O marido espetou-me o dedo na cara, os olhos cheios de raiva, e gritou: “Mas tu quem pensas que és? Pega nas tuas tralhas e desaparece daqui.” Atrás dele, a minha sogra sorria com malícia, os…

O marido espetou-me o dedo na cara, os olhos cheios de raiva, e gritou: "Mas tu quem pensas que és? Pega nas tuas tralhas e desaparece daqui." Atrás dele, a minha sogra sorria com malícia, os...

O marido espetou-lhe o dedo na cara, com os olhos cheios de raiva. — Mas tu quem pensas que és? Pega nas tuas tralhas e desaparece daqui. Atrás dele, a sogra sorria com malícia, os lábios finos comprimidos num riso silencioso.

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A Helena sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. A pequena Lúcia, de seis anos, agarrou-se à perna da mãe e soluçava sem perceber porque é que o pai gritava daquela maneira. O coelhinho de peluche favorito pendia-lhe da mão, quase a roçar o chão. O apartamento de dois quartos, num prédio dos anos setenta, nunca tinha sido grande, mas desde que a dona Alda se mudara para lá, três meses antes, depois de uma operação à anca, o espaço encolhera de vez.

As coisas da sogra tinham invadido tudo: o aparador com a cristaleira, os naperons de croché nos braços do sofá, a coleção de bibelôs de porcelana na estante. E com as coisas, vieram os comentários. O bacalhau estava salgado demais. A roupa não estava bem estendida.

A menina era demasiado mimada. A Helena vivia sob aquele olhar desaprovador, engolindo os sermões sobre como se deve gerir uma casa, educar os filhos e respeitar o marido. — Nos nossos tempos, filha, não éramos tão liberais — repetia a dona Alda. — O homem é a cabeça da família, mas a mulher é o pescoço que a move.

Só que é preciso saber girar. Naquela noite, porém, a sogra não começou com os sermões. Estava triunfante. — João, por favor, o que se passa contigo?

— a voz da Helena tremeu. — Somos uma família, temos uma filha. O marido, que só devia voltar do estrangeiro no dia seguinte, tinha chegado mais cedo. Trabalhava numa obra, em turnos de duas semanas fora e uma em casa.

A alegria pelo regresso inesperado transformara-se em ansiedade quando ele mal beijou a filha e se fechou no quarto com a mãe. Meia hora depois, a dona Alda entrou na cozinha com um ar solene. — Temos de falar. — Que família, que nada!

— espetou o João, com as mãos gretadas cerradas em punhos. — Estamos casados há cinco anos. E para quê? Nem casa própria, nem dinheiro a sério.

Só te queixas o dia todo que estás cansada e que te dói a cabeça. A mãe tem razão. Não és uma boa dona de casa, nem sequer sabes cuidar do lar. A Helena olhou para ele, perplexa.

O coração batia-lhe com tanta força que parecia querer sair do peito. — O que aconteceu nestas duas semanas? Fiz alguma coisa? — Não te faças de parva, sabes muito bem.

A dona Alda apareceu por trás do filho, a ajeitar o penteado impecável de cabelos brancos. Nas mãos, trazia uma caixa de cartão gasta, de uma antiga televisão Philips, que guardavam no cimo do armário. Pousou-a no chão, em frente à Helena, com um baque seco. — Anda, vai metendo as tuas coisas.

Para começar, chega. O resto vens buscar outro dia. A voz da sogra soava prática, como se estivesse a resolver um assunto com uma inquilina incómoda. — Mãe, para onde vamos?

— perguntou a Lúcia, com os olhos assustados. A Helena sentiu algo a partir-se dentro de si. A angústia pela filha suplantou a humilhação. Endireitou as costas e, com uma calma que não sabia que possuía, disse:

— Está bem, João.

Se é o que decidiste, que assim seja. Mas lembra-te deste momento. Viu algo vacilar no olhar dele, talvez uma dúvida, mas a dona Alda pôs-lhe logo a mão no ombro, como quem o empurrava. E o João voltou a endurecer.

— Não tenho mais forças para ver como maltratas o meu filho — sibilou a sogra. — Ele trabalha dia e noite em três sítios diferentes. E tu a comprar caprichos e a beber cafés com as tuas amigas. A Helena ficou gelada.

De que caprichos falava ela? As suas únicas joias eram uns brincos de prata que a mãe lhe oferecera nos dezoito anos e a aliança. A última vez que tinha estado num café fora no aniversário de uma colega, há um mês, e saíra antes de toda a gente para ir buscar a Lúcia. — Dona Alda, do que está a falar?

— Aí está a Sílvia, a do terceiro andar, sempre a perguntar por ele. E ela tem casa própria e carro, não é como outras que vivem à custa dos outros. A Helena não respondeu. Sentiu um cansaço tão profundo que lhe pareceu ter envelhecido dez anos de repente.

Discutir mais era inútil. Aproximou-se do armário e começou a tirar roupa. Os vestidinhos e as jardineiras da Lúcia, meias grossas e luvas, camisolas e um gorro. A menina observava-a, sem entender porque é que a mãe metia o vestido favorito naquela caixa horrível.

— Lúcia, querida, pega nos peluches que queres levar — disse a Helena, com a maior calma possível. A menina olhou desconcertada para o canto do quarto, onde todo um zoológico de peluches a observava com olhos de vidro. — Todos? — Não, meu amor, só os teus favoritos.

Os outros vimos buscar mais tarde. Essas palavras custaram um esforço sobre-humano. Sabia que esse “mais tarde” podia nunca chegar. — Mãe, e os meus desenhos?

E onde vamos viver? — Vai correr tudo bem, querida. Lembras-te da tia Isabel? Vamos para a casa dela.

Era mentira. A Helena não tinha avisado a amiga, mas naquela altura, às dez da noite, com uma criança e uma caixa, não tinha outra opção. O João continuava de braços cruzados, a olhar para o outro lado, como se a despedida da filha não fosse com ele. A dona Alda abriu a porta da rua, dando a entender que a conversa tinha terminado.

Do patamar vinha uma corrente de ar frio e um cheiro a humidade. — Pai, vens ver-nos? — a Lúcia aproximou-se dele, mas ele recuou um passo. — Vai com a tua mãe, Lúcia.

Logo se vê. A porta fechou-se atrás delas com um estrondo ensurdecedor. A Helena ficou no patamar com a caixa nas mãos, a filha agarrada a ela, e a sensação de que o chão se abria debaixo dos pés. No bolso, tinha duzentos euros.

Todas as suas poupanças. Na rua chovia uma chuva fria que se transformava em granizo. A paragem do autocarro ficava a vinte minutos a pé. A Lúcia soluçava em silêncio, apertando o coelho de peluche.

— Mãe, e se o pai mudar de ideias? A Helena respirou fundo, tentando engolir o nó na garganta. Não podia desabar. Tinha de ser forte pela filha.

— Vamos, pequena. Espera-nos uma grande viagem. E sabes uma coisa? Vai correr tudo bem.

Prometo. Não acreditava nas próprias palavras, mas tinha de as dizer. Chegaram à paragem do autocarro, uma estrutura de vidro coberta de grafites e anúncios. Compra-se ouro.

Vidente Maria, resolvo todos os seus problemas. Precisa-se de pessoal de limpeza. Aluga-se quarto a mulher sozinha, sem maus hábitos. A Helena arrancou o último anúncio e guardou-o no bolso.

Nunca se sabe. Dentro da paragem, uma idosa com um casaco gasto e um gorro de lã estava sentada, abraçada a uma mala. Ao vê-las, afastou-se para lhes dar lugar. — Sentem-se, minhas queridas.

Com uma criança não se pode andar a apanhar frio. Falava com um sotaque marcado do norte. A Helena acenou, agradecida, e sentou-se com a caixa aos pés. — Estão à espera do último autocarro?

O que vai para o centro já não passa a estas horas. Só resta o circular — disse a idosa, tirando uma sandes embrulhada em papel de jornal. A Helena ficou gelada. Não tinha pensado nos horários.

O circular não chegava ao bairro da Isabel. — E para chegar à Alameda? — Só com transbordo no centro, e a estação central já fechou. A situação tornava-se desesperada.

O dinheiro não chegava para um táxi. Do bairro até à Alameda eram pelo menos trinta quilómetros. Não tinham onde passar a noite. — E a senhora, para onde vai?

— Vou para o turno da noite na panificadora industrial. Faço umas horas na limpeza. Com a reforma não chega. De repente, a Helena teve uma ideia descabida.

— E não precisam de gente na fábrica? A idosa olhou-a com interesse. — Gente faz sempre falta, mas pagam pouco e o trabalho é duro. Estás à procura de alguma coisa?

— Sim. A minha filha e eu precisamos de um sítio para ficar enquanto estes maus tempos não passam. A idosa acenou, compreensiva, sem fazer mais perguntas. — Chamo-me Clara Soares.

— Helena. E esta é a minha filha, Lúcia. — Pois olha, Helena, posso recomendar-te ao nosso encarregado. Temos uma residência para trabalhadores ao lado da fábrica, com quartos pequenos.

As casas de banho são partilhadas, é verdade, mas é um teto. E para o trabalho, de certeza que o Sr. Manuel arranja alguma coisa. Talvez no refeitório ou na secção de embalagem.

A Helena não podia acreditar na sua sorte. Há um momento estava a preparar-se para passar a noite numa estação, e de repente aparecia aquele presente do céu. — Clara, nem sei como agradecer. — Ora essa, mulher.

Eu também passei por muito na juventude. Também me separei do marido quando a minha filha tinha cinco anos. Bebia muito, levantava a mão. Pensei que era o fim do mundo, mas safei-me.

A vida é como uma zebra. Uma risca preta, uma risca branca. Agora calhou-te a preta, mas a branca há de vir. Nesse momento, chegou o último autocarro, uma carcaça velha com os assentos rasgados e as janelas embaciadas.

A Clara ajudou com a caixa. — Avó, na panificadora fazem bolas de Berlim? — perguntou a Lúcia. — Claro que sim, minha menina.

Os melhores croissants e napolitanas de chocolate. — E eu vou poder provar? — Bem, se a tua mãe arranjar trabalho connosco, de certeza que sim. A residência era um edifício cinzento de cinco andares, da época do Estado Novo, com o estuque a descascar, mas com janelas iluminadas.

A Clara levou-as à portaria e chamou o Sr. Manuel, o encarregado, que ouviu o relato atropelado da Helena sem fazer perguntas sobre os motivos da sua situação. — Bem, Helena, vou dar-lhe o quarto 32, no terceiro andar. É pequeno, mas está limpo.

Com o trabalho é mais complicado, mas para já pode ajudar no refeitório. Ali fazem sempre falta mãos. O quarto não tinha mais de doze metros quadrados. Uma cama estreita, uma mesa, duas cadeiras, um armário com uma porta partida e uma televisão velha.

Mas estava limpo e tinha cortinas com um estampado de florzinhas. — Mãe, vamos viver aqui para sempre? — perguntou a Lúcia, a bocejar. — Não, meu amor, só por agora.

É temporário. Depois teremos o nosso próprio apartamento. — E o pai? — O pai precisa de tempo para pensar.

Agora dorme. Amanhã temos muitas coisas para fazer. A Lúcia adormeceu logo. A Helena ficou sentada no parapeito da janela, a olhar para as luzes da fábrica.

Lá fora começava a nevar a primeira neve do ano. Lembrou-se de que, em criança, acreditava que a primeira neve realizava desejos. — Que tudo nos corra bem — sussurrou, apoiando a testa no vidro frio. O primeiro dia de trabalho foi esgotante.

A Helena, desacostumada, cansou-se de lavar pratos, descascar batatas e limpar mesas. No fim do dia, doíam-lhe as costas e tinha as mãos avermelhadas pela água quente e pelos detergentes. Mas ao fim de uma semana, já se habituara ao ritmo. A Beatriz, a mulher do encarregado, aceitou tomar conta da Lúcia.

Era uma mulher baixinha e rechonchuda, com olhos amáveis e o cabelo branco apanhado num coque impecável. A menina gostou dela desde o primeiro momento. — Deus não me deu netos próprios — disse ela —, por isso, ao menos entretenho-me com a tua Lúcia. Posso ensinar-lhe a ler e um pouco de música.

A Lúcia adaptou-se depressa. Mas a Helena notava que a filha se tornara mais introvertida. Às vezes, encontrava-a sentada junto à janela com uma expressão triste. — Tem saudades do pai?

— E da avó Alda também. Embora se queixasse muito, lia-me histórias e fazia rissóis de atum. Porque é que não podemos voltar para casa? Essa pergunta era como uma punhalada de cada vez.

A Helena não sabia o que responder. Passou um mês. Do João, nenhuma chamada, nem uma mensagem. Como se ela e a Lúcia tivessem deixado de existir para ele.

Uma noite, quando a Lúcia já dormia, a Beatriz bateu à porta com uma chávena de chá e um pedaço de bolo. — Queria perguntar-te uma coisa. Tu tens alguma paixão, algum hobby? A Helena ficou a pensar.

Antes de se casar, adorava desenhar. Até tentara entrar na escola de Belas Artes, mas não a admitiram. Depois, o casamento, o nascimento da Lúcia e as preocupações diárias deixaram a arte em segundo plano. — Desenhava, mas há muito tempo.

— E porque é que deixaste? Nunca é tarde para voltar ao que a alma nos pede. A tua Lúcia passa o dia a desenhar. Se calhar, saiu a ti.

Tenho uma pasta cheia de desenhos dela. Queres que te mostre? No dia seguinte, a Beatriz trouxe-lhe a pasta. A Helena ficou espantada.

A filha, que antes mal se interessava por lápis de cor, criava imagens assombrosas, vivas, com uma perspetiva e um sentido de cor invulgares para uma menina de seis anos. — Gosto especialmente deste — disse a Beatriz, mostrando-lhe o desenho de uma menina de pé numa colina sob um imenso céu estrelado. — Sabes o que a Lúcia me disse? “Sou eu a olhar para as estrelas e a pedir um desejo.

Que a mãe e a mim nos corra tudo bem. ”

A Helena ficou com as lágrimas nos olhos. — Acho que a devias inscrever numa escola de arte — continuou a Beatriz. — Há uma muito boa na cidade.

Admitem crianças a partir dos sete anos, mas podem abrir uma exceção se a criança tiver um dom. E a tua Lúcia, sem dúvida, tem. — Não posso pagar. — Informa-te primeiro.

Se calhar, há oficinas gratuitas ou algum tipo de bolsa. Não se pode desperdiçar um talento assim. A Helena tirou o dia de folga e foi à escola de arte. O diretor, David Almeida, um homem de cabelo branco e olhos vivazes, examinou os desenhos da Lúcia através dos óculos na ponta do nariz.

— Muito interessante. Não tem técnica, claro, mas o sentido da cor e a composição são espantosos para a idade dela. Normalmente admitimos a partir dos sete anos, mas podíamos abrir uma exceção. Só que a matrícula são cento e cinquenta euros por mês.

Mas — levantou um dedo — vamos realizar o concurso de desenho infantil da cidade, “O Mundo, através dos olhos de uma criança”. Se a sua filha participar e ganhar um prémio, podíamos matriculá-la em condições especiais. Até de graça. A Helena comprou à Lúcia um bloco de desenho, uma caixa de aguarelas e pincéis simples, mas de boa qualidade.

Era um luxo que mal podia pagar, mas sentia que estava a fazer a coisa certa. — É para mim, a sério? — os olhos da menina iluminaram-se. — Para ti, meu amor.

Tens muito talento, sabias? — A tia Beatriz também diz. Mas o pai ria-se sempre quando eu desenhava. E a avó Alda dizia que era uma tolice.

A Helena sentiu uma onda de indignação. Como é que não se tinham apercebido do talento da menina? — O pai e a avó estavam enganados. Vais desenhar tudo o que quiseres.

Há um concurso de desenho na cidade. Queres participar? — Achas que eu conseguia? — Claro que sim.

Juntas vamos preparar o melhor desenho de todos. O tema é “O Mundo, através dos olhos de uma criança”. A Lúcia ficou pensativa. — Vou desenhar a nossa nova casa e as pessoas que nos ajudam.

E a fábrica de pão e os bolos. E também as estrelas. Muitas, muitas estrelas. No concurso, a Lúcia ganhou o primeiro prémio na categoria até sete anos, com a obra “Céu Estrelado sobre a Cidade”.

Quando subiu ao palco, o diretor perguntou-lhe o que queria expressar. — Desenhei a noite e as estrelas, e a minha mãe e eu. Estamos a olhar para as estrelas e a pedir um desejo. Que tudo nos corra bem.

E vai cumprir-se, porque estamos juntas. David Almeida pigarreou e anunciou:

— Tens o prazer de estudar gratuitamente na nossa escola de arte a partir de setembro. Parabéns. A vida começou a encaminhar-se.

O Sr. Julião, o editor do jornal da fábrica, viu os desenhos da Helena e ofereceu-lhe um lugar como ilustradora, meio expediente. A Lúcia ia duas vezes por semana às aulas de preparação. O quartinho da residência transformou-se num ninho acolhedor, com as paredes cheias de desenhos, plantas oferecidas pelas vizinhas, cortinas novas cosidas pela Marta.

Passaram três meses. Do João continuava a não haver notícias. Depois, num dia de abril, a Clara apareceu com uma revista nacional, “Jovens Talentos de Portugal”. Numa página central, havia uma foto da Lúcia e do seu desenho do céu estrelado.

— Quem diria, a nossa Lúcia famosa em todo o país. A Lúcia foi convidada para o concurso nacional de jovens artistas, em Lisboa. Todas as despesas eram pagas pelo Ministério da Cultura. Na redação, o Sr.

Julião recebeu a notícia com entusiasmo. — Claro que vão. É uma oportunidade maravilhosa para a menina. Já nos desenrascamos com o trabalho.

Em Lisboa, a Lúcia criou uma aguarela intitulada “Um Sonho”. Uma casa grande e luminosa junto ao mar, com dois cavaletes no alpendre, uma menina e uma mulher. Mais além, um homem a olhar para elas com carinho. — É o nosso sonho, mãe — disse a Lúcia.

— A nossa casa junto ao mar, onde vamos viver e pintar. E o pai vai voltar para nós. A Helena não soube o que responder. Mas o júri soube.

A Lúcia ganhou o primeiro prémio. Na cerimónia, aproximaram-se representantes do ministério e diretores de escolas de arte, com ofertas de bolsas e exposições. Na mesma noite, o Sr. Julião ligou com outra notícia.

Uma editora da capital vira os trabalhos da Helena e queria contratá-la como ilustradora de um livro infantil. — Tem talento, que é o principal. O resto aprende-se. Passou um ano.

O primeiro livro ilustrado pela Helena tornou-se um sucesso de vendas. Ela já trabalhava no seu próprio livro. Alugaram um pequeno apartamento de um quarto, mas seu. A Lúcia brilhava na escola e na arte.

Num dia quente de setembro, tocou a campainha. A Helena pensou que seria um estafeta. Mas à porta estava o João. Tinha envelhecido.

Estava mais moreno, com novas rugas, mas era ele. — Olá, Helena. — Olá. — Posso entrar?

Preciso de falar. Entrou com cautela no apartamento. — Vi por acaso um artigo numa revista sobre uma menina talentosa e a sua mãe ilustradora. Vi a foto e não podia acreditar.

Comecei a procurar. Para que vieste, João? Ele demorou a responder. — Para te pedir desculpa.

Por tudo. Por vos ter posto na rua, por ter sido um cobarde e me deixar influenciar pela minha mãe, por não ter lutado pela minha família. Não peço que me perdoes. Sei que não o mereço.

Só queria que soubesses que me apercebi do meu erro. E lamento muito. — E a tua mãe? — Morreu há seis meses.

Um enfarte. E sabes o mais estranho? Antes de morrer, pediu-me desculpa. Disse que se tinha enganado, que tinha destruído a nossa família pelos seus ciúmes.

Que eu tinha de vos encontrar. — E a Lúcia? Como está? — Está ótima.

Cresce, estuda, desenha. Pergunta por ti muitas vezes. Não guarda rancor. As crianças são melhores que nós.

Quando a porta se abriu e se ouviu a voz da Lúcia, o João ficou pálido. — Mãe, já estou em casa! — Temos visita, querida. A Lúcia olhou para a cozinha e ficou paralisada.

Depois os olhos iluminaram-se. — Pai! — gritou e correu para os braços dele. O João levantou-a, abraçou-a, escondeu o rosto no cabelo dela.

Lágrimas corriam-lhe pelas bochechas. — Minha filha, quanto cresceste. — Pai, tive tantas saudades tuas. Sabia que voltavas.

Pedia às estrelas todas as noites. A Helena saiu da cozinha para os deixar a sós. O João seguiu-a, com a Lúcia radiante pela mão. — Mãe, o pai quer ficar connosco.

Diz que gosta muito de nós e que nunca mais vai embora. Pode? — Não é assim tão simples, meu amor — disse a Helena com cuidado. — Às vezes, os adultos precisam de tempo para se perdoarem e começarem de novo.

— Mas tu vais perdoá-lo, não vais? — os olhos da Lúcia encheram-se de lágrimas. — Lembras-te do meu desenho? A casa junto ao mar, onde estamos todos juntos e felizes.

— Não te peço que me deixes entrar na vossa vida de repente — disse o João em voz baixa. — Posso vir ver a Lúcia, ajudar-vos no que puder. E depois logo se vê. A Helena acenou.

— Está bem. Podes vir. A Lúcia vai adorar. Naquela noite, quando a Lúcia dormia e o João se tinha ido embora para um hotel próximo, a Helena sentou-se junto à janela a olhar para as estrelas.

Pensava no quão espantosa é a vida, em como da mais profunda escuridão pode nascer a luz. Há um ano, estava à porta de uma residência com uma caixa, sem saber o que fazer. Hoje tinha um trabalho que amava, uma casa acolhedora, uma filha bem-sucedida, e talvez a oportunidade de um novo começo. Na manhã seguinte, acordou com uma chamada do editor.

— Helena, o seu livro ganhou um prémio num concurso internacional. Convidam-na para a cerimónia, em Itália. E pode levar a sua filha. Tudo pago.

Itália. O berço da arte. Ela e a Lúcia veriam Roma, Florença, Veneza. Lembrou-se do desenho da filha, a casa junto ao mar.

Talvez fosse um sinal. O primeiro passo. A Helena sorriu e foi acordar a menina. A vida continuava, e era maravilhosa, com todas as suas reviravoltas inesperadas, as suas provações e os seus milagres.

O importante era não desistir e acreditar em si mesmo. Como disse uma vez a Lúcia, tudo se cumprirá. Porque estamos juntos.