Eu estava parado no meio do quarto, os olhos fixos na gaveta vazia da cômoda, as mãos tremendo contra a madeira fria. A caixinha de veludo azul-marinho estava aberta, vazia, como uma acusação silenciosa. Dentro, só o forro de cetim guardava o fantasma do que deveria estar ali: o relógio do meu pai, Vicente, aquele Omega de corda manual que ele usou todos os dias durante 43 anos, desde que minha mãe o deu de presente no casamento dos dois até o dia em que ele fechou os olhos pela última vez, há quatro anos, no hospital em Curitiba. Lá embaixo, a voz da minha filha Renata cortava o silêncio da manhã, dando ordens secas para a empregada sobre o café.

A risada do marido dela, Adriano, ecoava da sala, misturada aos gritos de um comentarista de futebol na televisão. A voz da minha neta Bianca subia pela escada, reclamando ao telefone sobre estar presa ali, sobre como Curitiba era um tédio, sobre a vontade de voltar logo para a praia. Hoje fazia quatro anos desde que meu pai tinha partido, e eu tinha planejado passar amanhã sozinho, só eu e aquele relógio, o único pedaço dele que ainda me restava e que, de alguma forma, ainda parecia aguardar o calor da pele dele. Em vez disso, eu estava encarando aquela gaveta vazia e o caos da minha própria família, que tratava minha casa como se fosse um hotel particular.
Puxei a gaveta inteira para fora, derramando minhas meias sobre a cama. Nada. Me ajoelhei, olhei debaixo da cômoda, só poeira e um recibo velho. O peito apertou.
Fui até o closet, revistando os bolsos dos casacos, abrindo as caixas de sapato na prateleira. Minha respiração acelerou. Depois o banheiro. Abri o armário de remédios com força, puxei as gavetas debaixo da pia, os cotonetes se espalharam pelo azulejo.
Onde estava? Onde estava? Revistei lugares impossíveis: a gaveta do criado-mudo que eu já tinha revistado duas vezes, atrás da cabeceira, embaixo do colchão. Minhas mãos tremiam cada vez mais forte, aquele tremor constante de pânico que eu não sentia desde o hospital, desde aquelas últimas horas com meu pai, quando nada do que eu fizesse podia deter o que estava por vir.
Desci as escadas, cada degrau pesado e calculado. Na sala, Adriano estava esparramado no meu sofá, os pés em cima do braço do móvel, um pacote de salgadinhos equilibrado no peito. Nem levantou o olhar. Passei por cima das sacolas de compras da Bianca amontoadas perto da escada e desviei da mesinha de centro que ela tinha empurrado para fora do lugar.
Renata estava de pé na bancada da cozinha, o telefone numa mão, uma faca na outra, cortando legumes com uma precisão agressiva. — Renata — eu disse. — Por acaso você viu? — Estou ocupada, pai — ela respondeu sem olhar para mim.
— É importante? — O relógio do vovô sumiu. Revisei seu quarto. Ela suspirou, aquela inspiração particular que ela tinha aperfeiçoado nos últimos três anos, desde que se mudaram para minha casa.
Aquela que dizia que eu era um incômodo, uma obrigação que ela, em sua infinita graça, tinha aceitado carregar. — Ninguém quer as coisas velhas dele, pai. — Era do vovô. Minha garganta se fechou.
— Era a única coisa que eu tinha guardado, então devia ter cuidado mais dele. Fiquei ali parado, olhando ela picar a cenoura em pedacinhos violentos, e algo no meu peito virou gelo. Não era uma raiva quente. Era fria, como aquela temperatura que despenca antes de uma tempestade estourar.
— Renata, por favor — me forcei a dizer em voz baixa. — Eu preciso saber o que aconteceu com ele. Ela finalmente parou, largou a faca, virou para me olhar, e nos olhos dela não havia nenhuma gota de calor. Na verdade, não havia calor havia anos, mas eu tinha me enganado, não é mesmo?
Dizendo para mim mesmo que aquela ainda era minha filha, a filha do meu pai, a menina que costumava sentar no colo dele para ouvir histórias da fazenda. — Tá bom — ela disse. — Vendi na casa de penhores Bom Preço, lá na Avenida 7 de Setembro. As palavras não faziam sentido no começo.
Vendeu. Minha filha vendeu o relógio do meu pai. — Você o quê? — Precisávamos de R$ 8.
000 para ir para Maragogi. Você disse não quando eu pedi o dinheiro. Então eu encontrei outro jeito. A voz dela não tinha nenhum traço de desculpa, nenhum reconhecimento de ter feito algo errado.
Pegou a faca de novo e continuou cortando. Da sala, a voz de Adriano chegou flutuando, preguiçosa e satisfeita:
— Tava largado lá, Norberto. O velho já morreu. Os mortos não precisam de relógio.
Nem se sentou para falar isso. Manteve os olhos grudados na televisão, coçou a barriga e enfiou a mão no pacote para pegar mais salgadinho. O jeito casual do comentário tornava tudo pior do que se ele tivesse sido agressivo ou confrontador. Para ele, era simplesmente óbvio.
Claro que tinham vendido. Por que não venderiam? Na escada, Bianca riu. Aquele som brilhante e vazio de alguém para quem a dor genuína dos outros parece hilária.
— Vô, você é muito dramático. É só um relógio. Minha mãe conseguiu uma viagem incrível pra gente. Olhei para ela, olhei de verdade.
22 anos, neta do meu pai, e tinha os mesmos olhos vazios da mãe. Quando isso tinha acontecido? Ou eu simplesmente tinha me recusado a ver? — Seu bisavô usou esse relógio todos os dias por 43 anos — eu disse num sussurro.
Bianca deu de ombros, virando de costas com o celular grudado na orelha. — Bom, agora outra pessoa vai usar. É o ciclo da vida ou sei lá. Fiquei parado na minha cozinha.
Minha cozinha? Na casa que eu e minha esposa Marlene tínhamos comprado em 1987, a casa que enchemos de 40 anos de lembranças antes dela também partir, dois anos antes do meu pai. E ali estava eu, olhando para essas três pessoas, minha filha, o marido dela, a filha deles. Me devolveram o olhar com aquela expressão coletiva de quem espera que um incômodo se retire por conta própria.
Me virei e caminhei até o meu quarto. Fechei a porta atrás de mim com um clique suave e sentei na beira da cama. A caixinha de veludo vazia continuava na cômoda, onde eu tinha deixado. Peguei ela, abri, fechei, abri de novo, fechei de novo.
O movimento mecânico acalmava alguma coisa dentro de mim. Ou talvez não fosse calma, talvez fosse algo completamente diferente. Minhas mãos tinham parado de tremer. Fiquei sentado ali por muito tempo, a caixinha descansando sobre os joelhos, sentindo alguma coisa se reacomodar dentro do peito.
Eu não estava me quebrando. Eu já tinha me quebrado quatro anos antes, quando meu pai morreu. Isso era diferente. Era um assentamento, um endurecimento, uma clareza que eu não tinha uma hora atrás.
Tinham vendido o relógio do meu pai para viajar. Renata tinha entrado no meu quarto, na minha gaveta particular, tinha pegado a única coisa que eu guardava com carinho e trocado por dinheiro para gastar. E Adriano e Bianca não viam nada de errado nisso. Absolutamente nada.
Me levantei, coloquei a caixinha de volta na cômoda com cuidado e peguei meu celular na mesa de cabeceira. Minhas mãos ficaram firmes enquanto abria o navegador e digitava “casas de penhor em Curitiba”. Meu dedo deslizava pela tela, passando pela lista de estabelecimentos espalhados pela cidade. A caixinha vazia descansava ao meu lado na cama, uma pequena testemunha quadrada do que eu estava prestes a fazer.
Comecei a ligar. A primeira loja, Penhora Fácil, não tinha. A moça que atendeu parecia entediada. A segunda, Ouro & Cia, me deixou esperando sete minutos antes de dizer que não.
A terceira tinha fechado as portas de vez. A quarta não atendeu. Sentei na cama para cada ligação, descrevendo o relógio da mesma forma sempre: Omega automático, mostrador prateado, pulseira de couro marrom, gravado atrás “Para sempre com amor”. Provavelmente vendido.
Cada vez agradecia com educação e passava para o próximo número. A voz de Renata subia de vez em quando, lá embaixo, dando ordens para alguém. Os narradores esportivos de Adriano forneciam um murmúrio constante de fundo. Ignorei tudo.
A sétima ligação foi diferente. — Casa de Penhores Bom Preço, fala o senhor Osvaldo. — Estou procurando um relógio Omega, mostrador prateado, pulseira de couro — eu disse. — Venderam para vocês ontem.
Houve uma pausa. — Ah, sim, me lembro dessa peça. Um relógio muito bonito, de antiquário mesmo. O senhor é o dono?
Meu peito apertou. — Era do meu pai. Ele faleceu há quatro anos. — Sinto muito, viu?
— A voz dele carregava uma empatia genuína. — Senhor, tem uma coisa que o senhor devia saber sobre esse relógio. Me sentei mais ereto. — Como assim?
— Quando eu estava examinando ele, notei que o fundo da caixa parecia meio solto. Forcei um pouco e ele abriu. Tinha um papel dobrado escondido lá dentro. O quarto pareceu inclinar levemente.
— Um papel? Eu não sabia que abria. — Tirei com muito cuidado. Não queria estragar.
Tem uns números escritos. Parece um endereço e um nome de cartório. 43 anos. Meu pai tinha usado aquele relógio todos os dias, e eu nunca soube que o fundo abria.
Nunca tentei abrir, nunca. — A senhora que vendeu, ela falou alguma coisa sobre isso? — perguntei. — Ela já tinha ido embora.
Sinceramente, acho que ela nem percebeu que abria. Parecia com muita pressa. Claro que tinha pressa. Renata correndo para transformar o relógio do avô dela em dinheiro para as próprias férias.
Provavelmente nem tinha olhado direito, só viu o brilho do metal e o valor em reais. — Preciso comprar de volta — eu disse. — Quanto é? — Dei R$ 800 para ela.
O valor justo do relógio, sendo peça de colecionador, fica mais perto de 2. 500. — Pago os 2. 500.
Posso ir hoje. — Pode vir a qualquer hora até às 7. Vou guardar separado. Agradeci, anotei o endereço e fiquei um momento olhando o telefone na mão.
Meu pai tinha escondido alguma coisa dentro daquele relógio, um papel com um nome de cartório. O que mais? Ele não tinha me contado. Levantei, guardei a carteira e as chaves no bolso e desci as escadas.
A família nem levantou os olhos quando passei pela sala. Os pés de Adriano continuavam ocupando o sofá. Bianca estava curvada sobre o celular na poltrona. Renata andava em algum canto da casa.
Saí pela porta da frente para o sol forte de uma manhã de outubro. O trajeto até o centro me levou 20 minutos. Programei o endereço no GPS e segui a voz calma por ruas conhecidas que agora pareciam estranhas pelo peso do meu propósito. A casa de penhores Bom Preço ficava numa esquina entre uma barbearia e um escritório de contabilidade.
Grades nas janelas, mais grades limpas, um letreiro bem cuidado. Estacionei na frente e fiquei um instante com as mãos no volante, me preparando. Dentro, o local cheirava a couro velho e polidor de metal. Vitrines de vidro forravam as paredes, cheias de joias, relógios, câmeras antigas.
Um homem baixo, de uns 50 e poucos anos, estava atrás do balcão, cabelo grisalho bem cortado, óculos de leitura na ponta do nariz. — Senhor Norberto? — ele perguntou. — Sou eu.
— Osvaldo. — Ele estendeu a mão, e eu apertei. — Deixa eu buscar o seu relógio. Desapareceu numa saleta e voltou carregando um pequeno embrulho num pano macio.
Desdobrou com cuidado sobre o vidro. E lá estava o relógio do meu pai, o metal pegando a luz fluorescente, exatamente como eu lembrava, descansando no pulso dele todas as manhãs por mais de quatro décadas. — A moça que vendeu — disse Osvaldo, baixinho — devia ter uns 40 anos. Parecia com muita pressa.
Não quis negociar. Dei 800 porque é o justo pelo peso do metal, mas percebi na hora que valia mais. — Ele fez uma pausa. — É, sua filha.
Não respondi a isso. Só tirei a carteira e contei as notas até R$ 2. 500. Osvaldo já tinha o recibo pronto.
Deslizou um envelope pequeno pelo balcão. — O bilhete estava aqui dentro, protegido — ele disse. — Obrigado — consegui articular. — Cuide bem dele dessa vez — ele disse com gentileza.
Dirigi três quarteirões antes de precisar encostar. Minhas mãos tremiam de novo. A emoção me inundava agora que a tarefa estava completa e eu estava sozinho. Estacionei no pátio de um shopping, o sol da tarde entrando pelo para-brisa.
O relógio parecia mais pesado do que eu lembrava. Levantei-o contra a luz, girando devagar, procurando a abertura que Osvaldo tinha mencionado. Ali estava, tão pequena que eu nunca tinha notado, uma fresta minúscula na borda do fundo da caixa. Pressionei com a unha do polegar.
O fundo se soltou de repente. Dentro, enrolado de um jeito impossivelmente apertado, tinha um pedaço de papel não maior que a unha do meu dedo mínimo. Usei as unhas para tirar. Desenrolei com todo o cuidado sobre a coxa.
Era a letra do meu pai, minúscula, mas inconfundível: “Cartório do 4º grau. Ofício Curitiba. Testamento particular. Registrado.
Procurar. Dra. Cecília Nardi. ”
Fiquei sentado na caminhonete, olhando fixamente aquelas palavras até o sol mudar de posição e o reflexo no vidro ficar insuportável.
Meu pai tinha registrado um testamento particular numa advogada e nunca tinha me contado. Dirigi para casa atordoado. Estacionei na garagem, passei pela família que continuava plantada nas mesmas posições, como móveis permanentes, e subi para o quarto. Fiquei parado perto da janela, vendo o sol se pôr no horizonte, o relógio apertado numa mão, o bilhete na outra.
O que meu pai tinha escondido de mim e por quê? Naquela noite não dormi. Fiquei deitado, virando e revirando as perguntas na cabeça, o relógio sobre o peito, no mesmo lugar onde ele costumava carregar, sentindo o peso leve do metal, me perguntando que outros segredos ele tinha guardado. Amanhã chegou devagar.
Tomei banho, vesti minha melhor calça social e uma camisa de botão e dirigi até o centro, ao escritório da Dra. Cecília Nardi. Na rua Marechal Deodoro, o prédio se erguia 10 andares rumo ao céu, vidro e aço imponente. Atravessei a porta giratória para um saguão de mármore que ecoava conversas baixas e o barulho de saltos.
Uma recepcionista jovem no balcão levantou o olhar com um sorriso profissional. O crachá dizia “Fernanda”. — Preciso falar com a doutora Cecília Nardi sobre um testamento — eu disse. — Meu pai deixou o nome dela registrado.
— Claro. O senhor tem o número do processo e um documento de identidade? Mostrei a certidão de óbito do meu pai, que eu tinha trazido porque algum instinto me disse que precisaria, e minha carteira de identidade. Fernanda examinou os dois com atenção.
— O senhor é o filho, Norberto Aparecido. — Ela digitou no computador, balançando a cabeça. — Achei aqui. O testamento foi registrado em 2018.
Não há nenhuma movimentação desde então. Meu pai tinha sido diagnosticado com câncer no início de 2020. Ele tinha preparado isso dois anos antes de adoecer, antes de qualquer um de nós dois saber o que estava por vir. — Meu pai faleceu em 2022 — eu disse.
— Ele deve ter preparado isso antes. A máscara profissional de Fernanda suavizou um pouco. — A doutora pode atender o senhor em 15 minutos, se quiser esperar na salinha ali. Sentei numa cadeira de couro, o relógio pesando no bolso do paletó, sem conseguir me obrigar a pensar em nada além daquele nome, Cecília Nardi, e no que meu pai tinha guardado em segredo por tanto tempo.
Finalmente, uma mulher de uns 60 anos, cabelo grisalho preso num coque impecável, óculos de aro fino, abriu a porta da sala. — Senhor Norberto — ela disse com uma voz calma e séria. — Eu conhecia seu pai. Entre, por favor.
Tenho muita coisa para lhe mostrar. Sentei na cadeira em frente à mesa dela. A Dra. Cecília abriu uma pasta grossa, tirou de dentro um envelope lacrado com meu nome escrito na caligrafia cuidadosa do meu pai: “Norberto”.
Peguei o envelope, segurei contra o peito com os olhos fixos. Ele tinha sabido, de alguma forma tinha sabido que alguma coisa estava errada. Sabia que eu ia precisar disso. Sabia que Renata ia…
Minhas mãos encontraram a aba do envelope. Rompi com cuidado. O papel estalou no silêncio da sala. Desdobrei duas folhas cobertas pela caligrafia do meu pai, aquela letra firme e medida que eu tinha visto em listas de compras e cartões de aniversário durante toda a minha vida.
Minha respiração ficou curta enquanto eu começava a ler. “Meu querido Norberto, se você está lendo isso é porque eu já parti e você encontrou o que escondi no relógio, como eu esperava que fizesse um dia. ”
A primeira linha me atingiu como um golpe físico. A voz dele ressoava tão claramente que eu quase conseguia escutar, aquela leve rispidez que ele tinha desenvolvido depois dos 70 anos, o jeito de fazer pausas entre uma ideia e outra.
“Guardei uma parte da minha aposentadoria e da venda das terras da fazenda durante 15 anos. Pequenas quantias que você nunca notou. Não fique bravo comigo pelo segredo. Fiz isso porque te amo e porque enxerguei o que vinha.
”
Li mais rápido, a mão tremendo contra a borda da mesa. “Renata sempre foi difícil, meu filho. Você se lembra de quando ela tinha 25 anos e exigiu que pagássemos o casamento dela e depois nem convidou seu irmão Joaquim porque ele não podia dar um presente caro? Eu vi a verdadeira natureza dela naquele dia.
A forma como ela trata as pessoas como transações, como nada nunca é suficiente para ela. ”
Eu me lembrava. Meu pai tinha ficado incomodado durante semanas naquela época, mas eu tinha descartado aquilo como o estresse normal de um casamento, uma tensão entre avô e neta que se resolveria sozinha. Tinha inventado desculpas para Renata.
“Depois que eu partir, ela vai te ver como nada mais que um recurso para espremer. Adriano vai incentivar isso. Ele sempre foi um aproveitador. Você sabe disso, mesmo que não queira admitir.
E Bianca aprende com os pais dela. Lamento escrever essas coisas, filho, mas você precisa ouvir. ”
Apertei a mandíbula. Meu pai tinha tentado me avisar ao longo dos anos com pequenos comentários que eu tinha ignorado, achando que ele era duro demais, um avô sendo severo demais com a neta.
“Essas economias são para você, meu filho. R$ 38. 000 para te proteger quando finalmente você enxergar o que eu enxerguei. Não deixe eles te transformarem numa vítima.
Você é mais forte do que pensa. Seja forte. Viva para você. A casa, o carro, tudo é seu.
Você trabalhou a vida inteira por isso. Não deixe tirarem de você por culpa ou por obrigação. ”
Parei de ler e pressionei a carta contra o peito. R$ 38.
000, além do que estava guardado com a Dra. Cecília. A advogada, percebendo meu estado, esperou em silêncio, folheando outros papéis, me dando espaço. — Doutora — eu disse por fim, com a voz rouca.
— O que mais tem aqui? Ela assentiu devagar. — Seu pai deixou instruções muito específicas, senhor Norberto, e um valor guardado numa conta de investimento que ele abriu em 2018, sem que ninguém da família soubesse. — Ela virou a tela do computador para mim.
— O saldo, com os juros acumulados, passa de R$ 210. 000. Fiquei olhando o número sem conseguir processar. Meu pai, que sempre reclamava do preço do pão, que remendava as próprias roupas, tinha guardado R$ 210.
000 sem que eu soubesse de nada. — Ele veio aqui sozinho — disse a Dra. Cecília —, em 2018, pouco depois daquele casamento que ele menciona na carta. Disse que precisava proteger o filho dele de gente que só enxergava dinheiro.
Fez tudo dentro da lei, tudo documentado. O relógio era só a chave para você chegar até aqui. Ele sabia que você ia procurar o relógio primeiro, antes de qualquer outra coisa. Voltei à carta, ao parágrafo final.
“Queria poder estar aí para te proteger, mas confio que você vai saber o que fazer na hora certa. Você sempre foi ponderado, metódico, cuidadoso. Use essas qualidades agora. Não deixe pisarem em você.
E pode ter certeza de que eu te amo mais que tudo nesse mundo. Seu pai, Vicente. ”
Fiquei sentado naquela sala relendo certos trechos. O episódio do casamento, o aviso sobre Adriano, as instruções para ser forte.
Cada palavra parecia a validação que eu não sabia que precisava tão desesperadamente. Meu pai tinha visto tudo, tinha entendido tudo e tinha se preparado para esse momento. Dobrei a carta com cuidado, guardei no bolso do paletó, sobre o coração. — O que o senhor deseja fazer, senhor Norberto?
— perguntou a Dra. Cecília. — Posso liberar o acesso à conta hoje mesmo, e podemos conversar sobre as opções em relação à casa e ao restante do patrimônio, se for de seu interesse. — Preciso de um tempo para pensar, doutora, mas quero que a senhora comece a preparar os documentos.
Meu pai confiou isso a mim. Não vou desperdiçar. Ela sorriu, um sorriso pequeno e cansado, do tipo que só quem já viu muitas famílias se despedaçarem por dinheiro consegue dar. — Seu pai era um homem sábio.
Senhor Norberto, vamos cuidar disso com calma. Saí do escritório e caminhei pelo saguão de mármore, meus passos ecoando no espaço. Lá fora, a luz do sol da tarde bateu como uma parede dura e implacável. Sentei na caminhonete por 10 minutos, olhando através do para-brisa a parede de concreto do estacionamento em frente, sem realmente ver.
Meu pai sempre cuidando de mim, mesmo agora, mesmo do além. Toquei o relógio no bolso do paletó. Senti o metal frio contra os dedos. A viagem para casa aconteceu no piloto automático.
Semáforos, setas, mudanças de faixa. Num sinal vermelho, pressionei a palma da mão contra a carta no bolso. Uma buzina soou atrás de mim. O sinal tinha aberto.
Segui em frente, minha mente processando tudo que eu tinha lido. A casa parecia diferente quando estacionei na garagem. Fiquei observando pela janela da frente antes de descer. Renata no sofá, os pés recolhidos, o telefone grudado na orelha, rindo de alguma coisa.
Adriano esparramado na minha poltrona reclinável, o presente de 30 anos de casamento que meu pai tinha me dado, o couro marrom desgastado no formato do meu corpo. Bianca na mesa da cozinha, potes de esmalte espalhados, bolinhas de algodão por todo lado, pintando as unhas de um rosa vibrante. Minha casa, meu espaço, ocupado como território conquistado. Entrei.
Ninguém levantou o olhar. Renata notou o relógio primeiro. A pulseira de couro aparecia embaixo da manga da minha camisa. Os olhos dela se fixaram ali e a expressão endureceu.
— Ah, esse é o relógio do vovô. Você recuperou? Toquei-o de forma protetora. — Sim.
Ela se levantou, baixou o telefone. — Me dá isso aqui. Nós vendemos isso. Agora é nosso.
Você não pode simplesmente ir lá e tirar de volta. — Eu comprei de volta. Paguei R$ 2. 500.
O rosto dela ficou vermelho. — Com o dinheiro de quem? Você vive de aposentadoria. Isso é a nossa herança, e você está desperdiçando.
“Nossa herança. ” Como se eu já estivesse morto, como se tudo que eu possuía já pertencesse a eles. Adriano se levantou da poltrona e se aproximou. — Renata tem razão.
Você tá gastando dinheiro que devia ficar pra família. — Era o relógio do meu pai. — Seu pai morto — ele disse com a mesma naturalidade de quem comenta sobre o tempo. — Você precisa superar isso, Norberto.
Encarar a realidade. Bianca ergueu os olhos do esmalte, pela primeira vez interessada na conversa. — Nossa, vô, que exagero. — A realidade — repeti.
— Sim, você já tá velho. Essa casa é grande demais pra você mesmo. Assina logo os papéis da transferência. Poupa todo mundo do trabalho depois.
Olhei para ele, olhei de verdade, vi o cálculo frio nos olhos dele, a ganância mal disfarçada atrás daquele sorriso preguiçoso. — Não vou assinar nada — eu disse, e minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Renata riu, um som seco e sem humor. — Você não tem escolha, pai.
Um dia desses você vai esquecer de tomar o remédio, vai cair na escada, e aí quem vai cuidar de você? Nós. Então é melhor já deixar tudo organizado do jeito certo. — Vocês não cuidam de mim — eu disse.
— Vocês vivem na minha casa, comem da minha geladeira e me tratam como um estorvo que vocês toleram até eu morrer. Fiquei ali parado, olhando para os três, e senti a mesma clareza fria que tinha sentido na cozinha no dia anterior. Só que agora ela vinha acompanhada de alguma coisa nova, alguma coisa que só a carta do meu pai tinha me dado. Certeza.
— Vou dizer uma coisa — eu falei devagar, cada palavra pesada. — Amanhã de manhã, a doutora Cecília Nardi vai vir aqui em casa. Ela é advogada da família há muito tempo, e vamos conversar sobre alguns documentos. Renata franziu a testa.
— Que documentos? Do que você tá falando? — Você vai saber amanhã — eu disse, e subi as escadas sem olhar para trás, o relógio pesando no bolso, a carta ainda mais perto do meu coração. Naquela noite, liguei para a Dra.
Cecília e perguntei o que era necessário para transferir a casa para o meu nome de forma definitiva, já que ainda estava em processo de inventário desde a morte da minha esposa, e para formalizar minha vontade de vender o imóvel. Ela explicou com paciência, ponto por ponto, e eu anotei tudo num caderno que Marlene tinha me dado décadas atrás e que eu nunca tinha usado. Nos dias seguintes, tudo se moveu com uma rapidez que me surpreendeu. A Dra.
Cecília veio até em casa, como prometido, e explicou para Renata, com uma calma profissional que deixou minha filha visivelmente desconfortável, que a casa era exclusivamente minha, que o testamento do meu pai já estava homologado e que qualquer tentativa de pressionar um idoso a assinar documentos sob ameaça configuraria crime. Renata ficou branca. Adriano tentou argumentar, e a Dra. Cecília simplesmente abriu a pasta e mostrou a ele, com calma, os artigos do Estatuto do Idoso que tratavam exatamente daquilo.
Coloquei a casa à venda duas semanas depois. Dei a Renata e sua família dois meses para se organizarem e encontrarem outro lugar. Tempo mais que suficiente, considerando tudo. Usei parte do dinheiro guardado pelo meu pai e o valor da venda da casa para comprar um apartamento pequeno num bairro tranquilo perto do Bosque Alemão, com uma varanda que pegava sol, suficiente para uma oficina pequena, onde eu podia voltar a trabalhar com madeira.
Um hobby que tinha abandonado depois que Marlene morreu. Renata não falou comigo durante semanas depois da mudança dela para um apartamento alugado. Quando finalmente ligou, foi para pedir dinheiro emprestado. Eu disse não, com uma calma que teria sido impossível um mês antes.
Ela desligou o telefone sem se despedir. Uma tarde, encontrei um antigo colega de trabalho, Faustino, alguém que eu tinha perdido contato havia anos, desde que a família de Renata tinha tomado conta da minha vida. Nos encontramos num café perto da Rua 15 de Novembro. Ele chegou primeiro, cabelo grisalho, sorriso caloroso.
— Tentei te ligar várias vezes ao longo dos anos — disse Faustino enquanto nos sentávamos com o café. — Sempre caía na caixa postal. — Eu tava ocupado — eu disse. — Minha filha e a família dela se mudaram para minha casa depois que minha esposa morreu.
A compreensão surgiu na expressão dele. — Ah, esse tipo de ocupado. Conversamos por duas horas sobre os velhos tempos na fábrica, sobre os netos dele, sobre a vida. Por fim, eu disse:
— Agora eu moro sozinho, por escolha própria.
Faustino sorriu largo. — Que bom para você, Norberto. Isso aí não era vida antes. — Não era — eu disse.
— Mas agora é. Que tal jogarmos xadrez semana que vem? — Se prepara pra perder. — Aceito o desafio.
Foi o primeiro compromisso social que eu fiz para mim mesmo em anos. Naquela noite, fiquei na minha oficina nova trabalhando numa caixa de cedro com encaixes de cauda de andorinha que exigiam precisão e paciência. Tinha construído um estojo para o relógio do meu pai. Essa outra caixa ainda não tinha um propósito definido.
Talvez eu desse para Faustino. Talvez guardasse para meus próprios pequenos tesouros. Não importava. O que importava era que eu estava fazendo aquilo com minhas próprias mãos, no meu próprio tempo, pelos meus próprios motivos.
Passei a mão pela madeira lisa, sentindo a veia do cedro. A satisfação era profunda. Enquanto trabalhava, pensei em toda a jornada. A carta do meu pai escondida no relógio, a descoberta das economias dele, a conversa com a Dra.
Cecília, a venda da casa, esse novo começo. Eu não me sentia vitorioso. Me sentia em paz. Limpei as ferramentas com cuidado, varri a serragem, examinei a caixa terminada sob a luz.
Os encaixes estavam perfeitos. Deixei-a na bancada, satisfeito com o trabalho. Apaguei a luz da oficina e caminhei até a sala. O relógio do meu pai brilhava suavemente na luz do fim de tarde que entrava pela janela.
O metal capturava os últimos raios de sol, lançando pequenos reflexos pela parede, como estrelas, como promessas cumpridas. Caminhei até a janela e olhei o horizonte de Curitiba se apagando contra o céu alaranjado. Meu telefone descansava em silêncio sobre a mesa. Meu número, meus contatos, meu controle.
E amanhã eu ia encontrar Faustino para jogar xadrez. Na semana seguinte, ia terminar outro projeto na oficina. No mês depois disso, quem sabia? O futuro não estava escrito, e pela primeira vez em anos isso parecia liberdade em vez de medo.
Toquei o bolso da camisa onde o relógio costumava ficar quando eu andava por casa. Agora ele descansava numa vitrine pequena que eu tinha feito na parede, visível, honrado, mas já não era mais uma armadura. Eu não precisava mais de armadura. Sorri, um sorriso genuíno e cheio de paz, e me virei para a cozinha para preparar meu jantar.
Só para mim, exatamente o suficiente.


