaram-se de Wataru, a rir. — Ei, Wataru, entregaste o trabalho?

O que escreveste nos pontos fortes? Ser bom a apanhar? Os risos ecoaram. Wataru encolheu-se.

Ninguém reparou que Kyoko, que supostamente tinha saído, estava escondida no corredor, a observar pela porta entreaberta. O olhar dela estava fixo apenas em Wataru. O primeiro alvo era ele. No final do dia, quando os alunos correram para fora da escola, Wataru tentou desaparecer.

Queria escapar daquele lugar que lhe roubava o ar. Mas uma voz fria parou-o. — Kotera Wataru. Kyoko estava à porta.

Wataru sentiu o coração a disparar. — S-sim. — Vem comigo. Preciso de falar contigo.

Ele não tinha escolha. Seguiu-a pelo corredor, com passos pesados, como um condenado. A professora não disse uma palavra até chegarem a uma sala de orientação abandonada no fundo do edifício. O cheiro a pó e mofo encheu-lhes o nariz.

Wataru sentou-se numa cadeira de tubo de metal. Kyoko sentou-se à frente, uma mesa velha entre eles. — Porque queres ser invisível? — perguntou ela, de repente.

Wataru ergueu o olhar por um momento, assustado, e voltou a baixá-lo. — Se fores invisível, ninguém te encontra. Ninguém te incomoda. É isso que pensas.

Ele tremeu. — Mas, Kotera, se fores invisível, ninguém te pode ajudar. Ninguém vai sequer notar que estás ali. Ela tirou o papel do bolso, a autoanálise dele.

— Isto é um sinal. Um SOS. É isso que estamos a ver, não é? Wataru apertou os lábios.

O silêncio era a sua confissão. — Muito bem. Sinal recebido. Vamos começar a Operação Ghost Protocol.

Kyoko olhou para ele com uma intensidade nova. — O que é isso? — perguntou Wataru. — Um treino especial para não continuares a ser um fantasma.

Primeiro exercício: olha para mim e não desvies o olhar. Era uma ordem cruel. Para Wataru, olhar nos olhos de alguém era tão doloroso como encarar a ponta de uma faca. Nos olhos das pessoas, só via desprezo ou indiferença.

— N-não consigo — murmurou, com a voz a tremer. — Um soldado não diz não consigo. Diz vou tentar, ou vou conseguir. Como és civil, aceito o vou tentar.

Mais uma vez. Olha para mim. Aguenta dez segundos. Se falhares, repetimos até conseguires.

A voz dela não tinha qualquer compromisso. Wataru queria fugir, desaparecer. Mas sentia-se preso pela presença dela. Lentamente, ergueu o rosto.

As pálpebras tremiam. Finalmente, os olhos dele encontraram os dela. O mundo girou. O coração batia tão forte que parecia que ia explodir.

Ele queria olhar para outro lado, mas os olhos dela seguravam-no como um íman. Porém, algo estranho aconteceu. Nos olhos dela, não encontrou o desprezo que temia. Havia apenas uma escuridão calma e, no fundo, uma pequena luz, como se ela dissesse: és capaz.

— Nove… dez. Conseguiste. Kyoko soltou a palavra. Wataru sentiu um fio partir-se e respirou com dificuldade, encharcado em suor.

Dez segundos. Para ele, uma eternidade. — Não foi tão difícil, não foi? — disse ela, sem mudar de expressão.

— Segundo exercício: amanhã, quando entrares na sala, caminha pelo corredor com os ombros para trás e a cabeça erguida. Se alguém olhar para ti, não desvies. Aguenta um segundo a mais do que a outra pessoa. Conseguirás?

Wataru sentiu-se em pânico. Mas aquela pequena vitória de dez segundos tinha plantado uma semente minúscula de coragem. Hesitante, mas claramente, acenou que sim. No dia seguinte, no intervalo, Akagi aproximou-se da secretária de Wataru com um sorriso predador.

— Ei, Wataru. O que é que a professora te disse ontem, hein? Estás a treinar para seres o cãozinho dela? Estendeu a mão para agarrar o ombro de Wataru.

O miúdo encolheu-se, prestes a fugir. Mas, de repente, os olhos de Kyoko apareceram na sua mente. Não desvies. Wataru fechou os olhos um instante, o corpo a tremer de medo.

Depois, com os lábios a vacilar, forçou uma palavra. — Para. Foi quase inaudível, um murmúrio. Mas chegou aos ouvidos de Akagi.

O movimento dele parou. As risadas dos outros alunos morreram. No fundo da sala, Ren, de braços cruzados, ergueu uma sobrancelha. — O quê?

— Akagi riu, incrédulo. — Repete isso. Wataru sentia o coração na boca. Queria fugir, pedir desculpa, deixar que o castigassem como sempre.

Mas a voz da professora ecoava. Conseguiste. — Eu disse para. — A voz dele tremia, mas agora havia uma centelha de vontade.

O rosto de Akagi mudou. A confusão deu lugar a uma raiva pura. — Seu merda. O punho enorme ergueu-se.

Wataru fechou os olhos, preparado para o golpe. Mas o golpe nunca chegou. Uma mão de aço agarrou o pulso de Akagi. Kyoko estava entre eles, sem que ninguém a visse chegar.

— Akagi Tsuyoshi. Esqueceste-te da primeira regra? Não te levantas sem a minha autorização. E a terceira: a violência é a mentira mais estúpida e feia.

Uma forma patética de esconder a tua fraqueza. Akagi tentou libertar-se, mas o aperto dela era inabalável. — Não interferas no meu treino — disse ela, em voz baixa. Torceu-lhe o braço, imobilizando-o.

O som das articulações e os gemidos de dor de Akagi ecoaram pela sala. Kyoko olhou para o fundo da sala, onde Ren continuava de braços cruzados. — Kuroki Ren. Ren não mudou de expressão.

— Até quando vais ficar aí a ver, como um espectador? Preferes sujar as tuas próprias mãos, ou mandar os outros fazerem o trabalho sujo? A isso chamas liderança? Isso é cobardia.

A sala congelou. Ren estreitou os olhos. — Cala-te. — Sei porque te agarras ao poder.

Sempre foste tu o lado fraco, o lado que era dominado. A violência do teu pai. A indiferença da tua mãe. Roubaram-te a dignidade.

Agora, dominar os outros é a tua forma de te manteres de pé. Não é? Era uma exposição impiedosa. A cor fugiu do rosto de Ren.

Os olhos dele arregalaram-se, cheios de choque e pavor. — Tens mais medo do que qualquer um deles — continuou ela. — De te tornares como o teu pai. Uma fera fraca.

És tu que o sabes melhor do que ninguém. — Cala-te! Ren levantou-se, derrubando a cadeira. A voz dele perdera a calma.

Nos olhos, havia fúria, humilhação e algo perigoso, parecido com ódio. Começou a avançar para ela, passo a passo, o punho cerrado. — O que é que sabes tu? — gritou ele, com uma voz que vinha do fundo do inferno.

— Tu não sabes nada! Estendeu a mão para agarrar Kyoko. Mas ela desviou-se com uma facilidade impressionante, desequilibrando-o. Ren caiu, apoiando-se numa mesa.

Ergueu-se, o rosto contorcido de raiva, pronto a atacar de novo. Mas parou. Nos olhos dela, viu algo inesperado. Uma tristeza profunda, uma dor antiga.

Foi apenas um instante, depois a máscara neutra voltou. Mas ele tinha visto. — Tens razão — disse ela, com a voz ligeiramente alterada. — Talvez eu não entenda a tua dor.

Mas conheço outra dor. A dor de não ter conseguido proteger quem devia. Kyoko fechou os olhos por um segundo. Na sua mente, a chuva, o barro do campo de treino, o grito, os olhos desesperados de um jovem soldado.

— O nome dele era Ichinose Riku. Era um dos meus subordinados nas Forças Especiais. Tinha talento, mas carregava uma escuridão interior, tal como tu. Treinava mais do que todos, para compensar.

Eu via potencial nele, uma pedra bruta que podia tornar-se um diamante. No exercício final, o mais duro, ele estava exausto. Eu notei. Pensei em afastá-lo.

Mas acreditei que ele conseguiria. Foi a minha arrogância, a minha confiança cega. Ele falhou, pôs os colegas em perigo. Foi excluído.

Naquela noite, tirou a própria vida. No bolso do uniforme, encontrei um bilhete: Eu sempre fui um inútil. Kyoko olhou para o nada. — Eu podia tê-lo salvo.

Acreditei que, se fosse mais forte, ele superaria a sua escuridão. Mas o que ele precisava era de uma palavra: Estás a fazer um bom trabalho. Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Foi a primeira vez que os alunos viram a professora mais forte do mundo mostrar fraqueza.

Ren ficou paralisado. Não entendia completamente as palavras dela, nem a razão daquelas lágrimas. Mas percebia que não eram por ele. Eram uma dor mais profunda, mais pesada.

A atmosfera da sala mudou. A tensão assassina deu lugar a um estranho silêncio, cheio de confusão e tristeza. Kyoko limpou as lágrimas com um gesto brusco. — A aula terminou.

Vão para casa. A voz dela não tinha a dureza habitual. Apenas cansaço. Naquela noite, Kyoko sentou-se sozinha na sala de aula vazia.

A luz da lua iluminava-lhe o perfil. Na mão, segurava uma placa de identificação militar velha. O nome de Ichinose e o número quinze estavam gravados. — Ele parecia-se contigo, Ren — murmurou ela, para ninguém.

A lágrima que Kyoko derramou deixou marcas nos corações da turma 2-D. A professora mais fria e mais forte do mundo tinha mostrado vulnerabilidade. O medo e a raiva que sentiam por ela transformaram-se em algo mais complexo. Curiosidade genuína e um pouco de empatia.

Mas, no dia seguinte, Kyoko voltou com a máscara neutra. Durante a reunião da manhã, lançou uma bomba. — Este fim de semana, todos vocês vão participar numa aula especial de dois dias e uma noite. A sala explodiu em protestos.

— Quê? Aulas ao fim de semana? Está a gozar? Kyoko calou-os com um olhar.

— O destino é uma ilha deserta na baía de Tóquio, onde existiu uma fortaleza militar. A palavra ilha deserta causou mais confusão. — O tema é treino de sobrevivência. Vão simular uma situação de isolamento após um grande terramoto.

Como sobreviver. É obrigatório. Quem faltar, arrisca-se a perder a disciplina. Os alunos resmungaram, mas não tiveram coragem de desafiar.

No sábado, no cais de Keiyo, a turma 2-D reuniu-se com expressões sombrias. Alguns estavam vestidos como para um piquenique, outros com mochilas de montanha. Kyoko chegou cedo, vestida com calças de carga camufladas e um casaco tático preto. Parecia um membro de uma força especial, não uma professora.

— Vou anunciar os grupos — disse ela, lendo uma lista. Os grupos foram calculados para separar amigos e criar combinações desconfortáveis. No final, anunciou o último grupo. — Grupo quatro: Kuroki Ren.

Kotera Wataru. O ar parou. Rei e escravo, predador e presa, juntos no mesmo grupo. O rosto de Ren escureceu.

— Está a gozar? — protestou ele. — Porque é que tenho de ficar com este? — É uma operação.

Em vinte e quatro horas, têm de encontrar água e comida e construir um abrigo. Podem fazer fogo com materiais naturais. Isqueiros e fósforos foram confiscados. Isto não é um jogo.

É um treino. Distribuiu a cada grupo um mapa, uma bússola, uma corda e uma faca. Na ilha, os alunos ficaram impressionados com a vegetação densa e as ruínas da fortaleza. Era um mundo à parte.

Cada grupo começou a trabalhar. Mas o grupo quatro ficou imóvel. Ren sentou-se contra uma árvore, de braços cruzados. — Vocês tratem disso.

Eu não vou participar desta palhaçada. Os outros dois membros do grupo hesitaram e acabaram por se afastar. Wataru ficou sozinho com Ren, o silêncio pesado entre eles. — Vai-te embora também.

Estás a estorvar. Wataru tremia e afastou-se. Tentou subir uma encosta, mas o terreno era instável e ele estava exausto e nervoso. Escorregou e caiu, rolando pela ladeira em direção a um penhasco.

— Aaaah! Conseguiu agarrar-se a uma raiz no limite do precipício. O corpo pendurado sobre o vazio. Tentou gritar por ajuda.

— Soco… socorro! Acima, Ren olhava para ele, imóvel. O rosto vazio, sem qualquer emoção. Wataru sentiu a raiz a ceder.

Um pensamento gelado atravessou-lhe a mente: ele não me vai ajudar. Vou morrer aqui. Mas, de repente, um eco da voz de Kyoko atravessou a mente de Ren. Ninguém abandona um companheiro de equipa.

Isso não é liderança. É cobardia. Porque é que me lembrei dela agora? Não tenho nada a ver com isto.

Mas, antes que percebesse, o corpo dele movia-se. Correu até à borda do penhasco e agarrou o pulso de Wataru. — Seu idiota! Sobe agora!

Ren puxou com todas as forças, os músculos a gritar. Wataru também lutou para subir. Finalmente, conseguiram. Os dois caíram na relva, ofegantes.

— Não interpretes isto mal — disse Ren, ainda a recuperar o fôlego, sem olhar para Wataru. — Fiz isto porque não quero que me chateies depois. É só isso. Wataru sentou-se e curvou-se profundamente.

— Obrigado. A voz dele tremia. — Cala-te. Ren levantou-se e afastou-se, deixando Wataru sozinho.

O miúdo olhou para o próprio pulso, onde os dedos de Ren tinham deixado marcas. Ainda sentia o calor. Entretanto, um dos alunos do grupo quatro falou em segredo com outro. — Eu sei quem pode resolver isto.

Um ex-aluno desta escola, um tipo chamado Yazawa. Ele faz umas coisas… duvidosas, mas se lhe pedirmos…

No dia seguinte, no porto, quando os alunos, exaustos e famintos, se preparavam para partir, vários homens aproximaram-se. Tinham vinte e poucos anos, piercings, tatuagens e ar de quem não prestava. O líder, Yazawa, fumava um cigarro e sorria.

— Bem, bem. Parece que se divertiram. Que tal uma pequena lição sobre como respeitar os mais velhos? Kyoko deu um passo em frente.

— O que querem? — Não é contigo, miúda. É com os nossos colegas mais novos aqui. Os homens aproximaram-se, brandindo bastões de metal.

Os alunos recuaram, aterrorizados. Kyoko virou-se para eles. — Recuem. Vão para o barco.

— Mas, professora…

— É uma ordem. Kyoko voltou a enfrentar os homens. Um pequeno exército de malfeitores contra uma única mulher. — Não toquem nos meus alunos.

O que se seguiu não foi uma luta. Foi uma demonstração. Kyoko desviou um bastão de metal, agarrou o braço do homem e atirou-o ao chão. Outro avançou, mas ela esquivou-se e acertou-lhe um cotovelo nos queixos.

Os movimentos eram precisos, sem desperdício, pensados para matar no campo de batalha. Os homens caíram um a um. — Mas que diabo… — murmurou Yazawa, o sorriso a desaparecer. Investiu contra ela com o bastão.

Kyoko bloqueou o golpe com a palma da mão, um som metálico ecoou. Enquanto isso, um dos homens tentou apunhalá-la pelas costas. — Professora! Atrás!

— gritou Ren. Kyoko já o tinha sentido. Torceu o corpo e acertou um pontapé na cabeça do agressor. Mas o movimento deixou uma pequena brecha.

Yazawa aproveitou-a e atingiu-a nas costelas com um cano de ferro. Kyoko cambaleou, o rosto contraído de dor. Mas não caiu. Agarrou o braço de Yazawa e projectou-o ao chão, imobilizando-o.

Era o fim do confronto. Os alunos olhavam, pasmados. Kyoko respirava com dificuldade, uma mão pressionada sobre as costelas, um fio de sangue a escorrer. Ao longe, um telemóvel gravara tudo.

O vídeo espalhou-se como fogo. Nas redes sociais, nos sites de notícias, em todo o lado. Uma professora violenta. Uma mulher que agride jovens.

Os comentários eram um tsunami de ódio e desinformação. Na segunda-feira, a escola era um inferno. O telefone não parava de tocar. Pais furiosos, antigos alunos envergonhados, curiosos anónimos.

Os outros professores tratavam Kyoko como se fosse uma praga, desviando o olhar nos corredores. A secretária dela estava isolada. Kyoko aceitava tudo com a mesma expressão neutra. Era uma reacção inimiga esperada.

No campo de batalha, não são só as balas que matam. O diretor Murata convocou-a. — Professora Kirishima, o que é isto? O conselho de educação entrou em contacto.

Vão abrir um inquérito formal. A sua conduta…

— Eu apenas protegi os meus alunos. — Protegeu? A reputação da escola está em ruínas!

Os pais querem a sua demissão! Eu não a posso apoiar mais. Murata empurrou uma carta de demissão sobre a mesa. — Peço-lhe que se demita voluntariamente.

É a única forma de proteger a escola. No mesmo momento, na sala da 2-D, os alunos olhavam para os telemóveis, horrorizados. Viam o vídeo tirado fora de contexto, as mentiras. Pela janela, viram Kyoko atravessar o pátio, isolada, como se lutasse contra o mundo inteiro sozinha.

Akagi cerrou os punhos. — Ela lutou por nós. Nós é que a deixámos sozinha. O sentimento espalhou-se.

Pela primeira vez, sentiram culpa por alguém que não eles próprios. Ren olhava para os próprios punhos, lembrando-se do momento em que nada tinha feito. O rei absoluto da turma tinha sido impotente perante uma ameaça real. O ódio online continuou a crescer.

Uma nova informação foi divulgada: Kirishima Kyoko tinha sido despedida das Forças de Autodefesa por um escândalo. Era mentira, mas ninguém verificava. A escola ficou em silêncio, nem confirmando nem negando, o que equivalia a uma confissão. Kyoko tornou-se uma criminosa aos olhos de todos.

Kyoko foi colocada em prisão domiciliária. Sentada no seu apartamento escuro, as cortinas fechadas, via comentadores na televisão a condená-la. O telemóvel estava desligado. Deitada na cama, sentia as costelas a doerem, mas a dor mais profunda era a do passado.

A cara de Ichinose assombrava-a. O dia em que ele morreu, o seu superior tinha-lhe dito que as suas expectativas excessivas o tinham pressionado até ao limite. Ela tinha apresentado a demissão, convencida de que não merecia comandar mais ninguém. Estou a repetir o mesmo erro?

Estou a tentar salvar estes miúdos ou estou a arrastá-los para a minha própria ruína? Então, ouviu uma pancada na porta. Ignorou. Mas a pancada repetiu-se.

— Professora Kirishima? Estás aí? Era a voz de Ren. Kyoko hesitou, mas abriu a porta.

Ele estava de capuz, a cabeça baixa. — O que queres? — perguntou ela, friamente. — É verdade?

— perguntou ele, sem olhar para ela. — Que foste despedida das Forças de Autodefesa? — E se for? — Só quero saber.

Ren ergueu a cabeça. — Disseste um dia que sabias o que era não conseguir proteger alguém. O que te aconteceu? Não era uma pergunta agressiva.

Era interesse genuíno pela primeira vez. — Entra. Vou-te fazer um café. No pequeno apartamento, Kyoko serviu-lhe café instantâneo.

E, lentamente, contou-lhe a história de Ichinose. O talento, a escuridão, o erro fatal, a morte. A culpa que carregava. — Eu não o salvei.

Pior, fui eu que o empurrei para a morte. Não quero que mais ninguém morra por minha culpa. Quando terminou, Ren ficou em silêncio. Depois, levantou-se e dirigiu-se à porta.

— A morte dele não foi culpa tua. Foi tudo o que disse antes de sair. Kyoko ficou a olhar para a caneca de café ainda quente. As lágrimas correram-lhe pelo rosto.

Ren não foi para casa. Foi para a escola. Na sala da 2-D, sob a luz pálida, vários alunos estavam reunidos, sem rumo. Olharam para ele quando entrou.

— Foste ter com o Yazawa? — perguntou Akagi, esperançoso. Ren abanou a cabeça. — Isso não resolve nada.

Os alunos ficaram confusos. O antigo Ren teria partido para a violência. Ele subiu ao estrado, o lugar da professora. — Vamos protegê-la.

Nós. — Como? — perguntou alguém. — Somos apenas um bando de falhados.

Do fundo da sala, uma voz fraca mas firme respondeu:

— Com palavras. Todos se viraram. Wataru estava de pé, a cabeça erguida. — Vamos escrever.

Uma petição. Dizer a verdade. Que a professora não é violenta. Que ela nos ajudou.

Escrevemos e entregamos ao conselho de educação. Ren olhou para Wataru com respeito. Pela primeira vez, reconheceu-o como um igual. — Boa ideia.

Wataru sorriu timidamente. A sala transformou-se num centro de operações. Ren coordenava os talentos de cada um. Wataru escrevia o texto, consultando livros.

Akagi reunia assinaturas por toda a escola, humilhando-se, pedindo com educação. Outros pesquisavam a lei. Naquela noite, viraram revolucionários. Wataru escreveu e reescreveu.

Queria que as palavras chegassem aos corações frios dos adultos. A professora Kirishima é uma pessoa assustadora. Mas foi a primeira pessoa que me tratou como um ser humano, que disse que eu fazia parte da equipa. Sem ela, ainda estaria morto por dentro.

No dia da audiência do conselho, a turma reuniu-se diante da sala da direção. Ren segurava a petição, com mais de cem assinaturas. Estavam todos lá. Iam entrar.

Mas, antes que Ren batesse à porta, ouviu-se um grito no átrio. — Sai da frente! Quero ver o meu filho! Ren ficou gelado.

Conhecia aquela voz. Aparecera no pior momento possível: o pai dele. O homem, bêbado, cambaleou pelo corredor, uma garrafa de saquê na mão. — Ó seu merda!

Estás aqui a perder tempo! O pai avançou para Ren. A turma olhava, chocada. Ren sentiu o medo antigo a paralisá-lo por dentro.

Mas, naquele momento, a porta da sala abriu-se. Dois inspetores do conselho saíram, seguidos pelo diretor Murata e por Kyoko. — O que se passa aqui? — perguntou uma inspetora, calmamente.

O pai de Ren apontou para Kyoko. — És tu, sua vaca! Foi por tua causa que o meu filho se tornou rebelde! Kyoko ia intervir, mas o pai agarrou o braço de Ren.

— Vamos embora! Chega desta merda! — Larga-me! — gritou Ren.

— Cala-te, seu ingrato! O pai ergueu a mão para bater no filho. Nesse instante, Ren gritou:

— Não vou mais obedecer-te! Foi a primeira vez que Ren enfrentou o pai.

Agarrou-lhe o punho e gritou, com o rosto banhado em lágrimas. — Eu não sou como tu! Nunca serei como tu! A professora ensinou-me isso!

Não sou o teu brinquedo, não sou um falhado! O pai ficou paralisado, sem palavras. Aquele desafio nunca tinha acontecido. O velho baixou o braço, cambaleou e, sem dizer nada, afastou-se, deixando um silêncio pesado.

Kyoko aproximou-se de Ren, que tremia de emoção, e pousou a mão no ombro dele. — Bom trabalho, Kuroki. Ren desatou a chorar, com soluços de criança. Os inspetores assistiram a tudo em silêncio.

Uma delas murmurou para a colega:

— Como vamos escrever o relatório? A colega, sem responder, guardou os papéis na pasta, como se as palavras já não tivessem significado. O que tinham testemunhado ia além de qualquer regulamento. A inspeção terminou mais cedo.

Antes de partirem, a inspetora principal pediu para falar com Kyoko a sós, na sala da direção. — Professora Kirishima, o comité decidiu não tomar medidas disciplinares contra si — anunciou ela. Kyoko agradeceu, sem emoção. A inspetora continuou:

— A sua metodologia de ensino é, sinceramente, uma loucura.

Potencialmente violadora de várias normas legais. Mas vimos algo hoje que não está nos relatórios. Um jovem partido a reconstruir-se. A sua energia maluca e desajeitada, mas genuína, chegou a esses miúdos.

A inspetora curvou-se profundamente. — Fomos nós que aprendemos consigo. O relatório oficial dirá que, embora haja espaço para melhorias, a professora construiu uma relação de confiança notável com os alunos, com resultados significativos na autoestima daqueles com dificuldades. Era uma absolvição disfarçada de elogio.

Quando Kyoko voltou à sala da 2-D, todos a esperavam, ansiosos. — Bem — disse ela, com a expressão neutra habitual. — Chega de festa. Vocês ainda têm uma última barreira para ultrapassar.

Sorriu, maliciosamente. — Os exames finais. Os alunos gritaram em protesto, o pânico a instalar-se. Mas Kyoko sentiu um calor no peito.

A sua verdadeira batalha estava apenas a começar. Após a tempestade do conselho, a turma 2-D ganhou uma energia nova. Eram como veteranos de guerra. Mas o inimigo final surgiu: os exames.

— Estou a brincar? Eu nem sei o alfabeto todo! Kyoko subiu ao estrado. — Vamos começar uma nova operação.

Nome: Operação Fuga da Reprovação. Objectivo: elevar a média da turma 2-D, pelo menos um lugar acima do último lugar do ano. Os alunos ficaram chocados com o objectivo modesto. — É só isso?

— É só isso. Mas há uma condição. Todos têm de participar. Se um único aluno tiver nota negativa, a operação falha.

E começou. A sala transformou-se num hospital de campanha, com grupos de estudo. Kyoko organizou esquadrões com base em talentos individuais. Wataru liderava os estudos de japonês.

Ren foi nomeado comandante geral. — Eu? Eu sou o pior aluno da turma! — protestou Ren.

— Não precisas de saber tudo. Precisas de saber liderar. Tens o dom de mover pessoas. Daquele dia em diante, a turma estudou como nunca.

Caos, discussões, mas também cooperação. Ren acordava os que dormiam, motivava os que desistiam, pedia ajuda a Wataru para as dúvidas. Finalmente, os exames chegaram e passaram. Dias depois, os resultados foram anunciados.

O silêncio pesou na sala. A maioria tinha notas abaixo da média. — Eu sabia… — murmurou alguém. Mas a porta abriu-se com força.

Kyoko estava lá, segurando um papel enorme. Era a tabela das médias das turmas. No fundo, estava a turma 2-C. E no segundo lugar a contar do fim, estava a turma 2-D.

Um momento de silêncio. Depois, um grito de alegria ensurdecedor. Os alunos abraçaram-se, choraram e riram. Ren sorria tranquilamente, olhando pela janela a paisagem cinzenta da zona industrial, que naquele dia parecia brilhar.

Kyoko observou-os, os olhos apertados. Murmurou para si mesma:

— A minha missão ainda não acabou. O vento salgado do porto de Keiyo fazia tremer suavemente as janelas da velha sala.

Daquele lugar chamado ruína, um navio partia calmamente para o mar da madrugada.