Numa manhã de segunda-feira, em Tóquio, um menino de dez anos, chamado Haruto, estava sentado à mesa da sala. Ele não era uma criança comum. Herdara da mãe um dom misterioso, uma habilidade que poucos no mundo possuíam: quando olhava para o rosto de alguém, conseguia ver o destino dessa pessoa. Algumas vezes via sorrisos, outras via lágrimas.

Mas naquele dia, diante de Richard Holt, o homem mais poderoso dos Estados Unidos, Haruto viu algo que o gelou por dentro. Richard Holt estava no centro das atenções, cercado por empresários, políticos e câmeras. Ele era o homem que controlava a economia mundial, conhecido pela lógica fria e pela racionalidade implacável. Para ele, tudo se resumia a números, provas e resultados.
Nada de intuições, nada de pressentimentos. — Então este é o garoto que herdou o dom da mãe? — disse Richard, com um sorriso de canto. — Dizem que você consegue ver o destino das pessoas.
Impressionante, mas impossível. Haruto não respondeu. Ficou parado, olhando fixamente para o magnata. Seus olhos brilhavam com uma estranha certeza.
Ele viu algo escuro, algo que parecia uma sombra. Finalmente, com a voz firme, ele disse:
— Sr. Holt, o senhor está ao lado de um traidor. A sala ficou em silêncio.
Richard Holt levantou uma sobrancelha. — Um traidor? Quem? — A pessoa que está ao seu lado direito — respondeu Haruto, apontando para o vice-presidente da empresa, um homem de confiança há mais de dez anos.
Richard Holt deu uma gargalhada. Todos riram com ele. A ideia era absurda. — Jovem, se você está certo, eu dou um bilhão de ienes.
Mas, se estiver errado, seu pai vai para a prisão por fraude. Aceita o desafio? Haruto acenou com a cabeça. Seu coração batia forte, mas ele não duvidava de si mesmo.
Ele sabia o que tinha visto. — Sabe o que viu? — perguntou o pai, mais tarde, em casa. — Sim — respondeu Haruto.
— Vi a queda dele. Vi a verdade. Na manhã seguinte, a notícia chocou o mundo: o vice-presidente da Holt Corporation havia sido preso por vazar informações confidenciais. Richard Holt ficou pálido.
Ele se lembrou das palavras do menino. Imediatamente, mandou buscar Haruto. — Como você sabia? — perguntou Richard, com a voz trêmula.
— Eu vejo — respondeu Haruto. — Vejo o que os outros não veem. Richard Holt, o império da lógica, se ajoelhou diante de um menino de dez anos. — Eu quero que você trabalhe para mim, garoto.
Mas Haruto balançou a cabeça. — Eu não vendo o meu dom, senhor. Ele não pertence a mim. Pertence à minha mãe.
E virou as costas, deixando o magnata sem palavras. Desde aquele dia, em todo o mundo, políticos, empresários e reis tentaram encontrar Haruto para descobrir o futuro. Mas ele desapareceu. Anos depois, um jovem de vinte e cinco anos caminhava por uma rua de Tóquio.
Seu nome era Haruto. Ele ainda via o que ninguém via. Mas apenas o usava para ajudar os simples, os humildes, os que ninguém lembrava. Numa noite, ele encontrou uma menina chorando na rua.
— Qual é o problema? — perguntou ele. — Minha mãe está doente — disse a menina. — E eu não tenho dinheiro para o tratamento.
Haruto sorriu. Ele olhou para o rosto da menina, depois para o dela. — Não se preocupe — disse ele. — Eu vou ajudar.
Ele pegou a mão da menina e caminhou em direção ao hospital. Talvez ele não pudesse mudar o mundo, mas podia mudar o mundo de alguém. Porque às vezes, a verdade mais poderosa não está nos números, nem nas provas.
Está no coração daqueles que acreditam no impossível.


