Enquanto andava de mota à espera de um pedido que não vinha, reparei que os meus seguidores no VK tinham aumentado de repente. Outra vez. Só que desta vez não eram pessoas reais, eram bots….

Enquanto andava de mota à espera de um pedido que não vinha, reparei que os meus seguidores no VK tinham aumentado de repente. Outra vez. Só que desta vez não eram pessoas reais, eram bots....

Estava a circular devagar pela rua, tentando manter uma linha reta, mas o capacete teimava em cair para a frente. Outra vez. Inclinei a cabeça, ajustei-o com uma mão e respirei fundo. O sol estava agradável, a temperatura perfeita, mas isso era precisamente o problema.

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Com um tempo daqueles, ninguém queria encomendar nada. As pessoas estavam todas fora, a aproveitar o dia, e eu ali, a passear de mota à espera que o telemóvel tocasse com um pedido. Dei uma olhada rápida ao ecrã do telemóvel preso no guiador. Nada.

Nem uma notificação. Continuei a andar, mais devagar, e reparei que tinha recebido uma mensagem no VK. Entrei na aplicação e mexi nas definições, só para ajustar uma coisa que me tinha incomodado no último stream. Ficou melhor.

Enviei uma resposta a alguém que me tinha deixado um comentário e agradeci mentalmente. Era bom saber que havia gente real a acompanhar, mesmo que pouca. Lembrei-me, não sei porquê, dos tempos da escola. Na altura, odiava estudar.

Não percebia nada do que me ensinavam, e a cabeça estava sempre cheia de outras coisas, de jogos, de brincadeiras, de tudo menos da matéria. As notas eram más, principalmente a Russo, que nunca consegui subir daquele três puxado. Só quando saí da escola normal e fui para a escola noturna, a tal da escola para jovens trabalhadores, é que as coisas mudaram. Lá, a exigência não era tão grande e os professores explicavam melhor.

Comecei a gostar de aprender, de verdade. As notas melhoraram, apareceram quatros e cincos. O Russo, esse continuou a ser um problema. Nunca consegui passar do três naquela disciplina, por mais que tentasse.

Era uma espécie de maldição que me acompanhava. Sacudi a cabeça, como que a afastar essas memórias antigas. Isso já não interessava. Agora o que interessava era o trabalho à minha frente.

Abrandei ainda mais numa curva e olhei para o lado. O campo estendia-se até onde a vista alcançava, verde e dourado sob a luz da tarde. Respirei o ar, que cheirava a erva seca e a terra quente. Porreiro, sim.

Mas continuava sem pedidos. Estava prestes a apanhar a estrada principal quando reparei num detalhe. Os meus seguidores no VK. Tinham aumentado.

Muito. Mais do que era normal para o meu ritmo de streams. Desconfiei logo. A última vez que tinha feito stream, tinha visto o contador a subir de forma estranha, até chegar aos cinquenta espetadores.

Parecia bom, parecia ótimo. Até que fui ver melhor e percebi que, daqueles cinquenta, pelos menos quarenta eram bots. Contas falsas, criadas para inflar números. Só havia nove pessoas reais a assistir, das quais algumas deviam ser amigos meus.

Na altura, ri-me. No Twitch, essas coisas eram ainda mais ridículas. Toda a gente sabia que havia quem pagasse para ter números falsos. Mas agora estava a acontecer de novo.

Ou melhor, ainda lá estavam os bots dessa vez. Eu tinha-os apagado, tinha ido lá e removido um a um, mas voltaram a aparecer. Era sempre a mesma história. Sempre que fazia uma pausa maior entre streams, alguém, ou alguma coisa, me enchia os seguidores com contas falsas.

Já tinha acontecido duas vezes. Começava a cansar. Enquanto esperava num semáforo, peguei no telemóvel e abri a página de gestão de seguidores. O botão para remover era simples, um clique e pronto.

O problema é que era uma solução temporária. Eu sabia que, se não fizesse nada, os bots ficariam ali indefinidamente, a poluir a minha lista. Podia esperar que eles se fossem embora sozinhos, mas isso demorava uma eternidade. E eu não gostava de andar com aquela pontuação falsa nos meus números.

Suspirei. Havia outra forma, mais definitiva. Podia bloquear os bots de forma permanente, impedindo que voltassem a seguir o meu perfil. A ideia era simples, mas implicava mexer em cerca de seis mil contas, uma a uma.

Seis mil. Isso era uma tarde inteira perdida. Por outro lado, se não o fizesse, eles voltariam na próxima vez que eu fizesse uma pausa. Era uma escolha entre resolver o problema de vez ou continuar a brincar às apanhadas.

O semáforo ficou verde. Acertei a mudança e arranquei. Virei para uma zona de vivendas, onde costumava haver mais pedidos. As ruas estavam calmas, as pessoas de férias ou em casa.

Aqui e ali, via alguém a tomar conta do jardim ou a lavar o carro. Ninguém encomendava comida. Claro que não. Era um dia bonito demais para isso.

Tentei não me chatear. Fazer parte daquela profissão era isto: havia dias de caos, com pedidos a surgir de todos os lados, e havia dias como aquele, em que nos sentávamos na mota e olhávamos para o horizonte. A estudar, a planear, a fazer contas à vida. Eu fazia streams, isso também fazia parte do meu dia.

Gostava de interagir com as pessoas, de falar sobre o que me ia na cabeça. Era outra forma de trabalho, menos cansativa, mas também exigia tempo. Lembrei-me do comentário que tinha recebido e agradeci de novo. Havia quem dissesse que falar sozinho para uma câmara era estranho.

Para mim, era desabafo. Eu dizia o que pensava, queixava-me do trabalho, falava de banalidades, e quem estivesse a ouvir, ouvia. Aquilo ajudava-me a manter a sanidade. Virei numa rotunda e segui em direção a uma avenida mais movimentada.

Ainda nada. O ecrã continuava limpo, sem notificações. Estava a ficar aborrecido. Andar sem rumo não era produtivo, e o combustível também não se paga sozinho.

Decidi que, se continuasse assim, iria para casa mais cedo e tratava daquilo que tinha prometido a mim mesmo: resolver de vez o problema dos bots. Tinha acabado de tomar essa decisão quando o telemóvel vibrou. Nada de pedidos, era só uma notificação de um amigo que me perguntava se estava a trabalhar. Respondi com um emoji simples e continuei o caminho.

Já estava quase a passar por uma pastelaria que conhecia quando me lembrei de uma coisa. As chaves. Onde é que eu tinha posto as chaves de casa? Dei umas palmadas nos bolsos do casaco.

Nada. No bolso das calças. Também nada. As botas.

Nada. O coração acelerou-me ligeiramente. Não podia ter ficado sem elas, tinha-as usado para sair de casa. Respirei fundo, olhei para o suporte no guiador e lá estavam elas, no compartimento pequeno onde costumava guardar os documentos.

Suspirei de alívio. Ainda bem. A última coisa que me faltava era ficar trancado fora de casa. Continuei a andar, agora a aproximar-me do centro da cidade.

As ruas começavam a encher-se, mas não de clientes. Casais a passear, miúdos a brincar, pessoas sentadas nas esplanadas. Tudo a aproveitar o sol. Eu não lhes podia tirar razão.

Era um dia perfeito. Muito perfeito para o meu bolso. No fundo, sabia que a culpa era minha. Fazia streams com demasiada frequência para ser um hobby, mas com pouca para ser um trabalho a sério.

As pausas grandes eram as culpadas. Era nesses intervalos que os bots apareciam. Era como se o algoritmo acordasse e pensasse: “Este tipo desapareceu, vamos dar-lhe de comer”. Se eu fizesse streams todos os dias, de certeza que ninguém me ia andar a inflar os números.

Mas também não podia fazer streams todos os dias. Tinha uma vida real, com contas para pagar e uma mota para manter. Passar por uma parte mais antiga da cidade trouxe-me outra lembrança, a do meu tio, que me tinha ensinado a conduzir. Ele dizia sempre que um condutor de entregas não devia andar às voltas sem necessidade.

Tinha de conhecer cada rua, cada atalho, cada buraco no alcatrão. Com o tempo, comecei a perceber que ele não estava a falar de conduzir, estava a falar da vida. Era preciso perder tempo a conhecer o terreno para depois não se perder tempo nenhum a percorrê-lo. Seguia a pensar nisto quando o telemóvel vibrou de novo.

Desta vez, era um pedido. Finalmente. Não muito longe, um cliente queria uma entrega num café nas redondezas. Parei, confirmei, e liguei o motor.

Enquanto me dirigia para lá, senti que o dia tinha melhorado. O movimento de acelerar e travar, de dobrar as esquinas, de procurar estacionamento, tirou-me daquela modorra. O pedido era simples: uma dose de qualquer coisa, um lanche tardio. Entreguei, recebi um obrigado, e o meu dia voltou a ter sentido.

Rumei novamente à zona de sempre, na esperança de apanhar outro pedido. A brisa estava mais quente agora. Alguém me tinha deixado um comentário no stream anterior, algo sobre eu ser uma pessoa sensata. Ri-me interiormente.

Sensato. Eu, que deixava os bots entrar três vezes. Sensato seria ter tratado disso há muito tempo. Mas, pronto, tinha esta tarde livre.

Se não aparecessem mais pedidos, era isso que ia fazer. Ia para casa, abria o computador e, com a paciência de quem conta ovelhas, ia tentar bloquear de vez aquelas contas falsas. Se ficasse uma tarde inteira nisso, paciência. Pelo menos, ficaria livre daquilo para sempre.

Estava a pensar se valia a pena continuar a rondar ou se deveria simplesmente regressar a casa quando o telemóvel tocou. Não era um pedido de entrega, era um amigo meu, o mesmo de antes. Atendi, com o auscultador no capacete. “Então, ainda andas aí?

”, perguntou ele. “Ando. Não há trabalho nenhum. ”

“Pois, com este tempo, não admira.

Está bom demais. ”

“Pois está. ”

“Ouve, já viste aqueles bots que te puseram? Aquilo é ridículo.

“Já vi. Estou é a pensar em matá-los de vez. ”

“Como? ”

“Há uma forma de os bloquear permanentemente.

Sei lá, uma coisa no site. É só clicar e nunca mais os vejo. ”

Ele riu-se. “E não clicas porquê?

“Porque é preciso clicar em seis mil”, respondi, com um riso amargo. Ele assobiou. “Isso é muito clique. ”

“Já sei.

Mas se não for assim, eles voltam, é sempre a mesma merda. Prefiro perder uma tarde a resolver o assunto do que ter de os apagar todas as semanas. ”

“Faz sentido”, respondeu ele. “Mas deixa lá, o Doutor Plankton te ensinou isso, foi?

“É o que dizem por aí”, respondi, de sorriso na cara. “E não admira que ele saiba. Ele percebe dessas coisas. ”

Desligámos a chamada.

Fiquei a pensar no que ele tinha dito. Os bots eram chatos, mas na verdade até me deram uma prenda: forçaram-me a aprender uma coisa nova. Aprender a lidar com essas merdas, a não deixar que me atacassem. Na escola, não percebia nada, mas agora estava a aprender tudo.

E a parte mais gira é que, quando se começa a perceber uma coisa, ela até começa a ser interessante. O dia começou a cair, a luz a ficar mais dourada. Continuei a circular mais um pouco, mas os pedidos continuavam a não aparecer. Já tinha andado quilómetros à toa.

Tomei a decisão: ia para casa. Ainda me faltava tratar do jantar e tinha de fazer pelo menos uma coisa produtiva. Antes de virar para a minha rua, acelerei um pouco, só para sentir o vento no peito. Aquela sensação nunca me cansava.

Finalmente, parei à porta do prédio, desliguei o motor e tirei o capacete. O silêncio de repente foi estranho. Bati no bolso do casaco. As chaves.

Desta vez, estavam lá. Entrei em casa, lavei a cara e fui para o computador. Abri o site de gestão de seguidores e olhei para a lista. Centenas e centenas de nomes, um mais suspeito que o outro.

Contas com números aleatórios, fotos de stock, nomes sem sentido. Bots, quase todos. Apertei o botão para começar a bloqueá-los. Uma conta de cada vez, como quem tenta encontrar uma agulha num palheiro, mas com mais tecla.

A cada três ou quatro remoções, o contador baixava. Era lento, monótono, mas havia ali qualquer coisa de terapêutico. Era como limpar a casa depois de meses de pó. Estava ocupado com aquilo quando reparei, de relance, que o telemóvel tinha vibrado.

Não dei grande importância. Depois de terminar as primeiras duzentas, despertei de novo. Continuava tudo igual, mas estava em paz. A meio de uma pausa, peguei no telemóvel e vi que tinha uma mensagem do amigo.

“Então, já mataste os bots todos? ”

“Ainda não. É um trabalho que não acaba”, respondi. “Boa sorte.

E não te esqueças de jantar. ”

Sorri. Os planos mudam, mas os cliques não. Fechei a cara, voltei ao ecrã e continuei a limpar o meu perfil, nome a nome.

Era trabalho de formiga, mas ao menos era trabalho. E, à minha maneira, estava a fazer aquilo que estava ao meu alcance: manter tudo limpo e real. Um bot de cada vez, até que não sobrasse nenhum. Depois, talvez, houvesse tempo para mais alguma coisa.

Ou talvez não. Mas isso já era outra conversa.