Enquanto meu sobrinho Renato ainda ria no sofá da minha própria casa, eu já estava construindo a armadilha dele. Eu era o tio Geraldo do Sítio, aquele que todo mundo achava que era um velho simples. Comprava terras em silêncio, sempre com empresa no nome de um contador de confiança. Quando Renato fez 25 anos e quis montar um negócio de transportes, fui eu quem assinou o aval no banco.

No décimo mês, ele me levou a um cartório com um papel, dizendo que era só uma procuração de rotina. Eu assinei sem desconfiar. Renato bateu a porta do carro no caminho de volta, como quem já tinha ganho. A caminhonete estava no pátio, mas a casa estava em silêncio.
Entrei pela cozinha sem fazer barulho, hábito antigo de quem viveu no campo a vida toda. A voz de Renato vinha do corredor. Ele estava de costas, encostado na parede, com o telefone no ouvido. “Já misturei no frasco, Cíntia.
Ele nem vai sentir o gosto. ” Minha mão apertou a maçaneta. Ele falou de um vidro de remédio para a pressão, dos meus exames falsificados no posto de saúde, e de como qualquer juiz assinaria a interdição de um velho com Alzheimer. Eu não tinha Alzheimer.
Mas eles estavam plantando a prova. Peguei o celular, mas não liguei do meu número. Guardei o frasco num vidro de remédio vazio do meu jaleco. Fechei o quarto, amarrei o cachorro do lado de fora e saí pela janela dos fundos, como fazia aos 15 anos para nadar no córrego.
No dia seguinte, levei o frasco ao laboratório. O resultado chegou às mãos do Airton, meu advogado de confiança. Ele mandou fazer uma avaliação neurológica completa no Hospital das Clínicas de Belo Horizonte. O laudo dizia que eu estava lúcido.
Esse papel valia mais do que qualquer mentira. Airton contratou uma empresa para instalar câmeras escondidas no sítio. O que encontrou foi pior do que eu imaginava. Renato tinha uma dívida de cento e vinte mil reais com um agiota chamado Bira.
E Cíntia, minha própria sobrinha por casamento, estava no plano desde o começo. Fingi estar dormindo no quarto quando eles chegaram. Ouvi Renato dizer que eu não lembrava nem o que comia no almoço. A conspiração era mais profunda do que eu pensava.
No fundo do depósito, atrás das latas de tinta, havia um cofre embutido na parede desde 1987. Lá dentro estavam o testamento novo, as escrituras, um HD externo com o backup das câmeras e o envelope pardo com o resultado do laboratório. Quando Renato e Cíntia voltaram da cidade, encontrei a mesa posta para o almoço, fazendo café no fogão à lenha como todo sábado. “Preparei o almoço de hoje.
E tenho uma novidade: vou transferir a posse do sítio inteiro para vocês dois. ” Os olhos deles brilharam. “Renato, você consegue ir comigo no cartório na segunda-feira? É um negócio de responsabilidade compartilhada pelo bem do processo.
” Ele aceitou sem hesitar, achando que eu era um velho senil entregando tudo de bandeja. Na segunda-feira, a voz de Renato preencheu a sala pequena do cartório como água num copo. A tela do computador tinha voltado para a proteção de tela. Airton ficou de pé com as mãos no bolso do palitó.
Renato assinou os papéis, sorrindo. Foi quando Airton colocou na frente dele o laudo neurológico, o resultado do laboratório e o relatório das câmeras. Renato empalideceu. O agiota Bira estava esperando do lado de fora.
E o delegado também. Deixei o carro no estacionamento, passei pelos detectores de metal e sentei na cabine de visitas. Encostei no vidro, não com agressividade, só para ficar mais próximo. Coloquei o telefone no gancho, me levantei e saí.
O sol de Minas batia no estacionamento de um jeito pesado e honesto. Me sentei no carro por uns cinco minutos antes de ligar o motor. No meio do caminho, meu advogado me ligou com mais uma notícia: um homem chamado Valdomiro tinha aparecido no escritório, dizendo ser o pai biológico de Renato. Ele queria direitos sobre o patrimônio do filho.
“Inclusive as obrigações, as dívidas com o Bira, as ações trabalhistas, as custas do processo”, disse Airton. Eu quase ri. Os cachorros vieram me encontrar no portão. Fiquei pensando no que ficou, no que eu tinha construído, não em dinheiro, mas em anos.
Perdi a versão do Renato que eu achei que existia. Chamei o Airton no dia seguinte e pedi para estruturar um fundo de bolsa para jovens do município que quisessem estudar agronomia, técnico em agropecuária ou gestão rural. Seis meses depois, Renato ainda está no presídio. A horta de Dora, minha vizinha, está maior do que nunca.
Sandro, o filho dela, planta de terça a sábado e estuda nas segundas e quartas no curso técnico que o Airton ajudou a matricular. Uma juriti cantava em algum lugar perto do córrego. Sandro chegou essa manhã com uma mudinha de pimenta que tirou de um caroço que achou no mercado, plantou numa lata de leite condensado e colocou na janela do quarto antes de vir para o sítio.
Essa é a família que a gente escolhe, e ela vale mais do que qualquer escritura.


