Annika abriu os olhos um minuto antes de o despertador tocar. Depois de quatro anos, o corpo já acordava sozinho às cinco da manhã, sem esperar pelo som eletrónico. Lá fora ainda era noite fechada, uma noite fria de fevereiro, e apenas um candeeiro distante projetava uma mancha amarelada no teto. Ao lado dela, Torsten ressonava de bruços.

O cobertor tinha escorregado e deixava à vista as costas largas, com um conjunto de sinais. As mesmas costas contra as quais ela gostava de se encostar para sentir o cheiro familiar. Agora, aquele cheiro parecia-lhe estranho, misturado com suor velho e fumo de cigarro. Com cuidado, para não acordar o marido, Annika saiu da cama.
O chão gelado queimou-lhe as solas dos pés. O aquecimento da metade da casa onde viviam quase não funcionava. Toda a água quente e o calor iam para o outro lado, para a parte onde moravam a sogra, Johanna Schmidt, e a filha dela, Silke. – Não faz mal – disse Annika em silêncio, como sempre.
– Em breve chega a primavera. Foi para a casa de banho sem fazer barulho, pisando com cuidado para as tábuas do soalho não rangerem. No espelho pequeno, por cima do lavatório, refletiu-se um rosto magro, com olheiras fundas. Noventa e oito anos, mas parecia ter trinta e cinco.
O cabelo castanho, que antes fora farto, agora estava mais fino e sem brilho, e nos cantos dos olhos já se viam as primeiras rugas. Não eram rugas de riso. Eram rugas de tensão constante e de noites sem dormir. Depois de lavar o rosto com água gelada, Annika foi para a cozinha.
[…] Durante todos aqueles anos, eles tinham mentido. […] Annika foi para a paragem do autocarro e sentiu uma estranha leveza, como se tivesse tirado dos ombros um peso invisível que carregara durante muito tempo. […] Antigamente, Annika tratava de tudo, arranjava tempo entre os turnos. […] Essa é a versão oficial, mas na realidade… […] E na linha do destinatário, onde dizia Dalhens, estava o nome dela: Annika Gromow.
[…] Tudo aquilo tinha sido uma mentira desde o início. […] – Eu envelheci vinte anos, não foi? […] Ele chegou em vinte minutos. […] Annika pegou no envelope, abriu-o, percorreu o texto com os olhos.
[…] Ela saiu de lá uma pessoa diferente, calada, pensativa, com os olhos apagados onde, aos poucos, uma pequena luz nova começava a brilhar. […] O casamento aconteceu na primavera, quando as macieiras estavam em flor, pequeno, sossegado, só com os amigos mais próximos. […]


