Estou a passar o número para cima, assim ninguém vai sem querer tocar no sítio errado. Pronto, assim fica bem seguro. Deixa-me só verificar se ficou tudo no sítio. Está aqui um sítio agradável, à sombra, que até apetece estar parado, mas eu não vim para aqui deixar o sol trabalhar por mim.

Com este tempo, o que me apetece mesmo é andar de calções e fazer quilómetros. Ainda por cima, tenho de pensar nos exercícios, tipo flexões, como o Mike Tyson fazia de manhã. Devia, devia mesmo, mas só de pensar em acordar mais cedo para isso já me dá preguiça. Tu falas em fazer flexões e eu só penso em ficar mais cinco minutos na cama.
Antigamente, nem precisava de pensar nisso. Bastava ir trabalhar e movimento era o que não faltava. Trabalhava dois dias, descansava dois, e até nos dias de folga acabava por andar sempre de um lado para o outro. Mas agora, com tanta chuva que tem caído, fiquei mesmo parado em casa.
Não saí para lado nenhum. E estar parado é mau, o corpo desacostuma-se e a cabeça também. Mas hoje o tempo está de outro mundo, por isso decidiu-se: vou apanhar ar, vou trabalhar, vou deixar de ser preguiçoso. Temos de nos obrigar a sair da cama e fazer alguma coisa.
Se eu não me obrigar, fico o dia inteiro enfiado a olhar para o ecrã do computador. Cheguei ao nosso supermercado habitual. Já está ali mesmo ao lado. Há ali uma fila de encomendas à espera, e isso é bom.
Não gosto de estar sem trabalhar, gosto de ter movimento, de ter para onde ir. Estes intervalos são maus. Normal, o corpo habitua-se num mês, mas tenho de voltar ao ritmo. E não posso ficar a olhar para o computador, que é só uma desculpa para não fazer nada.
A melhor parte é que não preciso de ir para longe. Desta vez, as entregas são mesmo ao pé, nestes prédios aqui ao lado. Mas claro, não podia ser tão simples. Há sempre uma encomenda ali, outra acolá.
Olha, uma para a 206, afinal vim parar mesmo aqui. E mais uma para a rua 67. Isso mesmo, outra para o mesmo sítio. E ainda estou a ver outra a ser preparada.
Isto está a correr bem, vou já apanhar duas ou três de uma vez. Uma para a Lénine 88, também ótimo. Assim apanho vários pedidos ao mesmo tempo e não ando para trás e para a frente à toa. O empregado está a tratar disso.
Olá, boa tarde. Sim, sou eu. Estou aqui para a recolha. Bom ver-vos.
Ando a fazer entregas, é uma espécie de viagem, não é? Há quem sonhe a vida inteira em ir para longe e depois fica com medo de comprar o bilhete. Eu no ano passado decidi-me e fui. Já não vai dar para ir para longe este ano, mas pelo menos ando por aqui.
É uma espécie de aventura. A empregada chama-me pelo nome de sempre, uma maneira simpática de me cumprimentar. Há ali duas encomendas à espera: uma que está pronta, da secção de congelados, e outra que ainda estão a preparar. E há mais uma ao lado dessa.
Espero que não demorem muito. Está lá uma fila, mas é o que é. Enquanto espero, vou dizendo que estive em Chuboksary. Gostei muito da parte histórica da cidade, é mesmo bonita.
E respondo que sim, que correu tudo bem. De repente, alguém me chama uma coisa que me faz parar. Melhor blogger da Rússia, é o que dizem. Eu não sou blogger, sou streamer.
É preciso fazer a distinção. E ainda dizem que sou uma lenda da CEI. Isso é muito elogio para mim, mas agradeço. Ah, já está pronta a encomenda.
O número é 8727. Sim, é essa. E aquela outra ali é de congelados. Está bem, levo as duas.
Obrigado, obrigado, até à próxima. Foi um prazer. Pego nas encomendas e vou a caminho. O código do cofre está bem apertado.
Temos aqui um verdadeiro artista da escrita, só podia ser o senhor Babai. Vamos então para a rua 67. Estou a ver o número, mas ainda não é este. É mais à frente.
Este é o 71. Então aquela encomenda deve ser para o 67. O cliente vem à porta e vejo que pediu muitos produtos, vários sacos. Qual é o número, por favor?
Qual? Está aqui, é este. Sim, é o 67. Saio dali e vou para a Lénine 88.
Mais uma entrega. Entretanto, o telemóvel não sossega. Aparece outra encomenda, e logo a seguir outra. Isto é bom, quer dizer que não vou parar.
A vida de entregas é sempre uma caixinha de surpresas, nunca sei bem o que vou encontrar a seguir. Há dias em que as encomendas são todas pertinho, e outros em que passo o dia todo a atravessar a cidade. Hoje está a dar para ir buscar de tudo um pouco e entregar sempre a tempo. Chego ao prédio da Lénine e toco à campainha.
Uma senhora atende e diz que já está a descer. Espero um pouco, com o sol a aquecer. Não custa nada esperar, o tempo está bom e eu gosto de ver o movimento da rua. A senhora chega, agradeço-lhe e ela agradece-me a mim.
Sigo para a próxima. Depois de entregar, olho para o telemóvel e vejo outra ordem. É perto, num café ali na esquina. Vou lá, apresento-me, e o empregado já tem o pedido pronto.
Está a correr bem. Quando saio, dou por mim a pensar que nem sempre foi assim tão fácil. Houve uma altura em que ficava em casa semanas a fio, sem vontade de sair, sem vontade de fazer nada. O computador era a minha única companhia e cada vez mexia-me menos.
Foi preciso obrigar-me a dar o primeiro passo, a sair à rua, a voltar ao ritmo. E agora aqui estou, a fazer entregas, a conhecer pessoas, a ver bairros onde nunca tinha posto os pés. As pessoas costumam perguntar se não é cansativo, se não é aborrecido andar o dia todo de um lado para o outro. Eu respondo que o cansaço passa, mas a preguiça, se a deixarmos, fica para sempre.
E é isso que eu não quero. Quero continuar a andar, a trabalhar, a conhecer sítios novos. Cada entrega é uma pequena missão e cada cliente uma pequena história. Há clientes de todo o tipo.
Há os que abrem a porta com um sorriso enorme, há os que mal dizem olá, há os que me pedem para deixar à porta, há os que descem correndo porque têm pressa. Uma vez, uma senhora ofereceu-me água porque estava um calor de rachar. Outro dia, um senhor pediu-me para subir porque tinha as mãos ocupadas e eu ajudei-o com as compras. A gente acaba por conhecer as pessoas, mesmo sem saber bem os nomes delas.
Hoje está a ser um bom dia. O sol está alto, o ar está quente e há movimento na rua. As pessoas andam apressadas, os carros passam, os cafés estão cheios. Eu ando de um lado para o outro, com o telemóvel sempre a apitar com novas ordens.
Cada vez que aparece uma, é uma corrida para ver se chego a tempo. E depois há sempre uma história engraçada. Num dos prédios, a campainha não funcionava. Toquei várias vezes e nada.
Liguei para o cliente e ele disse que já estava à minha espera, mas que a campainha estava avariada há semanas. Acabou por descer e rimo-nos os dois. São pequenas coisas, mas fazem o dia mais leve. Noutro sítio, um cão começou a ladrar assim que me viu.
O dono sossegou-o e pediu desculpa, dizendo que o cão só ladrava a estranhos. Quando lhe entreguei o saco, o cão cheirou-me e abanou o rabo. Pronto, agora já não sou estranho, pensei comigo. Entre uma entrega e outra, dou por mim a falar com um colega que também faz entregas.
Ele conta-me que hoje está mais calmo, que há dias em que quase não para. Eu digo-lhe que prefiro assim, sempre a andar. Ficamos ali um momento, à conversa, à sombra de uma árvore, a apreciar o bom tempo. Depois seguimos cada um para o seu lado, com a promessa de nos cruzarmos noutro dia.
Enquanto ando, reparo nas mudanças que houve no bairro. Há uma loja nova, um café que remodelou a fachada, um parque que está mais arranjado. É engraçado como a gente repara nestas coisas quando anda a pé ou de carrinha o dia todo. Quem passa de carro a toda a velocidade não vê nada disto.
Chega a altura de almoçar. Como rapidamente, num sítio onde já costumo ir, e o dono já sabe o meu pedido. Enquanto como, olho para o telemóvel e organizo o resto do dia. Há mais algumas entregas para fazer e depois posso ir para casa.
Ainda tenho de passar pelo supermercado para ver se há mais alguma encomenda. No fim, faço as últimas entregas. Uma é num prédio antigo, com escadas estreitas, mas o cliente ajuda-me a subir. Outra é numa loja no rés do chão, onde deixam sempre as encomendas à porta.
E a última é para um senhor que me espera na rua, porque não sabia se eu ia demorar. Quando lhe entrego o saco, ele agradece e diz que vou ter um bom dia. E eu acredito mesmo que vou ter. Chego a casa cansado, mas contente.
O corpo pede descanso, mas a cabeça está leve. Amanhã é outro dia, com outras entregas, outras pessoas, outras histórias. E eu vou estar lá, pronto para continuar a andar. Porque, no fundo, é isto que me faz bem: sair de casa, movimentar-me, trabalhar.
O computador pode esperar. Antes de adormecer, penso na quantidade de sítios que já vi por causa deste trabalho. Ruas que nunca tinha percorrido, cantos escondidos da cidade, pessoas que nunca teria conhecido. E penso que, afinal, uma vida parada não é vida.
Talvez por isso continue a insistir em levantar-me, em sair, em trabalhar, mesmo quando a preguiça chama mais alto. É um treino diário, como as flexões do Mike Tyson. Mas vale a pena. E amanhã, quando o despertador tocar, sei que vou hesitar uns segundos, como hoje.
Mas vou levantar-me e vou lá para fora. O sol vai estar quente, as encomendas vão estar à espera e eu vou continuar a fazer o que tenho de fazer. Sem pressa, mas sem parar. Até porque, como costumo dizer, quem fica parado é porque não quer saber de mais nada.
E eu ainda quero saber de muitas coisas.