Uma manhã fria de novembro recebeu Svenja Bergmann com chuva gelada e um trânsito infernal na autoestrada urbana de Berlim. Ela estava ao volante do seu Volkswagen Golf prateado, batendo os dedos no volante e olhando impaciente para o relógio. Faltavam apenas duas horas para o voo e ela ainda nem tinha saído do centro da cidade. À sua frente estava uma viagem de negócios a Munique, cinco dias numa fábrica de um fornecedor para inspecionar uma entrega de materiais.

Não era o trabalho mais empolgante, mas era necessário. Svenja trabalhava como especialista em compras numa empresa de construção há dez anos e estava habituada a estas viagens. O marido, Jochen, nem se tinha levantado naquela manhã para se despedir. Tinha apenas murmurando qualquer coisa debaixo das cobertas, desejando-lhe uma boa viagem.
Svenja não ficou ofendida. Em dez anos de casamento, habituara-se à sua falta de palavras pela manhã e, na verdade, à sua falta de comunicação em geral. Nos últimos dois anos, Jochen tornara-se distante. Passava cada vez mais tempo no trabalho ou a olhar para o telemóvel.
Mas Svenja atribuía isso ao cansaço e a uma crise de meia-idade. Acontece, pensava ela. Acontece a todos nós. O trânsito finalmente fluiu e Svenja acelerou.
Estava a cerca de vinte minutos do aeroporto quando o telemóvel vibrou com uma mensagem. Uma notificação da companhia aérea. O voo para Munique tinha sido cancelado devido às más condições meteorológicas. Pedimos desculpa pelo inconveniente.
Svenja encostou o carro e releu a mensagem. Cancelado, ótimo. Abriu a aplicação da companhia. O próximo voo era só na manhã seguinte, às seis horas.
Podia passar a noite no aeroporto ou alugar um quarto num hotel próximo. Mas que sentido tinha passar o dia todo ali? Era mais fácil voltar para casa, dormir na sua cama e partir cedo no dia seguinte. Svenja virou o carro e voltou.
A chuva intensificou-se, os limpa-para-brisas mal conseguiam acompanhar, e ela concentrou-se totalmente na estrada. Em pensamentos, já estava em casa. Um chá quente, a sua manta preferida. Talvez até pudesse continuar a ver a série que há muito adiava.
Estacionou no pátio interior do seu prédio, no bairro de Prenzlauer Berg, pegou na pequena mala de mão e dirigiu-se à entrada. O pátio habitual, os baloiços desbotados no parque infantil, os bancos ao lado da entrada, tudo como sempre. Svenja subiu ao terceiro andar, tirou as chaves e parou. Atrás da porta ouviam-se vozes, risos femininos.
A televisão estava mais alta do que o habitual. Que estranho, pensou Svenja. O Jochen está no trabalho. Talvez se tenha esquecido de desligar a televisão.
Mas e as vozes? Colou o ouvido à porta. Era definitivamente a voz de uma mulher jovem, desconhecida, e um riso provocador e brincalhão. O coração começou a bater mais depressa.
Svenja estava diante da própria porta e não conseguia decidir-se a meter a chave na fechadura. Mil pensamentos passaram-lhe pela cabeça num segundo. Talvez a irmã tivesse vindo. Não, a irmã morava em Rostock e só a visitava de três em três anos.
Na confusão, carregou mecanicamente na campainha, apesar de ter a chave na mão. A porta foi aberta por uma jovem de cerca de vinte e sete anos, enrolada num roupão. Svenja reconheceu-o imediatamente. Ela própria o tinha comprado no ano anterior.
Vermelho-vinho, com um bordado dourado no bolso. A mulher era bonita, loira, com uma manicura impecável e olhos sonolentos, como se tivesse acabado de se levantar. Durante alguns segundos, olharam uma para a outra em silêncio. Svenja sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés, tudo no seu interior a apertar-se num nó, quando a mulher de roupão sorriu amavelmente e perguntou:
— É a agente imobiliária?
Svenja respondeu mecanicamente que sim. Jochen tinha-lhe dito que alguém viria avaliar o apartamento. — Entre, por favor, eu ia só pôr a água para o café — disse a mulher, afastando-se para a deixar passar. Naquele momento, aconteceu algo estranho.
Svenja demorou muito tempo a explicar-se o que se passou na sua cabeça. Talvez se tivesse ativado um mecanismo de defesa. Talvez tivesse entendido intuitivamente que não descobriria a verdade se gritasse, fizesse uma cena e exigisse explicações. Jochen mentiria, aquela mulher choraria ou partiria para o ataque.
Haveria um escândalo, sujidade e humilhação, e ela precisava de perceber. Primeiro perceber o que se passava e depois decidir o que fazer. Por isso, Svenja Bergmann fez algo que nem ela própria esperava. Atravessou o limiar do seu próprio apartamento e disse com uma voz firme e profissional:
— Bom dia.
Sim, sou a agente Maren. Posso ver o apartamento? A mulher de roupão acenou e começou a andar nervosamente à sua volta. — Claro, claro.
Entre. Sou a Annika. O Jochen está no trabalho, mas disse que podia ver tudo. Você é a especialista.
Quer chá ou café? Temos um café muito bom. Fui eu que o escolhi. Temos, anotou Svenja interiormente.
Não ele tem. Temos significava que não era uma aventura passageira de uma noite. Era algo sério. Svenja entrou no corredor e olhou em redor mecanicamente.
Tudo parecia normal, mas ao lado da porta havia uns ténis desconhecidos, brancos com atacadores cor-de-rosa. No cabide, um casaco curto de senhora que não conhecia. Cheirava a um perfume estranho, algo doce e intrusivo. — Vou primeiro ver tudo sem café — disse Svenja, tirando um caderno da mala.
Tinha sempre um caderno para notas de trabalho. Naquele momento, revelou-se muito útil e deu-lhe a aparência de uma verdadeira especialista. Entrou na sala e o coração apertou-se ainda mais. Annika sentia-se obviamente completamente à vontade ali.
Na mesa de centro, uma necessaire aberta. Sobre o encosto da poltrona, um lenço de seda. No parapeito da janela, uma chávena com restos de café. Uma chávena estranha, que não fazia parte do seu serviço de loiça.
Svenja foi ao armário, abriu a porta com o pretexto de verificar a capacidade, e viu as suas roupas ao lado das da outra mulher. As calças de ganga da Annika estavam no compartimento ao lado. — O Jochen e eu estamos a planear mudar para um sítio maior — tagarelou Annika atrás dela. — Este apartamento está a ficar pequeno para nós e, sinceramente, a zona é mediana.
O Jochen já viu um apartamento novo em Charlottenburg. Lá o parque infantil é decente. Tem porteiro e garagem subterrânea. Já demos o sinal para um T3 com vista para o parque.
Era o último desse género. Imagina? Demos quinze mil euros de sinal, por isso temos de vender este depressa, senão perdemos o sinal. O casamento é na primavera, por isso queremos tratar disto o mais rápido possível.
Casamento na primavera. Svenja expirou lentamente e voltou-se para Annika com um sorriso profissional. — Estão juntos há muito tempo? — Há um ano e meio — sorriu Annika, sonhadora.
— Conhecemo-nos na festa de Natal da empresa. O Jochen reparou em mim imediatamente. Ele é tão atencioso, tão carinhoso. Dá-me flores, leva-me a restaurantes.
Soube logo que ele era o homem da minha vida. Um ano e meio, repetiu Svenja para si mesma. Durante um ano e meio, o seu marido tinha levado uma vida dupla, oferecido flores a outra mulher e levado-a a restaurantes. Enquanto com ela se esquecia até de comprar algo para o aniversário, que não fosse um bolo do supermercado da esquina.
Foi à cozinha. Ali, tudo era familiar e, ao mesmo tempo, estranho. No frigorífico, os ímanes que ela e Jochen tinham trazido das férias. Mas ao lado deles, novos, com a inscrição Maiorca 2024 e um coração.
Nunca tinham ido juntos a Maiorca. Debaixo de um dos ímanes, um cartão de visita de uma agência imobiliária com o nome Dr. ª Wagner e um número de telefone. Svenja olhou de soslaio e gravou o nome na memória.
Na mesa, duas chávenas, dois pratos. Ao lado do lava-loiça, a sua chávena preferida, com o rebordo lascado, sempre no mesmo sítio. — Posso ver a casa de banho? — perguntou Svenja, surpreendida com a calma da sua voz.
— Claro, venha. No armário da casa de banho, frascos e tubos estranhos, um creme facial que Svenja nunca usava. Champô com cheiro a coco. No copo das escovas, uma escova de dentes cor-de-rosa ao lado da sua azul e da verde do Jochen.
Três escovas no copo, como se ali vivesse uma família normal. Svenja fazia anotações no caderno, embora escrevesse disparates, só para as mãos não tremerem. Visitou o segundo quarto, que ela e Jochen usavam como escritório, olhou para a varanda e fez algumas perguntas profissionais sobre canalizações e eletricidade. Annika respondia de boa vontade.
Por vezes, até ligava ao Jochen para esclarecer detalhes. — Ursinho, quando foram trocados os contadores? As pessoas aqui perguntam. E Svenja sentia algo a partir-se dentro dela cada vez que ouvia a palavra ursinho.
Finalmente, voltaram ao corredor e Annika perguntou impaciente:
— E o que acha do apartamento? Quanto acha que vale? — O Jochen disse que pelo menos oitocentos mil, talvez novecentos mil. A localização é boa, o metro é perto, a renovação não é antiga.
Svenja fez uma pausa e olhou pela janela. Atrás do edifício via-se um terreno abandonado, cheio de ervas daninhas e entulho. E então lembrou-se de uma conversa no trabalho, um mês antes. Os colegas discutiam um novo projeto para um acesso rodoviário que devia ser construído numa zona vizinha.
— Receio ter más notícias — disse Svenja, voltando-se para Annika com uma expressão compassiva. — Vê aquele terreno atrás do prédio? Dentro de seis meses, vai começar a construção de um enorme acesso à autoestrada, uma ligação direta à autoestrada urbana. Tenho informações dos serviços de urbanismo.
Verifico sempre estas coisas antes de uma avaliação. É obrigatório no meu trabalho. Annika franziu a testa e também olhou pela janela. — Um acesso?
Que acesso? O Jochen não disse nada. — Provavelmente ainda não sabe. O projeto foi aprovado recentemente, mas garanto-lhe que dentro de um ano haverá barulho vinte e quatro horas por dia.
Camiões, gases de escape, vibrações. Apartamentos em sítios assim perdem pelo menos quarenta por cento do valor. A minha estimativa preliminar é de duzentos e cinquenta mil euros, no máximo trezentos mil, e isso é uma previsão otimista. O rosto de Annika alongou-se.
— Duzentos e cinquenta mil? Mas o Jochen disse oitocentos mil. Contávamos com este dinheiro para o sinal em Charlottenburg. Svenja encolheu os ombros com o ar de quem só faz o seu trabalho e não tem culpa das más notícias.
— Posso dar-lhe o contacto de um avaliador independente para uma segunda opinião, mas ele dir-lhe-á o mesmo. Vou enviar-lhe um relatório mais detalhado por email dentro de alguns dias. Annika parecia perdida e irritada. Deu-lhe o número de telefone e o email.
Svenja despediu-se, saiu do apartamento e desceu as escadas. As pernas moviam-se sozinhas. Mal via os degraus. Saiu do edifício, caminhou até à esquina e parou, encostando-se à parede fria.
Começou a tremer. Primeiro as mãos, depois os ombros, depois o corpo inteiro. Ficou ali, de costas contra os tijolos, a tremer como se estivessem vinte graus negativos e não apenas um fresco outonal. Tudo se desfocava diante dos seus olhos.
A escova de dentes estranha, a roupa interior cor-de-rosa na cadeira. Ursinho, as pessoas aqui perguntam. Casamento na primavera, um ano e meio. Um ano e meio.
O telemóvel vibrou no bolso. Svenja tirou-o mecanicamente e olhou para o ecrã. Um lembrete do voo para o dia seguinte. Percebeu que não podia.
Fisicamente não conseguia ir a lado nenhum, sentar-se em reuniões, falar com fornecedores e fingir que estava tudo bem. Procurou o número de uma colega nos contactos e ligou:
— Saskia, olá. Faz-me um favor. Podes voar para Munique amanhã no meu lugar?
Explico-te depois. Não posso agora. É urgente. Saskia, Deus a abençoe, não fez perguntas desnecessárias, só esclareceu os detalhes da reunião com o fornecedor e aceitou.
Svenja desligou e ficou mais alguns minutos encostada à parede, a olhar para o céu cinzento de novembro, a tentar acalmar o tremor. Então lembrou-se do cartão de visita no frigorífico. Tirou o telemóvel e marcou o número. — Imobiliária Haus und Stil.
A Dr. ª Wagner. Em que posso ajudar? — Bom dia — disse Svenja, tentando manter a voz firme.
— Sou a esposa do Jochen Bergmann. Ele deixou um pedido de avaliação de um apartamento convosco. Mudámos de ideias. Encontrámos um agente através de conhecidos.
Cancele o pedido, por favor. — Entendido. Obrigada pela informação. Svenja desligou.
Um problema a menos. Agora a verdadeira agente não apareceria para estragar tudo. Marcou o número da amiga. — Beate, estás em casa?
Preciso de ir ter contigo imediatamente. Não, não posso falar por telefone. Vou aí e conto-te tudo. Foi para o carro, sentou-se ao volante e ficou muito tempo ali, sem ligar o motor, apenas agarrada ao volante.
Depois respirou fundo, expirou e virou a chave. Enquanto atravessava a cidade em direção a casa da Beate, os pensamentos começaram a organizar-se. A raiva veio depois. A princípio, havia apenas entorpecimento.
Dez anos de casamento. Dez anos a lavar-lhe as meias, a cozinhar-lhe o jantar, a aturar o mau humor, o silêncio e a indiferença. E ele andava há um ano e meio com outra mulher e planeava um casamento. Beate abriu a porta e percebeu pela cara da amiga que o assunto era sério.
Abraçou-a em silêncio, fê-la entrar, sentou-a no sofá, serviu-lhe um chá e só depois perguntou:
— O que aconteceu? Svenja começou a contar tudo atabalhoadamente, saltando de um assunto para o outro. O voo cancelado, a mulher de roupão, o tal ursinho e as três escovas de dentes. A meio do relato, desatou a chorar.
Pela primeira vez em muitos anos, chorou a sério, feio, com soluços e ranho. Beate sentou-se ao lado dela e passou-lhe a mão pelas costas, sem dizer nada. Quando as lágrimas secaram, Svenja limpou o rosto e disse:
— Ela pensou que eu era a agente imobiliária e eu entrei no jogo. Visitei o meu próprio apartamento como se fosse uma estranha.
Beate assobiou entre os dentes. — Loucura. E agora? Svenja calou-se, a olhar para a chávena de chá frio.
A raiva subiu finalmente de um lugar profundo, quente, densa e a dar-lhe força. — Ainda não sei — disse devagar. — Mas isto não vai ficar assim. Ele quer vender o apartamento e viver feliz com essa Annika.
Vamos ver como lhe corre. Passou a noite na casa da Beate. Svenja quase não dormiu. Ficou deitada no sofá da sala, a olhar para o teto, a pensar.
A raiva que tinha explodido à tarde não desaparecera. Simplesmente aprofundara-se e transformara-se de quente em fria e calculista. Pela madrugada, um plano começou a tomar forma na sua cabeça. Ainda confuso, com falhas, mas já era qualquer coisa.
Pensou que o apartamento pertencia ao Jochen. Ele comprara-o antes do casamento, quando ainda eram namorados. Isso significava que, no divórcio, ela não receberia nada. Dez anos de vida em comum e ela sairia com uma única mala, como uma mendiga.
Ele viveria com a Annika, teria o casamento, compraria o apartamento novo em Charlottenburg, e ela ficaria sem nada. Mas ele planeava vender o apartamento, vendê-lo barato, porque a agente assustara a sua bobinha com um suposto acesso à autoestrada. Se queriam vender o apartamento na mesma, porque não comprá-lo ela própria? Svenja virou-se no sofá e olhou para a escuridão.
A ideia era louca, mas quanto mais pensava, mais gostava. Comprar o próprio apartamento por uma ninharia e depois vê-lo a contorcer-se sem dinheiro, sem hipoteca e sem a sua amada Annika. Resta saber de onde viria o dinheiro. Mesmo com a avaliação baixa, o apartamento custaria duzentos e cinquenta mil euros.
Ela tinha cerca de vinte mil euros poupados na conta, juntados aos poucos. O Jochen não sabia dessas economias. Também podia pedir um empréstimo. Os bancos estavam a concedê-los com relativa facilidade, e o carro estava em nome dela.
Podia dá-lo como garantia. Svenja levantou-se em silêncio, tentando não acordar Beate. Foi à cozinha e ligou a máquina de café. Eram cinco da manhã.
Lá fora, ainda estava escuro. Pegou no telemóvel e abriu a calculadora. Começou a fazer contas. Economias, vinte mil.
Um crédito pessoal, com o salário e a antiguidade na empresa, talvez sessenta mil, ou um pouco mais. O carro valia cerca de doze mil e quinhentos. Se o desse como garantia, conseguiria talvez setenta por cento do valor, cerca de oito mil setecentos e cinquenta. Digamos que conseguiria juntar no máximo cem mil euros.
Faltavam cento e cinquenta mil. Onde arranjaria esse dinheiro? A mãe podia ajudar, mas só tinha a reforma e umas pequenas economias para emergências, pouco mais de vinte e cinco mil euros. O pai morrera há muito tempo.
Os familiares não eram ricos. A própria Beate, depois do divórcio, mal chegava ao fim do mês. Svenja pousou o telemóvel e abraçou a chávena quente com as mãos. Bem, pensou.
Primeiro faço o que posso, e depois logo se vê. Talvez me ocorra alguma coisa. De manhã, foi ao banco onde tinha a conta do salário. Falou com uma funcionária, uma mulher cansada de quarenta anos.
Explicou que queria um empréstimo pessoal. — De que valor? — perguntou a funcionária sem tirar os olhos do monitor. — Setenta mil euros — disse Svenja, surpreendida com a segurança na própria voz.
A mulher olhou para cima, examinou-a e acenou. — Vamos ver. Tem o bilhete de identidade? Vejo que recebe o salário aqui.
Portanto, não precisa de comprovativo de rendimentos. Temos tudo no sistema. — Introduziu os dados, clicou e disse: — Podemos aprovar sessenta mil. Prazo até cinco anos.
Tratamos do processo? Svenja acenou. Tudo no seu interior se contraiu, mas não deixou transparecer. Assinou o contrato, recebeu a confirmação do valor na conta e saiu do banco com a sensação de ter saltado para o vazio.
No dia seguinte, foi a outro banco, não onde o Jochen tinha conta. Só por precaução. Pediu um empréstimo com o carro como garantia. Avaliaram o carro melhor do que esperava e ela conseguiu juntar mais quinze mil euros, adicionando um pequeno empréstimo extra.
Do banco, Svenja ligou à mãe. — Mãe, olá. Preciso da tua ajuda. Podes emprestar-me vinte e cinco mil euros?
Devolvo-te assim que puder. A mãe ficou em silêncio por alguns segundos. — Filha, o que aconteceu? — Conto-te depois, mãe.
Não é boa ideia falar por telefone. A sério. Nova pausa. Svenja quase conseguia ouvir a mãe a pensar, a decidir entre fazer mais perguntas ou simplesmente confiar.
— Está bem — disse a mãe finalmente. — Vem cá hoje à noite. O meu depósito a prazo venceu agora. Svenja expirou.
— Obrigada, mãe. Explico-te tudo. Prometo. À noite, recebeu os vinte e cinco mil euros da mãe, aquelas economias para um dia chuvoso acumuladas ao longo de anos.
Teve de lhe contar brevemente sobre o Jochen e a Annika, sem detalhes. A mãe ouviu em silêncio, apenas comprimindo os lábios, parecendo envelhecer de repente. — Sempre soube que ele não te merecia — disse ela quando Svenja acabou. — Já no casamento vi os olhos dele a vaguear, mas não quiseste ouvir.
— Mãe, agora não comeces com isso. — Não começo. Faz o que tens planeado. Conheço-te.
Quando te decides, ninguém te tira da ideia. Svenja abraçou a mãe e voltou para casa da Beate. Não tencionava ir para casa até chegar o momento certo. Ao todo, agora tinha cento e quinze mil euros.
Faltavam cento e trinta e cinco mil. Svenja estava sentada na cozinha da Beate, a olhar para os números no papel. Cento e trinta e cinco mil. Onde os arranjaria?
Não lhe dariam outro empréstimo. A sua capacidade de endividamento já estava no limite. Vender algo, não tinha nada para vender. Pedir dinheiro a amigos, não tinha amigos com tanto dinheiro.
— E se simplesmente deixasses andar? — sugeriu Beate com cautela. — A sério, Svenja. Sobrevives ao divórcio.
Alugas um sítio, recomeças. Para que queres arranjar esta confusão toda? Svenja abanou a cabeça. — Não percebes.
Ele deita-me fora ao fim de dez anos como um trapo velho. E vai viver uma vida feliz com essa boneca, festas, filhos, sem lhe acontecer nada. Isso não pode ser. — Vingança não resolve nada — disse Beate, sem grande convicção.
— Não é vingança, é justiça. Ele quer enganar-me e eu vou enganá-lo. Ele que saiba como é que se sente. Beate suspirou e serviu mais chá.
Conhecia a amiga há anos e sabia que discutir era inútil. No dia seguinte, Svenja foi ao supermercado perto da sua casa. Não ao da Beate, mas ao do seu bairro. Não sabia bem porquê.
Talvez só quisesse estar no seu bairro. Talvez quisesse inconscientemente ver as janelas do seu apartamento. Estacionou no parque de estacionamento do Edeka, entrou, pegou num cesto e começou a vaguear sem destino pelos corredores, atirando coisas para dentro ao acaso. Na cabeça, os números continuavam a girar.
Cento e trinta e cinco mil. Cento e trinta e cinco mil. Talvez pudesse baixar ainda mais o preço. Ligar à Annika e assustá-la com outra coisa qualquer.
Não, isso já seria suspeito. Encontrar um comprador que fizesse o sinal e depois desistisse. Demasiado complicado e pouco fiável. Pôs-se na fila da caixa, ainda perdida em pensamentos.
À sua frente, uma mulher com um carrinho cheio; atrás, um homem de casaco escuro. A fila avançava devagar. — Svenja? — ouviu uma voz atrás dela.
— Svenja Bergmann. Svenja virou-se mecanicamente. Fazia tempo que ninguém a chamava pelo nome de solteira. Embora o usasse legalmente, todos a tratavam por Sra.
Bergmann. Atrás dela estava um homem de cerca de trinta e sete anos, alto, de ombros largos, cabelo escuro curto e olhos cinzentos atentos. O rosto parecia-lhe vagamente familiar, mas não se lembrava de onde. — Desculpe, conhecemo-nos?
— perguntou. O homem sorriu, e então ela reparou numa cicatriz branca e fina na sobrancelha esquerda e lembrou-se num estalo: verão, bicicletas, um rapaz de dez anos a descer uma colina a toda a velocidade. O guiador a torcer-se, o impacto no passeio. Sangue, choro.
Ela tinha chorado mais alto do que ele, apesar de ser ele que tinha aberto a sobrancelha, não ela. — Ansgar — sussurrou ela, incrédula. — Ansgar Castillo? Ele acenou.
— O próprio Ansgar — e o sorriso alargou-se. — E tu não mudaste nada. Reconheci-te na hora. Svenja olhava para ele sem saber o que dizer.
Ansgar Castillo, o amigo de infância. Tinham crescido no mesmo bairro desde os cinco anos. Andaram juntos na escola primária, faltaram às aulas juntos, esconderam-se dos valentões da vizinhança. Ansgar fora o único rapaz que nunca gozara com os seus óculos nem lhe puxara as tranças.
Quando tinham dezasseis anos, o pai do Ansgar, militar, fora transferido para outra cidade e a família mudara-se. Prometeram escrever-se, escreveram-se durante algum tempo, depois cada vez menos, até perderem o contacto. Tinham passado vinte anos. — O que estás aqui a fazer?
— perguntou ela finalmente. — Tu tinhas ido embora. — Voltei — respondeu Ansgar. — O meu pai morreu no ano passado.
A minha mãe decidiu voltar para aqui, para perto da minha tia. Ajudei-a na mudança e decidi ficar. Cansei-me de andar sempre de um lado para o outro. Queria finalmente criar raízes.
A fila avançou e a mulher com o carrinho começou a pôr as compras no tapete. Svenja deu um passo em frente mecanicamente, sem tirar os olhos de Ansgar. — A sério, agora vives aqui? — Sim.
Aluguei um apartamento mesmo ao lado. Entretanto, trabalho por conta própria, transporte de mercadorias. Tenho uma pequena frota, nada de especial, mas chega para viver. Chegou a vez dela.
Svenja pagou, pôs as compras no saco e saiu da loja. Ansgar seguiu-a. Só tinha comprado uma garrafa de água e um pão. — Vamos beber um café — sugeriu ele.
— Há um café decente mesmo ao lado, se não tiveres pressa. — Claro. Vinte anos sem nos vermos, há muito para contar. Svenja quis recusar.
Não estava com disposição para café naquele momento. Mas depois olhou para os olhos calmos e cinzentos dele e percebeu subitamente que queria falar com alguém que não conhecesse nada daquela história com o Jochen, alguém da sua vida anterior, quando tudo era mais simples. — Combinado — disse ela. O café era pequeno e aconchegante.
Sentaram-se junto à janela, pediram café e Ansgar começou a contar a sua vida. O exército, onde quase entrara mas depois decidira estudar logística, as viagens pelo país, a empresa que criara há cinco anos, a esposa de quem se divorciara há dois. — Ela encontrou alguém mais interessante — disse ele, sem grande amargura. — Acontece.
Eu só vivia para o trabalho. Ela aborreceu-se. Bom, separámo-nos em paz, sem dramas. — Lamento — disse Svenja.
— Já passou. Não faz mal. E contigo? Casaste?
E então Svenja desmoronou-se. Nem ela própria esperava, mas de repente começou a contar-lhe tudo sobre o Jochen. A Annika de roupão, as três escovas de dentes, o casamento na primavera, a avaliação falsa e o plano que estava a falhar porque lhe faltavam cento e trinta e cinco mil euros. Ansgar ouviu em silêncio, sem interromper, apenas acenando às vezes ou franzindo a testa.
Quando ela acabou, ficou muito tempo calado, a girar a chávena de café frio entre as mãos. — Então queres tirar-lhe o apartamento debaixo do nariz? — perguntou finalmente. — Quero, mas não tenho dinheiro suficiente.
— Quanto te falta? — Quase cento e trinta e cinco mil euros. Ansgar calou-se de novo. Depois disse:
— Eu tenho.
Empresto-te sem juros. Devolves-me quando puderes. Svenja olhou para ele, incrédula. — Estás a falar a sério?
Cento e trinta e cinco mil euros. Não nos vemos há vinte anos, Ansgar. E se eu te enganar? — O que é que eu penso?
Que me esqueci de como choraste mais alto do que eu quando caí da bicicleta? Ou de como me roubaste maçãs do quintal quando estava doente? Ou de como mentiste à minha mãe dizendo que eu estava contigo quando, na verdade, me tinha escapado para o rio? Svenja sorriu involuntariamente.
— Lembras-te de tudo isso. — De tudo. — E então ele olhou-a nos olhos. — Esse teu marido, já vi muitos da laia dele.
Acham-se muito espertos, pensam que têm tudo sob controlo e depois admiram-se quando o karma os apanha. Vai ser um prazer participar. — Não é esmola, Ansgar. Vou devolver-te cada cêntimo.
— Não duvido. — Inclinou-se para a frente e baixou a voz. — E mais uma coisa. O comprador serei eu.
O teu marido não me conhece, pois não? Svenja acenou devagar. — Não. Ele não conhece ninguém da minha vida anterior.
Conhecemo-nos depois da universidade. — Perfeito. Então serei o comprador. Apareço em nome da agente.
Tudo limpo. Ele não vai suspeitar de nada. Svenja olhou para aquele homem que há vinte anos era um miúdo franzino com uma cicatriz na sobrancelha e que agora estava sentado à sua frente, oferecendo-lhe cento e trinta e cinco mil euros por pura amizade antiga. Teve um nó na garganta.
— Obrigada — disse baixinho. — Não sei como te agradecer. — Devolve o dinheiro e estamos quites — respondeu Ansgar, sorrindo. — E agora conta-me o teu plano em detalhe.
Onde, o quê, como. Os dois dias seguintes foram passados por Svenja em casa da Beate, a preparar-se para voltar a casa. Tinha de representar o papel da esposa que não suspeita de nada e que acabou de voltar de uma viagem. Nenhuma insinuação de que sabia da Annika.
Nenhuma raiva, nenhuma acusação. Apenas uma mulher cansada depois de uma longa viagem. Na tarde do terceiro dia, estacionou em frente ao prédio, pegou na mala e subiu ao terceiro andar. A chave rodou na fechadura como sempre.
A porta abriu-se e ela entrou. — Estou em casa — gritou da entrada, tentando que a voz soasse normal. Jochen saiu do quarto e olhou para ela com a testa franzida. Estava com mau aspeto, amarrotado, por barbear, com olheiras.
— Hm — resmungou em vez de cumprimentar, e foi para a cozinha. Svenja pousou a mala junto ao armário, tirou o casaco e seguiu-o. Ele estava sentado à mesa diante de uma chávena de chá, a olhar para o telemóvel. Ela sentou-se em frente e ficaram alguns minutos em silêncio.
— Como foi a viagem? — perguntou ele finalmente, sem tirar os olhos do ecrã. — Bem. A entrega foi inspecionada, assinámos os documentos.
Novo silêncio. Svenja levantou-se, abriu o frigorífico e tirou algo para o jantar. O íman da Maiorca tinha desaparecido. Depois do jantar, enquanto ela lavava a loiça, Jochen disse de repente:
— Precisamos de falar.
Svenja fechou a torneira e voltou-se. Ele estava encostado ao batente da porta, a olhar para ela de uma maneira estranha. Não com ódio, mas com distância, como se ela fosse uma estranha. — Estou a ouvir.
— É o seguinte. Vou deixar-te. Quero o divórcio. Amanhã vamos ao registo civil e fazemos o pedido.
Dentro de um mês, estamos livres. Svenja calou-se, fingindo estar chocada. Por dentro, tudo fervia, mas por fora, parecia de pedra. — Queria ter-te dito há mais tempo.
Esperei pelo momento certo. — Cancelei-me disto, percebes? Dez anos da mesma coisa. Chegas a casa e lá estás tu, com essa cara de poucos amigos.
Não se pode falar nem rir como deve ser. Ficaste chata como uma velha. Olho para ti e já não sinto nada há muito tempo. Nada.
Ele calou-se, como se esperasse que ela começasse a chorar ou a gritar. Mas Svenja ficou parada, a olhar para ele, apertando a esponja molhada na mão. — Tenho outra mulher — disse ele, com mais firmeza. — Há algum tempo.
E com ela sinto-me vivo. Ela é jovem, alegre, não se queixa constantemente do dinheiro e do cansaço. Com ela apetece-me viver. E contigo…
— fez um gesto com a mão. — Contigo, todos estes anos, só existi. Svenja sentiu a esponja escapar-lhe dos dedos e cair no lava-loiça. Mesmo sabendo tudo de antemão, doía ouvir aquilo.
Não porque o amasse. O amor tinha morrido há muito. Doía pela injustiça, pela facilidade com que ele apagava dez anos da sua vida. — O apartamento era meu antes de casarmos — continuou Jochen, num tom profissional.
— Vou vendê-lo. Os agentes já estão a tratar disso. O meu sinal para o apartamento novo está a expirar. Não tenho tempo.
Por isso, faz as tuas malas e desaparece até amanhã à noite. Não quero que estejas aqui. — Amanhã à noite? — perguntou Svenja, com a voz a tremer.
— Amanhã à noite — repetiu ele, com dureza. — Vai para onde quiseres. Para a tua mãe, para as tuas amigas, para a rua. Não me importa.
Só me falta ter de te aturar aqui enquanto os compradores vêm. Dez anos aturei-te. Chega. Svenja sustentou o olhar dele.
— Está bem — disse baixinho. Foi para o quarto. Rapidamente, fez uma pequena mala: documentos, o essencial em roupa, o carregador do telemóvel. Jochen nem levantou os olhos da televisão quando ela passou por ele em direção à porta.
— As chaves em cima da mesa! — gritou ele atrás dela. Svenja pousou o molho de chaves no aparador do espelho e saiu do apartamento, fechando a porta silenciosamente atrás de si. Dez anos de vida, e tão simples assim, sem uma única palavra de despedida.
Entrou no carro e escreveu a Ansgar: Ele está com pressa. Prepara-te. A resposta chegou um minuto depois. Tudo pronto.
Espero pelo teu sinal. Depois ligou à Beate. — Posso ficar mais uns dias contigo? Ele pôs-me na rua.
Beate não fez perguntas desnecessárias. Apenas disse: — Vem. Na manhã seguinte, Svenja ligou à Annika. — Está?
— atendeu uma voz conhecida. — Bom dia, Annika. Sou a Maren, a agente imobiliária. Vimo-nos por causa do apartamento.
— Ah, sim, sim. Bom dia. Há novidades? — Sim, encontrei um comprador.
Um senhor solvente está disposto a pagar duzentos e trinta mil euros, sem regatear. Tem os documentos em ordem. Pode fechar o negócio rapidamente. — Duzentos e trinta mil — havia desapontamento na voz de Annika.
— Contávamos com pelo menos duzentos e cinquenta mil. — Percebo. Mas na situação atual, com o acesso à autoestrada, é uma boa oferta. Claro que podem esperar por outro comprador, mas não há garantias.
E este está pronto a comprar. Ah, já agora. Vou fazer uma longa viagem de negócios. Não posso acompanhar o negócio até ao fim, mas já falei com uma colega.
É uma pessoa muito fiável, muitos anos de profissão. Britta. Ela entrará em contacto convosco. Podem perguntar-lhe tudo.
— Está bem — disse Annika. — Vou dizer ao Jochen. Svenja desligou e expirou. Britta, a irmã da Beate, era uma verdadeira agente imobiliária com quinze anos de experiência.
Beate tinha-lhe ligado na véspera, enquanto Svenja contava o plano na cozinha. Britta chegou numa hora, ouviu a história, ficou em silêncio por um momento e depois disse:
— Que idiota, o teu ex. Claro que te ajudo. Ela própria sugeriu a melhor forma de formalizar o contrato de compra e venda, para que tudo fosse legal e perfeito.
Algumas horas depois, Britta ligou ao Jochen e marcou uma reunião com o comprador. Tudo corria conforme o plano. A reunião foi marcada para sábado, ao meio-dia. Svenja estava sentada na cozinha da Beate, a olhar para o relógio.
Os ponteiros andavam insuportavelmente devagar. Ansgar devia ir com Britta ao apartamento, visitá-lo como um comprador normal, regatear por fingimento e aceitar o negócio. Um plano simples, mas nem por isso menos stressante. — Para de te mexeres tanto — disse Beate, servindo-lhe a terceira chávena de chá.
— Vai correr tudo bem. A Britta sabe o que faz. Já fez centenas de negócios destes. — E se ele suspeitar de alguma coisa?
— Svenja abraçou a chávena com as mãos, a tentar acalmar o tremor. — E se o Ansgar for reconhecido de algum sítio, ou a Britta cometer um erro? — De onde é que ele o conheceria? Tu própria disseste que nunca se cruzaram.
E a Britta é uma profissional. Já viu coisas piores. O telemóvel na mesa vibrou. Mensagem de Ansgar.
Estamos cá. Vamos começar. Svenja olhou para o ecrã e sentiu o coração acelerar. Pronto.
Estava tudo a começar. Ansgar saiu do táxi e olhou em redor. Um bairro residencial normal, prédios de cinco andares, um parque com equipamento desbotado. Ao lado dele, Britta, uma mulher pequena e enérgica de quarenta anos, cabelo curto e olhar afiado.
Nas mãos, uma pasta com documentos, e parecia absolutamente inabalável, como se fizesse operações daquelas todos os dias. — Pronto? — perguntou ela em voz baixa. — Pronto — acenou Ansgar.
Entraram no prédio e subiram ao terceiro andar. Britta tocou à campainha. Jochen abriu, amarrotado, de calças de fato de treino e uma t-shirt velha. Examinou Ansgar com o olhar, depois Britta, e afastou-se.
— Entrem. Ansgar percorreu lentamente os quartos. Olhou para os cantos, verificou as janelas, abriu os armários. Representava o papel do comprador exigente, franzia a testa, abanava a cabeça, fazia perguntas sobre os canos e a eletricidade.
Jochen seguia atrás dele, respondendo de forma monossilábica, visivelmente irritado por ter de deixar um estranho entrar no seu ainda apartamento. Annika mantinha-se por perto. Tinha vindo de propósito para assistir à visita. Parecia nervosa e olhava constantemente para Jochen, como se esperasse garantias dele.
— E aquele terreno baldio lá fora? — perguntou Ansgar, apontando para a janela da cozinha. — É só um terreno — encolheu os ombros Jochen. — Sempre esteve lá.
— Dizem que vão construir um acesso à autoestrada. — Isso é treta. Na verdade, ninguém sabe nada ao certo. Quer dizer, talvez construam, talvez não.
— Então? — Sou adivinho? Ansgar olhou para ele com os olhos semicerrados. Britta interveio com um sorriso profissional:
— Em todo o caso, isso já está refletido no preço.
Duzentos e trinta mil é uma oferta muito razoável, considerando todos os riscos. Ansgar percorreu o apartamento mais um pouco, verificou mais algumas coisas, apontou uma fissura no azulejo da casa de banho, um soalho que rangia no corredor, os radiadores antigos. O rosto de Jochen escurecia a cada minuto. Annika mordia os lábios.
Finalmente, Ansgar parou no meio da sala e disse:
— Duzentos mil. Não dou mais. — Tínhamos combinado duzentos e trinta mil — interveio Annika. — Tínhamos combinado até eu ver o estado do apartamento.
Os canos têm de ser trocados. A eletricidade é antiga, azulejos partidos. Duzentos e vinte mil. E ainda estou a fazer um favor.
Jochen rangeu os dentes. Visivelmente, queria mandar o comprador para o inferno, mas Annika agarrou-lhe no braço e sussurrou-lhe:
— Jochen, o nosso sinal está a expirar. Vamos perder esta oportunidade. — Duzentos e vinte e cinco mil — conseguiu dizer Jochen finalmente.
— Último preço. Ansgar fingiu pensar. Depois acenou. — Fechado.
Apertaram as mãos. Britta tirou imediatamente os formulários da pasta e começou a preencher o contrato de compra e venda. Tudo corria às mil maravilhas. Os dias seguintes fundiram-se para Svenja numa espera contínua.
Britta conduziu o processo impecavelmente, preparou todos os documentos, verificou o estatuto legal do apartamento, marcou a reunião no notário. Ansgar fez o sinal. Jochen assinou tudo o que era necessário, sem ler muito. Tinha pressa em receber o dinheiro e começar a sua nova vida com Annika.
Uma semana depois, assinaram o contrato de compra e venda. Cinco dias mais tarde, o registo predial estava concluído. O apartamento passava oficialmente para a propriedade de Ansgar Castillo. Svenja soube através de uma breve mensagem.
Tratado. O apartamento é meu, ou seja, teu. Estava sentada no sofá da Beate e olhava para aquelas palavras, sem acreditar. Tinha funcionado.
Tinha mesmo funcionado. O apartamento que Jochen queria vender para construir uma vida feliz com outra mulher pertencia agora ao seu amigo de infância e, no fundo, a ela. — O que foi? — perguntou Beate, olhando por cima do ombro.
— Está feito — disse Svenja. — O apartamento é nosso. Beate soltou um grito e atirou-se ao pescoço dela. Saltaram pela sala como duas miúdas, a rir e a chorar ao mesmo tempo.
Pela primeira vez naquela semana, algo se soltou no seu interior. Aquele nó apertado que carregava no peito desde aquele dia. Mas aquilo era apenas metade do assunto. Faltava a partilha de bens.
Alguns dias depois da conclusão da venda, foram convocados para a audiência de divórcio. Foi exatamente um mês depois do dia em que Jochen a arrastara para fazer o pedido. Na altura, ele tinha pressa, estava nervoso, apressava-a a cada passo. Agora apareceu amarrotado e furioso, com os olhos vermelhos de falta de sono.
Svenja apareceu com um vestido preto formal, cabelo bem penteado e maquilhagem leve. Parecia calma e até em paz consigo mesma. Sabia algo que ele não sabia. O apartamento que ele vendera com tanta pressa pertencia agora ao amigo dela.
E em breve, Jochen teria outra surpresa. Aparentemente, a venda do apartamento não tinha corrido tão bem como ele calculava. Ou talvez Annika já estivesse insatisfeita com alguma coisa. O processo foi rápido.
Assinaram onde era preciso, receberam o certificado de divórcio e saíram para a rua já como estranhos. Svenja quis ir embora imediatamente, mas Jochen agarrou-lhe no cotovelo. — Espera. Temos de discutir a partilha de bens.
— Que partilha? — Ela olhou para ele com verdadeira surpresa. — O apartamento era teu e já o vendeste. O carro é meu.
O que há mais para dividir? — Não tenho tanta certeza quanto ao carro, e, de um modo geral, temos de legalizar tudo num notário, para não haver reclamações no futuro. — Está bem — encolheu os ombros Svenja. — Vamos tratar disso.
Marcaram o encontro no notário alguns dias depois, para assinar o acordo de liquidação da comunhão de bens. Mas o ponto-chave estava nas dívidas. Jochen saiu primeiro, sem sequer se despedir. Svenja viu-o afastar-se e pensou que, dentro de poucos dias, ele descobriria algo interessante.
A reunião no notário foi na sexta-feira. Svenja chegou alguns minutos mais cedo e ainda conseguiu falar com a notária, uma mulher mais velha de óculos, que ouviu a sua explicação e acenou com ar compreensivo. Jochen chegou a horas, sentou-se em frente a Svenja à mesa e resmungou:
— Vamos despachar isto. Tenho coisas para fazer.
A notária espalhou os documentos e começou a ler as fórmulas-padrão. O imóvel no endereço indicado, adquirido pelo cônjuge antes do casamento, não está sujeito a partilha e foi já alienado. O veículo da marca Volkswagen Golf, registado em nome da cônjuge, encontra-se penhorado como garantia num banco. — Penhorado?
— interrompeu Jochen. — Que penhora? — Fiz um empréstimo e dei o carro como garantia — respondeu Svenja calmamente. — Não te disse.
— Não, não me disseste. Para que precisas de um empréstimo? — Despesas pessoais. Jochen franziu a testa, mas ficou calado.
A notária continuou a ler. Obrigações de crédito contraídas durante o casamento. Fez uma pausa e olhou para Jochen por cima dos óculos. Um empréstimo pessoal no valor de cinquenta e cinco mil euros e um empréstimo com garantia do veículo no valor de quinze mil euros.
Nos termos do código civil e das regras da comunhão de bens, as dívidas contraídas durante o casamento para benefício do agregado familiar são divididas em partes iguais entre os cônjuges. Jochen empalideceu. — O quê? Que empréstimos?
De onde vêm setenta mil euros de dívidas? — Para ser exata, são exatamente setenta mil euros — corrigiu a notária. — A sua parte corresponde a trinta e cinco mil euros. Jochen voltou-se para Svenja.
O rosto encheu-se de manchas vermelhas. — Pediste empréstimos de setenta mil euros pelas minhas costas? Svenja recostou-se na cadeira e olhou para ele com um ligeiro sorriso. — Jochen, não te lembras?
Pedimo-los para necessidades familiares. Planeámamos a renovação, as férias, tudo isso. É verdade que já não há família, mas as dívidas ficaram. Metade é tua.
— Que renovação? Que férias? Não planeámos nada. — Claro que planeámos.
Dizias sempre que era preciso renovar a casa de banho. Que era preciso ir à praia. Então pedi-os. Jochen levantou-se de um salto, derrubando a cadeira.
— Fizeste isto de propósito. Fizeste isto de propósito! — Prova. Svenja olhou para ele de baixo para cima, e a voz estava gelada.
— Os empréstimos foram contraídos durante o casamento, nos termos da lei, para fins familiares. Tudo legal. Podes verificar com qualquer advogado. — Vou processar-te.
— Processa. Vamos ver o que o juiz diz. A notária tossiu discretamente. — Com licença, mas preciso da vossa decisão.
Assinam o acordo ou não? Jochen ficou parado, de punhos cerrados, a olhar para Svenja com um ódio que ela quase podia sentir fisicamente. Mas ela não se importava. Pela primeira vez em muitos anos, não se importava absolutamente com o que ele pensava ou sentia.
— Assina, Jochen — disse ela suavemente. — Quanto mais depressa acabarmos, mais depressa tratas da tua vida. Acho que ainda tens uma hipoteca em aberto, não tens? Ele perfurou-a com o olhar por mais alguns segundos, depois deixou-se cair pesadamente na cadeira e arrancou a caneta das mãos da notária.
Assinou onde era preciso, atirou a caneta para a mesa e saiu em disparada, batendo com a porta com tanta força que os vidros vibraram. Svenja assinou cuidadosamente as suas cópias, agradeceu à notária e seguiu-o. Na rua, o sol brilhava e estava frio. Cheirava a inverno que se aproximava.
Respirou fundo o ar fresco e sorriu. Duas semanas depois, Svenja estava na cozinha da Beate quando Britta ligou. Beate colocou o telefone no modo altifalante. — Ah, já agora — disse Britta.
— Lembram-se daquele tipo a quem ajudei na venda do apartamento? O ex-marido da vossa amiga? — Claro que me lembro. O que se passa com ele?
— Corre o boato de que anda por todos os bancos a tentar obter a hipoteca do apartamento novo, e é recusado em todo o lado. Svenja inclinou-se para a frente, toda ouvidos. — Recusado? Porquê?
— Tenho uma conhecida no Commerzbank. Ela diz que ele entrou há uns dias furioso como um touro. Fez o pedido, verificaram o registo de crédito e ele tem uma dívida de mais de trinta e cinco mil euros pendurada. Com o salário dele e esse encargo financeiro, não dá para a hipoteca.
Resumindo, foi recusado. Fez um escândalo, mas pediram-lhe educadamente que saísse. Beate olhou para Svenja e piscou-lhe o olho. — Pobre Jochen.
E o que vai fazer agora? — Não faço ideia, mas não vai conseguir hipoteca tão cedo, isso é certo. Enquanto não pagar as dívidas, ninguém vai correr o risco com ele. Quando a chamada terminou, Beate serviu um copo de vinho para cada uma.
— À justiça — disse ela, erguendo o copo. — À justiça — repetiu Svenja. Uma semana depois, Ansgar ligou. — Olha, tenho novidades — disse ele, com uma risada mal contida na voz.
— Ligou-me alguém. — Quem? — O antigo dono do apartamento. O teu ex-marido.
Svenja quase deixou cair o telemóvel. — O Jochen? Ligou-te? Para quê?
— Quer comprar o apartamento de volta. Diz que mudou de ideias. Que percebeu o erro. Que está disposto a pagar mais do que eu paguei.
— E o que lhe disseste? — Disse-lhe que não vendo. Ele começou a pressionar, a implorar, depois a ameaçar. Desliguei.
Svenja ficou em silêncio, a processar a informação. — Então está a aperceber-se aos poucos. — Parece. Aparentemente, não conseguiu a hipoteca.
A Annika deve estar a pressioná-lo todos os dias. Por isso está tão desesperado. Só que agora é tarde demais. — Tarde demais — concordou Svenja.
— Ansgar, queria agradecer-te por tudo. Não sei o que teria feito sem ti. — Esquece. É para isso que servem os amigos.
A propósito, quando pensas mudar-te? — Tenho as chaves. Não é preciso fazer obras. Podes mudar-te amanhã, se quiseres.
— Em breve. Ainda tenho de resolver umas coisas no trabalho e preparar-me mentalmente. É estranho voltar para o apartamento onde aconteceu tanta coisa. — Percebo.
Mas agora é teu, só teu, e lá vai haver uma história nova, só tua. Os boatos de que tudo estava a desmoronar para Jochen chegaram a Svenja em pedaços. Britta contou que ele tinha ido a mais três bancos e fora recusado em todos. Beate soube por conhecidos comuns que o tinham visto bêbado e patético.
E depois Saskia, a colega do trabalho, ligou com a notícia mais interessante. — Olha, tu eras casada com o Jochen, não eras? — perguntou em tom de conspiração. — Era.
Porquê? — Sabias que a namorada o deixou? Svenja sentiu algo vibrar no seu interior. Não era alegria, antes uma satisfação sombria.
— Não, não sabia. Como soubeste? — O meu marido trabalha na mesma empresa que ele. O Jochen queixou-se a toda a gente no escritório.
Diz que ela o deixou por causa do dinheiro, porque ele lhe tinha prometido um apartamento e não conseguiu a hipoteca. Pelo que parece, ela fez as malas e foi para a mãe, noutra cidade. Disse que ligava quando ele regularizasse as finanças, mas parece que não vai ligar. Svenja ouviu em silêncio, imaginando a cena.
Annika, que durante um ano e meio fizera planos com o marido de outra, experimentara o roupão alheio e sonhara com um casamento na primavera, a arrumar a sua roupa interior cor-de-rosa e a ir-se embora porque Jochen não era tão bem-sucedido como prometera. A ironia do destino. — Obrigada por contares, Saskia. Notícias interessantes.
— Ficaste contente? — Não é que fique contente. É simplesmente justo. Um mês passou.
Svenja finalmente mudou-se para o apartamento. O seu apartamento. Ansgar deu-lhe as chaves, ajudou-a a transportar as coisas e montou os móveis novos que ela comprara para substituir os antigos. Decidiram fazer a transferência formal para ela mais tarde, quando o pó assentasse.
Por enquanto, Svenja vivia ali simplesmente como em sua casa. Os primeiros dias foram estranhos. Percorria os cômodos familiares e não os reconhecia. Tudo era igual: as paredes, as janelas, a disposição, mas sentia-se diferente.
Deitou fora tudo o que a lembrava de Jochen. A chávena dele que estava no armário, o barbeador esquecido na casa de banho, as revistas antigas onde ele gostava de folhear. Comprou cortinas novas, roupa de cama nova, pendurou um quadro na parede de que sempre tinha gostado, mas que Jochen tinha rejeitado categoricamente. Aos poucos, o apartamento tornou-se seu.
Não o apartamento onde vivera dez anos de um casamento infeliz, mas um lugar novo onde uma vida nova começava. Numa dessas tardes, estava à janela a olhar para o terreno baldio onde, supostamente, devia ser construído o acesso à autoestrada. Claro que não havia plano de construção nenhum. Svenja tinha-o inventado naquele momento, quando estava na cozinha em frente à Annika, a procurar desesperadamente uma forma de baixar o preço.
Tinha-se lembrado de que os colegas tinham mencionado algo sobre a autoestrada urbana e vendera aquilo como um facto. Um blefe completo. E funcionara. Svenja sorriu e afastou-se da janela.
Na cozinha, o assobio da chaleira. No rádio, música calma. Uma tarde normal. Pacífica, em silêncio, que pertencia apenas a ela.
E então aconteceu o que ela simultaneamente esperava e temia. Era um sábado à noite. Já escurecia. Svenja estava sentada na cozinha com um livro quando ouviu barulhos no pátio.
Foi à janela e olhou para fora. À entrada do prédio estava Jochen. Ele olhava para o carro dela, o Golf prateado estacionado no lugar habitual, como se não acreditasse no que via. Depois levantou a cabeça e olhou para as janelas do terceiro andar.
Svenja recuou para a sombra, mas era tarde demais. Ele viu-a. Durante alguns minutos, olharam um para o outro. Ele lá em baixo, ela lá em cima.
Mesmo à distância, era visível como o rosto dele mudava. Primeiro incredulidade, depois reconhecimento, depois compreensão. Olhou para o carro, depois para as janelas, depois novamente para o carro, e percebeu. Pelo rosto, via-se que entendia tudo de uma vez.
Svenja esperou que ele começasse a gritar, a bater à porta ou a exigir explicações. Mas ele ficou apenas parado, a olhar. Depois baixou lentamente a cabeça, virou-se e foi-se embora. Os ombros curvados.
Caminhava pesadamente, como um velho. Ela viu-o desaparecer atrás da esquina do prédio. Não sentiu triunfo nem júbilo, apenas cansaço e alívio. Estava tudo terminado.
Passaram-se três meses. A primavera chegava timidamente a Berlim, primeiro com os açafrões em flor e dias mais longos. Svenja acordava todas as manhãs no seu apartamento e surpreendia-se sempre com o bem que se sentia ali. Não havia mais aquela tensão acumulada ao longo dos anos.
Não havia olhares sombrios, nem silêncios ao jantar, nem a sensação de ser supérflua na própria casa. Havia apenas silêncio, paz e liberdade. No trabalho, tudo também se resolveu. Após o divórcio, os colegas cochicharam às suas costas no início, mas depressa perderam o interesse.
Surgiram novos boatos, novos dramas. Svenja trabalhava como sempre, talvez até melhor. Sem o peso de um casamento infeliz nos ombros, tudo era mais fácil. Com Ansgar, encontrava-se com frequência.
Ele aparecia para ajudar com qualquer pequena coisa: pendurar uma prateleira, arranjar uma torneira, montar um armário. Ficava para o chá, depois para o jantar. Conversavam durante horas, recordavam a infância, contavam os anos vividos, faziam planos para o futuro. Entre eles ainda não havia nada, mas Svenja sentia que aquele ainda se transformava aos poucos em outra coisa.
As dívidas a Ansgar, pagava-as aos poucos. Todos os meses punha de parte uma parte do salário. Ele não a pressionava. Dizia que podia esperar o tempo que fosse preciso.
Mas para ela, era importante devolver tudo até ao último cêntimo. Era uma questão de princípio. Sobre Jochen, tentava não pensar. Ouvia dizer, de passagem, que agora vivia com os pais, que tinha problemas no trabalho, que Annika nunca tinha regressado.
Não tinha pena dele, mas também não sentia rancor. Era apenas um estranho que, em algum momento, fizera parte da sua vida e agora já não fazia. Numa dessas manhãs de abril, soalheira e quente, Svenja foi acordada pela campainha. Olhou para o relógio.
Nove horas da manhã, sábado. Vestiu o roupão e foi abrir. À porta estava Ansgar com um saco de papel da padaria e dois copos de café. — Tomamos o pequeno-almoço?
— perguntou, sorrindo. Svenja retribuiu o sorriso e afastou-se para o deixar entrar. — Tomamos. Sentaram-se na cozinha, comeram o pão ainda quente e beberam café.
Lá fora, os pardais chilreavam. O sol inundava o quarto de luz, e tudo era tão simples, tão certo, que Svenja se surpreendeu com um pensamento: Estou feliz. Verdadeiramente feliz, pela primeira vez em muitos anos. — De que estás a rir?
— perguntou Ansgar. — De nada — respondeu ela. — Só estava a pensar que isto é bom. Ele estendeu a mão por cima da mesa e pousou-a sobre a dela.
Não disse nada, apenas a olhou com um olhar quente e calmo, e Svenja percebeu que aquele ainda tinha finalmente acabado. Uma manhã de sábado vulgar. Duas pessoas à mesa, o começo de algo novo.