Ele achou que o microfone lhe dava o direito de cuspir na minha felicidade. Sou a Eunice, 71 anos, ex-telefonista, e vivo na secura de Goiânia desde que isto aqui era só poeira. O que ele esqueceu é que quem liga os fios também sabe cortá-los. O calor do cerrado goiano tem um jeito peculiar de nos ensinar sobre a vida.

Resseca a terra, racha o chão, mas a gente aprende que por baixo daquela casca dura, a raiz do ipê continua viva, à espera da hora certa de florir. Eu sempre fui como a terra daqui. Aguentei calada as secas da vida, os ventos quentes que queimam o rosto, tudo para garantir que o meu filho, Roberto, tivesse a melhor água, a melhor sombra. Criei o menino sozinha depois de o pai dele ter sido levado por um infarto fulminante.
Eu tinha 32 anos. Trabalhava no painel de uma central telefónica, a ligar as vozes de gente que nunca veria na vida, a ouvir sotaques, suspiros, brigas e amores pelos cabos grossos da companhia. Foram décadas com aquele fone pesado na orelha, a fazer turnos dobrados. O dinheiro era contado aos centavos.
Muitas vezes, o meu jantar era um pão amanhecido com um copo de água para que o Roberto pudesse comer um bife acebolado. Ele cresceu. Estudou, virou doutor, casou com mulher de família rica, comprou mansão em condomínio fechado, onde os muros são tão altos que não deixam nem a brisa passar. Eu achava que tinha cumprido a minha missão.
Achava que a vida agora seria apenas cuidar da minha samambaia chorona na varanda de casa, espanar o meu velho jogo de xícaras Duralex âmbar, que guardo na cristaleira, e folhear os meus álbuns de fotografias com aquelas cantoneiras de papel já amarelecidas pelo tempo. Mas a vida, meus amigos, é um bicho cheio de surpresas. Quando a gente acha que o livro acabou, Deus vai lá e adiciona um capítulo novo. Aos 71 anos, quando a invisibilidade da velhice já me tinha coberto como um manto, conheci o António.
Não foi nada de cinema. Esbarramo-nos na fila da casa lotérica num dia em que o sol de Goiânia parecia querer derreter o asfalto. Ele, um marceneiro reformado, com as mãos grossas e calejadas, deixou cair um punhado de moedas. Ajudei a apanhá-las.
As nossas mãos tocaram-se. Ele olhou-me nos olhos, pediu desculpa com um sorriso tímido que enrugou os cantos dos olhos. E ali, no meio do burburinho, do cheiro a suor e do barulho das impressoras de bilhetes, o meu coração deu um pulo que não dava há quase 40 anos. Começámos a conversar.
Um café na padaria da esquina, uma caminhada na praça ao fim da tarde. O António trouxe cor aos meus dias. Descobri que o amor na terceira idade não tem a pressa da juventude, não tem o fogo que queima e destrói. É um amor que aquece como o sol da manhã.
É ter alguém para segurar a mão no médico, alguém para dividir um pedaço de bolo de fubá, alguém que te acha linda mesmo quando o espelho mostra todas as marcas do tempo. O António via-me. Para ele, eu não era a mãe do Dr. Roberto ou a dona Eunice reformada.
Eu era a Eunice, apenas a Eunice. Quando contei ao meu filho que estava a namorar, a reação foi um riso de canto de boca, daquele tipo que a gente dá quando vê uma criança a dizer uma asneira. Ele não levou a sério. Mas o tempo passou.
O António começou a frequentar a minha casa e a coisa ficou oficial. Foi aí que o olhar do meu filho mudou. A indiferença virou desconfiança. Ele olhava para a camisa de botões simples do António, para o relógio de pulso gasto, e eu via os números a girar na cabeça do Roberto.
Ele, que passou a vida a medir o valor das pessoas pelo tamanho da conta bancária, não conseguia entender o que um marceneiro reformado fazia ali. Aí chegou a semana do meu aniversário de 71 anos. Eu queria apenas um almoço simples na minha casa, fazer um frango caipira na minha velha panela de ferro fundido, abrir um guaraná e cortar um bolo. Mas o Roberto não aceitou.
Disse que a mãe de um homem na posição dele não podia comemorar o aniversário numa casa de bairro com cheiro a gordura. Insistiu em fazer uma festa na mansão dele. Uma festa, segundo ele, à altura. Quem avisa amigo é, diz o ditado, e o meu coração avisou-me de que aquilo não daria certo.
Mas o amor de mãe é uma fraqueza que cega a gente. Cedi. O sábado da festa chegou. O céu de Goiânia estava sem uma nuvem, de um azul que chegava a arder os olhos.
Coloquei o meu melhor vestido, um floral de algodão que eu mesma tinha passado a ferro com goma até ficar impecável. O António passou lá em casa para me buscar no seu carro antigo, um Monza muito bem conservado, a brilhar de tão encerado. Vestia uma calça social de vinco marcado e uma camisa azul-clara. Cheirava a loção pós-barba de farmácia, um cheiro limpo e honesto.
Entregou-me um botão de rosa vermelha e disse que eu era a mulher mais bonita de Goiás. Quando chegámos à casa do Roberto, o contraste foi um soco no estômago. A calçada estava cheia de carros importados. A casa, com as suas paredes de vidro e mármore, parecia um palácio de gelo no meio do cerrado.
Entrámos de mãos dadas. O jardim dos fundos estava cheio de gente, pessoas que eu nunca vi na vida. Sócios do meu filho, amigos da minha nora, Márcia, todos a segurar taças de cristal com bebidas coloridas, a rir alto. A fumaça do churrasco gourmet subia, misturada ao som de uma banda a tocar uma música ambiente irritante.
A Márcia veio receber-nos. Deu dois beijos no ar, longe do meu rosto, para não borrar a maquilhagem dela, e mal olhou para o António. O Roberto demorou a aparecer. Quando veio, já estava com um copo largo de whisky na mão.
O abraço dele foi rápido, mecânico. Cumprimentou o António com um aceno de cabeça tão seco que faria inveja à poeira da rua. Passámos a tarde inteira isolados. O António e eu sentámo-nos numa mesa de canto, perto de uns vasos de plantas gigantes.
Os garçons passavam com bandejas de comidas que eu nem sabia o nome, coisas cruas em cima de torradas minúsculas. O António, a perceber o meu desconforto, segurava a minha mão debaixo da mesa e contava piadas baixinhas para me fazer sorrir. Ele era o meu porto seguro naquele mar de falsidade. Eu olhava em volta e via o mundo do meu filho, um mundo pelo qual eu dei o meu suor, a minha juventude, as minhas noites de sono.
Mas eu não pertencia àquilo. Eu era apenas a desculpa para ele dar uma festa e mostrar aos amigos que era um bom filho. O sol começou a baixar, pintando o céu daquele laranja que só o cerrado tem. Foi quando a banda parou de tocar.
O Roberto caminhou até ao centro do gramado, perto da piscina iluminada, a segurar o microfone do vocalista. Bateu no vidro do copo de whisky com uma colher de prata. O tilintar ecoou pelos altifalantes. O burburinho cessou.
Todos se viraram para ele. Eu ajeitei a postura na cadeira. O António sorriu para mim, à espera da homenagem. — Boa noite a todos.
— A voz do Roberto soou alta, levemente arrastada pela bebida. — Quero agradecer a presença de cada um de vocês. Hoje estamos aqui para celebrar a vida da minha mãe, dona Eunice. 71 anos não é para qualquer um, não é verdade?
Algumas palmas educadas soaram. Ele continuou. — Minha mãe é uma guerreira. Criou-me sozinha.
Trabalhou como uma condenada naquelas centrais telefónicas antigas para que eu pudesse ser o homem que sou hoje, para que eu pudesse construir tudo isto aqui. Ele abriu os braços, mostrando a mansão. Eu sorri, mas havia um aperto estranho no meu peito. Ele não estava a elogiar-me a mim, estava a elogiar-se a si mesmo.
— Por isso, mãe. — Apontou na minha direção, e todos os olhares do jardim se voltaram para a nossa mesa no canto. — Por tudo o que a senhora fez, sinto que é meu dever, como filho que cuida, proteger a senhora, proteger o património da nossa família. A palavra património pairou no ar como um urubu à procura de carniça.
O meu estômago embrulhou. O António apertou a minha mão. O Roberto deu um passo à frente, o rosto vermelho, os olhos a brilhar com uma crueldade que eu não reconheci. — A senhora está numa idade frágil.
A cabeça já não é a mesma. E é por isso que me dói ver a senhora a ser feita de tola na frente de toda a gente. O silêncio que se abateu sobre aquele jardim foi tão denso que dava para ouvir o barulho da água a cair na piscina. Ninguém respirava.
A minha nora levou a mão à boca, não de choque, mas para esconder um sorriso de aprovação. — Roberto… — murmurei, mas a minha voz não saiu. Ele ergueu o microfone de novo, apontando o dedo livre diretamente para o rosto do António.
— Mãe, pelo amor de Deus, larga esse velho interesseiro. A senhora está a fazer um papel feio, um papel ridículo. Acha mesmo que um tipo que não tem onde cair morto, que anda num carro a cair aos pedaços, está apaixonado pela senhora? Ele está de olho na sua casa, na sua pensão, no que é meu por direito.
Acorda para a vida, mãe. Não me faças passar esta vergonha na frente dos meus amigos. O tempo pareceu congelar. As palavras bateram no meu rosto com a força de uma bofetada física.
Senti o sangue fugir da minha cabeça. A minha visão escureceu por uma fração de segundo. O arrepio que subiu pela minha espinha não era de frio. Era o gelo da deceção mais profunda que um ser humano pode sentir.
O filho que saiu do meu ventre, que mamou no meu peito, por quem eu engoli a fome e a exaustão, estava a chamar-me de velha inútil, de idiota senil, no meio de 100 pessoas desconhecidas. Mas o que me quebrou não foi a humilhação sobre mim. Foi olhar para o lado. O António estava pálido como cera.
O rosto daquele homem bom, que nunca levantou a voz para ninguém, estava desfigurado pela vergonha. Tentou soltar a minha mão, a baixar a cabeça, os olhos marejados de uma dor que não era dele por merecimento. Encolheu os ombros como se tentasse desaparecer dentro da própria camisa. Aquele homem digno estava a ser tratado como um marginal, um aproveitador, por causa da minha escolha de o amar.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E ali, naquele instante, o último pingo de ilusão que eu tinha sobre o caráter do meu filho furou a pedra do meu amor incondicional. O silêncio continuava absoluto. Todos esperavam que eu chorasse, que desmaiasse, que fizesse um escândalo de velha descompensada ou que simplesmente me encolhesse na cadeira e aceitasse o castigo do meu dono.
Mas eles esqueceram de um detalhe. Eu fui telefonista nos anos de chumbo. Aprendi a ouvir os segredos mais podres da cidade inteira e a manter a espinha ereta. Aprendi a segurar o choro quando a vida gritava do outro lado da linha.
Levantei devagar, as minhas pernas não tremeram. Virei-me para o António. Segurei o rosto dele com as minhas duas mãos, obrigando-o a levantar a cabeça e a olhar para mim. Sorri para ele com uma ternura que guardei apenas para os justos.
Peguei na mão dele com firmeza. Entrelacei os meus dedos nos dele, tão apertado que os meus nós dos dedos ficaram brancos. Não olhei para o Roberto, não olhei para a Márcia, não olhei para nenhum dos engravatados e madames com as suas taças de cristal. Passei os olhos apenas pelo caminho de pedras brancas que levava até à saída.
Comecei a caminhar, puxando o António comigo. Passámos pelo meio das mesas. O silêncio era tão pesado que o único som inteiro era o bater do salto do meu sapato nas pedras. Ninguém ousou mover-se.
Ninguém ousou dizer uma palavra. Quando passei ao lado do Roberto, senti o cheiro azedo do whisky e vi pelo canto do olho que ele estava com a boca entreaberta, confuso. Ele esperava submissão, não desprezo, puro e silencioso. Caminhámos até à saída, cruzámos o portão de ferro forjado e entrámos no velho Monza do António.
Ele deu à partida com as mãos a tremer. Quando dobrámos a esquina, longe daquela maldita mansão, o António encostou o carro no meio-fio e começou a chorar. Um choro doído, silencioso. Abracei a cabeça dele e deixei que molhasse o tecido do meu vestido novo.
Não derramei uma única lágrima. A minha tristeza já tinha evaporado no calor daquele fim de tarde, dando lugar a um sentimento muito mais poderoso e perigoso. Frieza. O Roberto achava que conhecia as minhas finanças.
Achava que eu era apenas uma velha reformada, que vivia de migalhas, a morar numa casinha simples, cujo terreno, segundo ele, já lhe pertencia. Achava que detinha o poder sobre mim e sobre tudo o que eu construí em silêncio durante mais de 30 anos. Abracei o António mais forte, a olhar para o poste de luz a piscar na rua deserta, e deixei um sorriso miúdo nascer no canto dos meus lábios. Eu não precisava de gritar nem de fazer escândalo, pois o relógio já estava a marcar o tempo dele.
E quando a segunda-feira amanhecesse, o Dr. Roberto iria descobrir da pior maneira possível que quem puxa os fios da central telefónica é quem decide que ligação vai cair. A viagem de volta para a minha casa foi feita num silêncio que pesava mais do que chumbo. O António dirigia o seu velho Monza com as duas mãos agarradas ao volante, os nós dos dedos brancos, os olhos fixos na rua mal iluminada.
O calor da noite goianiense entrava pela janela meio aberta, aquele bafo seco que levanta a poeira vermelha do asfalto e gruda na pele da gente. Eu olhava para o perfil dele, para as marcas profundas de expressão que o tempo e o trabalho duro na marcenaria desenharam no seu rosto, e sentia uma raiva fria, metálica, a instalar-se no meu estômago. Quando chegámos à minha casa, no setor Campinas, destranquei o portão de grade de ferro com um aperto no peito. O meu quintal, com o pé de jabuticaba no canto e o chão de cimento queimado, parecia um refúgio seguro depois do inferno de mármore e vidro da mansão do meu filho.
Entrámos. O António sentou-se na beira do meu sofá de xadrez marrom, com os ombros caídos, a parecer carregar o peso do mundo inteiro. Fui até à cozinha, acendi a trempe do fogão, coloquei água numa leiteira de alumínio batido, toda amassada nas laterais, e preparei um chá de erva-cidreira bem forte. Servi num copo de requeijão de vidro grosso, adoçado com duas colheres de mel.
Voltei para a sala e entreguei-o nas mãos trémulas dele. — Desculpa-me, Eunice — sussurrou ele, a voz embargada, a olhar para o fundo do copo. — Eu nunca quis ser motivo de vergonha para ti. O teu filho tem razão.
O que é que um homem como eu, que conta moedas para encher o depósito do carro, tem para oferecer à mãe de um doutor? Sentei-me ao lado dele, passei a mão pelos cabelos grisalhos daquele homem bom. — António, quem planta vento colhe tempestade. — A minha voz saiu mansa, mas firme.
— E o Roberto acabou de plantar um furacão. Tu não tens de que te envergonhar. O dinheiro dele comprou muita coisa, mas não conseguiu comprar berço, nem caráter. Bebe o teu chá.
A noite de hoje já acabou para nós. Fiquei ali, sentada no escuro, até a respiração dele ficar pesada e ele adormecer encostado ao braço do sofá. Cobri as pernas dele com uma manta fina de algodão. Depois caminhei até à cozinha, liguei o meu velho ventilador Arno azul de três pás, que fazia um ritmo de clique-clique a cada volta, e sentei-me à mesa forrada com uma toalha de plástico rendada.
O silêncio da madrugada é o melhor momento para a gente arrumar as gavetas da memória. O Roberto chamou-me de velha inútil, de cabeça fraca. Ele, na sua arrogância de homem rico, olhou para os meus cabelos brancos e para os meus sapatos confortáveis e enxergou apenas uma coitada que vive da reforma do governo. O erro dos soberbos é achar que quem fala baixo não tem voz.
Fechei os olhos e, de repente, não estava mais na minha cozinha. O cheiro de poeira do cerrado deu lugar ao cheiro de ozono, carpete velho e café forte das antigas centrais telefónicas da década de 1970. Senti o peso do fone de ouvido de baquelite na minha orelha esquerda. Sentia a textura dos cabos trançados que eu conectava no grande painel cheio de luzes que piscavam sem parar.
— Número, por favor. Essa era a minha frase. Durante 30 anos, essa foi a minha vida. O Roberto achava que o meu trabalho era apenas enfiar pinos em buracos.
Ele nunca entendeu que uma telefonista naquela época era o coração invisível da cidade. Eu era a ponte por onde passavam todos os segredos de Goiás. Conectava o governador com os seus empreiteiros. Ligava o fazendeiro rico com a amante escondida no Rio de Janeiro.
Ouvia os donos de frigoríficos a combinar os preços da carne. Escutava os grandes advogados a negociar sentenças e a planear golpes. O regulamento mandava a gente desconectar e não ouvir as conversas. Mas a verdade é que as chaves do painel tinham um defeito.
Se a gente deixasse a alavanca no meio do caminho, a linha ficava aberta e ninguém percebia. Eu nunca fui de fofoca, nunca usei o que ouvia para chantagear ninguém, mas eu não era tola. Cão que ladra não morde, mas o que escuta em silêncio aprende o caminho do osso. Ouvindo os tubarões da cidade a conversar nas madrugadas, aprendi sobre negócios.
Aprendi como eles compravam terras baratas na periferia antes de a prefeitura anunciar o asfalto. Aprendi como funcionavam as escrituras, os cartórios, as empresas de fachada. E com o dinheiro suado dos meus turnos dobrados, enquanto o Roberto brincava no quintal, comecei a jogar o jogo deles, mas com as moedas que eu tinha. Farinha pouca, meu pirão primeiro.
Eu sabia que precisava de garantir o futuro daquele menino, mas nunca confiei que o mundo seria justo com uma viúva. Levantei da mesa da cozinha, sentindo um estalo leve no joelho esquerdo. O relógio de parede marcava 3 horas da manhã de domingo. Fui até ao meu quarto.
O ar estava abafado. Parei em frente ao meu guarda-roupa de sucupira, um móvel pesado, escuro, que comprei em 1985. Abri as portas. O cheiro dos sabonetes Eucalol que eu guardo entre os lençóis invadiu as minhas narinas.
Na parte de baixo, debaixo de uma pilha de cobertores de lã, que quase nunca uso por causa do calor de Goiânia, havia uma velha caixa de sapatos de couro da marca Vulcabrás. Puxei a caixa, ela era pesada. Levei-a até à cama e acendi o abajur de cúpula amarelada. Dentro da caixa não havia sapatos, havia uma pasta preta, daquelas grossas, amarrada com dois elásticos de dinheiro já meio ressecados.
Sentei na beira da cama, desamarrei os elásticos e abri a pasta. O cheiro de papel velho, de tinta de carimbo, de cartório e de poeira guardada subiu pelo ar. Os meus dedos, com a pele já fina e manchada pelos anos, acariciaram os documentos de papel-maço. Ali estava o meu verdadeiro património.
A prova de que a velha tinha mais inteligência financeira num fio de cabelo branco do que o Dr. Roberto em todos os seus diplomas emoldurados na parede. Puxei o primeiro documento. Era uma escritura pública datada de 35 anos atrás.
Naquela época, o setor onde hoje fica o polo médico mais caro da cidade era só mato, barro e promessa de político. Eu tinha ouvido uma ligação entre dois vereadores sobre o desvio de uma avenida principal. No dia seguinte, peguei todas as minhas economias, vendi as minhas alianças de casamento e comprei dois lotes imensos de esquina naquele fim de mundo, direto das mãos de um posseiro desesperado. Quando o Roberto se formou e quis abrir a sua primeira clínica de luxo, pediu-me dinheiro emprestado.
Precisava de um terreno bem localizado para construir. Entreguei-lhe os dois lotes. Ele construiu o seu império de vidro e mármore em cima daquela terra, mas cometeu o erro dos orgulhosos. Subestimou a própria mãe.
Puxei o segundo documento da pasta. Era um contrato de comodato e usufruto, registado em cartório com letras miúdas. Quando entreguei os lotes, disse ao Roberto que precisávamos de assinar um papelzinho só por segurança jurídica para proteger o bem da família caso ele se casasse. Ele, apressado, com a cabeça cheia de sonhos de grandeza, mal leu o que estava a assinar.
Apenas rabiscou o nome nas vias que eu coloquei na mesa da cozinha enquanto mastigava um pão de queijo. O que é do homem, o bicho não come. E o que é da Eunice, o Roberto não leva. O contrato dizia de forma muito clara que os terrenos e todas as benfeitorias construídas sobre eles pertenciam única e exclusivamente a mim.
O Roberto tinha apenas o direito de uso comercial do espaço, sob a condição de uma cláusula de moralidade e respeito familiar que o meu advogado fez questão de redigir com palavras duras. E o mais importante, o contrato previa que eu, a titular, poderia revogar o direito de uso a qualquer momento, com um aviso prévio de 30 dias, caso me sentisse lesada ou desrespeitada. Se a revogação ocorresse, o ocupante teria de desocupar os imóveis e pagar uma multa rescisória equivalente a todo o lucro gerado no último ano fiscal. Passei o dedo sobre a assinatura apressada do meu filho.
O papel parecia queimar debaixo do meu toque. Ele achava que me protegia. Achava que era o dono da minha casa modesta no setor Campinas. Nem imaginava que a clínica matriz dele, o estacionamento rotativo que ele cobrava uma fortuna por hora e o prédio comercial anexo onde alugava salas a outros médicos, tudo, absolutamente tudo, estava em terreno que legalmente era meu e que com uma única canetada eu poderia mandar os tratores derrubarem tudo se quisesse.
Mas os papéis não eram a minha única arma. Fui até ao fundo da pasta e tirei uma caderneta de capa dura preta do extinto banco Bamerindus. Folheei as páginas pautadas cheias de anotações feitas com caneta esferográfica azul. Nomes, datas, horários de ligações, factos.
Parei na letra V. Valdir Albuquerque. Em 1982, Valdir era um advogado criminalista em início de carreira, a tentar derrubar um esquema de corrupção numa prefeitura do interior. Uma noite, conectei uma ligação do prefeito corrupto com um pistoleiro de aluguel.
Estavam a combinar o endereço da casa do Valdir. A ordem era queimar o carro com ele dentro. Eu não podia chamar a polícia, pois a polícia estava no bolso do prefeito. Mas eu sabia o telefone da casa da mãe do Valdir.
Liguei de um orelhão de ficha na esquina da central telefónica. Falei rápido, disfarcei a voz, dei o recado e desliguei. O Valdir fugiu naquela mesma madrugada. O carro dele foi metralhado e incendiado na garagem vazia.
Anos depois, quando ele já era um dos advogados mais influentes, temidos e caros de todo o estado de Goiás, bati à porta do escritório dele. Contei a história do orelhão. Falei a hora exata, os nomes. Ele chorou na minha frente.
Desde aquele dia, o Dr. Valdir Albuquerque virou o meu escudo invisível. Foi ele quem redigiu o contrato ardiloso que o Roberto assinou. Foi ele quem escondeu o meu nome numa holding modesta que administra os poucos aluguéis que eu recebo, suficientes para eu viver em paz, sem nunca precisar de um centavo do meu filho.
Peguei no cartão de visitas atualizado do Dr. Valdir, letras douradas em papel texturizado. Sorri. O apressado come cru.
Roberto, achaste que estavas a pisar numa barata, mas pisaste numa mina terrestre. O sol começou a dar as caras no horizonte, pintando o céu do cerrado com aquele tom de roxo e laranja que anuncia um dia de calor de rachar mamona. O barulho do camião do lixo passou na rua, a quebrar o silêncio da madrugada. Eu não tinha pregado o olho um minuto sequer, mas nunca me senti tão acordada em toda a minha vida.
Guardei os documentos de volta na pasta, coloquei a pasta dentro da caixa de sapatos e a caixa no fundo do guarda-roupa de sucupira. Tranquei a porta de madeira maciça e guardei a chave pequena no bolso do meu vestido. Fui até à casa de banho, lavei o rosto com água fria da torneira. Olhei para a mulher no espelho do armário de metal enferrujado nas bordas.
As rugas estavam lá, os cabelos brancos ralos, a pele flácida no pescoço. A carcaça era de uma idosa de 71 anos, mas os olhos, os olhos que me encaravam de volta, eram os mesmos daquela telefonista de 30 anos que trabalhava 14 horas por dia, com os dentes trincados, disposta a mastigar vidro para não ver o filho passar fome. A diferença é que agora eu não precisava mais de mastigar vidro. Eu tinha os dentes afiados da paciência e a lei do meu lado.
Voltei para a sala. O António já estava acordado, sentado no sofá, a esfregar o rosto com as duas mãos grossas. Olhou para mim, os olhos vermelhos e inchados da noite mal dormida e do choro engolido. — Bom dia, Eunice — disse ele, a voz rouca, a tentar forçar um sorriso que não alcançou os olhos.
— Acho melhor eu ir embora. Deixar-te resolver a tua vida com o teu filho. Eu não quero ser um estorvo. Caminhei até ele, parei na sua frente, segurei as suas mãos calejadas e puxei-o para cima, obrigando-o a ficar de pé.
— O único estorvo na minha vida, António, é a minha própria tolerância — respondi, a arranjar a gola da camisa amassada dele. — Tu não vais a lado nenhum. Nós vamos tomar um pequeno-almoço reforçado. Pão francês com manteiga na chapa e café coado na hora.
Ele franziu a testa, confuso com a minha tranquilidade. — Mas, Eunice… e o Roberto, o escândalo de ontem? Ele ameaçou tirar-te tudo.
Disse que ia interditar-te, tomar a tua casa. Dei uma risada curta, seca, que raspou na garganta. Fui até ao aparador perto da porta, onde ficava o telefone fixo, o único luxo antigo que eu fazia questão de manter em casa. O aparelho era preto, pesado, de disco.
— António, presta atenção ao que te vou dizer — falei, pousando a mão sobre o monofone de baquelite frio. — O meu filho passou a vida inteira a acreditar que ele é o dono da empresa, o dono do dinheiro, o dono da razão. Acha que por ser médico e ter o nome na fachada do prédio, é ele quem manda nas ligações da vida. Olhei para a janela, vendo o sol finalmente estourar no céu sem nuvens de Goiânia, a iluminar a poeira que dançava no ar.
— Mas amanhã é segunda-feira e, no horário comercial, o Dr. Roberto vai descobrir que não adianta gritar no microfone quando sou eu quem tem a tesoura para cortar os fios da torre inteira. O domingo amanheceu com aquele mormaço típico de Goiânia, quando o céu fica branco de tanta quentura e o ar parece pesar nos pulmões da gente. O relógio de cuco na parede da sala marcou 10 horas quando o barulho de um motor potente rasgou o silêncio da minha rua no setor Campinas.
Eu estava na varanda, a regar a minha samambaia chorona com uma caneca de plástico, quando vi a caminhonete importada do Roberto estacionar, a ocupar quase a calçada inteira. Boi sonso é o que arromba a cerca. Eu sabia muito bem o que ele vinha fazer ali. O António estava lá dentro, a consertar o trinco da porta da cozinha que andava emperrado.
Pedi-lhe que não saísse de lá. Ajeitei o meu vestido de algodão, passei a mão nos cabelos para baixar os fios rebeldes e sentei na minha cadeira de espaguete verde, à espera da visita. O Roberto abriu o portãozinho de ferro sem pedir licença. Vestia uma camisa polo de marca, óculos escuros espelhados e carregava uma sacola de padaria.
O rosto dele não tinha um pingo de remorso. Pelo contrário, caminhava com a postura de um rei que vem inspecionar os súditos depois de aplicar um castigo. — Bom dia, mãe — disse ele, forçando um tom de voz manso, daquele jeito que a gente fala com criança pequena ou com gente que bateu a cabeça. — Bom dia, Roberto — respondi, mantendo o olhar baixo, fixo no piso de cimento vermelho da varanda.
Deixei os meus ombros caírem um pouco mais, a encurvar as costas. A melhor camuflagem para uma mulher idosa é exatamente aquilo que os outros esperam dela: a fragilidade. Ele colocou a sacola de padaria em cima do murinho. — Trouxe uns pães de queijo daquela lanchonete cara de que a senhora gosta.
Olha, mãe, sobre ontem, eu sei que fui um pouco duro, mas a senhora precisa de entender que foi para o seu próprio bem. O papel de um filho amoroso é abrir os olhos da mãe quando a idade começa a turvar o juízo. Eu não respondi. Apertei as mãos no colo, deixando que tremessem de leve.
Uma encenação digna de novela das oito. — A Márcia ficou muito preocupada com a senhora. — Continuou ele, sentando no braço da outra cadeira de espaguete, como se o assento estivesse sujo demais para a calça dele. — Nós conversámos muito ontem à noite.
A senhora a morar aqui sozinha nesta casa velha com este entra e sai de gente estranha. Esse marceneiro que não tem eira nem beira. Isso é perigoso. A senhora pode esquecer um fogão aceso, pode assinar um papel que não deve.
Já pensou? A isca estava lançada. Ele queria o controlo. — Eu estou bem, meu filho.
Só fiquei assustada com a gritaria. — Sussurrei, fazendo a voz sair fina e esganiçada. O Roberto sorriu, um sorriso de alívio por constatar que a mãe estava domada, castigada e no seu devido lugar de velha inútil. Deu dois tapinhas no meu ombro.
— Não precisa de ficar assustada, mãezinha. O Roberto está aqui. Eu vou cuidar de tudo para a senhora a partir de agora. Amanhã a Márcia vai passar aqui com os papéis.
É só uma procuração simples, sabe? Para eu poder ir ao banco no seu lugar, resolver essas burocracias chatas da reforma, pagar as continhas da senhora. Assim, a senhora não precisa de apanhar fila no sol. Não é maravilhoso?
A raposa velha não cai em armadilha. Ela fareja o ferro enferrujado a quilómetros de distância. Ele queria uma procuração de plenos poderes. Queria interditar-me aos poucos pelas beiradas para garantir que o património ficasse seguro.
— Está bem, meu filho. Se achas que é melhor assim, a mãe assina. Mas avisa a Márcia para vir de tarde, porque de manhã eu vou com a dona Jurema à feira comprar quiabo. — Combinado, mãe.
Vês como as coisas se resolvem quando a senhora escuta quem tem a cabeça no lugar? Ele levantou, ajeitou os óculos no rosto e olhou ao redor com desprezo. — E vê se despachas aquele velho. Chega de passar vergonha.
Ele saiu, entrou na caminhonete e arrancou a cantar o pneu. Levantei da cadeira de espaguete, sentindo a minha espinha voltar a ficar reta. O tremor nas minhas mãos sumiu no mesmo instante. Peguei na sacola de pão de queijo que ele deixou no muro e atirei-a diretamente para o lixo da calçada.
O que vem envenenado de soberba, a gente não engole. Voltei para dentro de casa. O António estava encostado ao batente da porta da cozinha, a segurar uma chave de fendas, com os olhos arregalados. Ele tinha ouvido tudo.
— Tu não vais assinar nada para essa mulher, pelo amor de Deus — disse ele, apavorado. — Esse homem quer trancar-te num asilo e tomar a tua casa. Caminhei até ele, peguei na chave de fendas da mão dele e coloquei-a em cima da mesa. — António, a mentira tem pernas curtas, mas a ignorância do meu filho não tem limites.
Eles acham que eu estou gagá, pois deixem que achem. Enquanto eles preparam a corda, a achar que me vão amarrar, eu já fiz o nó da forca para o pescoço deles. Vai lavar essas mãos sujas de graxa. Amanhã temos um compromisso no setor Marista e preciso que me leves no teu Monza.
A segunda-feira amanheceu com o trânsito pesado de sempre. O barulho das motos a costurar entre os carros na Avenida Mutirão era ensurdecedor. O António dirigia com cuidado, os olhos apertados por causa do sol que refletia nos vidros dos prédios espelhados. Eu estava sentada no banco do carona, a vestir uma saia reta azul-marinho, uma blusa de botões impecável e os meus sapatos de salto grosso.
No meu colo repousava a velha pasta preta, agora limpa do pó do guarda-roupa de sucupira. Parámos em frente a um prédio comercial daqueles que gritam dinheiro. Vidros escuros, colunas de granito, seguranças de fato à porta. O António olhou para o painel do Monza e depois para o prédio.
— Tens a certeza de que é aqui, Eunice? Este lugar não tem cara de que atende gente como a gente. — É aqui mesmo. Espera-me à sombra daquela árvore ali na esquina, António.
Se quiseres, toma um café na padaria. Isto é coisa que eu preciso de fazer sozinha. Desci do carro. O calor do asfalto subiu pelas minhas pernas, mas eu não suava.
A minha mente era puro gelo. Passei pelas portas automáticas e fui até à receção. A moça atrás do balcão, com unhas de gel perfeitamente pintadas e um fone de ouvido moderno, olhou para a minha saia modesta e para a minha pasta velha, com um misto de tédio e desdém. — Pois não, senhora.
O que deseja? — perguntou sem sequer me dar um bom dia. — Tenho hora marcada com o Dr. Valdir Albuquerque.
O nome é Eunice. A moça deu um sorriso condescendente. — Senhora, o Dr. Valdir é o sócio fundador.
Ele não atende passantes. A senhora deve ter-se confundido com o escritório de advocacia previdenciária que fica no segundo andar. Aqui é o 30. º andar, direito corporativo e imobiliário.
Eu não me alterei. 30 anos em central telefónica ensinam a gente a lidar com todo o tipo de imbecil. — Minha filha, faz o favor de pegar nesse telefone bonito à tua frente, ligar para a sala do Dr. Valdir e dizer a seguinte frase: “A telefonista da madrugada de 82 está aqui.
” Só isso. Se ele não mandar eu subir imediatamente, eu vou embora e não te incomodo mais. A moça revirou os olhos, suspirou pesado e digitou no ramal. Repetiu a frase com preguiça.
Em menos de cinco segundos, a cor sumiu do rosto dela. Gaguejou um “sim, senhor”, desligou o telefone e levantou da cadeira tão rápido que quase derrubou o copo de água. — A senhora acompanhe-me, por favor. O Dr.
Valdir pediu para eu a escoltar pessoalmente. O elevador privativo já está a descer. 10 minutos depois, eu estava sentada numa cadeira de couro legítimo que cheirava a riqueza, numa sala com vista para a cidade inteira. O Valdir Albuquerque já não era o jovem advogado desesperado que eu salvei da morte.
Era um homem de cabelos grisalhos muito bem cortados, fato feito à medida e um relógio que devia custar o preço da minha casa inteira. Mas quando me viu, os olhos dele marejaram. Levantou, deu a volta à imensa mesa de mogno e beijou as minhas duas mãos. — Dona Eunice, que honra, que alegria vê-la.
Devo-lhe o privilégio desta visita depois de tantos anos. Não perdi tempo com amenidades. O tempo do relógio da vingança não permite pausas para café. Abri a pasta e tirei o contrato de comodato e usufruto.
Coloquei-o em cima da mesa dele, bem debaixo da luz do abajur de leitura. — Dr. Valdir, vim cobrar o favor que me deve desde 82. Ele pegou no documento, ajustou os óculos no rosto e começou a ler.
A expressão dele mudou de cordial para estritamente profissional. Lia cada linha, cada cláusula que ele mesmo havia redigido há mais de uma década. Quando terminou, olhou para mim com uma sobrancelha erguida. — Lembro-me perfeitamente de ter feito este contrato para a senhora, dona Eunice.
Foi um trabalho de ourives. Esta cláusula de moralidade é blindada e a multa rescisória atrelada ao faturamento do último ano fiscal é uma arma de destruição em massa. Se a senhora acionar isto, a clínica do seu filho não apenas perde o espaço físico em 30 dias, como ele quebra financeiramente para pagar a multa, já que o terreno vale uma fortuna hoje. — Sei.
Fui eu que mandei o senhor colocar isso aí. O Valdir cruzou os dedos sobre a mesa. — A senhora tem a certeza de que quer fazer isto? É o seu filho.
O processo é irreversível depois de protocolado. Encarei o advogado. Lembrei do rosto do António a murchar de vergonha na frente de 100 pessoas. Lembrei do dedo do Roberto apontado para o meu rosto, a chamar-me de ridícula e senil.
— O meu filho morreu no sábado à noite, Dr. Valdir. O homem que ocupa aquele prédio é apenas um inquilino insolente, que se esqueceu de pagar o aluguel do respeito. Quero a execução total.
Quero a notificação entregue por oficial de justiça, direto na mão dele, no meio do expediente da clínica. E quero uma auditoria silenciosa às contas da empresa dele para garantir que nenhum centavo seja desviado antes do pagamento da minha multa. O Valdir sorriu, um sorriso de predador que encontrou alguém com a mesma fome. — A senhora é a mulher mais formidável que eu já conheci, dona Eunice.
Considere feito. Os papéis darão entrada no fórum hoje mesmo, em caráter de urgência. O juiz da vara cível é um velho amigo nosso. Em 48 horas, o oficial de justiça bate na porta de vidro do Dr.
Roberto. Apertei a mão do advogado, guardei a minha pasta e desci pelo elevador privativo. O silêncio do metal a descer 30 andares era a música mais doce que eu já tinha ouvido. Na terça-feira à tarde, o segundo ato da minha peça teatral de velhice aconteceu.
Estava na cozinha a debulhar uma bacia de feijão-de-corda que o António tinha trazido da feira quando a campainha tocou. Era a Márcia, a minha nora. Entrou na minha casa a pisar na ponta dos pés, como se o chão de cimento vermelho fosse contaminar a sola vermelha do sapato caro dela. O cheiro do perfume importado dela brigou com o cheiro do feijão verde, dando-me um leve enjoo.
— Oi, dona Eunice, tudo bem? — falou num tom estridente e falso. — Nossa! Que calor faz nesta casa, não é?
A senhora não pensa em pôr um ar-condicionado? — Pobre não sente calor, minha filha. Sente a sua dor. — Respondi sem parar de debulhar as vagens.
Ela riu, uma risada seca de quem não entendeu a piada, e sentou na pontinha da cadeira de madeira, colocando uma pasta de couro em cima da toalha de plástico rendada. — Bom, dona Eunice, o Roberto pediu-me para passar aqui. Sabe como ele é preocupado com a senhora, né? Ele é um filho de ouro.
A gente quer o seu bem. O Roberto acha que a senhora está muito cansada, muito esquecida ultimamente. Parei de debulhar o feijão. Limpei as mãos no meu avental de tecido de saco de farinha e olhei para ela, forçando um olhar perdido, a piscar devagar.
— Esquecida? Será, Márcia? Eu lembro-me de tanta coisa. Lembro-me até do dia em que casaste com o Roberto e o cheque do teu pai voltou sem fundos para pagar o buffet.
O rosto da Márcia ficou da cor de um tomate maduro. Engoliu em seco. A mentira é uma roupa bonita, mas qualquer vento levanta a barra. — Ah, memórias antigas a gente guarda, né, dona Eunice?
O problema é o dia a dia. Enfim, eu trouxe aquela procuração de que o Roberto falou. É só a senhora assinar aqui na linha pontilhada. Isto vai dar ao Roberto o poder de gerir as continhas da senhora.
Tudo no seu nome, claro, mas ele é quem vai assinar por si a partir de hoje. Ela tirou um maço de papéis e uma caneta de ouro do bolso da bolsa chique. Esticou na minha direção. Eu olhei para o papel, letras miúdas, um documento feito por algum advogado de porta de cadeia a tentar tirar-me o direito sobre a minha própria assinatura.
Era a prova final de que eles não queriam ajudar-me, queriam anular-me. Levantei da mesa devagar, a arrastar o chinelo no chão de propósito. Fui até ao armário, abri a gaveta dos talheres, mexi nas colheres, a fingir que procurava algo. — Ai, Márcia, minha filha, onde foi que eu pus os meus óculos de leitura?
Sem eles, não enxergo nenhum elefante à minha frente. Estão aí na gaveta? — Dona Eunice, eu ajudo a senhora a procurar. — Ela levantou, ansiosa.
— Não, não está aqui. Acho que os esqueci no quarto. Ou será que foi na casa da dona Jurema? Nossa, a minha cabeça anda mesmo à toa.
Tens razão. Voltei para a mesa, encostei-me à cadeira e suspirei. — Márcia, faz o seguinte, deixa os papéis aí. O António vem amanhã de manhã.
Ele tem boa vista. Lê para mim e eu assino. Está bem? Depois o Roberto passa e pega.
A menção do nome do António fez a boca da Márcia entortar de nojo. Juntou os papéis rapidamente e socou-os de volta na pasta de couro. — De maneira nenhuma. Imagina se esse homem lê os documentos particulares da nossa família.
Deixa para lá, dona Eunice. Eu volto amanhã com o Roberto. A gente traz uma lupa, se for preciso, mas a senhora assina isto amanhã. Sem falta.
Ela saiu a bater a porta da sala. Fiquei sozinha na cozinha. O barulho do ventilador Arno azul de três pás continuava no seu ritmo de clique-clique. Voltei para a minha bacia de feijão-de-corda e sorri.
Amanhã. Eles queriam que eu assinasse a minha sentença de morte em vida amanhã. O que eles não sabiam é que amanhã era quarta-feira, o dia em que o prazo das 48 horas do Dr. Valdir iria vencer.
Eu não era uma velha confusa e manipulável. Eu era uma aranha, a tecer a teia no escuro da própria casa, a assistir os insetos arrogantes voarem direto para os fios pegajosos. Eles achavam que estavam a dar o golpe perfeito numa reformada inútil, enquanto eu preparava o palco para o maior espetáculo que a alta sociedade de Goiânia já tinha visto. Peguei num grão de feijão duro que sobrou no fundo da bacia e atirei-o pela janela, acertando em cheio na terra seca do quintal.
O silêncio da minha execução estava prestes a transformar-se num estrondo ensurdecedor. A quarta-feira em Goiânia amanheceu com aquele sol que não pede licença, a invadir as frestas da janela e a avisar que o dia seria de suar a camisa. Mas, pela primeira vez em muitos anos, eu não sentia o peso do clima. Acordei antes dos passarinhos, tomei um banho demorado e escolhi a minha roupa com o cuidado de quem se prepara para um batizado ou um enterro.
Vesti um conjunto de linho bege que eu guardava no fundo do armário, calcei os meus sapatos de couro macio e passei um batom cor de boca. A mulher refletida no espelho do meu quarto não era a velha frágil que o meu filho queria interditar. Era a dona Eunice, a telefonista que conhecia os porões da cidade. O António chegou por volta das 8 da manhã, a trazer pão francês quente e um olhar carregado de preocupação.
Estava com a mesma camisa azul-clara do dia da festa, limpa e bem passada. Quando me viu arrumada daquele jeito na cozinha, parou no batente da porta, a segurar o saco de pão. — Eunice, estás a parecer uma daquelas madames de novela — disse com um sorriso tímido, mas logo a sombra voltou ao rosto. — Eu não dormi bem.
Fiquei a pensar nessa procuração. Tu não podes entregar a tua vida nas mãos daquele rapaz, por mais que ele seja do teu sangue. Deixa-me falar com ele. Eu aguento o desaforo, mas não deixo ele encostar um dedo no que é teu.
Fui até ele, peguei no saco de pão e coloquei-o sobre a mesa, ao lado da minha garrafa térmica de tampa de rosca e de um pote de sorvete vazio que eu usava para guardar biscoitos de polvilho. — António, macaco velho não mete a mão em cumbuca — respondi, a servir uma xícara de café preto para ele. — Tu não vais falar nada. Vais sentar nessa cadeira, tomar o teu café e assistir.
Hoje quem vai dar a aula sou eu, e os alunos estão prestes a chegar. Não demorou muito. O relógio da sala marcou 10:15 quando o ronco do motor da caminhonete do Roberto fez os vidros da minha janela tremerem. Ouvi o bater das portas do carro e o estalar dos saltos da Márcia na calçada.
Abriram o portão sem cerimónia, como se estivessem a entrar num quintal abandonado. Sentei-me à cabeceira da mesa da cozinha, com as mãos repousadas sobre a toalha de plástico rendada. O António ficou de pé, encostado à pia, com os braços cruzados e o maxilar travado. O Roberto entrou primeiro.
Estava de fato sem gravata, o cabelo engomado com gel, a cheirar a perfume caro e a impaciência. A Márcia vinha logo atrás, a segurar a mesma pasta de couro do dia anterior e a abanar o rosto com a mão, a reclamar do mormaço. — Bom dia, mãe — disse o Roberto, a voz a pingar aquela doçura artificial que me dava náuseas. Parou no meio da cozinha e olhou para o António com um desprezo profundo.
— O que é que este senhor ainda faz aqui? Eu achei que tínhamos sido claros sobre a presença de estranhos na hora de resolver assuntos de família. — O António não é estranho, Roberto. É o meu companheiro.
— Respondi, mantendo o tom de voz baixo, suave. A Márcia revirou os olhos e atirou a pasta de couro para cima da mesa. — Ai, Roberto, não vamos perder tempo com isso. Eu tenho salão marcado ao meio-dia — resmungou, a abrir o zíper e a tirar o maço de papéis.
— Dona Eunice, aqui estão os documentos. A procuração de plenos poderes. É só assinar em todas as páginas onde tem este adesivo amarelo. O Roberto trouxe a caneta dele para a senhora não precisar de procurar a sua.
Ela empurrou os papéis na minha direção e colocou uma caneta Montblanc preta e dourada bem na minha frente. O Roberto aproximou-se, a apoiar as duas mãos na beira da mesa, a debruçar-se sobre mim como uma ave de rapina. — Assina logo, mãe. É para o teu bem.
Com isto aqui, a senhora nunca mais vai precisar de se preocupar com fila de banco, com conta de luz, com nada. Eu passo a ser o seu representante legal para tudo. A senhora vai poder descansar a cabeça, que já não anda muito boa mesmo. Olhei para os papéis, olhei para a caneta reluzente.
Depois levantei os olhos para o meu filho. O menino que eu criei a pão duro e suor, que eu ensinei a andar de bicicleta nesta mesma rua, agora tentava amarrar-me numa camisa de força invisível e roubar a chave. — E se eu não quiser assinar, Roberto? — perguntei, deixando a máscara de velha tola escorregar só um pouquinho.
Ele soltou um suspiro irritado, a perder a paciência. A doçura sumiu do rosto dele, dando lugar à arrogância nua e crua. — Mãe, não testes a minha boa vontade. Se a senhora não assinar isto por bem, eu vou ao juiz amanhã mesmo.
Peço a sua interdição por senilidade. Eu tenho laudos, tenho amigos médicos que atestam que a senhora não tem mais capacidade mental para gerir o próprio património. A senhora quer passar por essa humilhação no tribunal? Assina esta droga e vai brincar de casinha com o teu marceneiro.
O António deu um passo à frente, vermelho de raiva, mas eu ergui a mão esquerda, parando-o no mesmo instante. Peguei na caneta Montblanc. Senti o peso do metal frio entre os meus dedos manchados pela idade. O Roberto sorriu, vitorioso.
A Márcia cruzou os braços, já a calcular mentalmente em que shopping iria gastar o dinheiro que achava que estava garantido. Aproximei a ponta da caneta do papel. Foi exatamente nesse milésimo de segundo que o som grave de um motor diferente parou em frente ao meu portão. Não era uma caminhonete barulhenta, era o som macio de um sedã de luxo importado, seguido pelo bater de duas portas pesadas.
Passos firmes ecoaram na calçada. O portão de ferro rangeu. O Roberto franziu a testa, a olhar para a porta da cozinha que dava para a varanda. — Quem é que a senhora chamou aqui, mãe?
Se for vizinha fofoqueira, manda embora, que eu não tenho tempo para isso. Não precisei de responder. A figura alta e imponente do Dr. Valdir Albuquerque preencheu o batente da porta.
Vestia um fato risca de giz impecável, os sapatos polidos a brilhar até na penumbra da minha varanda. Atrás dele, um homem mais jovem a segurar uma pasta preta com o brasão do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás estampado na capa. O ar na minha cozinha pareceu desaparecer. O Roberto piscou duas vezes, confuso.
Ele conhecia o Dr. Valdir? Claro que conhecia. Qualquer empresário, médico ou político em Goiás sabia quem era aquele homem.
O Valdir era o advogado que cobrava em dólares para não deixar milionários irem para a cadeia. Era o homem que jantava com desembargadores e governadores. — Dr. Valdir…
— gaguejou o Roberto, a soltar a beira da mesa e a endireitar as costas, de repente diminuído. — O que… o que o senhor está a fazer aqui no setor Campinas? O senhor perdeu-se?
O Valdir entrou na cozinha com a elegância de quem caminha sobre tapetes persas. Ignorou o Roberto completamente, caminhou até mim, puxou a minha mão direita e depositou um beijo suave sobre os meus nós dos dedos. — Bom dia, dona Eunice. Peço desculpa pela invasão do seu lar, mas achei que a senhora gostaria que este assunto fosse resolvido com a máxima presteza.
— Nunca é invasão, Valdir. Chegaste na hora certinha do café — respondi, largando a caneta do Roberto sobre a mesa. O Roberto olhava do Valdir para mim, a boca entreaberta, o cérebro a girar em falso, a tentar entender a ligação entre um dos advogados mais caros do país e a mãe reformada que morava numa casa de piso grosso. — Mãe, de onde a senhora conhece o Dr.
Valdir? O Valdir virou-se lentamente para o Roberto. O olhar do advogado era cortante como um bisturi. — A dona Eunice e eu somos velhos conhecidos, Dr.
Roberto. Ela é a cliente mais importante do meu escritório. Na verdade, eu diria que é a única cliente que eu atendo pessoalmente, sem cobrar honorários, apenas pelo privilégio de a servir. A Márcia deu um passo para trás, a esbarrar na geladeira, os olhos arregalados.
O Valdir fez um aceno com a cabeça para o homem de fato que estava na porta. — Este é o Sr. Carlos, oficial de justiça da quarta vara cível de Goiânia. Está aqui para cumprir um mandado judicial urgente.
O oficial deu um passo à frente, abriu a sua pasta e tirou um envelope pardo grosso, selado. Olhou diretamente para o meu filho. — O senhor é Roberto de Souza Alvarenga? — Sou.
Sou eu — respondeu o Roberto, a voz a falhar, as mãos a começar a suar. — O senhor está a ser notificado oficialmente nos termos da lei. Assine o recebimento aqui, por favor. O oficial entregou a prancheta.
O Roberto pegou na caneta a tremer, assinou um garrancho irreconhecível e pegou no envelope. Rasgou o papel pardo com pressa, tirou as folhas timbradas do tribunal e começou a ler. Eu fiquei em silêncio, apenas a assistir. Observei cada músculo do rosto do meu filho.
Vi o momento exato em que a soberba se transformou em confusão. A confusão virou choque e o choque desaguou num pavor absoluto. A cor fugiu do rosto dele, deixando a pele num tom cinzento doentio. Os lábios tremiam.
Lia a mesma página duas, três vezes, incapaz de processar o tamanho da avalanche que acabava de desabar sobre a cabeça dele. — Isto… isto é uma piada? — sussurrou o Roberto, a levantar os olhos apavorados para o Valdir.
— Uma revogação de comodato, ordem de despejo, multa rescisória… Meu Deus… — Não há piada alguma, Dr. Roberto.
— O Valdir respondeu, a voz fria e técnica. — Há 35 anos, a sua mãe adquiriu os lotes onde hoje funciona o seu complexo médico e o estacionamento rotativo. Quando o senhor pediu ajuda para construir a sua primeira clínica, ela cedeu o uso do solo através de um contrato de comodato e usufruto. O senhor assinou esse contrato.
Ele estabelece que os terrenos e todas as benfeitorias pertencem à dona Eunice e que ela pode revogar a permissão de uso caso se sinta desrespeitada. — Mas a clínica é minha! O prédio fui eu que construí! O dinheiro foi meu!
— gritou o Roberto, a voz esganiçada, a amassar os papéis nas mãos. — O que se constrói em terreno alheio perde-se para o dono do terreno. O senhor devia ter lido o que assinou na mesa desta mesma cozinha há 30 anos — retorquiu o Valdir, implacável. — A cláusula sétima é muito clara.
Além de desocupar os imóveis em 30 dias, o senhor deve pagar uma multa por quebra de decoro familiar, equivalente a 100% do faturamento bruto da clínica no último ano fiscal. A Márcia soltou um grito abafado e deixou a bolsa despencar no chão. — 100% do faturamento, Roberto! Isso é a nossa ruína!
A gente vai perder a casa no condomínio! A gente vai perder tudo! — Agarrou-se ao braço do marido, histérica. O Roberto empurrou a esposa para o lado e deu um passo na minha direção, os olhos vermelhos e marejados.
Já não era o doutor intocável. Era um rato encurralado na parede. — Mãe, o que é isto? Porque é que a senhora está a fazer isto comigo?
A senhora vai destruir-me! A clínica é a minha vida! Eu tenho funcionários, tenho pacientes! A senhora enlouqueceu de vez?
Levantei-me da cadeira. O rangido da madeira velha cortou o ambiente. Cresci diante dele, não em altura, mas na força que guardei durante décadas de silêncio e submissão. Caminhei até ele.
Fiquei a um palmo do seu rosto apavorado. — Eu não enlouqueci, Roberto. Eu nunca estive tão lúcida em todos os meus 71 anos. — A minha voz não vacilou.
Saiu firme, grave, a carregar o eco de cada noite que passei em claro, de cada pão amanhecido que comi para que ele tivesse carne na mesa. — Tu achaste que o microfone da tua festa te dava o direito de me expor ao ridículo. Olhaste para os meus cabelos brancos, para os meus sapatos confortáveis e para o meu endereço no subúrbio, e concluíste que eu era uma velha inútil, um peso morto que precisavas de administrar. Tiveste a ousadia de dizer que este homem — apontei para o António, que assistia a tudo com os olhos a brilhar de orgulho — estava de olho no meu património.
Dei mais um passo, forçando o Roberto a recuar. — O António nunca me pediu um centavo. Deu-me uma flor vermelha e achou-me bonita. Tu, meu filho, pediste-me os terrenos, pediste-me dinheiro, pediste-me a minha juventude inteira e, no meu aniversário, deste-me vergonha e humilhação na frente de estranhos.
Quem é o verdadeiro interesseiro aqui? O Roberto engoliu em seco, as lágrimas agora a escorrer livremente pelo rosto dele. — Mãe, perdoa-me. Eu bebi demais naquele dia.
Eu não queria. Eu estava a tentar proteger-te. — Mentira! — Bati com a mão espalmada na mesa, fazendo as xícaras de café pularem.
— Tu querias proteger o teu próprio orgulho. Não suportaste a ideia de que a tua mãe, a velha viúva, pudesse ter uma vida, um amor, um desejo próprio que não envolvesse bajular-te a ti e à tua mulher de plástico. Virei o rosto para a Márcia, que encolheu os ombros apavorada. — E tu, que entraste na minha casa a pisar na ponta dos pés por nojo do meu chão, recolhe essa procuração ridícula da minha mesa.
O único documento que vai ser assinado hoje é o aviso de recebimento do teu despejo. O Roberto caiu de joelhos no chão da minha cozinha, o fato caro a espanar a poeira vermelha do piso. Agarrou a barra da minha saia de linho bege, a soluçar alto como uma criança que partiu a vidraça e sabe que vai apanhar. — Mãe, pelo amor de Deus, não faças isto.
Eu perco o meu registo. Eu vou à falência. Eu imploro-te. Eu ajoelho-me aos teus pés.
Cancela isto. Eu mudo. Eu juro que mudo. A gente traz a senhora para morar connosco na mansão.
O António também. Ele pode ir. Não tem problema. Por favor, mãezinha.
Olhei para aquele homem desmoronado aos meus pés. O amor de mãe é uma coisa profunda, é verdade, mas a dignidade de uma mulher não pode ser o tapete onde o filho limpa os pés cheios de lama. Puxei a barra da minha saia com força, soltando-me do aperto dele. — Farinha pouca, meu pirão primeiro, Roberto.
Eu passei 30 anos a garantir o teu pirão. Agora é a minha vez. Tens 30 dias para tirar os teus equipamentos da minha propriedade. A multa será cobrada até ao último centavo.
O Dr. Valdir já solicitou o bloqueio cautelar das tuas contas pessoais e da empresa para garantir o pagamento. O Roberto soltou um grito abafado de desespero e enfiou o rosto nas próprias mãos. — E não adianta tentar transferir dinheiro ou esconder bens — interveio o Valdir, a ajeitar as abotoaduras.
— A auditoria judicial já começou hoje às 8 da manhã. A tua matriz e a tua vida financeira agora pertencem à dona Eunice. Aproximei-me do António. Peguei na mão grossa e calejada dele, apertando-a com carinho.
Ele sorriu para mim, não com pena, mas com a reverência que se tem diante de uma rainha. — Agora saiam da minha casa — ordenei, apontando para o portão. — O vosso cheiro está a estragar o meu café. A Márcia puxou o Roberto pelo braço, a levantar o marido do chão com dificuldade.
Ele estava mole, catatónico, os olhos vidrados a fitar o nada. O império dele, construído sobre o suor da mãe que ele desprezava, tinha virado pó em menos de 10 minutos. Não disseram mais nenhuma palavra. Derrotados, humilhados e completamente arruinados, arrastaram-se para fora da minha casa.
O oficial de justiça seguiu-os para garantir que deixassem a propriedade. A caminhonete deu à partida lenta, sem cantar o pneu. Desta vez, dobrou a esquina e sumiu na poeira quente de Goiânia. O Dr.
Valdir suspirou, guardou os papéis na sua pasta e olhou para mim com um sorriso de pura admiração. — A senhora é implacável, dona Eunice. O estrago foi cirúrgico. — Apenas cortei a ligação na hora certa, Dr.
Valdir. Apenas cortei a ligação. Ele beijou a minha mão mais uma vez e despediu-se, deixando a mim e ao António sozinhos na cozinha. O barulho do ventilador Arno a girar de um lado para o outro era o único som ambiente.
Olhei para a mesa, para a caneta Montblanc dourada que o Roberto tinha esquecido ali no desespero da fuga. Peguei na caneta, caminhei até ao lixo da pia e atirei o objeto de luxo para o meio das cascas de alho e do pó de café velho. A tesoura tinha finalmente cortado o fio, e o silêncio do outro lado da linha era a minha maior vitória. O cheiro do alho frito na panela de ferro fundido parecia diferente naquela manhã de quarta-feira.
Parecia mais limpo, mais vivo. Quando o portão da minha casa bateu, a levar embora a arrogância do meu filho e o desespero da minha nora, um silêncio espesso tomou conta da cozinha. Não era o silêncio pesado da humilhação que eu engoli na festa de aniversário. Era o silêncio da paz, o silêncio de uma casa que acabou de ser varrida por dentro.
O António continuava parado perto da pia, as mãos grossas de marceneiro apoiadas na beira da pedra de granito escuro. Olhava para o lixo, onde a caneta dourada do Roberto repousava sobre a borra de café, e depois olhava para mim. No rosto dele havia uma mistura de espanto, reverência e um alívio tão grande que parecia ter tirado 10 anos das suas costas. Caminhei até ao fogão, liguei o fogo baixo e coloquei a água a ferver.
— Senta-te, António. O pão francês já deve estar a esfriar. — Falei com a voz tão mansa quanto a brisa rara que sopra no cerrado goiano ao fim do dia. Ele puxou a cadeira de madeira, sentou-se devagar, ainda a observar-me como se eu fosse uma aparição.
— Eunice… — começou, a abanar a cabeça. — Eu vivi 68 anos a achar que conhecia a força do ser humano. Mas o que fizeste aqui hoje?
Derrubaste um prédio de 30 andares com um pedaço de papel velho e uma calma de dar inveja a um monge. Dei um sorriso de canto, a pegar no coador de pano limpo. — O tempo é o senhor da razão, meu velho. A vida inteira ensinaram-me que a mulher viúva, envelhecida, tem de ser sombra, que a gente serve para criar os filhos, engolir os sapos, rezar o terço e esperar a morte na cadeira de espaguete na varanda.
O Roberto acreditou nessa mentira. Achou que o diploma de medicina e a conta no banco faziam dele o dono do meu destino. Mas quem não se senta para aprender não se levanta para ensinar. Os 30 dias que se seguiram àquela manhã foram um verdadeiro espetáculo na alta roda de Goiânia.
E eu assisti a tudo do conforto do meu sofá de xadrez marrom, com o ventilador Arno azul a girar e a refrescar as minhas pernas. O Dr. Valdir Albuquerque não era homem de fazer ameaças vazias. A máquina jurídica que ele colocou a rodar foi implacável.
No mesmo dia em que o Roberto saiu da minha cozinha, as contas dele foram bloqueadas. A clínica amanheceu na quinta-feira com faixas de interdição judicial. A alta sociedade goianiense, que no sábado bebia whisky escocês na beira da piscina do meu filho, a rir das piadas dele, na segunda-feira já espalhava a fofoca pelos salões de beleza e clubes fechados. O Roberto tentou de tudo.
Nos primeiros cinco dias, o telefone preto de baquelite da minha sala tocou sem parar. Eu sabia que era ele. O toque parecia desesperado, estridente. Na sexta vez, simplesmente tirei o fone do gancho e deixei-o deitado sobre a toalhinha de croché do aparador.
Deixei o sinal de ocupado a zumbir até a linha cair de vez. Se ele achava que o choro de crocodilo me ia amolecer, esqueceu-se de que a seca do cerrado ensina a gente a guardar água para o que realmente importa, e não para regar erva daninha. Quando percebeu que eu não ia ceder, tentou usar os contactos dele. Mandou amigos médicos baterem ao meu portão.
Mandou até um vereadorzinho de quinta categoria vir oferecer um acordo amigável, a dizer que uma mãe não faz isso a um filho. Atendi o político no portão, de avental, a segurar uma escumadeira, a pingar óleo, e disse-lhe que, se não tirasse o carro importado da frente da minha calçada, eu ligaria para o Ministério Público e contaria sobre os desvios de verba da merenda escolar de 98, que eu tinha ouvido muito bem na central telefónica. O homem ficou branco como papel, entrou no carro e sumiu num rasto de poeira. Ninguém mais veio perturbar-me.
A desocupação da clínica foi o assunto do setor Marista. O Valdir mandou-me fotos pelo celular moderno que o António me tinha ensinado a usar. Camiões de mudança parados na avenida, a carregar macas caras, aparelhos de ultrassom, poltronas de couro de receção, tudo a ser empilhado em armazéns alugados a peso de ouro, porque o Roberto não tinha para onde ir. Para pagar a multa rescisória, que englobava todo o faturamento bruto do ano anterior, o meu filho teve de sangrar.
Vendeu os dois carros importados a preço de banana. Vendeu o barco que mantinha no lago de Corumbá. E o golpe final: teve de pôr a mansão de vidro e mármore à venda. A Márcia, a nora de nariz empinado que tinha nojo do meu chão de cimento vermelho, não aguentou a queda.
O amor dela só ia até à página dois do extrato bancário. Quando percebeu que teria de se mudar para um apartamento alugado num bairro de classe média e despedir as três empregadas, fez as malas de grife, pegou no filho que eles nem deixavam eu ver direito, e voltou para a casa dos pais no interior de São Paulo. Entrou com o pedido de divórcio na mesma semana em que a clínica fechou as portas. Eu não senti alegria com a ruína do meu filho.
O coração de mãe não é feito de pedra maciça. Tem as suas rachaduras. Houve noites em que me sentei na beira da cama, olhei para o guarda-roupa de sucupira escuro e chorei. Chorei pelo menino que andava de bicicleta de rodinhas no quintal, pelo menino que ralava o joelho e vinha a correr pedir um beijo para curar.
Esse menino morreu. Foi engolido pela ganância, pela soberba, pela falsa ilusão de que o dinheiro compra a dignidade alheia. Chorei o luto desse menino, mas não derramei uma única lágrima pelo homem arrogante que pegou no microfone para humilhar a mulher que lhe deu a vida. Aquele homem colheu exatamente o que plantou no cimento seco do próprio egoísmo.
Com o prédio da clínica desocupado e a multa milionária depositada na minha conta, sob a gestão impecável do Dr. Valdir, a minha vida financeira mudou de uma forma que eu nunca imaginei. De repente, a velha reformada que contava os centavos da pensão virou uma das mulheres mais ricas do bairro. Mas quem é raiz de aroeira não vira orquídea de estufa.
Eu não saí do meu setor Campinas. Não comprei mansão com muro alto, não contratei motorista, nem troquei os meus sapatos confortáveis por saltos finos de madame. A única coisa que fiz foi comprar a casa vizinha, que estava a cair aos pedaços. Mandei derrubar o muro que separava os dois terrenos, contratei uma equipa boa e transformei o espaço num quintal imenso.
Plantei pés de pitanga, mangueiras, um pé de seriguela, que no verão fica carregado, e construí um caramanchão de madeira rodeado de samambaias choronas. Mas o dinheiro não servia só para plantar árvores. Certo dia, chamei o António para tomar um café ao fim da tarde. Ele chegou no seu velho Monza, com as mãos a cheirar a serradura e cola de madeira.
Sentámo-nos na varanda nova, a sentir o vento fresco que agora circulava livremente pelo quintal ampliado. Servi uma fatia de bolo de fubá com erva-doce. — António, preciso que me faças um favor. — Falei, a colocar a xícara de Duralex âmbar sobre a mesa de ferro forjado.
Ele sorriu, aquele sorriso manso que fazia os cantos dos olhos enrugarem. — Qualquer coisa, Eunice. Tu sabes que sim. Tirei do bolso do meu vestido um molho de chaves pesadas com um chaveiro de couro grosso e coloquei-o na frente dele.
— Comprei um armazém no setor Marechal Rondon. Um armazém grande, de esquina, com pé direito alto e telhas de zinco novinhas. E encomendei uns maquinários lá do sul: serras de fita, plainas elétricas, tornos de precisão, aspiradores industriais. O camião descarregou tudo ontem.
O António parou com o pedaço de bolo no ar. Piscou devagar, a olhar para as chaves e depois para mim. — Eunice… o que é isto?
Compraste uma marcenaria? — Eu não. Comprei os tijolos e as máquinas. Quem vai fazer ser marcenaria és tu.
Ele baixou a mão, os olhos a marejar no mesmo instante. O orgulho de um homem trabalhador é uma coisa bonita de se ver, mas também é teimoso. — Eunice, eu não posso aceitar isto. Eu sou um reformado.
Eu arranjo portas. Faço umas mesinhas de centro. Isto é um investimento de rico. Eu não tenho como te pagar, e eu nunca, jamais vou ser um encosto na tua vida.
O teu filho achava que eu era interesseiro. Eu não vou dar razão a ele. Estiquei a mão e segurei o pulso dele com firmeza. — António, o que é do homem o bicho não come.
Este armazém não é esmola, é negócio. O Dr. Valdir montou um contrato. Tu vais gerir a marcenaria, vais ensinar o ofício a uns meninos daqui da periferia que precisam de rumo na vida para não caírem no crime.
O lucro a gente divide. Tu entras com o talento e a honra, e eu entro com a estrutura que estava a sobrar no banco. E se recusares, vou mandar fechar o armazém e deixá-lo encher de teias de aranha, porque eu não sei pregar um prego direito. Ele olhou para as chaves, as lágrimas agora a escorrer pelo rosto marcado pelo sol e pelo trabalho.
Pegou nas chaves com as duas mãos, como se estivesse a segurar um objeto sagrado. Levantou-se da cadeira, veio até mim e deu-me um abraço tão apertado que senti o cheiro de cedro entranhado na alma dele. No mês seguinte, a marcenaria Raízes abriu as portas. O António renasceu.
Aquele homem que encolheu os ombros de vergonha na festa do meu filho agora andava com o peito estufado, a ensinar jovens a lixar, a entalhar, a respeitar a madeira. A primeira peça que fabricou na máquina nova não foi para vender. Foi uma caixa de madeira de lei entalhada à mão com desenhos de flores de ipê, forrada de veludo vermelho por dentro. Entregou-ma numa noite de sexta-feira.
— Para guardares a tua pasta — disse ele, com os olhos a brilhar. — A caixa de sapatos da Vulcabrás já cumpriu a missão dela. Guardo essa caixa de madeira no fundo do meu guarda-roupa de sucupira, como o meu maior tesouro. E o prédio da clínica de vidro e mármore?
Ah, aquele monumento à vaidade do Roberto. Recusei-me a vendê-lo. Vender seria entregar a terra a outro engravatado para fazer fortuna. Pedi ao Valdir que procurasse instituições sérias no estado.
Um mês depois, assinámos um contrato de comodato, desta vez definitivo e irrevogável, com uma fundação que atende crianças com deficiências motoras e neurológicas graves. Onde antes havia madames a fazer preenchimento de rugas e empresários a pagar consultas a peso de ouro para não apanhar fila, hoje existem salas coloridas de fisioterapia. Onde ficavam as marcas de massagem modeladora, hoje ficam piscinas aquecidas, onde crianças aprendem a dar os primeiros passos. A fachada de granito escuro foi pintada de amarelo vibrante.
O letreiro de letras cromadas do meu filho foi arrancado e substituído por uma placa enorme e alegre que diz: Instituto Ipê Amarelo, Reabilitação Infantil. Eu nunca fui lá cortar a fita de inauguração. Não preciso de placa com o meu nome. O sorriso daquelas mães, que agora têm um lugar de excelência de graça para tratar os seus filhos, é o maior aluguel que eu poderia receber.
O Roberto construiu um castelo para a própria glória, mas foi a mãe dele, a ex-telefonista, quem transformou o castelo num lugar que, de facto, cura pessoas. Às vezes, a Jurema, a minha vizinha com quem vou à feira comprar quiabo, pergunta-me se não sinto falta do Roberto, se não tenho vontade de ligar, de tentar uma reconciliação. Eu olho para ela, ajeito os meus óculos de grau na ponta do nariz e explico do meu jeito. — A vida da gente é como as antigas centrais telefónicas, dona Jurema.
A gente passa a juventude inteira a conectar fios. Conecta o fio do trabalho, o fio do casamento, o fio da maternidade. A gente escuta os problemas de toda a gente, aguenta os chiados da linha, toma choque no painel, faz de tudo para a ligação dos outros não cair. Mas chega uma idade, quando o corpo cansa e o cabelo embranquece, em que a gente percebe que se esqueceu de conectar o fio mais importante de todos: o nosso próprio fio com a nossa própria paz.
O meu filho fez a escolha dele. Escolheu a arrogância. Achou que o amor de mãe era uma apólice de seguro contra o mau caráter. Não é.
O amor de mãe perdoa a bagunça no quarto, perdoa a nota baixa no colégio, perdoa até o esquecimento do Dia das Mães. Mas não perdoa a crueldade de quem pisa na tua espinha dorsal para parecer mais alto. Eu cortei a ligação com o Roberto. Puxei o pino do painel e fechei o circuito.
Soube por alto que ele está a trabalhar como médico de urgência num hospital do interior de Tocantins, a pagar pensão à Márcia e a morar num quartinho alugado. Que a vida ensine a ele o que o meu pão amanhecido não conseguiu ensinar. Hoje, aos 73 anos, o tempo passa devagar na minha varanda. É fim de tarde de um domingo de setembro.
O calor em Goiânia está a castigar, a rachar a terra vermelha, a evaporar até o pensamento. Mas eu não me importo. Estou sentada na minha cadeira de espaguete verde, a usar um vestido leve de chita, com os pés descalços apoiados no piso de cimento. O António está na cadeira ao lado, a ler o caderno de desporto do jornal de domingo, com os óculos pendurados na ponta do nariz e um copo de limonada suada na mão.
O Monza dele está estacionado na rua, lavado e a brilhar, à espera de decidirmos se vamos jantar uma panelinha de arroz com pequi no mercado ou se vamos assar uma carne na churrasqueira nova do quintal. Olho para o fundo do meu terreno, perto de onde era o muro velho. A seca levou as folhas de quase todas as árvores, mas ali, imponente contra o céu alaranjado que parece pegar fogo, o ipê amarelo que o António plantou no nosso primeiro ano de paz decidiu florir. É uma explosão de vida amarela no meio da secura do mundo.
Fecho os olhos, escuto o barulho das cigarras a anunciar que a chuva logo vai chegar para lavar o cerrado. Aperto a mão do meu marceneiro, deito a cabeça no ombro dele e, finalmente, entendo que a velhice não é a sala de espera do fim, mas o palco principal, onde a gente se senta para assistir em silêncio a vida devolver tudo o que a gente plantou com justiça.


