Eu passei dez anos ao lado do meu marido, vi ele crescer de um estudante esforçado para um presidente de empresa. Nunca pedi nada para mim, nem roupas, nem conforto. Tudo o que eu ganhei foi ver…

Eu passei dez anos ao lado do meu marido, vi ele crescer de um estudante esforçado para um presidente de empresa. Nunca pedi nada para mim, nem roupas, nem conforto. Tudo o que eu ganhei foi ver...

O relógio na parede da sala já passava das oito da noite. Sayuri olhava com tristeza para os pratos que ela mesma preparara com tanto capricho, enquanto o vapor do ensopado preferido do marido já não subia mais. Ela ainda usava o avental, sentia o cheiro da comida grudado nele, e viu no espelho o rosto cansado, o cabelo preso com força e a camiseta velha com as mangas desfiadas. Era o retrato de uma mulher que dedicara dez anos da vida a sustentar a carreira do marido.

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Quando Tatsuya estudava para o exame da ordem, quando abriu o escritório pequeno e passou noites em claro para fazer o negócio crescer, Sayuri esteve ao lado dele. Ela nunca comprou uma roupa para si, cortou as despesas com comida, tudo para dar forças ao marido. Quando a empresa finalmente deslanchou e Tatsuya virou um presidente respeitado, Sayuri achou que era a mulher mais feliz do mundo. Mas, por trás do sucesso dele, o lugar dela foi ficando cada vez menor.

O som da fechadura automática cortou o silêncio da casa. Sayuri correu para a porta, feliz, mas parou ao ver Tatsuya entrar com uma mulher jovem e vistosa, de braços dados com ele. O que você está fazendo aqui com essa mulher? Sayuri perguntou, a voz sumida.

Tatsuya, sem nenhuma hesitação, jogou uma folha na direção dela. Era um pedido de divórcio. A mulher ao lado riu de forma cruel, apontando para as roupas velhas de Sayuri. Olha só essa vovozinha sem estilo.

Se você tivesse noção do seu papel, não ficaria se pendurando num marido que já não te aguenta mais. Sayuri ficou ali parada, tentando entender o que estava acontecendo, mas Tatsuya já estava virando as costas. Eu não aguento mais você. Já passou da hora de você perceber que nós dois não temos nada em comum.

Foram as últimas palavras dele antes de a porta se fechar. Naquela noite, Sayuri foi expulsa de casa com uma única mala, no frio e na chuva. Sentada na calçada, com a roupa encharcada, ela sentia o coração partido em mil pedaços. Passava pelas pessoas na rua e achava que todos sabiam da sua humilhação.

Durante dias, ela não conseguia comer direito, só chorava em um apartamento pequeno alugado com o pouco de dinheiro que tinha escondido. O filho, que já era adulto, apareceu para visitá-la, com o rosto fechado. Você está vendo o que aconteceu? Tatsuya está com aquela mulher, dizem que é até a secretária dele.

Sayuri mordeu os lábios, sem forças para responder. Então o filho continuou, com um tom duro: Mãe, talvez você deva aceitar. O pai é outra pessoa agora. Não adianta resistir.

Sayuri olhou para o filho e sentiu um aperto ainda maior. Ele já estava indo embora, sem olhar para trás, e ela percebeu que tinha perdido não só o marido, mas também o filho. O tempo passou. Sayuri não tinha mais a casa, o nome, nem a vida que construiu.

Mas, dentro dela, uma raiva silenciosa começou a crescer. Ela lembrou de todos os anos em que trabalhou em silêncio, das vezes que não dormiu para terminar as contas da empresa, das reuniões que atendeu no lugar do marido quando ele adoecia. No fundo, ela sabia que o negócio que hoje pertencia a Tatsuya tinha sido construído com as mãos dela. Então, numa manhã de chuva, ela decidiu: ia recuperar o que era seu por direito.

Procurou um advogado, mesmo sem dinheiro, e explicou toda a história. O advogado, um homem sério, ouviu atentamente e disse: O senhor tem um caso sólido. A empresa cresceu durante o casamento, e a lei garante a metade de tudo. Sayuri apertou o papel do pedido de divórcio na mão e respondeu: Não quero a metade.

Quero tudo. A batalha começou. Tatsuya tentou subornar, ameaçar, usar o filho para convencê-la a desistir. Mas Sayuri não baixou a cabeça.

Ela sabia que aquilo não era só sobre dinheiro, era sobre força. Aos poucos, as pessoas que trabalhavam na empresa começaram a perceber que ela era a mulher que tinha estado lá desde o início. Funcionários antigos se lembravam dela nos fins de semana, preparando café para todos, fazendo ajustes nos contratos. Quando a audiência final chegou, o tribunal reconheceu que a empresa e a fortuna deviam ser divididos.

Mas Sayuri argumentou que a infidelidade de Tatsuya, exposta com fotos e depoimentos, tornava a divisão desigual injusta. O juiz concordou. A maior parte da empresa passou para o nome de Sayuri. Depois de um ano, Sayuri estava no centro de Tóquio, diferente da mulher que fora.

Era elegante, com um vestido discreto e um brilho diferente no olhar. Não era mais a esposa que se sacrificava por alguém que nunca a enxergou. Ela tinha recomposto a própria vida, havia comprado um apartamento, e à frente da empresa, que agora levava seu nome, dava ordens com a segurança de quem sempre esteve no comando. Num dia ensolarado, uma limusine preta parou em frente a um prédio comercial.

Sayuri desceu, com um sorriso calmo, quando viu uma figura conhecida encostada na parede. Era Tatsuya, com o terno amassado, o rosto pálido. Ele a olhou, com os olhos cheios de ódio, mas também de cansaço. Folgada, depois de roubar tudo de mim.

Você não passa de uma cobra. Sayuri parou, olhou para ele e disse devagar, com a voz firme: Eu não roubei nada. Eu peguei de volta o que você nunca soube valorizar. Eu trabalhei ao seu lado por dez anos.

Você só soube jogar fora o que eu construí com suor. Tatsuya abriu a boca para responder, mas Sayuri já estava entrando no prédio, deixando-o para trás, com seu silêncio. Naquela noite, ela voltou para o apartamento, abriu a janela e olhou a cidade iluminada. Sentiu um peso sair dos ombros.

A dor ainda existia, mas estava guardada em um lugar antigo. Ela aprendeu que ninguém tem direito de determinar o valor de uma mulher. A partir daquele dia, Sayuri decidiu que a sua vida pertencia a ela, e a mais ninguém.

Ela foi dormir com um sorriso pequeno e uma paz que nunca mais seria abalada.