Mulher, agradeço pelo rim. Agora vamos ao divórcio. Foi com estas palavras que o marido atirou os papéis da separação para cima da cama de hospital, sem sequer olhar para a cicatriz da operação ainda fresca no corpo da esposa. Não havia um pingo de remorso no rosto dele.

Ela olhou para aquela frieza e desabou no chão. Ele saiu do quarto como quem acabara de se livrar de um peso, satisfeito consigo mesmo. O que ele não sabia era que, assim que a porta se fechou, ela ergueu a cabeça e sorriu. Aquelas lágrimas eram a primeira cena da vingança perfeita.
A luz da tarde entrava pela janela do quarto e iluminava a cama. Sayaka molhava a toalha com água morna e, com todo o cuidado, enxugava o suor da testa de Minoru. Ele resmungou, dizendo que a água estava morna demais e que queria gelo. Sayaka não respondeu, foi buscar o copo e atravessou o corredor até a máquina de água.
Uma enfermeira comentou como ela era dedicada e que o marido tinha sorte. Sayaka forçou um sorriso e disse que era o dever de uma esposa. Quando voltou, ele bebeu tudo de uma vez e largou o copo com violência. Ela tentou tocar a mão dele, mas ele a afastou como quem espanta um inseto.
A enfermeira percebeu o clima pesado e saiu. Minutos depois, o médico entrou e anunciou que o rim transplantado funcionava perfeitamente e que ele receberia alta em breve. Sayaka suspirou aliviada. O médico elogiou a coragem dela, lembrando que viver com um rim só não era fácil.
Ela agradeceu. Assim que o médico saiu, Minoru abriu a gaveta e atirou um envelope na cama. Sayaka abriu com as mãos trêmulas e leu: acordo de divórcio. Perguntou o que aquilo significava.
Ele respondeu sem olhar para ela, dizendo que já estava decidido antes mesmo da operação. Disse que agradecia pelo rim, mas que entre eles tinha acabado. Sayaka lembrou-se dos três meses anteriores, quando Minoru, à beira da morte, segurava as mãos dela e chorava como uma criança, implorando que ela o salvasse, prometendo dedicar a vida inteira a ela. Ela perguntou se todas aquelas palavras eram mentira.
Ele respondeu que tinha sido apenas uma atuação necessária. Nesse momento, a sogra entrou com um cesto de frutas. Fez um escândalo, fingindo indignação, e repreendeu o filho por maltratar a mulher que lhe salvara a vida. Abraçou Sayaka e disse que logo ele voltaria ao normal.
Mas Sayaka viu a verdade por trás daquela atuação. A sogra apertava o braço dela com força enquanto dizia palavras doces. Antes de sair, Sayaka olhou para a sogra e perguntou se ela sabia de tudo desde o início. A sogra negou, fingindo ofensa.
Sayaka saiu do quarto e, no corredor, ouviu a sogra dizer ao filho que ele tinha feito bem em se livrar daquela mulher chata. Sayaka caiu sentada no chão frio, sentindo que até o pouco de calor que lhe restava tinha sido roubado. Uma semana depois da alta de Minoru, Sayaka fazia as malas no pequeno apartamento onde tinha ficado durante os dois meses de internação. Ele não tinha dado notícias.
No táxi, ao voltar para o apartamento do casal, ela sentiu o coração apertado. Digitou a senha na porta, mas o sistema avisou que estava errada. Tentou de novo, nada. Então a porta abriu por dentro e uma mulher desconhecida apareceu, vestida de seda roxa e cheia de joias.
Perguntou quem era Sayaka e por que tentava invadir a casa dela. Sayaka disse que aquela era a casa dela. A mulher riu e disse que o imóvel pertencia à empresa dela. Minoru apareceu, saudável e bem vestido, e mandou Sayaka entrar para não fazer escândalo.
A sala estava irreconhecível. Todos os móveis que Sayaka escolhera com carinho tinham sido substituídos por peças caras e frias. Ela perguntou onde estavam as suas coisas. A mulher, Yura, respondeu que tinha jogado tudo fora.
Minoru explicou que a casa agora pertencia à empresa de Yura e que Sayaka não tinha mais direito a nada. Sayaka viu sobre uma prateleira a caixinha de música que Minoru lhe dera no pedido de namoro. Tentou alcançá-la, mas ele foi mais rápido. Pegou a caixinha, zombou dela e a atirou ao chão com violência.
A bailarina quebrou e rolou pelo chão com o pescoço partido. Sayaka ajoelhou-se e tentou recolher os cacos. Minoru disse que queria apagar tudo o que ligava ele a ela. Yura disse que chamaria a polícia se Sayaka não saísse.
Sayaka descobriu que todas as suas propriedades tinham sido transferidas para o nome dele com a assinatura dela, colhida antes da operação, quando ele dizia que eram documentos médicos. Ela olhou para os dois e jurou que eles pagariam por aquilo. Yura riu e ameaçou processá-la por intimidação. Sayaka saiu do prédio em que morava há anos, levando apenas duas caixas de papelão com roupas velhas que o segurança da portaria lhe entregou com pesar.
Passou uma semana na casa da amiga Mika, sem comer, sem sair do sofá, olhando para o nada. Mika implorou para que ela comesse. Sayaka disse que talvez fosse melhor morrer. Mika a sacudiu e gritou que ela não podia morrer por causa de um lixo daqueles.
Sayaka desabou, lembrando que tinha dado um rim e recebera em troca um divórcio e o roubo de tudo. Mika disse que tinha um bom advogado, que a tinha ajudado no próprio divórcio. No dia seguinte, foram ao escritório. O advogado Kimura ouviu toda a história e foi franco: seria uma batalha muito difícil.
Os bens já tinham sido legalmente transferidos, com a assinatura de Sayaka, e a doação de órgão não era considerada um contrato que exigisse compensação. Sayaka saiu arrasada, sem esperança. Na rua, um telão de loja mostrava Minoru, saudável e sorridente, dizendo que agradecia ao doador anônimo que lhe salvara a vida. Mika quis quebrar a tela.
Sayaka decidiu tentar falar com a sogra. Foi até a casa dela. A sogra atendeu com frieza, disse que tudo estava acabado e tentou empurrar um envelope de dinheiro para ela. Sayaka disse que não queria dinheiro, apenas justiça.
A sogra respondeu que o filho precisava recomeçar a vida e que Sayaka deveria fazer o mesmo. Fechou a porta na cara dela. Em casa, Mika mostrou à amiga um artigo sobre um advogado chamado Sato, conhecido por aceitar apenas causas impossíveis, aquelas que ninguém queria, movido por convicção pessoal. Diziam que ele era o último refúgio dos fracos.
Sayaka foi até o escritório dele, um prédio velho e decadente, e foi atendida por uma secretária que disse que não havia vaga. Quando ela ia saindo, o advogado Sato apareceu. Ele reparou nos papéis que ela apertava contra o peito, viu a palavra “transplante” e parou. Perguntou se a visita tinha relação com doação de órgãos.
Sayaka contou, com a voz embargada, que dera um rim ao marido e que ele a abandonara roubando todos os bens. Sato adiou o próximo compromisso e a convidou para entrar. Durante horas, ela contou tudo: a doença, as promessas, os documentos assinados às pressas, a traição. Sato ouviu em silêncio.
Depois perguntou sobre os documentos. Ela lembrou-se de um investimento em biotecnologia. Disse o nome da empresa: YR Bio. Naquele instante, os olhos cansados de Sato brilharam.
YR, as iniciais de Yura. Ele pesquisou e descobriu que a empresa tinha sido criada dois meses antes da operação, sem atividade real, apenas uma fachada. Disse que aquilo era fraude evidente. E mais: provavelmente havia um seguro de vida envolvido.
Sayaka lembrou-se de documentos de seguros assinados antes da cirurgia, explicados como proteção contra os riscos da operação. Sato verificou e encontrou um seguro de vida de mil milhões de ienes em nome de Sayaka, com Minoru como beneficiário. Se ela tivesse morrido, ele teria recebido tudo. Sayaka empalideceu.
Então eles queriam que eu morresse, disse ela. Sato continuou: faltava uma prova definitiva, uma confissão. A melhor hipótese era fazer a sogra falar. Ele entregou a Sayaka um pequeno gravador.
Pediu que ela fosse ao spa onde a sogra ia toda quinta-feira, que a abordasse com desespero, implorando perdão e dizendo que queria desistir de tudo. A sogra, orgulhosa do filho, certamente deixaria escapar a verdade. Sayaka aceitou. Sato confessou que tinha uma irmã que passara por situação semelhante e que ele nada pudera fazer na época.
Sayaka agradeceu e começou a treinar a atuação em casa, diante do espelho. Na quinta-feira, vestida com roupas gastas e o rosto pálido, Sayaka esperou diante do spa de Ginza. Quando a sogra chegou, elegante e arrogante, Sayaka caiu de joelhos, agarrou-se à roupa dela e implorou. A sogra tentou afastá-la, envergonhada com os olhares.
Sayaka continuou gritando que queria morrer, que não podia viver sem Minoru. A sogra, furiosa, arrastou-a para a escada de emergência. Lá, Sayaka pediu perdão, disse que era uma esposa indigna. A sogra relaxou e, satisfeita, revelou tudo: que o plano existia desde o início, que o filho a usara para obter o rim e os bens, que Yura era a nova companheira.
Sayaka continuou fingindo, chorando, dizendo que aceitava o dinheiro. A sogra atirou o envelope de dinheiro no chão e foi embora. Sayaka esperou a voz sumir, levantou-se e verificou o gravador: estava ligado. Depois seguiu a sogra até o vestiário do spa e gravou outra conversa dela ao telefone, em que gabava-se de como Sayaka fora idiota por entregar um rim de graça e ainda recebera umas notas para desaparecer.
Sayaka salvou o arquivo e enviou ao advogado. Sato confirmou que era perfeito. Agora tinham uma bomba para o tribunal. Dias depois, Minoru e Yura receberam uma carta registrada com o detalhamento de todos os crimes: fraude, transferência de bens, seguro de vida.
Minoru ligou para a mãe em pânico. A sogra mandou chamar o melhor advogado da cidade. Enquanto isso, Sayaka decidiu confrontar Minoru pessoalmente. Foi ao restaurante caro onde ele jantava com Yura, mostrou cópias dos documentos e deu-lhe uma última chance: confessar e devolver tudo.
Minoru riu e a ameaçou. Sayaka respondeu que havia mais verdades a expor e saiu. Nas semanas seguintes, as notícias incendiaram a internet. No primeiro dia de audiência, o tribunal estava lotado.
Sato apresentou a criação da YR Bio, a transferência de cinquenta e três milhões de ienes, o seguro de vida. Um bancário testemunhou que Minoru e Yura tinham feito a transferência sozinhos, sem a presença de Sayaka, usando procurações assinadas às pressas. A sogra, no banco das testemunhas, entrou em pânico. Depois, Sato reproduziu o áudio da entrevista na escada do spa.
A voz da sogra ecoou pelo tribunal, confessando tudo. A sogra desmaiou. O tribunal foi suspenso. Na segunda audiência, a pressão pública era enorme.
Sato mostrou que o estresse extremo podia causar rejeição do órgão transplantado. Reproduziu novamente o áudio da sogra, que humilhava Sayaka, e exibiu mensagens entre Minoru e Yura, obtidas por ordem judicial, onde chamavam Sayaka de cartão descartável. Minoru, pálido, começou a tremer. De repente, gritou de dor e caiu da cadeira, segurando o lado onde recebera o rim.
Pediu socorro. O tribunal foi interrompido e ele foi levado às pressas para o hospital. Yura tentou sair, dizendo que era apenas uma parceira de negócios, mas o juiz a impediu. No hospital, o diagnóstico foi rejeição aguda.
O rim transplantado estava falhando por causa do estresse extremo. Minoru implorou para não voltar à diálise. A mãe, desesperada, disse que ele poderia encontrar outro doador. Yura apareceu para anunciar que ia embora, seguindo ordens do pai, e que o advogado retiraria o nome dela do caso.
Disse adeus, repetindo as mesmas palavras que Minoru usara contra Sayaka. Ele ficou sozinho, olhando o teto. Um ano depois, Sayaka inaugurava uma fundação de proteção aos direitos das mulheres em Tóquio. Falou ao público, afirmando ter atravessado um túnel escuro e querer partilhar esperança com quem ainda estivesse nele.
Sato e Mika estavam na plateia, orgulhosos. No mesmo dia, num hospital universitário, Minoru fazia diálise, ouvindo de um vizinho de quarto que uma pessoa tão jovem merecia melhor sorte. Ele não conseguia responder. Recebeu uma ligação da mãe, que pedia dinheiro para a casa de repouso onde dizia estar, sem saber que os bens dela tinham sido confiscados.
Enquanto isso, no aeroporto de Los Angeles, Yura foi detida por investigadores japoneses, acusada de fraude e tentativa de fuga. Quando Sayaka recebeu a notícia, sentiu um alívio profundo. O ciclo tinha fechado. Na sala da fundação, Sayaka aprovou o pedido de ajuda de uma mulher que fugia de um marido violento, com o filho pequeno.
Ao sair, passou diante de uma loja com uma caixinha de música na vitrine, semelhante àquela que Minoru destruíra. Olhou por um instante, balançou a cabeça e seguiu em frente. No café, escreveu um artigo para o site da fundação, dizendo que as feridas não desaparecem, mas se transformam em cicatrizes que nos tornam mais fortes. Recebeu comentários de pessoas dizendo que ela lhes devolvera a vontade de viver.
Naquela noite, no novo apartamento, pequeno mas acolhedor, ela olhou as fotografias na estante: a inauguração da fundação, Sato ao seu lado, Mika abraçando-a. Escreveu no diário que a vingança tinha terminado, mas que a vida verdadeira apenas começava. Disse a si mesma que, mesmo com um rim só, seria feliz, mais feliz do que qualquer pessoa. Fechou o caderno e olhou a janela.
As primeiras estrelas apareciam no céu. No dia seguinte, caminhou para o trabalho com passos leves, integrada à cidade, compondo com as próprias mãos a melodia da vida que escolhera.