A ligação veio quando eu menos esperava, num fim de tarde qualquer. Era a voz do meu irmão do meio, Alexandre, com aquele tom que ele usava quando tentava disfarçar uma má notícia com uma piada. “Lucas, aquele tal de Santos te magoou de novo, e eu estou parado no portão principal da base do Tiago Santos. ” O nome dele soou como um soco no estômago.

Tiago Santos, meu ex-marido, o general que um dia eu amei e que agora era apenas uma cicatriz que eu tentava esquecer. Passei vinte anos da minha vida ao lado daquele homem e do exército, vendo-o subir de líder de pelotão a general de brigada, comandando um corpo inteiro. Eu tinha sacrificado minha própria carreira, meus sonhos, para apoiar a dele. E o que recebi em troca?
Um divórcio doloroso e um filho para criar sozinha. O passado deveria ficar no passado, era o que eu repetia para mim mesma. Mas Alexandre nunca deixava barato, e ele sabia exatamente onde me encontrar. Entrei no carro, liguei o motor, mas não saí imediatamente.
As lembranças me inundaram como uma maré negra. Lembrei-me da manhã em que tudo desmoronou: eu tinha ido à base para entregar uns documentos, e um jovem soldado desconhecido, com no máximo vinte anos, estava em seu posto, o rosto tenso. Um oficial passou e disse algo, e eu só captei as palavras “esposa do comandante”. O rosto do soldado ficou vermelho vivo quando me viu, um rubor que não era de timidez, mas de culpa ou medo.
Eu não entendi na época. Mas o sargento João Evans, o ajudante do coronel, tinha um olhar que me seguia, um olhar que dizia que ele sabia de algo que eu não sabia. Joguei o telefone no banco do passageiro e arranquei. O caminho até a base foi uma névoa.
Quando cheguei ao portão principal, o guarda conferiu minha identidade e me saudou com um respeito que me pareceu cerimonioso demais. Entrei no auditório onde uma cerimônia estava em andamento. Uma faixa pendurada no palco anunciava a condecoração do General Tiago Santos por serviços prestados à nação. Meu ex-marido estava lá, imponente em seu uniforme, e ao lado dele, uma mulher que eu não conhecia.
Clara Mendes, recém-chegada do exterior, sorridente e elegante. Ela era a líder do projeto, ouvi alguém sussurrar. O salão inteiro estava em silêncio quando me levantei. Meus saltos clicavam no chão de mármore enquanto eu caminhava em direção ao palco.
A barra de veludo do meu vestido balançava a cada passo. Eu não sabia exatamente o que ia fazer, mas sabia que não podia ficar calada. Quando cheguei ao pé do palco, Tiago me viu. Seu rosto empalideceu.
Ele apoiou a mão no teto do carro ou no púlpito, não me lembro, apenas lembro que ele olhou para baixo para mim com uma expressão que tentava ser neutra, mas falhava miseravelmente. “Você pensou nos termos do divórcio? ” Ele perguntou, a voz baixa, tentando manter o controle. Eu ri, um som sem alegria.
“Tiago, você nem sabe quais pecados estão no seu nome. ” Foi então que tirei o documento que eu tinha trazido. Não era sobre o divórcio. Era uma cláusula contratual que meu pai, o fundador da Corporação Ventura, tinha incluído no acordo de investimento que ele fez com a família Santos anos atrás.
Uma cláusula de proteção que ele tinha feito para me proteger, caso o casamento terminasse mal. “De acordo com o contrato entre a Corporação Ventura e a família Santos, vocês são obrigados a recomprar todas as ações pertencentes à corporação pelo preço original, mais uma penalidade de 20%, em 90 dias. ” A voz saiu firme, clara, ecoando pelo salão. “O valor total é de 60 milhões de reais, mais 12 milhões de multa.
E aqui está a assinatura do seu pai, ao lado da minha. ”
Um murmúrio cresceu no salão. Alguém engasgou. O rosto de Tiago se contorceu, uma mistura de fúria e incredulidade.
Ele tentou argumentar, mas as palavras morreram em sua garganta. Então aconteceu algo que eu não esperava. O pai de Tiago, William Santos, um homem que eu respeitava, se levantou do assento na primeira fila, flanqueado por dois seguranças. Ele caminhou até o palco, sua expressão sombria.
“O escritório do meu irmão mais velho ficava no último andar”, pensei, mas a cena diante de mim era mais real do que qualquer lembrança. William Santos olhou para mim, depois para o filho, e então disse, com uma voz que gelou o ar: “Ele não está autorizado a assinar isso em nome da família. ” Tiago pareceu encolher. O caos explodiu no salão.
Oficiais corriam, seguranças tentavam conter a multidão que se levantava. No meio da confusão, uma mulher, que eu não conhecia, se aproximou de mim com um sorriso que não chegava aos olhos. Ela me entregou um envelope e disse: “Isso é do passado sombrio da sua cunhada no exterior. Você vai querer ver.
”
Eu não abri na hora. Saí do auditório, e o sol de julho bateu no meu rosto, tão quente que fez meus olhos lacrimejarem, mas eu não chorei. Entrei no carro, as mãos no volante, olhando direto para frente. No retrovisor, os portões da base ficaram cada vez menores.
Eu tinha vencido uma batalha, mas a guerra estava longe de terminar. Quando o meu celular tocou, era Ana, minha assistente, com a voz trêmula: “Lucas, 3 milhões foram para uma conta offshore classificada e outros 500. 000 foram transferidos para a conta pessoal dela. ”
“De quem?
” perguntei, embora já soubesse a resposta. “Da Clara Mendes”, ela disse, “e Nicolau mencionou o passado sombrio dela no exterior. Você precisa ver os documentos. ”
No dia seguinte, às 8:30 em ponto, eu estava no prédio do quartel-general central.
O elevador me levou ao 16º andar, onde ficava o escritório de Clara Mendes. As luzes estavam acesas. Ela estava lá, sentada atrás de uma mesa impecável, com um sorriso profissional. “Lucas, que surpresa”, mentiu.
Eu coloquei o envelope sobre a mesa, sem abrir. “Você sabe o que há aqui? “, perguntei. Seu rosto, no entanto, disse tudo.
Ela sabia. “O passado fica no passado, não é? “, ela disse, com um riso forçado. Eu me inclinei sobre a mesa.
“Não quando ele vem me morder no presente. Você e Tiago acharam que poderiam me enganar? Acharam que eu não descobriria sobre a conta offshore, sobre o dinheiro que você desviou do projeto Price? ” A cor sumiu do rosto dela.
“Nós saímos do arranha-céu para a luz brilhante do sol”, pensei, mas naquele momento, a luz do sol entrava pela janela e iluminava o rosto dela, revelando as linhas de tensão que a maquiagem não conseguia esconder. Naquela noite, fui buscar Enzo na creche. Ele tinha virado líder do grupo hoje, e me contou isso com um orgulho que me partiu o coração enquanto eu o abraçava, enterrando o rosto no ombro pequeno dele. Ele deitou a cabeça no meu colo e sussurrou: “Mamãe, por que o papai não nos ama mais?
” Eu não respondi, apenas acariciei seus cabelos. Mais tarde, liguei para Alexandre, que ainda estava no escritório, vendo o pôr do sol pela janela. “Você fez certo, Lucas”, ele disse, a voz cansada. “Ele precisava aprender que existem consequências.
” Sim, eu lembrei do dever para com o país, mas também lembrei do dever comigo mesma e com meu filho. Na manhã seguinte, quando as luzes do escritório de Clara se acenderam no 16º andar, eu já estava lá embaixo, no meu carro, me recostando no banco. Meu telefone apitou: uma notificação do banco, depósito de dividendos das ações da Corporação Ventura. Eu sorri, a primeira vez em dias.
Os irmãos foram os primeiros a sair pelo portão, e eu os observei entrar no SUV escuro do general. Meu envelope ainda estava fechado. Eu não sabia o que fazer com ele, mas sabia que não podia ignorá-lo.
Porque algumas verdades, por mais sombrias que sejam, não podem ser deixadas no passado.


