Meu filho parou o carro no meio da estrada de terra pouco antes do meio-dia. O sol caía forte, e a poeira entrava pelas frestas das janelas. Ele chegou 20 minutos adiantado, o que já era estranho, porque nos últimos anos Ronaldo nunca chegava na hora certa. Ele estava com uma pasta no banco de trás e um celular novo preso no painel, cheio de mensagens que ele desviava os olhos para não ler.

Eu sabia o que estava acontecendo, ou pelo menos achava que sabia. Fazia 4 meses que eu carregava no bolso a lista que Terezinha deixou, escrita em papel dobrado, com a caligrafia dela de quem nunca foi à escola depois da quarta série. Ela pedia para eu verificar as contas, os terrenos, o galpão que compramos juntos em Jequier, e confiar em ninguém, nem nele. Principalmente nele.
Terezinha descansava a 4 horas dali, num cemitério no interior da Bahia. Eu passei a manhã ao lado do túmulo dela, falando sozinho, como quem conversa com o vento. Quando Ronaldo apareceu, ele nem olhou para a sepultura. Ficou no carro, com o ar-condicionado no máximo, olhando para o celular.
Depois ele disse que precisávamos ir para a cidade, que havia um contrato para eu assinar, e que a gente podia conversar no caminho. Eu entrei no carona mesmo assim, porque queria ver até onde ele iria. No meio da estrada, no quilômetro 32, ele parou o carro sem avisar. O motor ficou ligado, as mãos dele tremiam no volante.
Ele virou para mim e disse que o galpão seria vendido, que o dinheiro já estava comprometido, e que eu precisava assinar uns papéis. Quando eu perguntei sobre o valor, ele respondeu com calma demais: R$ 800. 000. Eu conheço meu filho.
Quando ele fica calmo demais, é porque já decidiu alguma coisa. Ele olhou para o relógio, depois para o céu, e disse que a estrada estava perigosa naquele horário, que o calor fazia mal, e que eu deveria descer do carro para esticar as pernas. Era próximo de uma curva fechada, onde a vista não alcançava a estrada principal. Eu saí.
Ele também. Quando ele abriu o porta-malas, eu vi o tanque de gasolina reserva. Ele disse que o carro estava com problema, que precisava abastecer, e que eu podia esperar na sombra daquela árvore seca enquanto ele resolvia. Foi então que eu entendi.
Não era o carro que tinha problema. Ele ficou de pé ao lado da porta, com o celular na mão, digitando rápido. Eu vi ele mandar uma mensagem e depois guardar o aparelho no bolso. Ele olhou para mim uma última vez, não com culpa nem medo, mas com um cálculo frio.
Ele disse que ia até a cidade buscar ajuda e que voltaria. Ele entrou no carro, ligou o motor e me deixou ali, no meio do nada. O calor parecia aumentar a cada minuto. Eu tinha água, tinha a lista de Terezinha no bolso, e tinha certeza do que estava acontecendo.
Ele não ia voltar. Ele ia me deixar ali até o sol baixar, ou até alguém me achar, ou até ninguém me achar. Eu comecei a caminhar pela estrada. Não tinha outro caminho.
Depois de mais ou menos 2 km, ouvi um barulho atrás. Era uma caminhonete, parada na sombra de um mandacaru. O vidro desceu devagar, e um homem de camiseta cinza desbotada e óculos escuros pendurados no pescoço apareceu. Ele me olhou de cima a baixo e abriu a porta.
“O ar-condicionado tá no máximo e eu preciso te mostrar uma coisa”, disse ele. Eu entrei, porque no sertão a gente não pergunta demais quando o sol está a pino. Ele dirigiu por alguns minutos, parou na frente de uma casa simples e abriu um notebook fixado no painel. Disse que se chamava Milton, que era advogado, e que tinha passado 20 anos apresentando provas em audiência.
Ele apertou o play. O vídeo mostrava a estrada do quilômetro 32, vista de cima, como se tivesse sido gravado por um drone. Eu vi o carro de Ronaldo parado, vi eu descendo, vi ele ficando ao lado da porta com o celular na mão. E vi uma segunda pessoa escondida atrás de um barranco, com uma câmera grande angular, filmando tudo.
“Lancei quando vocês saíram do cemitério”, disse Milton. “Ele contratou dois homens para te acompanhar na estrada. ”
Eu fiquei olhando a tela, o rosto do meu filho congelado no quadro, boca aberta no meio de uma frase, mandando o próprio pai descer do carro para morrer. Milton fechou o notebook e disse que tinha mais gravações, que a linha do tempo estava completa, e que a pasta com as provas estava guardada.
Ele me olhou como quem sabia tudo, como quem já tinha visto filhos fazerem coisas piores. “Terezinha me procurou antes de morrer”, disse ele. “Ela deixou tudo documentado. O galpão, os terrenos, as contas.
Ela sabia que Ronaldo ia tentar algo assim. ”
Eu senti o bolso da camisa pesado com a lista de Terezinha, que eu já tinha lido tantas vezes que sabia de cor. Ela escreveu que eu deveria confiar no Dr. Milton se algo acontecesse, que ele era o único que tinha guardado os originais.
Ela escreveu também que eu não deveria ter medo, porque a verdade sempre aparece, mesmo no meio do sertão. Milton me deixou em casa, no final da tarde, e disse que o resto da história seria contado em outro momento, porque havia um processo para começar, um contrato para anular e um filho para confrontar. Naquela noite, eu sentei na varanda e olhei para o céu estrelado. Pensei em Terezinha, na forma como ela sempre soube das coisas antes de todo mundo.
Pensei no que ela teria dito se visse o filho dela planejando o que planejou. No dia seguinte, Ronaldo apareceu em casa, com flores e um sorriso largo, perguntando se eu tinha conseguido voltar da estrada. Ele disse que tinha dado um problema no carro demais, que tinha voltado e não me encontrado, que a preocupação quase o matou. Ele não sabia que eu já tinha visto o vídeo.
Ele não sabia que eu já tinha falado com o Dr. Milton. Ele não sabia que a pasta com as provas, as gravações, os recibos e a carta de Terezinha já estava nas mãos de quem poderia fazer alguma coisa. Ele sentou na cadeira da varanda, colocou as flores na mesa e disse que estava trabalhando em um novo negócio, que precisava da minha assinatura para um documento rapidinho.
Ele já chegou com a caneta na mão. Eu olhei para ele, para as flores, que eram as mesmas que ele comprava quando queria algo de Terezinha, e disse que eu precisava pensar. Ele sorriu, disse que não tinha pressa, e que me ligava no dia seguinte. Quando ele saiu, eu liguei para o Dr.
Milton e marquei a reunião para a semana seguinte. Passei a semana inteira organizando os papéis que Terezinha deixou no fundo do guarda-roupa, dentro de uma caixa de sapatos, com cartas, escrituras, recibos e uma cópia da chave do galpão. Milton me recebeu no escritório, me ofereceu café e abriu um processo que eu nem sabia que existia, contra a venda do galpão, contra a conta no banco em nome de Ronaldo, contra tudo que ele tinha feito nas costas da mãe. “Agora a gente espera”, disse Milton.
“Ele vai errar de novo. ”
Eu esperei. Foram meses. Ronaldo ligava toda semana, com uma desculpa nova, um pedido novo, uma história nova.
Eu escutava, dizia que sim, que estava tudo bem, e desligava. Depois de 10 dias de silêncio dele, eu recebi uma mensagem do Dr. Milton dizendo que o processo estava avançando, que a venda tinha sido anulada e que Ronaldo tinha sido notificado. Eu fui ao escritório para assinar os últimos papéis.
Milton me esperava com uma pasta grossa. “Ele vai chegar atrasado hoje”, disse Milton. “Ele está com problemas demais. ” Quando eu saí, vi o carro de Ronaldo estacionado do lado de fora.
Ele não desceu. Ele ficou sentado, olhando para o escritório, sem coragem de entrar. Eu passei por ele sem parar. Só olhei de relance.
Ele tinha o rosto pálido, os olhos vermelhos, e a mão tremendo no volante. Ele não era mais o mesmo homem que me deixou no meio da estrada, com o celular na mão e o olhar frio. Na semana seguinte, ele apareceu na minha casa com um bilhete escrito à mão, em inglês, dizendo que sentia muito. Ele falou de Terezinha, que ela sempre soube que ele era fraco, que ele se perdeu no caminho, que ele queria consertar as coisas.
Eu li o bilhete num silêncio que encheu a sala. Ronaldo olhava o chão, esperando uma resposta, a mesma posição que ele fazia quando era menino e quebrava alguma coisa em casa. O tempo passou. As temporadas de seca, de chuva, de poeira.
O processo terminou, o galpão ficou com a família, e eu voltei a visitar o túmulo de Terezinha, agora com um buquê de flores naturais, porque ela odiava flores de plástico. Ronaldo nunca mais falou em negócios comigo. Ele aparecia de vez em quando, sentava na varanda em silêncio, bebia café e olhava para o horizonte. Um dia, ele apareceu com uma caixa de papelão e disse que era tudo o que restou da contabilidade do galpão, que ele tinha decidido entregar tudo, porque não aguentava mais a culpa.
Eu não abri a caixa na frente dele. Só aceitei e agradeci. Quando ele saiu, eu vi o carro dele pela última vez, com o adesivo da locadora ainda no vidro traseiro, e pensei que o tempo tinha feito o trabalho dele. Agora, sentado na varanda, com a lista de Terezinha na mão, eu olho para a estrada de terra que leva à cidade e penso em tudo o que aconteceu, nos caminhos que cada um escolheu, nas coisas que ficaram por dizer.
Terezinha dizia que o sertão é assim: a gente acha que sabe o caminho, mas é o caminho que vai sabendo da gente.


