Estava no primeiro dia como funcionário efetivo, a caminho do almoço com a equipa, quando um veterano me ligou a rir: “Ouvi dizer que ontem fizeste figuras no ensaio. O chefe ficou chateado…

Estava no primeiro dia como funcionário efetivo, a caminho do almoço com a equipa, quando um veterano me ligou a rir: "Ouvi dizer que ontem fizeste figuras no ensaio. O chefe ficou chateado...

O volante rangeu quando virei para passar pela lombada. Aquele som seco, de plástico velho a ceder, veio na hora certa para me lembrar que o carro não era meu. Era emprestado, como quase tudo nesta fase. Mas hoje era diferente.

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Hoje eu era funcionário efetivo. Três meses de estágio tinham acabado. Eu finalmente tinha passado para o quadro oficial da empresa. Enquanto o GPS anunciava a zona de radares e o limite de 80 km/h, eu repetia para mim mesmo que precisava chegar antes das duas.

O almoço em grupo era às duas, mas eles sempre pediam para chegar uma hora antes. Não queria arriscar nada no primeiro dia. Liguei para o estúdio para avisar que estava a caminho. — Estou a chegar, sim.

Passei na lavandaria primeiro para deixar umas roupas. Não tive tempo de lavar nada ontem, e ando com medo de cheirar mal no estúdio. Vou borrifar um perfume antes de entrar. Do outro lado, uma voz respondeu com um riso seco.

Eu tinha entrado no elevador naquela manhã com um nó no estômago. Durante meses, cada ensaio era uma prova. Havia dias em que eu rodopiava contra a parede, a abanar a anca como um desesperado, porque tinha a certeza de que não ia agradar. Os veteranos olhavam para mim sem dizer nada.

Eu jurava que ia ser despedido a qualquer momento. Quantas vezes não pensei: “Se eu não atingir 75% do que eles esperam, estou frito. ” Essa ideia perseguiu-me todas as noites. Mas agora eu era oficial.

Tinham-me dito que, a partir de hoje, eu era um membro regular. O piso do estúdio já não era um lugar onde eu entrava em bicos de pés. Eu pertencia àquele sítio. No carro, continuei a falar com quem ia ouvindo a transmissão.

— Obrigado por todo o apoio. O período de estágio acabou mesmo. Dormi que nem uma pedra ontem à noite, foi um alívio tão grande. Agora é trabalhar a sério.

Os meus olhos procuravam um restaurante perto do estúdio. Tinham-me dito que havia um sítio com comida caseira. Eu queria comer uma sopa de miso com arroz, qualquer coisa quente que me assentasse o estômago antes da reunião. — Vou comer qualquer coisa rápida e já apareço.

Estou a 20 minutos. Um pensamento não me largava. Ontem, no ensaio, eu tinha feito uma figura ridícula. Estava exausto, com pressa, e acabei por cair numa brincadeira idiota à frente de um veterano.

Não sei se ele percebeu que era para aliviar o ambiente ou se achou que eu era simplesmente um palhaço. Quando me apercebi do que tinha feito, tentei explicar: “Eu não sou assim, juro. ” Mas a imagem já tinha ficado. Hoje, um dos rapazes mais velhos tinha comentado isso mesmo na transmissão:

— Ouvi dizer que ontem fizeste figuras no ensaio.

Cuidado com isso, não é? Tentei rir, mas por dentro estava a tremer. — Foi só para descontrair, prometo. Mas vou ter mais cuidado, sim.

Havia também a questão do cartão que eu tinha prometido enviar a um fã. Três fotografias, tinha dito. Mas ele pediu para eu escrever mensagens curtas. Eu ainda estava a tentar encontrar as melhores imagens.

Uma até me fez rir: uma foto minha da época em que eu era mais novo, antes de entrar na empresa. Outro veterano, ao ver o meu carro parado no trânsito, comentou:

— Olha, o nosso funcionário efetivo já não se deixa passar para trás, hem? — Não, não é isso. É só que hoje é o meu primeiro dia.

Não quero chegar atrasado. — Faz bem. Continua assim. Eu agradeci, mas a dúvida continuava a roer-me.

E se aquela brincadeira de ontem tivesse deixado uma impressão errada? O pessoal mais velho não perdoa facilmente certas coisas. E eu tinha ouvido dizer que um dos chefes ficou chateado com alguma coisa que eu fiz ontem na transmissão. — Disseram-me que ele ficou aborrecido comigo ontem.

Eu sei o que foi. Não foi de propósito, mas vou pedir desculpa e explicar o que aconteceu. Um dos meus colegas respondeu:

— Ele é do tipo que perdoa se vires que estás arrependido. Vai lá falar com ele.

— Vou. Depois do almoço, trato disso. O carro continuou a avançar devagar pelo trânsito da hora de almoço. As ruas estavam cheias de gente a sair dos escritórios.

Eu olhava para todos aqueles rostos apressados e pensava que, finalmente, eu também tinha um lugar fixo para onde ir. Já não era o estagiário que entrava com medo. Era o membro efetivo que tinha de provar que merecia estar ali. Cheguei ao restaurante.

Uma senhora sorriu-me da porta. — É só um lugar, sim? — Sim, um lugar. Quero uma sopa de miso com arroz, se tiver.

— Temos, sim. Senta-te ali. Sentei-me perto da janela, com o telemóvel ainda a transmitir. As pessoas ao lado olhavam de vez em quando, mas eu estava concentrado na comida.

A sopa chegou quente, fumegante. Peguei nos pauzinhos e comi devagar, a sentir o caldo a aquecer-me o corpo. Enquanto comia, fiz uma lista mental do que precisava de fazer à tarde: a reunião às duas, depois o ensaio com o meu novo parceiro, e depois o pedido de desculpas ao chefe. Não podia falhar em nada.

O meu lugar dependia disso. Paguei a conta, levantei-me e saí para a rua. O sol estava forte. Respirei fundo e comecei a andar em direção ao estúdio.

Cada passo parecia mais firme do que antes. Não era só um emprego. Era a prova de que eu tinha aguentado. E agora tinha de continuar a aguentar.

Quando cheguei à porta do prédio, parei um segundo. Dentro, estavam à minha espera os veteranos, o meu parceiro novo, o chefe que eu tinha de enfrentar e todas as provas que ainda estavam por vir. Empurrei a porta e entrei.