Acordei numa manhã cinzenta e fria, sem energia nenhuma. O corpo doía, a cabeça pesava, e eu só queria ficar debaixo das mantas. Mas tinha trabalho para fazer, por isso engoli um comprimido para a dor, vesti as calças mais quentes que encontrei e fui para a cozinha. Enquanto mexia na massa dos pelmeni, pensava no dia anterior.

Que diferença! De manhã, fui à manicure com sol e calor. Ia tão leve que nem casaco levei, só um colete, e até achei que estava calor. Mas quando saí, o céu fechou num instante.
Tudo ficou escuro, o vento gelado entrou, e a dona do salão tinha a janela aberta. Eu voltei para casa a tremer como uma folhinha, encharcada por causa da chuva. A minha irmã, a Masha, até me perguntou pela previsão do tempo. Mas eu não podia perguntar a ela, senão ela ia descobrir onde é que eu moro.
E o meu irmão tinha ido para a aldeia, apesar de eu ter avisado a minha mãe que o fim de semana ia ser de chuva. Não percebi aquela decisão. Para quê apanhar chuva no campo? Nem o meu marido escapou.
Ele foi trabalhar de camisola leve e voltou todo encharcado tive de o ouvir a queixar-se enquanto eu mexia na massa. “Décima vez que apanho chuva”, resmungou ele. É melhor que eu não responda senão ainda digo asneiras. Deixei os pelmeni de lado por um momento e fui ver o estado do quadro que tenho vindo a pintar.
Não parecia ter progredido muito, mas tinha. Já tinha pintado uma parte que estava em falta. É um trabalho mais simples do que o anterior, pelo menos. Um pequeno prazer neste dia cinzento.
Voltei para a comida e peguei na carne picada. Desta vez, misturei cebola batida no liquidificador, para ficar mais suculenta. Na última vez, ficou tão seca que foi difícil moldar. Estava tão fria que nem as minhas mãos conseguiam aquecê-la, por isso usei um garfo para misturar tudo.
Não tinha onde aquecer as mãos, a água da torneira estava gelada. Aos poucos, o som da minha voz echoava na cozinha vazia, enquanto eu ia moldando um pelmeni atrás do outro. Não tinha muita vontade de fazer isto hoje, mas a massa já estava pronta, o recheio precisava de ser usado, e a ideia de comer algo quente e caseiro quando o dia está frio é sempre boa. Apesar de tudo, há conforto nestas pequenas tarefas.
A rotina, o cheiro da comida, a esperança de que o fim de semana trará um pouco de calor, mesmo que a previsão não seja animadora. Vamos ver. Por agora, vou continuar aqui, a moldar pelmeni e a tentar espantar a tristeza deste dia frio.


